terça-feira, 31 de março de 2009

uhhh


quando mesmo o horóscopo anuncia mudanças inevitáveis, quando a moeda só tem um lado, quando todas as faces do dado têm menos chance do que a viciada a solução dela é dar uma de cética.

o último suspiro de março foi silencioso como o primeiro. 31.

segunda-feira, 30 de março de 2009

notívaga

..., a tal da beleza que marcava a partida lhe encantava demais
lhe colocava nos olhos brilhos que pareciam diamantes
lhe colocava no peito uma coisinha chamada saudade
lhe colocava nos lábios o peso de todas as meias-palavras
(algo que os mortais chamariam de arrependimento)

ai, que sua vida antes era de 6 às 18, que seus dias antes eram café e almoço
que suas horas livres antes eram nas mesas de sinuca
e depois era tudo inocência, era tudo esperança
era tudo espera despercebida: às 9 ele vai atravessar a porta
às 12 ele vai me deixar, às 18 ele volta. ufa.

que antes sua vida era diurna demais, era futura demais
e depois dele era tudo muito agora
no meio das noites insônes e nas páginas dos livros a navegar
uma beleza muito estranha de se explicar
quando ela nem preocupava mais com maquiagens (ou quando ela desaprendeu a combinar as roupas...)

acho que ela se encontrava demais naqueles olhos perdidos
arrumando os cabelos no espelho da visão dele
o máximo de amor que ela jamais poderia dar
ah que antes dela ele já tinha uma outra 'ela'
mas que penteava os cabelos e não precisava se maquiar.

ah, que antes de se perder no mar ele já tinha conhecido o porto seguro
e ela era apenas uma ilha se afundando no oceano.
ah, que depois do paraíso qualquer lugar é muito estranho
que depois de andar ao lado de todo um destino
aonde quer que ela fosse seria apenas mais um lugar.

(depois de amar o que não era amável, qualquer amor era perda de tempo.)

lampadas


agora era escolher o que fica e o que vai, e ela começava a discutir consigo mesma se gostava mais dele como uma memória ou como um presente. um presente que podia lhe revelar grandes surpresas...


sabia pelo menos que as cores de cabelo iam. que as férias vinham. mas não sabia de nada que ficava de fato. 'não posso dizer do que vou gostar daqui a um minuto ou dois, mas agora eu gosto de você'


'eu nunca quis que as coisas fossem diferentes, mas a insônia realmente faz de mim uma pessoa muito mais cretina do que já sou, arrancando todos os meus figurinos, arrancando todas as minhas falas. e de fato, eu nao preciso de 'voce' - e quando digo voce não quer dizer a sua pessoa, digo a 2ª pessoa do singular - eu só preciso de umas boas horas de sono. não espere genialidade de mim todo tempo, ou então diálogos nonsense, ou entao uma sensibilidade maluca de quem brilha demais durante o dia até. eu sou só uma garota...'


mas ninguém nunca parecia entender porque a luz que ficava sempre acesa começava a falhar tão cedo...

domingo, 29 de março de 2009

destination: anywhere


ela vivia com pressa, adiando as obrigações, adiantando a diversão. fazendo milhões de coisas de uma só vez.

'ei minha querida, pra que a pressa em atravessar os trilhos se não há trem algum vindo?' ele perguntou com a mão invandindo o espaço que ela reservava pra si mesma. 'porque a pressa?'

'tenho pressa porque o destino é a morte. e eu quero chegar antes de o sol se pôr.'

sábado, 28 de março de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

bares

'Em uma coqueteleira, colocar aproximadamente 4 cubos de gelo, 1 dose de Absolut Citron, 1/5 de dose de Martini Dry e 1/5 dePeach Tree, mais 1/5 de dose de suco de laranja, 1/5 de suco de limão e 1/5 de Grenadine. Bater bem e jogar na taça Martini sem gelo e sem decoração.'


mergulhou naquela tristeza, o fundo parecia não chegar nunca. naquela tarde de março ninguém mais diria que um dia ela nadou naquele copo que hoje estava na mão dele que não segurava o cigarro barato. os olhos vermelhos, os gestos em câmera lenta: bebe do meu copo que eu já bebi da tua boca. e ela se inundou de cerveja embora já transpirasse álcool.

embora não houvesse mais nada dele nos seus armários e nem nos seus discos, havia quase tudo dele em uma grande cicatriz: me disseram que o amor era pra sempre - pelo menos as marcas que ele deixa. no fim da tarde disseram que os homens eram todos iguais, ela concluiu que dos bilhões de homens do mundo elas que sempre insistiam em escolher os parecidos.

entre seus dedos passaram as velhas sensações de formigamento ao tocá-lo. ali, ele na beira do abismo e ela quem estava vulnerável. um toque poderia derrubar tudo que nos rodeia em questão de pouco tempo, mais rápido que uma bomba atômica. a reação em cadeia estava apenas no primeiro elo. e enquanto ele perdia a ligação com o mundo, ela se sentia livre outra vez, se colocando em todas as palavras que ninguém entenderia.

depois de algum tempo, do outro lado da cidade, do outro lado do tempo, os antes olhos castanhos agora pareciam lagos negros, mares mortos que insistiam em transbordar e salgar as maçãs do rosto dela. e não que ela desgostasse do sal, a melancolia lhe caía muito bem. mas ultimamente estava a derrubando.

quarta-feira, 25 de março de 2009

a noite não é mais

(a mesma...)

