domingo, 26 de julho de 2015

como se a folha que paira no ar deixasse de ser folha só porque o resto do mundo não lhe faz margem. com ose a falta de contato com a árvore fizesse da folha coisa menor. Talvez uma folha sem vida mas ainda assim menos folha?
como se o vácuo já não importasse e apesar da falta dos limites alheios que esbarram em mim me fazendo contrair e sentir minha presença eu agora pudesse ser mesmo que no vacuo. ah, livremente. e aí eu vejo meus proprios limites, por mim, e noa pelos limites alheios. e eu gozo com isso. eu estou satisfeita.


ali estava eu entre a 49 e a avenida das americas chorando palavras no meu diario de viagem que seattle já era. de volta a new york passei dois dias sem sair do apartamento, tentando me livrar de um jet lag que não era só físico como também emocional. eu tinha um péssimo timing. enfiei meu diario e meus lamentos na bolsa e fui andando pela 49 em direção ao oeste, sempre o oeste, talvez com esperanças de voltar pra lá, talvez sentindo que tinha deixado meu coração lá, não sei. fui interrompida por uma das minhas distrações, entretanto, umas pinturas bonitas expostas na calçada. cara, eu amava a primavera nas ruas de new york, a primavera dos sentidos onde tudo parece poder florescer de novo, assim como a minha vida naquele momento. o pintor me chamou pra olhar mais de perto e, desconfiada, aos poucos, fui me aproximando e a gente trocando uma ideia. contei que pintava aquarelas e depois de uns cinco minutos ele me convidava pra conhecer o estudio dele no queens onde ele queria me pintar. desconversei, mas acabei dando o meu email certo. eu tinha uma dificuldade terrível em expor minhas fragilidades como essa de dizer não.

segui meu caminho, atrasada como sempre. não era minha culpa, era new york, o paraíso das distrações, a cidade de todos os caminhos e nenhum destino. keep walking, keep walking. e enquanto eu não chegava a lugar nenhum, decidi entrar naquela galeria que eu sempre passava em frente mas nunca entrava. dessa vez foi diferente. pedi um catálogo ao rapaz que ficava no balcão da galeria e enquanto ele buscava algo no subsolo fiquei admirando os trabalhos na parede. era coisa de louco, literalmente. uma galeria dedicada a expor o trabalho de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais. uma loucura. o rapaz voltou sem catálogo e enquanto eu tentava explicar o que eu queria, desisti. agradeci e fui dar uma última volta. tirei algumas fotos e fiz algumas notas pensando em Seattle e no que eu tinha deixado lá. Deixei lá porque nunca foi meu, verdade seja dita, mas enfim, deixei. fui embora sem me agarrar a nada, abandonei o barco sem deixar nele marcas de unha.

enquanto me dirigia à porta esse cara alto e branco com um cabelo esquisito se precipita a minha frente e eu tomo um susto. ele abre a porta cavalheiramente, com estilo, século XV. agradeço quase com uma reverência engraçada no meio da 9th avenida. thank you. ele me olha nos olhos e eu paraliso, "excuse me but do you know where's chelsea?". estranhamente eu sei, e inclusive adoro caminhar até lá, e estive lá dois dias antes. respondo que sim apontando o dedo pro sul. as perguntas continuam e a preocupação dele é saber se é muito longe e essas coisas, e então começa a me explicar que é um arquiteto francês visitando a cidade pra uma feira de arte e pra ver umas galerias, me conta que pretende abrir uma galeria quando voltar a paris e em duas ruas, me convida pra ir até o chelsea com ele. olho pro céu, cinza e pesado, ameaçando chuva, olho pra ele, uns olhos verde com mel, aquele cabelo desgrenhado até que tem lá seu charme, o sotaque francês me faz sorrir e afinal, eu penso, é new york e a gente não se conhece mas todos os amantes um dia foram desconhecidos.

