sábado, 27 de maio de 2017

all that jazz

estou espremida no banco de trás de um civic, meio-dia de uma sexta-feira, o jazz parou por alguns instantes, e a cidade... que engarrafamento. tudo é engarrafamento, o carro espremido entre todos os outros carros, e eu espremida entre a porta, um estepe e um baixo. é isso, é meio-dia em nova iorque e a primavera decidiu fazer sua entrada triunfal com um calor inesperado naquela tarde depois de dias frios e cinzentos. eu que virei a noite entrei nesse evento diurno sem saber o código de vestimenta e passava calor de botas e vestido longo de veludo. matt também não estava vestido adequadamente pra chegada da primavera, e nem pra uma viagem de carro de algumas horas. se eu usava um vestido longo e decotado e vermelho de veludo molhado em plena luz de um dia quente, ele usava terno, gravata e sapatos. a gravata que eu escolhi cuidadosamente direto do seu saco de supermercado cheio de gravatas emboladas e com nós mal feitos. "essa aqui é muito séria...", "essa aqui não...", "ah, essa aqui marrom se voce quer parecer descolado mas não muito", "essa vermelha se voce quiser ousar". ele considerou tudo com parcimônia e optou pela marrom. meia hora depois, dentro do carro com ele na direção, eu derretia igual um quadro do salvador dali contra a porta olhando pros piers do chelsea ficando pelo caminho, o jazz rolando no toca-disco, conversas aéreas e significativas com matt enquanto ele pacientemente contemplava o engarrafamento. eu nao tinha ideia porque mas eu sentia que estava aonde deveria estar no momento em que deveria estar, sem maquiagem, nua nua, no meu lugar: um engarrafamento enorme e típico de uma das primeiras sextas ensolaradas em ny quando a primavera falhou miseravelmente por um mês. matt gentilmente tinha se oferecido pra me levar de volta, eu tinha suspeitas de que ele se atrasaria pro concerto que ele ia tocar em outro estado por fazer isso e aceitei mesmo assim. embora eu soubesse que o metrô seria mais rápido eu aceitei mesmo assim. existia algo especial na presença contemplativa e silenciosa do matt, um rosto triste e cansado mas sempre exultante. triunfante. cansado, mas vitorioso. o rosto do matt, e todo seu corpo, carregavam o peso de um baixo invisível o tempo todo, mas também a alegria das melodias possíveis. e eu senti quase que imediatamente admiração e respeito por aquela figura, aqueles sentimentos que não precisam de palavra alguma pra dizer tudo. o silencio entre nos era preenchido pelo jazz, e o calor, e o meu rosto sem maquiagem na luz daquele dia me davam mesmo os 22 anos que todo mundo pensava. mas eu tinha 27 e um monte de bagagens emocionais mais pesadas que o baixo do matt que me espremia contra a porta junto do estepe. me perguntei porque eu carregava tanto ressentimento, e enfim, a vida sempre nos surpreende mesmo, porque viver com tantos manuais de instrução como sobre se decepcionar? é, "que engarrafamento, não?", eu digo numa small talk, e todo mundo sabe que small talk é o recurso de defesa que a gente usa quando todo o resto falha. "it is what it is", matt diz, concentrado no trânsito parado. ah, a small talk falhou no seu propósito. ele tinha me acertado em cheio. a coisa é o que é. e nada além disso. mas também nada menos. eu repeti a frase, uhum, balançando a cabeça. não podíamos nos olhar nos olhos, olhei pra fora, olhei pra dentro. matt me contou ao passar por um dos piers que tinha saído dali pra um cruzeiro com sua mãe e o irmão pra comemorar o aniversário de 60 anos dela ano passado. ele tinha um irmão mais velho, assim como eu, e falamos das rivalidades e posições de cada filho. uhum uhum, matt respondia na direção, as vezes com alguma surpresa, as vezes sabendo exatamente do que eu falava. o transito melhorou um pouco quando chegamos na 34 pelo lado oeste, matt entrou com o carro rumo a leste, o rio hudson ficou pra trás com seus piers e partidas e histórias, passamos por baixo do highline, as obras, os turistas, os trabalhadores. e matt e eu tão perto mas longe de tudo isso. eu de férias a deriva em dois continentes, matt músico de profissão. iniciei os agradecimentos, gratidão pela(s) gentileza(s) espontâneas e gratuitas pela mera simpatia entre dois anjos que caíram de passeio na terra às vezes árida demais pra que a gente não vire pó de uma vez só. matt, como tinha feito nos últimos dois dias, abaixou a cabeça e a balançou dizendo que tinha sido um prazer, e o jeito como ele sacudia a cabeça e olhava para baixo me fazia sorrir embora eu quisesse conter o riso. existia algo muito especial naquele baixista de jazz de 26 anos, algo genuíno, mas tão genuíno e espontâneo, que me fazia questionar se a vida era mesmo um teatro. não era possível. mas bom, se fosse, devia ser um teatro de improviso e aquele menino do jazz sabia o que fazer o tempo todo, e só o sabia porque no fundo ele não esperava nada. e seguia pronto pra improvisar a qualquer tom.
