quarta-feira, 22 de outubro de 2008

'obrigada pelas memórias...

...mesmo que elas não sejam tão boas.'


ela procurava registros: camisas, latas vazias, maços de cigarro, notas fiscais, endereços, telefones, telefonemas, velhas mensagens, ligações, diários, desenhos, fotos e desculpas. mas nada disso trazia ele de volta como o cheiro nauseante do cigarro e um passeio em um ônibus que anda em círculos. e enquanto isso ela escrevia em um caderno...

"porque o vazio que deixa é o que me completa
como a presença nunca pode me completar
mas a incerteza de ter era bem mais certa
mesmo que hoje não possa mais duvidar
(...)
porque metade de mim é vazio e a outra
tudo."

de alguma maneira, mesmo incompleto, o poema tinha fim.

sobre poesias e metades.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

é proibido fumar.

"(...)

Toma um fósforo, acende teu cigarro
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja

Se alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga
Escarra nessa boca que te beija."

Psicologia de um vencido, Augusto dos Anjos


a garota estava lá, no lugar de sempre. mas agora era diferente demais. tanta verdade acompanhada de álcool, tantos relatórios, tantas noites levadas em xícaras de café. as kitnets no comércio da cidade e o bar revisitado aos domingos. ela era diferente.


e apesar de tudo parecer o mesmo, era tudo diferente também, parecia lembrança, parecia morto, mas estava tudo em latência...


cinza: era a manhã de brasília a caminho da universidade, ela usava fones de ouvido e não tinha pressa alguma em chegar a suas obrigações. pelo baldio ela quase tropeçara em pedaços de entulho. ela não entendia porque as pessoas jogavam lixo no chão, brasília era seca, mas isso a atraia, achava a cidade bonita. e começou a olhar prestando mais atenção aonde pisava.


e viu a embalagem branca com detalhes vermelhas. parou. não tropeçara fisicamente, mas por dentro caía em câmera lenta. era um carlton red. dos vinte não havia mais nenhum, ela se sentia assim também: vazia, como se a tivessem usado e jogado fora. mas sabia profundamente que a vítima nunca fora ela.


e no fundo se ressentia, mas resolveu seguir em frente. apesar de se sentir forte, sabia que era um cigarro: ao mesmo tempo que o matava, também desaparecia. ele a fazia queimar. ainda.


sobre o amor, que não é compreensível e nunca será (jamais será).

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

desabafos...

já tenho 18, já pintei demais o cabelo, já falei muita besteira, já vi coisa demais, já xinguei demais, já ri demais, já falei o que pensava, já fiz o que queria, já consegui o que esperava, já cheguei aonde nem imaginava.
agora, só pra informar:
vou continuar fazendo tudo isso quantas vezes eu quiser e voce nao tem NADA a ver com isso!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

passado.

'voce sempre me soou muito mais como pretérito imperfeito do que presente, sempre! e eu não sei o que fazer com isso, eu preciso de futuro muito mais que presente nesse momento, e preciso muito mais que passado. mas por algum motivo bobo eu me prendo a isso, talvez porque as lagrimas que já escorreram já tenham trilhado seu caminho pelo meu rosto e eu ache dificil demais abrir outras estradas por uma face tão dura quanto a minha.
(...)
pequeno, é dificil demais te ver partir, e sabe, eu não aguentaria outra despedida, eu prefiro uma grande briga. voce sabe como tudo em mim é teatral. e voce adora, não é?
(...)
voce não é o mais bonito e nem o mais inteligente, mas é quem eu amo. indo ou ficando, é quem mais amo. e o primeiro que amei, quem sabe o último. mas voce é o passado e o amor é obsoleto.

e nas palavras do aerosmith 'good-bye, kiss your past good-bye.' é uma pena que não haja beijo de despedida,... ainda assim amo.'

terça-feira, 14 de outubro de 2008

______________________!

tédio? tédio. e porque voce não faz alguma coisa? porque estou entediada. e porque voce está entediada? porque eu não tenho nada pra fazer. hmmm...