o fato é que, por um momento, ainda que brevíssimo, considero que ele pode ser sei lá, um estuprador, um batedor de carteiras, um maníaco. ou então só um francês perdido em new york afim de uma companhia feminina nem que seja por uns quarteirões. ah e pros diabos, afinal, uma vez que estava vivendo como sempre estive, pensei que se a morte me atingisse talvez tivesse sido mesmo a minha hora e meu momento e meus amigos poderiam suspirar ao pé de minha lápide pensando: "essa fernanda, morreu como viveu". convido ele para ir ao apartamento e assim deixo alguma garantia, apresento ele a minha amiga e conversamos todos por alguns minutos antes de partirmos em direção ao chelsea via highline.

bem, eu não sei como, se era o seu charme ou minha habilidade-fraqueza de fazer perguntas demais, mas de arquitetura moderna passamos a falar de fotógrafos alternativos pra então você me perguntar se meu namorado já teria me levado a algum lugar estranho pra fotografar. "olha, eu não tenho namorado", eu digo, e você se espanta e começa com uma conversa desengonçada sobre como talvez seja melhor mesmo estar solteira antes dos 25 uma vez que eu ainda posso ser eu, já que não me misturei muito com a pessoa. quantos anos você tinha mesmo? acho que uns 28... enfim, explico que já fazia muitos anos e que acabei me acostumando e que por diversas circunstâncias bastante intrincadas eu ia ficando sozinha mesmo e era isso. você me olha com uma cara de tom jobim como se pensasse que "é impossível ser feliz sozinho" e eu suspiro, dou de ombros e continuamos subindo as escadas conversando já sobre alguma outra coisa relacionada a formação de personalidade. pra uma psicóloga, eu entendia muito de arquitetura, e pra um arquiteto, você até que entendia muito de psicologia.

a verdade é que lá no meio do highline já estávamos falando sobre suicídio, depressão, sensualidade francesa e sabe-se mais lá que assunto polêmico. eu me perguntava o que diabos estava acontecendo mas não tentava evitar nada e depois de umas 20 ruas eu desisti dessa fixação por entender aquilo e me abandonei ao presente. você se ofereceu pra tirar minha foto, com a minha câmera, e pensei: bem, ainda bem que estou de sapatilhas porque assim ainda dá pra correr atrás dele caso ele fuja com a minha máquina. voce se afastou com a camera na mao, devagar, e disse que aquela seria uma linda foto e que esse negocio de viajar sozinha as vezes podia ser inconveniente por causa da dificuldade em tirar fotos.

continuamos caminhando pelo highline, voce nao roubou minha camera - ufa! - e as coisas entre nos fluiam em um ritmo estranho, como o das nuvens da cidade voando baixinho, tão perto de nós, que entendi porque sentia que estava nas nuvens. voce me ofereceu um sorvete e eu aceitei, mas estava com frio, confesso. mas bem, sentamos em uns bancos-divã enquanto olhávamos pra jersey pensativos. alguns quarteirões atrás voce tinha feito planos pro nosso fim de semana, muitas aspas para nosso. voce me disse que gostaria de me levar a um picnic no central park na altura do guggenheim antes de entrarmos lá e explorarmos aquelas maravilhas da arte contemporânea. deixei você continuar com seus planos como um delírio em associação livre. voltei a mim tomando meu sorvete e me sujando, o vento soprando forte e voce me pergunta enquanto limpa o sorvete do meu rosto com a ponta dos seus dedos: what do you love the most about nyc? ao que eu respondo apontando as nuvens "i love the way everything is always moving in nyc" especialmente porque eu tinha ido a ny pra move on. voce balança a cabeça concordando, e faz mais alguns planos pro nosso fim de semana. e eu sorrio, encabulada, e odeio te interromper enquanto voce faz planos que soam como música para meus ouvidos, mas tenho que te interromper e dizer que estou indo pra san francisco em 36 horas. seu sorriso se desmancha, seus olhos ficam opacos e voce deixa sua colher cair de volta no pote de sorvete. well so we have 36 hours to make it all happen, voce diz. Mas eu sei que it's all happening. 