ela morreu dentro de uns braços assim sem carinho, fagocitada por uma obrigação
tragada por conveniência
como se fosse um ultimo gole de bebida quente, no fim da noite
'me dá um beijo de despedida que a noite vai ser longa'
parece que essa noite é mais longa que toda a sua vida

a cinza do cigarro que vai nevando em seu cabelo,
embora ela nem fume
compra mais um dia por um pouquinho dessa bebida
'meu bem, eu devo minha sanidade a um homem só' ela dizia
'o nome dele é johnnie walker, e tem 8 anos.'

a noite agora solitária, a insônia agora sonolenta
te digo baby, que ela está um pouco mais perto da morte
um pouco mais perto do sul, um pouco mais longe do norte
'voce nao me deve nada'
foi a ultima coisa que se ouviu
antes que ela transbordasse.

terça-feira, 24 de março de 2009

brilha brilha, estrelinha


o ar rasgou meus pulmões, despedaçou meu corpo. ser eu era grande demais pra caber no meu corpo, eu estava expandindo rápido demais, o calor do álcool fazia com que eu crescesse em uma velocidade alucinada até quase explodir e me espalhar pelo espaço. como um milhão de estrelas cadentes ao mesmo tempo, como um ano inteiro de meia-noite do dia 31 de dezembro eu era toda fogos de artifício, brilhando até o infinito onde ninguém podia me ver, onde o show era pra mim e pro vácuo. essa noite eu me senti beijando o sol, sem saber que mesmo as grandes estrelas eventualmente se apagam.

mas por enquanto eu só queria - e podia - brilhar.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ele (2)


havia alguma doçura no modo como ele a olhava pelo canto dos olhos, como se esperasse coisas demais dela, como quem soubesse que ela podia dar tudo pois tinha tudo guardado no fundo dos bolsos, do armário, do coração. ela mudava de opinião como mudava o clima de brasília: imprevisível, traiçoeiro. talvez por isso fosse tão difícil demonstrar amor, ela enjoava fácil demais das coisas que já tinha. os dias indo e vindo entre os dedos dela como um grande ioiô colorido que ela adorava controlar como um brinquedo levado muito a sério, de um jeito cheio de manobras loucas, arriscadas demais para o brinquedo, certamente. embora soubesse que o sempre não pertencia a ele, acabava por vezes demais dando a ela a eternidade na ponta da língua cheia de incertezas, na ponta dos dedos vazios de malícia. ele apenas não entendia como ele podia controlar um caos ambulante como ela com alguns poucos gestos ou com a ausência deles, como podia mudar o curso de uma tempestade apenas com um sopro. ele nunca recusava nada a ela, que tinha urgências fúteis de menina de 8 anos qeu cabiam em bolas de sabão e com gosto de jujubas multicoloridas - mas com preferência pelas laranjas. além de tudo ela falava palavrões demais. e ele odiava isso. nem razoável era amá-la

(mas ele nunca foi muito racional).

imigrante


já não gosto mais das manhãs com gosto de café requentado, dos fim de tarde com gosto de separação, das segundas-feira com gosto de recomeço, das terça-feiras com sabor de vazio, dos fins-de-semana com gosto de quero mais (mais sono, mais comer porcaria, mais solidão). já não me agradam mais os dias, os sorrisos todos que tenho de rasgar nos meus lábios enrijecidos, o olhar que se encontra a cada instante, a falta de álcool, a falta da falta. que me importam as 24 horas de escuridão quando metade delas é povoada de gente com quem estou sempre em dívida (devendo brilho, devendo alegria, devendo entusiasmo)? eu que gostava da noite porque ela era uma boa companhia - ela e só ela, por favor - já não gosto nem mais da insônia. nem do meu violão, hoje largado a um canto do quarto, nem dos rabiscos que chamava de desenho, que se afogam na poeira acumulada embaixo da minha cama, nem dos livros, que ficam perdidos entre os papéis velhos que ja li. nem de nada.
e dentro de um corpo que eu já nem reconheço, sou obrigada a viver dentro das linhazinhas que o demarcam como meu. e me sinto miserável por viver no limite e no limite, o tempo todo. e por mais que eu queira atravessar a fronteira, eu nucna consigo chegar do outro lado.

domingo, 22 de março de 2009

sobre mim.


sempre que é primavera ela se apaixona por uns olhos brilhantes, por um andar envolvente, por mãos de pianista ou por uma respiração que lhe parece elegante. mas só por uma noite. e se forem sete, é uma de cada vez.mas seus amores são todos os primeiros e últimos, em cada despedida um enterro, uma vida cheia de separações - e então não seria a vida mais feita de morrer que a própria morte? talvez por isso ela goste tanto de dizer adeus, porque é preciso morrer cada dia para viver o próximo. e ela tem um talento induscutivel para criar e interpretar personagens mágicos. não que ela seja dissimulada, mas a vida lhe parece longa demais para que ela seja uma pessoa só - e só.o que a atrai mesmo são as coisas deixadas nas esquinas da vida que ela insiste em tentar colocar nos seus acordes, nas suas linhas, nas suas entrelinhas, nas suas palavras e meias-palavras, sem saber que viver é etéreo demais para ser solidificado no movimento de suas mãos ou de seus olhos de menina. e mais difícil ainda é reescrever nas linhas de um caderno um viver tão torto.ela sempre gostou dos drinks mais fortes, dos sabores mais doces, das noites mais longas, das solidões mais avassaladoras. sempre que chove ela gosta de sair só pra se molhar - não que ela goste mais da chuva.porque cada encontro para ela é uma explosão, rápida demais pra se controlar, brilhante demais para enxergar claramente, quente demais para não se queimar muito. incontrolável. e ela adora isso. porque ela acha que o amor deve ser intenso demais para ser queimado como uma vela.

