sábado, 31 de julho de 2010

que importa, amor
as festas acabam
os livros são devorados pelas traças
o frio é implacável
e as flores insistem em nascer
pre-maturas,
mas não menos bonitas.

que importa, amor
as roupas mudam
as maquiagens são fúteis
eu me acostumo ao frio
e meu amor insiste em crescer
juvenil
mas não menos maduro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

flores

algo mudara profundamente em brasília. o rapaz cruzou seu caminho, pegou-lhe nas mãos, sorriu amarelo como nunca fizera. ela seguiu adiante. do outro lado do prédio de 1 km de extensão, como se não houvesse ninguém mais ao redor, recolheu uma flor para si mesma por saber que ninguém a presentearia com uma assim, sem aviso, ao natural. uma senhora cruzou seu caminho perguntando se toda a indumentária era teatro: não, era psicologia. mais um sorriso amarelo - parece que o mundo inteiro sabe que ela escolheu o curso errado... o homem sentava no mesmo lugar de sempre, ela tinha cores diferentes no cabelo. ainda assim, sorriu enquanto a via de longe e ela fingia que não sabia quem ele era - nem todas as coisas mudavam tão profundamente em brasília.
ela olhou o céu outra vez, como se fosse mais um setembro daqueles implacáveis, em que tudo muda. ele voltara pra sua vida outra vez, nada que uma tarde vazia não fizesse pelos dois. refizeram um dos caminhos que a marcara tanto, dos tempos em que irreconhecivelmente ela era doce e fazia carinhos em um alguém. inevitavelmente deram de cara com a drogaria: "nosso inconsciente nos carrega pra qualquer lugar de cura, não é?" ela sorriu enquanto caminhou por mais algumas quadras, sem perceber que tinha deixado o passado pra trás, sem poder ser quem ela foi ao seu lado.
"quem te deu essa flor? vai, não esconde, eu sei que tem alguém especial por trás disso" ele disse. "eu mesma? e antes que pergunte porque... porque ninguém vai me dar uma e entao eu mesma me dei." ela respondeu. "hm...". e seguiram por quadras e quadras até a flor ir de encontro ao chão. ele a recolheu e perguntou se ela queria que alguém lhe desse a flor. "porque não?" ela pensaria.

algo mudara profundamente em brasília. e não eram seus olhos.

domingo, 25 de julho de 2010

nas alturas

me deixo ficar alta
como solução
pra quem não aguenta mais problema
abanono uma matéria aqui
uma roupa suja ali
um amor acolá
a psicologia em todo lugar

nada de congresso
nada de chatice
nada mais de artigos inúteis
nada mais de gente pedante
chega de café
chega de calouro
chega de veterano
chega de questionário e análise fatorial
chega de aumentar currículo com nada

compro uma passagem
e a beleza da liberdade com uns trocados
errado era quem disse que felicidade nao tem preço
pelo menos tem uma taxa de colaboração...
deixo pra trás livros que amei
maquiagens que nunca usei
roupas que nunca vesti
amores que nunca vivi
e uma vontade de não viver
que me atormentou por dois anos

de ontem em diante só o melhor do melhor
sem amor nenhum
muitos desejaram que eu tomasse em um lugar em particular
mas sinto dizer que
de amanhã em diante
só tomarei no peru

quinta-feira, 22 de julho de 2010

viva S/A

então levei a ela chocolates, sem pedras nas mãos eu agora ostentava uma pedra no peito - geladinha, não era pura e era isso que a fazia mais bonita, com todas as nuances e contornos mágicos... sorrimos por horas, adiamos as obrigações por mais alguns minutos. festas em plenas terças à noite, matando elvis presley e cantando alto, ninguém precisa fazer escolhas quando se tem amigos: as coisas simplesmente acontecem da melhor maneira. queimamos um incenso, ouvimos um funk antigo e nos vestimos à la flashback. estamos vivendo e festejando como se fosse 1980 outra vez, somos finalmente nosso ideal e tomamos banho de chapéu.