levantamos e me encolho com frio, o sol está se pondo em algum lugar, e estamos quase no fim do highline quando voce suavemente encosta sua mão no meio das minhas costas. nem alto demais pra parecer um toque de consolo e nem baixo demais que pareça um assédio assustador de um desconhecido na cidade. voce me olha nos olhos como se pedisse permissao pra me tocar. descemos as escadas rumo ao meatpacking district e entramos na ny antiga onde as ruas começam a se deslocar em angulos malucos e com seus nomes proprios. eu nao faço ideia de onde estou e buscando uma direção quase sou atropelada. quase. voce me puxa pelo braço de volta pra calçada e eu tomo um susto. voce me abraça e segura a minha mao pra me acalmar, mas isso me deixa mais nervosa com a constatação de que eu começo a me sentir atraída demais por voce. e eu nao tenho pra onde ir. e nem quero ir a lugar algum.

de repente, ah, de repente um lugar nao conhecido mas muito familiar. estamos no white horse tavern onde todos os grandes escritores americanos boemios já beberam e escreveram linhas de seus romances mais fantásticos. isso merece um brinde e nós entramos, sentamos no balcão e pedimos uma dose de jameson pra mim e uma de jack daniels pra voce. sem gelo. dividimos um hamburger. voce me desenha em um porta-copos de papelão. conversamos sobre tudo, sobre seus quadrinhos favoritos, sobre salvador e rio, sobre como eu pareço uma das personagens de um quadrinho que voce le, falamos de tarot e de como o destino não passa de uma serie de coincidencias romantizadas. il n'y a pas de hasard, il n'y a que de rendez-vous. voce me olha, minha mao na sua, seus dedos caminhando pela minha linha do coração, eu estremeço com os olhos baixos e a guarda também. voce toca meu rosto desenhando por cima do sinal da minha bochecha e levanta meu rosto pra poder olhar no fundo dos meus olhos como se me pedisse permissão. entao voce leva minha mao ate seu rosto e me faz encostar no sinal que fica logo abaixo do seu nariz, eu sorrio dizendo que nós temos sinais iguais mas em lugares diferentes. estamos tao perto que nossos perfumes se tornam um só e em um transe esquisito que silencia o mundo inteiro ao nosso redor e faz o tempo parar com uma freada brusca mas que ninguém percebeu porque a inécia dos nossos corpos mantém o movimento acontecendo nós encostamos nossos rostos, uma atração magnética que faz nossos rostos orbitarem ao redor um do outro sem que nossas bocas se encostem. e entao acontece, voce me beija, doce apesar do whisky. e de repente eu, que nunca sei o que fazer, simplesmente sei.

25

tive a sorte de viver muitos romances desde que deixei seu amor pra trás. aos 25, eu já colecionava dezenas de histórias catalogadas em meus pequenos diários de viagem. eu estava sempre em trânsito mesmo em casa. meu coração ainda doía pelo acúmulo de quilômetros rodados e tantas batidas. eu tratava a vida como se fosse a diretora de um filme e sua roteirista, como uma atriz de improviso, e fazia dela meu rascunho, meu eterno rascunho onde eu nunca podia voltar pra fazer retoques. a vida-que-eu-não-escolhi andava me assombrando como um fantasma assim como o peso vazio dos desejos que não eram meus. o que teria acontecido se eu tivesse pegado o primeiro vôo pra LA assim que tivesse pisado em NY? o que teria acontecido então com o angustiante mês de julho, com as duas batidas de carro que tive em dois meses, com as amizades que estreitei porque o abismo que se abria em mim estava prestes a me consumir? o que teria acontecido com aquela viagem em setembro onde eu encontrei uma amiga que só conhecia pela internet e me hospedei com outra que ainda não era assim tão íntima? o que teria acontecido com toda a decepção de voltar pra casa de mãos abanando? o que teria acontecido com o albanês que conheci em um bar e que ainda hoje me manda músicas que nunca ouvi mas que amo? o que teria acontecido comigo? mas não aconteceu. nada disso, nem isso. só a vida.

o que teria acontecido se você e eu não tivéssemos partido meu coração eu não sei, mas eu acho que ele precisava urgentemente de uma reforma. obrigada.