sábado, 21 de março de 2009

pipas

'me diz, meu bem, no que voce tá pensando?
voce me põe em overdrive
me deixa selvagem, me deixa quente
tenho sempre que provar o que voce tem
entao qualquer hora que voce pensar em amor
baby, eu tenho novidades pra voce' Whitesnake, good to be bad.


ele sentou na frente dela, os grandes olhos castanho escuro e de cílios maiores ainda, a sombrancelha que ela odiava, as sardas pequeninas espalhadas pelo rosto todo que ela poderia ficar contando para sempre. as mãos grandes, as unhas bem cortadas, os braços mais bonitos que ela já vira. e mais fortes também. o cabelo que ela amou desde o primeiro segundo, a roupa sempre alinhada. ela sentia como se fosse desfalecer a cada segundo próximo a ele, desde a primeira vez.

'voce é uma egoista. voce é intensa demais, mas nunca demonstra isso porque as pessoas têm medo da intensidade. e entao priva o mundo inteiro dessa energia louca correndo nas suas veias, fecha os olhos pra ninguem ver a sede de prazer estampada neles. voce é uma...'

'cretina. eu sei.'

'todos sabem. (...) me chama sempre que voce precisar ser intensa, eu gosto de brincar com o fogo. me chama quando quiser voar, eu vou ficar sempre com os pés no chão esperando a hora da queda pra te segurar nos meus braços. eu vou.'

'hm... eu quero ser uma pipa grande e vermelha num pôr-do-sol. e voce o garotinho que sempre me deixa alta, eu pensando que sou livre por uma meia hora. até voce me puxar de volta pra terra. mas sem voce eu nao vou voar nunca. mas se eu for longe demais, me traz de volta.'

'eu sempre trago. sempre.'

sexta-feira, 20 de março de 2009

memorias 1

de repente acho que me apaixonei por alguma coisa no ar, o perfume dele em forma de ilusão de óptica, o gostinho de álcool que eu pegava na atmosfera, as milhares de coisas que eu tinha de fazer, os trezentos pedaços do meu coração bateram todos de uma vez como se fossem um, mesmo que estivessem todos espalhados em galáxias distantes. eu acho que me apaixonei de novo, mas foi só por 30 minutos... me apaixonei por um desconhecido que eu teria de ver pelos próximos 3 anos da minha vida, tão estranho, tão selvagem, tão tangível!

mas ele era gay.

quinta-feira, 19 de março de 2009

olhos abertos, coração trancado

"now there's a look in your eyes
like black holes in the sky
shine on you crazy diamond' Pink Floyd


quando voce olha dentro dos meus olhos, me diz, o que voce vê? não é um mundo de possibilidades, não é um horizonte. e não sou eu. é voce mesmo, no reflexo miúdo e embaçado. se voce não tem mais a mesma voracidade de olhar é porque há algo errado em voce, e não em mim.

e voce?

eu nunca deixei de me olhar nos seus olhos, mas agora que eles fogem de mim, eu já não consigo mais me arrumar antes de sair.

quarta-feira, 18 de março de 2009

erro

"you spent me up like money" What ir Takes, Aerosmith.

naquela tarde era tudo estranho demais: o clima seco em pleno verão, o vento morno, uma garota quietinha em seu lugar com uma expressão de angustia, dezenas de pessoas lotando uma sala pequena demais para as duas pessoas que formavam um nós desconhecido por todos. diziam por aí que os bons tempos foram levados pelos ventos da chuva de verão que a fez florescer. diziam.

'a seca chega mais cedo esse ano' alguém comentou olhando para o céu que refletia toda a estranheza que envolvia aquelas pessoas. ela ouvia sem prestar a mínima atenção ao discurso, sentiu um calafrio lhe subir a espinha. era o último vento do verão.

algo ocorrera no olhar da menina, uma outra cogitou. algo que refletia o interior, algo perdido ou encontrado lá dentro, ninguém sabia dizer. a menina ainda olhava para o alto, evitando olhar as pessoas ao seu redor sempre, os olhos semrpe se desencontrando, sempre fugindo do encontro deles, os olhos mais penetrantes que ela já havia conhecido. os menos intimidadores também outrora, mas agora eram desconforto e só.

as vozes ao fundo eram gritos baixinhos, distantes 'a gente tá perdendo ela...' enquanto ela esperava o apito soar. mas era só um delírio numa tarde quente, ela concluiu. estava de volta a sala abarrotada de gente, abarrotada de psicologia. ela sentiu ânsias de vômito como não sentia há tempos. sem poder fugir da constatação de que estava sim muito perdida nesse mundão de meu Deus, a menina arregalou os olhinhos miúdos de sono e desilusão e suspirou fundo antes que lhe saísse das entrelinhas o que já estava subentendido há tempos e tempos:
'hey, nós cometemos um grande erro."

terça-feira, 17 de março de 2009

da burrice


comentou-se por aqueles dias que ela precisava de ajuda, logo ela, que nunca precisou de ninguém. "sim, eu quero ficar bem e renunciar ao prazer de colocar isso em um papel." ela respondeu às pessoas que a cercavam. "mas antes eu quero ter a maior agonia do mundo que um amor qualquer pode causar. antes que todos voces me anestesiem, antes que eu deixe de ser humana. eu quero o sofrimento pra que a cura tenha um gostinho mais doce..."

segunda-feira, 16 de março de 2009

desabafo (n)

o conforto virou dissimulação e eu uma cretina qualquer que fala palavrão demais porque nao tem nada a dizer. e eu não sei o que fazer com isso. talvez eu devesse voltar pra casa, talvez eu devesse preencher todos os buracos com aulas, estudos e trabalho. e álcool, muito álcool. talvez eu devesse fugir e me esconder embaixo da minha cama, junto com os monstros. acho que os monstros fugiriam. enfim...

talvez eu devesse encarar minha cretinice atual e dizer a verdade, o que vai contra toda a minha filosofia de 'sim, eu sou escrota e nunca preciso de nada ou ninguem': no mais, tô fudida. mas eu sempre terei sorte nos jogos. né?

domingo, 15 de março de 2009

garotas.