it is what it is.
subimos pela 10th avenue, matt virou na 57th street em direção a 9th av. e, entre um sinal fechado e outro, fez uma manobra cortando toda a rua pra fazer uma volta pro lado oeste da cidade. alguma musica tocando, a cidade fervendo, o onibus vindo pra parar no ponto. saí do carro com um salto pulando no meio da rua, carros indo e vindo, matt saiu da direção e, segurando meu ombro, me beijou com a naturalidade de amantes mais antigos que os engarrafamentos da cidade e com a rapidez dos pedestres passando. se cuida, ele disse entrando no carro. acenei enquanto atravessava a rua correndo e desejei uma boa viagem e um bom concerto. ele sacudiu a cabeça afirmativamente aceitando minhas recomendações em forma de desejos. e o carro sumiu no turbilhão de milhões de carros rumo ao oeste, todo mundo indo embora de nova iorque, e a cidade ficando sem parar. não olhei pra trás. na calçada, já do outro lado, caminhando com meu vestido de festa no meio de uma multidão de roupa casual e veraneica, não me reconheci no reflexo de uma das vidraças a caminho do hostel. eu tinha um sorriso enorme estampado no rosto, e eu parecia tão jovem, um frescor e uma leveza que eu não via há anos. porque que eu tinha que complicar a vida toda quando it is what it is? não tem nada além disso, e muito satisfeita com o que era e não com o que poderia ser ou o que tinha sido, eu segui rumo ao sul pensando que a vida não podia ficar melhor que aquilo. "não fica melhor que isso, cara, não fica"... disse pra mim mesma como promessa e como esperança. tudo o que eu sabia do matt era o primeiro nome, sua paixão pela música, seus sentimentos do mundo. e eu precisava de mais o que?é o que é. entrei no hostel, algumas pessoas indo e vindo, tantas línguas e nenhuma como a minha. mandei mensagens pra amigas contando sobre a minha nova epifania de que a coisa é como é e nada mais, como quem descobriu a grande verdade universal, a resposta de todas as questões vivas e mortas. cara, a coisa é como é, eu ia usar isso pra tudo, cê pode crer. tomei outro banho cheia de planos, minhas últimas 36 horas na cidade adiante e muito mais que 36 desejos a realizar, mas a cidade de nova iorque infinita me afrontava com a mais deliciosa das impotências: a da escolha. renúncias premiadas, de tudo que eu deixaria pra trás, eu ganhava sei lá mais quantas coisas adiante. a cidade era muito generosa comigo. sempre foi. e enquanto a água levava os restos das minhas preocupações e eu pensava em nada, absolutamente nada, uma perfeita meditação, eu nem sabia mais se era eu ou a água escorrendo pelo ralo lentamente. eu ainda tinha uma mala pra fazer e um monte de coisas pra comprar pra levar pra casa, mas o sol daquela tarde, a promessa de um dia de primavera quase verão em abril ainda me seduziu e eu deixei tudo de lado. como nos meus 24 anos no mês de maio, o sol, os sorrisos e as esperanças dos que iam e dos que ficavam me envolveram. coloquei o vestido primaveril que comprei em londres porque era lindo e muito barato e tinha cara de sol, e eu sentia falta das flores e do calor, de sentir minha pele sendo beijada pela luz e refletindo tudo ao meu redor. uma alça estourou quando suspirei mais fundo. costurei a alça partida. a outra estourou. paciência, coloquei o vestido de volta na mochila prometendo a ele os verões de quatro estações de brasília e coloquei outro vestido,com cara de sol mas não muito. fui rumo