viva! viva!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

reticencias

ela nasceu entre as tuas palavras e teus silêncios, entre os seus olhares perdidos no horizonte, as suas mãos de dedos compridos e palmas macias, o seu nariz perfeitamente posicionado no rosto, os olhos grandes por trás dos óculos e os sonhos que nunca compartilhou comigo: por toda a displicência inerente ao meu ser, pela minha frivolidade e minha explosão de energia momentânea. eu devo ter sido tua estrela cadente, não me deixei acreditar, apaguei.
ela então nasceu entre os sorrisos mais francos, livres e despreocupados, no peso da voz grossa. lembro das tuas orelhas de lobo preso e uma pintinha que se fazia passar por brinco, teus dentes alinhados, as unhas bem feitas - detalhes mínimos que me deixavam encantada e em silêncio. lembro das histórias que me contava, de quando a barba encostava o meu rosto nos cumprimentos, nos abraços mais seguros que já recebi.
cultivei-a entre as primeiras tentativas de palavras, timidamente. as primeiras metáforas, as primeiras tentativas de poemas, todas pra você. o receio me preservou de mim, os sonhos me atormentavam dia após dia com o teu rosto e os beijos que nunca tinha provado. lembro da primeira vez que tua pele tocou a minha.
deixei-a crescer devagarinho dentro de mim: minha poesia crescia exponencialmente enquanto não percebia que cedo ou tarde o mesmo oxigênio que me abastecia me colocaria em combustão para que eu virasse cinzas. minhas palavras já não se conectavam mais, estavam solitárias como eu - cronicamente solitárias, amargas, detestáveis. continuei a escrever pra que eu vivesse da lembrança dos meus erros: errei em não ser bonita ou inteligente o bastante, errei em ser eu, errei por ser consciente demais. mas continuei a escrever dia após dia, contando os dias sem sentido algum, sabendo que estava condenada a ser isso e nada mais.
ainda escrevia, ainda tentei dar vida a minha poesia. tua companhia constante me veio na primavera, na primeira chuva de setembro. eu sabia que inevitavelmente eu secaria e que nesse dia eu definharia, com ou sem você. ainda assim alimentei minhas últimas palavras pela satisfação de ver teus dentes alinhados, teus olhos com cílios grandes, as sobrancelhas grossas e as pequenas cicatrizes que revelavam teu passado. dei vida aos meus últimos traços pela satisfação de teus abraços e sorrisos que me eram tão caros, pela satisfação de te ver dormir serenamente ao meu lado. fingi que não me importava porque me apegar demais a qualquer lembrança me seria outra vez fatal. pela terceira vez desejariam minha morte.
cultivei ainda alguns versos desagradáveis, os textos cada vez menores, os desenhos cada vez mais pobres, eu cada vez mais alta. 10, 15, 20, 25. 30 mg. "não sei ser feliz", disse a outra. eu sabia que compartilhava de seu anseio pela melancolia crônica, pela falta de desejos para que nos poupássemos das frustrações. nos chamariam de covarde, eu diria que somos emofílicas. e ainda diria que temos o dom de estragar todos os sentimentos que tocamos.
a mulher me viu chorando, sentiu pena da condição humana em mim porque sabia que não poderia me amar, sabia que não haveria nada da pele para fora que me pudesse curar, era tudo questão de decoração interior. velou meu sono enquanto rezava buscando algum remédio que me salvasse de mim mesma, sabendo que nem a fluoxetina me tiraria do coma em que me encontrava. uma morta-viva de olhos de peixe e cabelos desgrenhados sempre, não importava quanto cuidado a ele dedicassem. senti minha poesia morrer quando vi você ficar pra trás no ponto de ônibus e pela primeira vez pensei que talvez todos os meus versos tenham sido pra você.

tudo em vão, que é só o que eu sei ser: vazia.

terça-feira, 20 de julho de 2010

dia 1

deixei a energia da vida fluir, como quem deixa a represa arrebentar. disse a ele dos erros que descobri, em vão. Ele não me ouviu em nada, disse que era cabeça-dura demais pra tudo isso. Disse que não se permitiu mais me amar, disse que era objetivo. Eu li só incoerência. Eu quis que ele e a objetividade dele se explodissem, que ele e os amigos dele se explodissem. Deixei um pedaço de mim perecer: aquele que se permitia dar a ele alguma chance de ser o que ele nunca teve espaço pra ser - alguém que se permite sentir e se apegar. Ele disse que me amou muito, eu sabia que isso também não fazia sentido algum. Hoje sei que perdi meu tempo de estar nos bares, meu tempo de viajar, minha oportunidade de ter me matado. (...)
passei 6 meses dopada. Ele não pensaria em nada, só diria a mesma coisa sempre, como disco riscado: eu sou cabeça-dura, eu sou individualista, eu te faço mal. Diria que seu amor muda sem aviso, como se fosse uma música do George Harrison. Diria que quer realizar sonhos, que quer aprender - mas ele é cabeça dura demais pra isso. deixei a energia da vida fluir: dessa vez eu embarquei num barco a motor, quem quiser, só entrar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