'baby, eu não sou uma garota interessante. não tenho nem 20 anos, não sei dirigir, moro com meus pais e faço trabalho voluntário. sou uma universitária que anda de ônibus e tem que pedir dinheiro e carona pro papai. não conheço essas coisas culturais todas. eu gosto mesmo é da cultura do cotidiano, das pessoas sem glamour, das histórias mal-resolvidas. eu encho a cara na sarjeta e eu vou em sinucas sujas e decadentes durante a semana; vou à igreja nos fins de semana com a família. eu não gosto de ter certeza ou razão, eu gosto de diversão geralmente. de me afundar em alguma coisa, de tomar o veneno só pra passar mal, só pra gostar mais da vida. eu falo palavrões demais, acho que sou vulgar. eu gosto do sol forte, rachando lá o céu. odeio os dias cinzas e previsíveis.

eu já li filósofos, teóricos e nada me preencheu mais que meia dúzia de palavras de poetas amargurados, que as escalas pentatônicas dos blues. nada me satisfez mais que uma tarde qualquer despreocupada conversando sobre música. eu gosto de tristezas mais que de alegrias, pra falar a verdade. e eu toco guitarra, mas toco mal. e escrevo coisas que ninguém entende ao certo. acho que sou sensível demais.

baby, eu não sou uma garota bonita. eu não tenho mais que 1,65 de altura, meu cabelo nunca esteve na moda, tenho traços pequenos demais pro meu rosto na verdade. e adoro as roupas e maquiagens excêntricas dos anos 80. e além disso, não faço questão das roupas novas e bem passadas, eu gosto mesmo é das minhas blusas velhas de bandas que ninguem ouviu falar. aquelas blusas que eu gosto tanto de rasgar e dizer que customizei. e meu bem, eu não vou emagrecer aqueles quilos. definitivamente eu não sou o tipo de garota amável.

mas ainda sou uma garota.'

inverno

... e às vezes eu tenho a impressão de que você já viveu várias vidas' ele comentou rindo enquanto esperava o sol morrer outra vez.

ela riu, de fato tinha vivido algumas boas vidas. 'e quem de nós não viveu? mas eu só tenho meus menos de 20 anos, tambem não vi tanta coisa...'

'acho que voce gosta é de se matar.' ele continuou se esparramando pelo gramado seco.

'é assim que se vive.' ela sorriu sem mostrar os dentes, estava com preguiça.

um silêncio natural se seguiu, até mesmo os passarinhos ficaram calados. até mesmo o vento se calou.

'ei baby' ele sussurrou fazendo com que ela abrisse os olhos de repente, talvez o vocativo tenha lhe trazido lembranças. 'cuidado com o amor, cuidado com o abismo. pra quem já viveu 6 vidas, é melhor que não se coloque a sétima na face de uma moeda.

'mas eu adoro apostar. não tenho muito a perder.' ela falou agora de olhos fechados.

'tem muito em ti que é coisa dos outros verem, sabe. voce é quente demais pra segurar uma vida tão fria, logo logo ela vai derreter e escorrer entre seus dedos, sem chances de voce segurá-la. fica fria.' ele aconselhou fechando os olhos também, a sorte estava lançada.

'tudo bem, todo ano é feito de verões e de invernos. eu também.' e acolheu ele no seu colo até que o sol morresse outra vez atrás dos prédios distantes... 'mas entre um e outro tem sempre o outono, que é quando tudo seca.'

sábado, 14 de março de 2009

goles

ela gostava de deixar com cada um que conhecia um pedaço de si, na esperança de que um dia não houvesse mais nada para ser partido.

naquela noite ela quis se embriagar, mas foi ele quem encheu a meia-taça de seu sutiã de cerveja e vinho barato. e não pediu licença pra tomar o primeiro gole. era a última noite de suas vidas, a primeira da eternidade: pela manhã eles eram apenas memórias nos olhos daquela noite.

sexta-feira, 13 de março de 2009

não me transborda, baby


'mas cara, eu sou um copo cheio. você não pode simplesmente chegar e pingar a última gota pensando que eu não vou transbordar e que voce não vai se molhar. eu só queria calor até evaporar toda.'

sobre mim

a lua cheia de novo, eu vaziinha. na esplanada dos ministérios a arquitetura em preto, branco e gramado me surpreendeu outra vez, percebi que as coisas mais rotineiras sempre me surpreendiam. e logo eu que sempre tinha palavras pra tudo, me encontrei num deserto, náufraga. já não havia conforto naqueles olhares, eu já não passava de uma poetinha muito da cretina com pseudônimo e em terceira pessoa, eu já não passava de quem eu realmente era. monotonamente desregrada. no messages, no missed calls. 'acho que me perdi quando perdi voce' refleti na embalagem espelhada do presente, odiei meu novo cabelo a propósito.