ao oeste e, de repente, fui tomada pelo desejo de comer morangos coberto de chocolate que só vendiam na 5th av. caminhei até lá, não encontrei os morangos, comprei um bolinho vermelho cheio de creme no lugar, atravessei a rua procurando mais morangos sem sucesso. e de repente, estranho,a catedral surgiu na minha frente, enorme, magnífica. torres góticas brancas e cinzentas contra o céu azul do fim de abril, resistindo em meio aos arranhas ceu. eu parei no meio da calçada sem acreditar, a catedral st patrick sempre esteve ali e quantas vezes eu passei por ela, e quantas vezes eu entrei e sentei e rezei um pouco, acendi velas, enfim, quantas vezes. mas eu me surpreendi e algo me puxou até ela, e de repente eu percebo que resisto mas a lágrima cai mesmo assim, eu sou tomada de uma emoção inexplicável e que na verdade eu sei a explicação mas prefiro curtir o momento da emoção pura e original, sem filtros. dentro da igreja os vitrais, a luz inunda tudo de cores loucas que combinam entre si em um sinal pra me passar alguma mensagem, o mundo quer me dizer algo há tempos, a vida quer me dizer algo há tempos, e eu sigo ignorando todas as mensagens, desligo as notificações do meu telefone achando que isso vai me proteger do mundo e das suas mensagens loucas e necessárias que as vezes nao quero ouvir. em 2014, quando entrei nessa igreja pela primeira vez, ela estava toda em reforma. restore your heart, os cartazes diziam. e eu sabia, não pude ignorar naquele momento, que eu precisava restaurar o meu. e três anos depois eu caminho dentro de uma igreja restaurada, aventuras loucas e decepções, quedas e vôos, mortes e vidas depois, a igreja e meu coração restaurados. com a euforia de um coração pleno e a ansiedade pela possibilidade de novos danos. a manutenção nunca pára. fiz uma oração e saí caminhando rumo ao norte pela 5th av. e pensando que nao poderia ficar melhor que isso.
entrei pela entrada sudeste do parque, e as crianças e os casais, os idosos, os locais e os turistas, misturados e juntos pela curtição do sol, e a luz está magnífica às 3 da tarde, eu tenho planos de atravessar a ponte do brooklyn caminhando antes que o sol se ponha, eu faço planos de espalhar minhas etiquetas de bagagem com poemas de walt whitman pela ponte, eu tenho planos, mas por um momento eu preciso ver o parque e comer meu bolinho tranquilamente, sentir minha pele queimar por alguns instantes, escrever os poemas nas etiquetas, pintar. enquanto procuro um lugar eu ouço mais jazz, não é possível, aonde estava todo esse jazz antes da noite em que entrei pela primeira vez no smalls? e agora é tao natural, como se tudo fosse jazz o tempo todo, tao obvio, e o jazz esteve comigo o tempo todo tambem desde aquelas tardes e noites loucas que antecederam a primeira das minhas muita partidas e que nunca terminaram. o jazz no computador do akira rolando enquanto a gente desmanchava em preguiça e medo do futuro naquela kitnet quente em que ele morava. o jazz enquanto eu escrevia meu anteprojeto pro doutorado, anos depois, naquele café ensolarado de brasília no meio de uma tarde de semana. o jazz do saxofone daquele cara do balcony, que tocava caminhando em volta do balcão. e então em nova iorque eu descubro que ele sempre esteve la mas eu nao. mas agora eu vejo, e eu ouço, e igual uma flauta mágica a música me atrai, eu nao hesito, eu sigo, eu mudo meu caminho pela musica, é o que eu procurei mas nao