quase

ela voltou mais cedo pra casa pensando nas pílulas em cima da escrivaninha que deixara pra trás, alguém lhe perguntou se estava bem, ela obviamente desabou sem motivos aparentes. o carro azul destruído na traseira de um ônibus fez seu coração parar pela primeira vez na vida., o telefone estava mudo. não há tragédia insuperável e não há páginas em branco de futuro, talvez as tintas de algumas canetas acabem mais cedo. Às vezes a gente só precisa recarregar as baterias.

ela teve certeza que Deus a perdoaria pela coragem excessiva. E teve mais certeza ainda que ele lhe daria uma outra chance...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

unção dos enfermos

"nadie se curó se no se puso enfermo
 y es tan frecuente cuanto extraño
 se no puede hacerte daño
 no te harás feliz"

"quero estar em meus poemas, quero estar em minhas frases. quero me escrever em todo o canto, não aguento mais essa solidão, quero que me toquem. não posso viver de solidez, quero me desmanchar antes que me destruam. nego todos os meus desejos por um mínimo de controle, sou patética, sou mais ridícula que todos aqueles que critico, só sou consciente: a ignorância é minha maior bênção. quero dormir antes que eu me entorpeça, quero desaparecer antes das 6 da tarde. tenho uma certeza imbecil que me denuncia, tenho que permanecer parada nos 5 minutos que seguem meus impulsos. sinto uma agonia sofrível de um amor que brinca de esconde-esconde nos meus pensamentos: o amor-próprio, diga-se de passagem. Meus delírios estão em franca evolução, posso prever o futuro. e tenho medo.

estou doente, miseravelmente doente."

segunda-feira, 12 de julho de 2010

tudo ou nada

me acostumei a viver de incerteza, entre palavras, traços, desenhos, pinturas, esculpindo teu rosto em todo lugar por anos a fio. me encontrei entre a cruz e a espada, entre as cores que iam do vermelho ao preto e branco, das cores que faziam o cinza. sei como é ser uma mulher desinteressante como ninguém, sei como desistir antes de tentar como ninguém, sei como me contentar com meias palavras: por falta de rumo me deixo levar até mesmo por horóscopos. meu corpo agora é humano e só, sem o remédio e o veneno correndo no meu sangue. Sei bem como o tudo e o nada nunca serão suficientes pra satisfazer minhas vontades exigentes demais, aprendendo a viver um dia após o outro, coisa sofrível pra quem não carrega relógios no pulso. aprendendo a viver no frio, coisa sofrível pra qualquer pisciano que sabe que o gelo se derrete no primeiro raio de sol.

vejo uma mudança genuína nos teus olhos, que são só o meu reflexo. as roupas floridas denunciam minha nova obsessão por coisas vãs, mais uma que esconde o quão mórbida eu sou e eu continuo pintando os cabelos numa tentativa ridícula de entrar em combustão. hoje eu danço conforme a música e a companhia, já não alimento mais as bestas da raiva, penso um pouco mais antes de falar - ou não. ainda mudo de idéia conforme os ventos sopram - ou não. os porres de meio-fio, daytrips pra cidades próximas, rituais inteiros; deixo tudo pra ti, sem motivo algum e com todos os motivos do mundo, por saber que estamos ficando velhos e chatos como planejávamos ficar. o contrato foi cumprido, nossos olhos estão secos e cinco anos fazem de nós duas pessoas que eu gostaria de dizer que são melhores do que fomos ontem, mas que não posso dar certeza de nada. o futuro a Deus pertence, eu disse, e você me respondeu com o sorriso mais irônico que voce era ateu. Sabemos que estamos indo a lugar nenhum. Ninguém sabe quem são as pessoas... E as pessoas dificilmente saberao quem somos nós, os dois poetas mais miseráveis da nossa geração perdida.