'acho que me perdi quando perdi voce, sabe. eu lembro que eu costumava ser uma pessoa mais radiante, mais lírica. mas nunca fui eu, sempre foi voce, que me via assim. tem um milhão de palavras não-ditas, um milhão de coisas perdidas em gestos, em olhares, em abraços. e mais um milhão de coisas perdidas nas lacunas que existem entre nós agora. e assim eu concluo que me perdi quando perdi voce, como uma criança que está rodando rápido demais em torno de si e é obrigada a parar. e eu entendo que voce não possa simplesmente sair correndo, mas ainda assim quando a tontura passar voce ainda vai fingir que está tonto só pra não me deixar sozinha. e eu te amo mais por isso.' amassei o papelzinho, coloquei-o no fundo da minha bolsa.

a vida era etérea demais pra se colocar em palavras, conclui.

fly away from here


pulei de um prédio outra vez. e eu tinha duas alternativas: ficar lembrando todo tempo que eu ia me esborrachar lá no chão ou acreditar que eu tinha aprendido a voar e curtir a vista.
e é claro que eu aprendi a voar.

quinta-feira, 12 de março de 2009

madrugadas

já passava das duas. a lua alta, a rua vazia de novo. 'ei, o que acontece quando amanhecer?' ele perguntou. ela tinha passado uma noite inteira tentando não pensar nisso. amanhecer. tentou desviar o rumo da conversa, mas ele sempre a pegava. 'o que acontece?'


'eu não sei. geralmente a gente acorda, não?' ela sorriu tentando conformá-lo. tentando se conformar mais na verdade. 'é bom quando tudo o que a gente tem durante a noite são pesadelos, a manhã.'

'e se o sonho for bom demais?' ele continuou. ela estava ficando desarmada.

'a gente acorda do mesmo jeito.'

'hm...' ele hesitou enquanto mirava seu próximo tiro. 'é por isso que voce não dorme?'

ele acertou em cheio. 'é, cara.' ela riu nervosamente, tinha sido atingida.

'e se não amanhecer pra gente?'

'ainda assim um dia cada um vai ter de seguir o seu caminho, seja à noite, à tarde ou pela manhã. as historias se cruzam e mudam de rumo, mas não significa que vão ser sempre o mesmo traço... eventualmente seremos apenas linhas paralelas.' ela tentou cortar aquilo logo.

'e voce nao se importa?' ela tentou mais ainda.

'hnnnnnnf...' ela suspirou fundo. 'eu poderia dizer que eu nunca precisei de ninguem, eu sempre digo. mas eu sempre minto. e nunca faz ser menos solitário depois.' ela sentou num meio-fio qualquer olhando a luz da lua fazendo desenhos nas folhas das árvores.

'voce nao respondeu, ha' ele apontou o dedo na sua cara, ela odiava isso profundamente. e ele sabia.

'sim, eu me importo.' ela respondeu totalmente contrariada.

'porque?' ele nunca se cansava.

'porque eu sou idiota.' ela respondeu levantando as sombrancelhas em sinal de reprovação. 'e voce se importa?' perguntou ainda no mesmo tom.

'sim, me importo.' ele respondeu como se tivesse esperado a vida toda pela pergunta.

'e-por-que?' a garota perguntou mecanicamente.

'porque eu te amo.' e sorriu aquele sorriso que ela tanto amava. mas ainda ia amanhecer do mesmo jeito...

começar

... e que o recomeço não me leve ao mesmo fim. mesmo que o meu fim ainda seja o mesmo. amem.


e entao ela se reescreveria nas entrelinhas, as mãos trêmulas que temem o erro guiadas pela coragem que almejam o acerto. ela sabia que eventualmente iria querer explodir tudo, queimar cada circunstância, transformar em cinzas qualquer coisa que não se encaixasse. o momento era agora, mas a vida era pra sempre. e o presente era estar numa montanha russa com os olhos vendados.

quarta-feira, 11 de março de 2009

a-Deus


'... e tem alguém aí? - ela acrescentou às suas preces noturnas. o silêncio reinou por infinitos minutos.recomeçou suas orações pedindo um pouco menos de sensibilidade, um pouco menos de lirismo. 'estou seguindo um caminho sem volta, eu sinto. em queda livre, meu Deus. creio que assim como para alguns apenas o céu é o limite, para mim apenas o solo o é. mas eu pergunto se tem alguém aí, às vezes acho que não' e continuou parada em frente ao espelho, o quarto escuro, impotente. antes que pudesse cair um pouco mais, esperou a resposta por mais alguns minutos. nada lhe (s)ocorreu. deitou-se outra vez, a cama dura, a insônia implacável:

eu acho que sou surda...'


terça-feira, 10 de março de 2009

com-paixão

'acabou? sim, acabou e eu estou apagando as velas.
pare pra pensar: como voce se sente sendo o único que me apunhala pela frente?' Hole in my soul, aerosmith.

se afogou em jujubas a tarde inteira, revisitou as páginas dos seus velhos amores. viu a palavra recomeço estampada na janela ao lado do retrato da garota de longos cabelos ondulados e vermelhos que sustentava um sorriso de quem acabara de passar no vestibular e encontrou o amor da sua vida. bebeu mais um gole do capuccino que agora já nem queimava mais sua língua ferina. que queimasse, ela já tinha se queimado o suficiente pra não sentir mais nada.


no telejornal a crise econômica, no seu diário a crise-crise. ela se sentiu mesquinha demais por uns 20 minutos, mas aquele apertinho no peito, aquele vaziozinho lhe disse que estava tudo bem em tomar um antiácido pra digerir a decisão tomada com tanta gula e repousar na sua cama constantemente desfeita. 'você é sensível demais pras contas de luz e água. se eu pudesse te colocava numa bolha onde você só se preocuparia em amar o mundo inteiro de uma vez, em tirar um dia de folga no meio do caos pra deitar na grama seca do parque da cidade. ninguém disse que a vida era justa, menininha.' talvez ela se preocupasse demais com as coisas erradas. talvez ela amasse demais as coisas erradas.


por um instante viu sua foto ao lado dele. com 17 anos. o óculos escuro na época era seu companheiro constante de todas as festas e shows. o batom rosa. o cabelo descuidadamente bem-cuidado. lembrou da palavra recomeço amargamente. e sabia que era só mais um ano na vida de alguém que vivera quase mais de 20.