sabia. e quando vejo a guitarra quase amarela mas não muito, a guitarra amarelo terra, os buracos no lado, é uma guitarra oca! - eu digo pra mim mesma. e abraçado a ela, fazendo cosquinhas nas suas cordas, está esse cara com cabelo anelado e preto, nem longo nem curto, eu não vejo seu rosto mas seu jeito de tocar encurvado, introspectivo e dedicado a descoberta de novas velhas melodias, me traz lembranças de alguma coisa e por um momento eu penso que é o steve, mas quais as chances de esbarrar num guitarrista de jazz que eu conheci no smalls dois dias antes, e que eu encontrei no dia anterior na jam na casa do matt, e que eu encontrei a noite na jam do rue b? tem 8 milhoes de pessoas em nova iorque mas eu mesma já sabia que a gente sempre encontra as que precisa encontrar - ou faz o melhor com as que encontramos. eu me aproximei, sentei em um banco curtindo a música e esperando ele levantar o rosto, e sim, os olhos de quem tá sempre com sono, um sorriso triste, o nariz romano, é o steve com sua guitarra triste triste rasgando melodias felizes em notas tristes. eu sorrio pra mim mesma, 8 milhões de pessoas, cara, 8 milhões... e eu encontro o steve que me fez sentir um senso de compromisso em menos de 30 minutos no canto do smalls com uns papos muito técnicos mas que por baixo me diziam tanta coisa e me sussurravam segredos que o proprio steve nem sabia que tinha - e por isso me consideravam uma mulher louca, porque eu via formas e ouvia vozes que ninguém mais dizia ouvir me contando nas entrelinhas os segredos das pessoas, e no fim era isso mesmo.
mas eu tinha achado o steve, primeiro, muito novo, e depois, muito bonito. foi no dia em que nos conhecemos no smalls e ele me perguntou se eu estava gostando da musica e porque eu estava chorando - era a garganta inflamada. e então ele me elogiou e o rosto dele ficou vermelho de tal forma que eu pude perceber até na meia luz do clube de jazz. e quando steve se juntou a banda tocando e confuso, e olhando pra guitarra como quem pergunta o que tá acontecendo, desacreditado, nem com raiva e nem com medo, descrente, steve desiste de fazer parte do movimento e fica lá com a guitarra pendurada tirando uma nota aqui e outra ali e na verdade nao sei se mais pessoas repararm. eu reparo, e estou olhando pra ele e só pra ele, eu ignoro as estrelas do jazz que todos parecem conhecer menos eu, eu ignoro os outros musicos que foram improvisar, e meus olhos sao do steve naquele momento. ele olha pra mim como quem diz sinto muito e eu dou de ombros simpatica como quem diz que essas coisas acontecem uma hora ou outra, eu nao conheço ele, eu nao sei nada.
e ali está o steve no central park, e eu, e ele toca a música divina que me arrastou até aquele banco no sol, sem sombras por perto. até que ele me vê sentada ali e, descrente, mas dessa vez uma descrença feliz, com cara de quem teve uma surpresa estranha mas boa, ele chama meu nome: fernanda? o steve lembra meu nome difícil demais pra ele pronunciar mas o faz com aquele sotaque americano que me irrita mas que eu adoro. "você tá me seguindo?" e eu respondo assustada que não, do outro lado da calçada, e pergunto rindo se ele nao estaria me seguindo. ele ri e diz que não, claro que não, ele já estava ali há algumas horas. e ficamos nos entreolhando e sabendo o que acontece ali, mas sem saber nada, rindo risos de descrença feliz, a vida nos pregou uma peça. a realidade venceu a imaginação.