Esperei pelo meu lirismo suave e doce, tive que lidar com a sordidez e desespero das minhas palavras. Eu nunca seria nada além disso, nem que eu quisesse muito - só se eu pretendesse viver em mentiras. "she's so... shiny hair, style column, Vera Wang. And I... I am the sex column right next to the ads for pennis implants". Ainda assim eu sabia que eu podia ser tudo o que eu já procurei naquelas páginas.

domingo, 11 de julho de 2010

adeus buenos aires

as fotos já se foram junto com os momentos
teus cabelos lisos e teu cigarro perderam o senso
o mais óbvio de nós dois
e o mais difícil de ser feito
que nunca seja dito
mas adeus, meu amigo
agora não te pinto nem em branco e preto

equinocio de inverno

 há um ano deixamos a cidade pra trás, há um ano deixei meus afetos pra trás. Fiz meus cálculos, desconsiderei a companhia com aroma de cigarro dele, as caminhadas na brasília noturna e notívaga, obtive resultados promissores. Vivi o dia mais longo do ano à beira-lago, envolta em fumaça e música: dancei conforme a musica, do jeito que me ensinaram. E sabia que a música logo não faria sentido algum, sabia que o álcool era traiçoeiro, quis dizer uma dúzia de palavras e só pude usar meus braços pra dizer alguma coisa. A noite era uma criança e nós menores ainda, só pude rir de tudo o que o trânsito dos planetas nos tirava sem saber que na verdade ele trazia uma nova condição, um grande e gigantesco presente.
Os homens cultuavam Vênus, prostitutas e a razão. Em shorts e maquiagem, nos faltava pouco pra subjugar todos os homens do universo. Ela me sorriu, outro brinde foi feito: se não podemos deixar a cidade para buscar a estrada, que a estrada venha até nós.

Amém.

terça-feira, 6 de julho de 2010

cartas de despedidas - e despejos

Lembro do bar, da nossa primeira noite juntos pelo excesso do que fazer e a falta de vontade de fazer. Lembro que ainda era capaz de nadar mesmo com o peso que me puxava para o fundo, mas lembro que era porque eu deixava a correnteza me levar. Lembro de todos os trabalhos que nao serviam pra nada, do desperdício de tempo que a gente chamava de graduação e da desesperança que nos unia em algo que por ilusão apelidamos de amizade.
Lembro com tristeza profunda mas não com menos orgulho de tudo que já vivi. Me vem à cabeça o cheiro do cigarro dele, o toque de setembro, os cabelos longos e todo o resto de mim que tinha deixado pra trás quando resolvi deixá-los pra trás. Me vem à cabeça as risadas mais superficiais que já compartilhei, meus talentos não-usados, minhas fugas noturnas, minhas crises de ausência. As noites vazias, sem entender porque as companhias não eram mais sentidas.
Lembro das camas, dos motivos e das viagens. Lembro de um abraço recebido no meio do corredor da unversidade, ele tinha o cabelo manchado e a risada mais doce que eu já tinha visto. Estar com ele era sentir a brisa bagunçar os cabelos numa tarde livre qualquer. Lembro das tentativas de se morrer, lembro das ambulancias, lembro dos hospitais e dos carinhos recebidos numa roda de samba. Lembro do primeiro avião e da rodoviária, lembro da luz vermelha que já se apagou sem motivo algum: a gente sabe que tudo termina, mas que as vezes nao é justo.
Sei bem da sensação de estar sozinha, lembro dos 6 meses que vivi em coma: vazios, sonolentos, helplessness. Lembro da vez que você me fez chorar no estacionamento não pelo dito, mas pela minha ilusão de que você seria sensato. Lembro das férias de verão, do calor infernal, do prozac no café da manhã, da recepção que te fiz com os olhos vermelhos de saudade. Lembro do teu desgosto e das mentiras que ele dissera que você não devia me contar. Esse foi meu segundo grande desgosto. Lembro da maneira como tentei reunir os dois.
Lembro da letra de música que dizia que um grande amigo jamais deixaria o outro na estrada, sem saber que pegar um ônibus era o de menos, o pior mesmo era que eu que jamais te dei as costas, ficaria no acostamento a espera de um conserto.
Lembro do álcool, lembro das festas, lembro das curas. A certeza era amarga, a paz era necessária e eu só percebia o quanto as referências só me fariam mais perdida. Ele sorriu pra mim: se tu não puder ir até a estrada, eu trago a estrada até você. Eu sorri pela primeira vez em dias: Benvinda de volta.