'voce é muito infantil. voce pode apagar meu telefone, minhas mensagens, nossas fotos. mas por acaso voce não sabe que voce nao pode apagar a minha memoria? por acaso voce nao sabe que eu estou em cada música que voce me escreveu, em cada gramado que deitamos, em cada noite barulhenta ou silenciosa, em cada livro, em cada gole de bebida que derramei em seu corpo? nos seus sonhos. e é por isso que voce não dorme. mas eu logo vou estar nas suas insônias também. e mesmo no dia em que eu não estiver em mais nada disso, me diz se eu não te machuquei o suficiente pra estar nas suas cicatrizes.'


ela silenciou. 'antes fosse o recomeço, mas não teve começo ou fim. antes fosse a cicatriz, mas voce foi o golpe de misericórdia.'

as minhas botas

'... foram feitas pra pisar em você.'

e ela diria todas as palavras de uma única vez após concluir que não cometera erro algum, que não se arrependera de nada. de uma garota com imaginação tão generosa não se esperaria que os amores fossem descartáveis, que os sempre fossem eternos, que as mãos não fossem atrevidas. não, não.

nem quis mais a melancolia como se morresse afogada e anseasse pelo ar, entendeu que o ar que lhe enchesse os pulmões apenas enchia os pulmões. o que ela precisava era ser preenchida de amor o tempo inteiro, confessou sua natureza de quem não bebia há séculos. o álcool sempre a deixa cética, dizendo que o amor é vendido nas vinhetas da televisão e que ela não tem dinheiro pra gastar nisso. ela prefere um penteado novo.

e quando ela acorda, sem ter certeza se está sóbria ou bêbada, fica pensando que não é uma pessoa tão adorável quanto nas mesas de bares em que sempre é convidada a sentar. maldita seja a ressaca moral. e assim ela diria todas as palavras do mundo de uma única vez ao concluir que o príncipe encantado não a encontrou porque suas botas nunca ficavam pra trás. (mas ele sempre poderia procurar embaixo da sua cama)

nublado e cinza


meu bem, o amor acabou e eu já não sou mais tão genial, huh? não se sinta mal, é sempre assim quando acaba a noite e ninguém mais me vê brilhar...

segunda-feira, 9 de março de 2009

destino em branco


era tempo. ela arrumava suas últimas coisas no pequeno quarto, mas a cama deixou ainda desarrumada, com seu cheiro marcando um território que nunca fora seu de fato. dirigiu-se ao banheiro com o velho telefone na mão e na outra o lápis de olho para retocar a maquiagem desfeita por uma meia dúzia de lágrimas. conferiu o batom e terminou de arrumar seu penteado, deixando o pequeno banheiro pra trás.


ele apenas a seguia em todos os cômodos, como se fosse a sua sombra. ele estava assustado demais para ficar em silêncio, mas tudo o que ele falava não fazia o mínimo sentido para ela. ela já estava fora do ar, fora de alcance. e ele não poderia mais sintonizá-la.


'eu sei como voce se sente, eu já estive no seu lugar

algo está mudando em voce e voce não sabe' ela cantou baixinho no ouvido dele.


'é don't cry, do guns 'n' roses' ela explicou dando um beijo nas têmporas dele. 'agora eu vou.' e saiu com sua bolsa cheia de franjas balançando, tentando correr o mais elegantemente que podia.


estava tudo bem. pelo menos pra ela. era só mais um ponto final, ela só não queria saber de pingos nos is.

amor aos 14 e pra sempre

ou enquanto durar o verão.


enquanto passeio na infinita beleza do teu rosto
pulando de sarda em sarda
descansando em cada sorriso
acordando em cada insônia
enquanto mergulho no céu refletido nos seus olhos
pra buscar algum tesouro perdido
ou apenas pra me afogar um pouco mais
deve haver algo de místico em (te) amar, fato
concluo que seus cigarros me esfriam a cabeça
que suas poucas palavras me completam
que seus silencios me respondem
e que voce é um homem de gelo

mas é só assim que me esquenta a alma todinha
e faz um ano inteiro ser verão...

dez-abafo


'voce ainda tem dinheiro?' o pai perguntou no carro a caminho da faculdade.

'tenho uns 15, dá pra chegar ao fim da semana.' 19 anos, sem carteira de motorista, sem dinheiro pro almoço mas voltando pra casa quase sempre bêbada. e sempre uma boa atriz.

recostei minha cabeça no banco, apreciei a visão até o lugar de destino, o sol fazendo meus cabelos brilharem mais que nunca. eu odiava psicologia, odiava as pessoas cult da psicologia, odiava psicanálise e odiava freud. e tinha brigado até com o velho amigo johnnie walker, bom conselheiro. comecei a odiar brasília. pffffffffffffff, bufei. quis largar tudo e virar arquiteta, ou antropóloga ou desenhista industrial ou escritora ou musicista. menos psicóloga.

olhei pro meu pai outra vez. era só pedir arrego. era só usar as palavras mágicas junto com uma lagrima e meus desejos seriam realizados.