é, o tédio é um caso sem solução!

sobre um poço que aparentemente secou (porque ele era a água)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

dez-pedidas

era sábado, chovia a cidade e eles ali, esperando. a rua deserta, o ponto de onibus escuro e alguns diagnósticos de casos amorosos no ar.


'olha, não vai passar nenhum ônibus, tá chovendo muito e eu vou ligar pra alguem buscar a gente.' ela disse séria como ele nunca tinha visto.


'não!!! eu quero toamr chuva, quero tomar muita chuva!' ele respondeu


'sai daí, voce vai ficar doente' ela falava com o antigo receio de ouvi-lo dizer voce-nao-é-minha-mãe...


'não! olha,...' e tirou o casaco branco, tão conhecido, e jogou para ela '...eu vou tirar minha roupa...' e jogou a blusa listrada para ela também. 'segura a minha roupa!'


ela, segurando as peças de roupa, não entendia 'o que eu fizpra vc? o que??'


ele agora sentava mendicalmente no meio-fio à espera de um ônibus ou de uma gripe, o que viesse primeiro. 'simples: voce roubou minha masculinidade!'


'??????'


'é, e voce sabe é verdade!' ele se confirmava.


'eu não fiz nada!!' ela se defendia.


'TUDO que aconteceu de ruim na minha vida, TUDO ... voce tava lá, voce causou! se eu nao te conhecesse...' e ele não terminou a frase.


a garota apenas confirmava. 'ah, entao tá, em 4 anos eu só te fiz mal... e porque voce nao foi embora?'


ele se calou. pensou antes de falar. 'desculpa... deixa eu corrigir essa minha frase infeliz: voce causou muita coisa ruim, mas mais momentos bons que ruins! se nao fosse voce eu nao estaria aqui nessa chuva tao boa!'


ela nao queria mais ouvir, ela nao queria mais nada. 'tá bom' e ela ficou ali em pé, atrás dele, de braços cruzados como sempre fazia. 'vamos, sai dessa chuva!'


'só saio se voce me comprar um cigarro.' ele sabia qu ela nao faria isso.


'eu nao vou fazer isso' ela se recusava.


'eu sabia, voce é tao previsivel...!' e nao é que ela era previsivel, eles se conheciam a 4 anos.


(...)


'entao vem, vem tomar chuva comigo!' ele se virava pra ela e a chamava 'vem, tira sua roupa também!'


ela nao entendia, mas estava tirando a roupa ali, na rua. talvez porque ela soubesse apesar de nao entender.


'é bom mesmo...'


(...)


e dentro do onibus de volta pra casa de uma longa jornada - ah, eles tinham ido longe demais dessa vez - eles conversavam sobre o tempo que se passara para eles.


'olha, eu nao quero me despedir.' ele falava para ela com os cabelos ainda molhados caindo na face.


'hm...' ela sorriu de canto. 'mas voce precisa ir, se voce for comigo voce pode se machucar.'


'...' ele nao sabia o que responder, talvez pq soubesse que aquilo era verdade.


'é aqui que eu desço.' e beijou-o carinhosamente, com o amor de uma mãe. 'se cuida'


e ela desceu sem olha pra trás.


'se cuida tambem!' ele gritou da janela embaçada do onibus.


e ela se cuidou: no outro dia, eles já não eram um.
sobre divorcios em dia de casamento.

sábado, 4 de outubro de 2008

...


'me diz porque voce não me esperou?' elaperguntou.


'voce não queria que eu esperasse, voce me mandou embora. ' ele respondeu.


'nao, nao mandei!' ela arguia.


'voce se despediu. voce disse que era nova demais.' ele agora abaixava a cabeça.


nova demais. mas ela nao estava mentindo. ela agora queria tocar-lhe o rosto, mas sabia que isso não a faria tocar seu coração.


'eu queria que voce tivesse ficado. eu queria ter largado tudo, eu queria ter arriscado. eu queria ter ido com voce e terminado aquela tarde. eu queria, juro que queria.' ela agora selamentava.


'e porque nao foi?' ele agora pergutnava, queria mesmo saber.


'porque se eu corresse atrás de voce eu certamente tropeçaria: eu estava em saltos muito altos.'


e ele sabia que literalmente ela só usava tênis.