'o que foi?' ele perguntou.

tudo, pai. eu odeio tudo. odeio essa cidade, odeio meu curso, odeio quem eu sou, odeio meu corpo, odeio meu jeito de tocar violão, odeio meu gosto, odeio minha extravagância e minha excentricidade. eu vou pra arquitetura e... lembrei da voz do meu irmão 'voce acha que isso vai te fazer feliz? não vai. o problema não é o que voce faz, mas como voce vê as coisas. voce quer comprar uma ideologia, mas sonhos não enchem barriga de ninguem. não to dizendo que nosso pai não te sustentaria, mas voce quer ser só uma sombra do resto da sua familia? voce quer jogar sua inteligencia fora? voce sempre foi uma garota sensivel e inteligente, é o melhor dos dois mundos. mas algumas pessoas não podem sonhar.'

'o que foi?' a pergunta ecoou. era o chamado de volta pra vida.

'nada. só que eu te amo.' e sorri um sorriso dos mais sem graça antes de deixar o carro e colocar o pé no chão. ia ser um longo caminho e minha mochila estava bem pesada... eu só rpecisava deixar o passado de lado antes de embarcar na nova aventura.

domingo, 8 de março de 2009

cama vazia

e cabeça cheia.




ele dormiu com a dúvida e se levantou devagarinho pela manhã para não acordá-la. mas, ah que tolinho, a dúvida tem sono leve-leve. e é tão bem-resolvida...

everything is going to be alright no matter what we do tonight.

cerveja como são as coisas


ela olhou o sal que iluminava a tulipa de cerveja ao descer até o fundo. o calor lhe fez pensar que ela fosse como um grãozinho daqueles, que estava em queda livre, sem nenhum apoio, mas brilhando sem parar - pelo menos até dar de encontro com o fundo do copo.

e então ele bebeu o mais rápido que pôde, antes que o grãozinho final atingisse o fundo. ufa. eu ainda tinha salvação.

ele


'cara, nossa vida tá uma merda' ele falou enquanto misturava uma dose generosa de whisky no café.

'eu sei.' eu respondi olhando os desenhos na parede que eu tinha feito.

'sera que a gente vai ter que fazer isso toda vez que ficar entediado?' ele perguntou sabendo a resposta.

'provavelmente sim, um dia de cada vez, né? mas acho que eu cheguei no alto do morro e tô na beira do abismo e nao sei o que tem lá embaixo. pode ter um rio, pode ter chão...' eu comecei a divagar, estava quente.

'ou mesmo que tenha rio voce sempre pode se jogar errado e se ferrar, huh?' ele levantou o copo em brinde.

'é...' e entao percebi que devia é dar um passo pra trás, sentar e admirar a vista, tinha sido uma caminhada cansativa.

sábado, 7 de março de 2009

cartas na mesa

as cartas na mesa nem sempre são lidas, tambem nao sei se eu quero que assim seja.

pensei uma noite toda sobre o que eu faria. além de, claro, pintar o cabelo de uma cor mais discreta. pensei em fazer um desenho, mas achei lúdico demais. pensei em gritar, mas achei dramático demais. pensei em escrever uma musica, achei barulhento demais. pensei em escrever uma carta.

'sinceramente, ...' e as palavras todas me fugiram. 'eu diria que nao preciso de voce sem pestanejar, eu sempre fui uma boa mentirosa; diria que nucna confiei em voce, sempre fui uma boa mentirosa; diria que não me apoiava em voce, eu sempre fui uma boa mentirosa; diria que nunca me apaixonei e entao não estaria mentindo. mas se eu dissesse que não te amo, entao eu voltaria a ser uma boa mentirosa. eu diria que vou seguir sem olhar pra tras, eu sempre tenho espelhos na bolsa. diria tudo de uma vez só, mas entao eu entendi que o silencio falaria bem melhor por mim.

e quando vejo as ruas escuras, penso em como vou ficar vulnerável sem voce, penso em como essas coisas me afetam demais, começo a pensar que não sou tão durona e que nem preciso ser o tempo todo. penso em como pode ser saudavel beber todas porque nunca se sabe o dia de amanhã, fico pensando em como é importante ser piegas, em como é importante gritar como idiota 'sou feliz', fico pensando em como é nao ser eu. fico pensando em como é saber que as coisas terminaram mesmo que ainda estejamos todos aqui, fico pensando em como é morrer e ainda respirar. fico pensando e só, só.

talvez eu quisesse mais uma dessas minhas vidas, dessas infinitas que tenho. me mudando de cidade, de casa, de apartamento, de trabalho, de hobby, de amigos, de cabelo. sendo a mesma velha nova pessoa. e entao eu olhei pra voce, sendo tão seco. percebi que eu era infantil demais, percebi que eu precisava mudar de atitude antes de mudar de cabelo ou de curso. percebi que talvez não fosse eu, minhas roupas, meus trejeitos, minha maquiagem estranha, meu corpo ou minhas bipolaridades... percebi que havia muito mais coisa entre duas pessoas do que nossa vã filosofia jamais imaginou.

entendi que eventualmente todos seriam memórias. e que eu te queria como uma das minhas melhores. e voce era uma memoria de paz nos dias mais conturbados da minha vida, das primeiras insonias, da melhor noite que já passei. entao conclui que eu pela primeira vez aproveitei cada dia, mesmo aqueles em que tudo me doía, mesmo aqueles em que minhas olheiras ficavam mais fundas, mesmo aqueles em que voce sumia do mapa. e soube pela primeira vez que o amor é universal. e que eu me apaixonava por cada pessoa que cruzava meu caminho.
e não foi diferente com alguem como voce.

mas eu sei que chegou a hora de ir embora, embora eu vá sentir sua falta. chegou a hora de ser uma garota grande, e as garotas grandes não choram.'

pensei que ele não gostasse de despedidas, mas achei que sim quando percebi que talvez ele quisesse ir embora pra viver uma nova vida no mesmo lugar. e entendi pela primeira vez como era estar comigo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

ano


pensei no que tinha acontecido desde o primeiro gole direto do gargalo aquele dia, do lado dos amigos mais queridos, os mais engraçados e diferentes todos juntos. a irmã, o cunhado, o melhor, o preto, a preta, a lantejoula, os caras!

religiosamente jogávamos sinuca semanalmente no boteco, conhecemos alguns bares, fumamos - passivamente, pelo menos, conheci alguns lugares mais distantes de ônibus, fiz amigas, estudei coisas que pensei que odiaria, larguei pessoas, tive aquele sentimento de que seria o melhor semestre da minha vida - e não é que de certa forma foi? - pintei o cabelo, de novo, de novo, de novo... briguei com ele (não o cabelo). virei noites estudando, dormi em cima de livros, matei aulas, matei trabalho, o trabalho e aula me mataram também. menti menos, me arrependi menos, viajei mais. saí mais. bebi como nunca. bebi mais. me embriaguei na sarjeta, fugi de casa, inventei lugares pra ir, cometi erros, acertei voltando com ele. descobri que ele me amava e isso me dá força pra viver até hoje. engraçado. chorei na frente de alguem, pedi ajuda. amei sem preconceitos. e amei mais. a velha sinuca está agora fechada por ter se tornado ponto de tráfico, e eu estou aberta pro mundo inteiro.

resumindo, agora eu sou uma garotinha grande mas ainda uso as velhas meias coloridas...

quinta-feira, 5 de março de 2009

ain't that a bitch


por assim dizer, tive uma daquelas noites oníricas. devo ter tomado o porre mais homérico de toda a minha vida e falado as minhas dionísicas todas, em grego mesmo. e de tão onírica, acho que cai da cama...

de repente percebi que eu estava rápido demais, indo pra lugar nenhum enquanto passava por todos os lugares. e sabia que precisava tomar uma decisão ao invés de um puta porre.
e pra minha surpresa as únicas pessoas de quem senti falta foram meus pais.

quarta-feira, 4 de março de 2009

destino

'(...)

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! ' Augusto dos Anjos, Versos íntimos

'enquanto houvesse uma mão eu seguiria... e agora voce vê, meu bem! onde eu estou?' eu perguntei rápido, incisiva.

'está indo rápido para lugar nenhum, meu bem.' ele respondeu pacientemente, mesmo que fosse muito mais que meia-noite.

'certo...'

'é o seu destino. está aí, como voce diz, na palma da sua mão.'

olhei as linhas na mão. estavam ali mesmo, mas a mão estava só.

'oi?' ele chamou distante.

'pelo menos quando voce for atravessar a rua...' eu disse devagarinho, hesitante

'?'

'segura a minha mão?' eu pedi, não precisava mais do que daquelas duas mãos que eu tant oconhecia, que sempre bagunçavam meus cabelos ou faziam o sinal de 5...

'enquanto voce precisar!'

terça-feira, 3 de março de 2009

chuva de verão

'e voce, meu bem, onde fica nisso tudo?' o homem bebado tagalerava sobre mitologia, psicanálise e preconceitos, elogiou meu cabelo. onde voce fica? - eu nao fazia a minima ideia, mas senti que não podia ser ali, eu só tinha - sim, a máxima - 18 anos. grandes merda, pensei.

entao só quis seguir minha vida por mais uma noite: o cheiro de cigarro me despertou saudades de novo dos olhos castanhos cobertos pelo cabelo bagunçado, dos gramados desertos da universidade, de taguatinga. eu estava tão seca quanto o chão infértil dessa cidade e só queria que ele caísse sobre mim como uma chuva de verão.

voltei pra casa, me joguei no sofá. estava com a glicose no chão, mas não tão baixa quanto minha auto-estima. trim trim trim. e a chuva veio, mas com barulho de telefone.

segunda-feira, 2 de março de 2009

best of you


antes fosse o medo da solidão, mas descobri miseravelmente que é mais medo da sua presença ausente, o tempo todo me sondando.

antes fosse o medo do silencio, mas descobri que é bem mais o medo dos gritos dos meus devaneios mais certos.

antes fosse o medo do futuro, mas descobri que é bem, mas muito mais, medo das doses que eu não posso tomar.

antes fosse eu, mas descobri que é o tempo todo você.

domingo, 1 de março de 2009

lá em cima do muro tem um copo de veneno

'you say you're pretty young but it's too late, the show must go on and on'

percebi que algumas pessoas simplesmente nao se adaptavam a algumas coisas, e que eu era uma delas naquele momento. entao tomei nota do verbo desistir junto a palavra escolha e tambem da palavra coragem. pelo menos pra mim.

e entao eu nao quis dizer mais nada, por pelo menos uma vida toda que durasse uma noite. ou duas. mas eu estava entre uma face e outra da moeda e não estava apostando nada em nenhum dos lados, esperando que ela caisse em pé e nao pendesse pra nenhum dos lados: definitivamente eu sabia conviver com isso e viver assim quase sempre, em cima do muro. só esperando eu escorregar ou alguem ou algo me derrubar.

ainda assim seria minha culpa e minha glória.