sexta-feira, 13 de setembro de 2013

nao consigo te fazer poema nem verso
nem linha nem nota
nem letra nem música
nem artigo
só indefinido...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

no fim das contas nosso amor não passou de origami de papel levado ao vento, sempre prestes a ser amassado. frágil e tão destrutível. como aquele livro que tu me deu um dia, em uma língua que nunca vou ler sobre algo que eu nunca vou saber fazer bem, você ama me torturar com a ideia de que eu não vou ser o bastante. mas hoje eu sei que eu sou demais. demais pra você.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

de repente me bateu uma tristeza por toda a vida que escorre pelas mãos das pessoas ao meu redor, aqueles que nunca experimentam a adrenalina do descontrole - que é coisa cotidiana, que é a vida, afinal. como eu fiquei triste. porque a vida é tao preciosa e tão pequena, tão frágil mas tão intensa. como as ondas que se formam no mar, que nos arrastam mesmo que a gente as parta ao meio com a nossa presença insistente, que não sai do lugar ainda que todo o mar se mova na direção oposta. a vida é isso se assim você a vê: algo a enfrentar e não algo que te leve. a vida é inevitável e vai na direção em que ela quiser. ou o destino, sei lá. e nós somos só pequenos grãos de areia revoltos no fundo do oceano... que ou sedimenta e vira pedra ou se deixa levar pela corrente. o mar sabe o que faz. e a vida também.

eu quero é nadar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

é que eu amo a secura, os espaços vazios e a distância que transformam tudo ao meu redor em horizonte.

terça-feira, 30 de julho de 2013

o ano era 2009 e eu definitivamente tinha meu próprio Dean Moriarty, com quem eu começava a enlouquecer um pouco também, um dia de cada vez. M. A. simpatizou com meu jeito ingênuo, desbocado e sentimental demais de vi-ver o mundo ainda em 2008 quando eu tinha 18 anos e - oh my! oh my! - uma vida pela frente. Essa vida que me acreditavam promessa mas que para mim parecia o prenúncio de uma colisão entre ela e eu. Ao ouvir essa máxima de vida pela frente a imagem que invadia meus olhos e inudava meu corpo era de um trem vindo em minha direção, implacável, irrefreável e com vários vagões pra passar por cima de mim, entre mim, sobre mim. E um entorpecimento me abatia subitamente quando eu pensava nisso. E os anos que já tinham passado? Os anos que ficavam atrás de mim iam sendo enterrados e virando promessas, mas promessas de arqueologia. Fósseis que talvez um dia fossem resgatados.
Ah, eu sempre me perdendo em devaneios aparentemente desconexos. M. A. era um cara interessante, tão monótono que era interessante. Angustiado, tão agitadamente angustiado que frequentemente se via paralisado pelos seus dilemas, entre as tradições de conveniencia e seus desejos súbitos e espontâneos, sem planejamento. Ainda lembro a primeira vez que tive algum tipo de contato mais duradouro com ele. Eu ali, 17 anos, caloura na universidade, rabiscando as últimas folhas do meu caderno com pequenas caricaturas. Ele e alguns amigos, todos quase no final do curso, batendo papo no centro acadêmico de psicologia. M. A. tinha longos cabelos lisos, negros como as nossas visões de futuro seriam em alguns anos. Seus olhos eram puxados, bem japonês, todo caricato. Nessa época eu costumava iniciar interações sem contextos específicos, sem parágrafos, sem introduções. "Olha, seu amigo, ele é bem desenhável, tá vendo? Ele é uma caricatura..." e continuei rabiscando. Alguém sugeriu que eu desenhasse ele, oras. Rabisquei aqui e ali, uma dúzia de traços e finalizei o pequeno rascunho de M.A., pra quem eu timidamente entreguei o pedacinho de papel irregularmente rasgado apontando o que tinha feito. "Uaaaau, cara! Olha só que doido... sou eu, olha, olha!" e quando terminou a pequena exibição aos amigos guardou o pedaço de papel na carteira, prometendo grudar na parede de sua casa que eu sequer imaginava onde podia ser. Ele parecia ser tudo que eu queria ser: viva, espontânea e com uma grande pitada de i dont know and i dont care que os longos cabelos negros dele exalavam quando ele passava por mim, sem notar na minha presença inesperadamente discreta. Ele realmente não se importava com nada e nem podia se importar: estava tão ocupado com a monotonia de uma vida desregrada que não podia prestar atenção a nada. e eu de novo me equivocava: ele não era a vida que escorria dos atos espontaneos dele que me comoviam, mas toda a tensão que ele criava entre esse impulso de vida louco e maravilhoso que germinava no interior dele e o impulso de matar essa parte dele que queria viver demais, de calar essa parte dele que queria falar demais, de cegar essa parte dele que via demais, que fervia demais. e isso o tornava uma contradição ambulante das maiores que eu já tinha visto, e eu sentia a fragilidade do ser humano sempre que nos aproximávamos nos nossos íntimos contatos distantes... tanto a fragilidade da humanidade dele quanto da minha, e isso me fazia sentir mais humana, mais viva. mas também cada vez mais ávida pela morte, cada vez mais impulsiva e auto-destrutiva. O que é viver se não um exercício constante de morte? Quanto mais oxigênio o fogo respira, mais intenso ele queima e mais rápido consome tudo ao seu redor até que ele mesmo, vítima da própria tragédia, algoz de si mesmo, se extingue no vácuo que só ele poderia criar. Ahhhh, era uma cilada.
M.A. nasceu no mesmo ano que o irmão mais velho que eu nunca tive. E não foi o irmão mais velho que eu não tive e nem o que tive. Ele simplesmente não foi - e nem ficou. Nunca saberei dizer se me apaixonei por M.A., só posso afirmar que o amei, amei, amei com todos os motivos e sem razão nenhuma. Eu realmente tinha o meu próprio Dean, e lembro como se fosse hoje daqueles dias em que eu naufraguei. Eu estava à deriva mas eu sabia que navegar era preciso - pra onde quer que fosse. Quem poderia condenar meus rodeios quando eu só estava mesmo perdida, sem rumo, sem bússola que me apontasse o norte da vida? Até mesmo o mundo dá voltas - porque eu haveria de fazer diferente?

domingo, 23 de junho de 2013

minha poesia se cala a tua ausencia presente, na tua presença ausente, como quem não pode calar o que fala mas sabe que sufoca sempre o que quer dizer. eu vejo teus olhos escuros, vazios, vácuo. como dois buracos negros que me fazem virar pó sempre que os olho diretamente. primeiro viro pedra, como se tu fosse medusa, e então eu viro pó, despedaçando em partículas tão pequenas que se perdem pelo ar. e os seus olhos, sempre os olhos. os olhos vazios como a ausência que você faz questao de fazer presente entre nós dois. o silêncio ecoa enquanto por uma fraçao de segundos ou por uma eternidade eu me pego imaginariamente circulando os teus olhos como quem anda ao redor de um poço muito fundo sem saber se tem água lá no fundo ou se é só um buraco mesmo onde a gente se enfia e tem muito problema pra conseguir retornar à superfície. me pergunto se já habitou algum dia neles alguma vida... sei que voce quis olhar fundo nos meus olhos, mas só porque no brilho deles você conseguia se ver, como narciso quando encontra o espelho pela primeira vez sei que voce encontrou essa imagem fantástica de você no brilho dos meus olhos castanhos quase negros que ja viram coisas que minha boca nao pode testemunhar. nao produzo provas contra mim.
***
enquanto voce vinha em minha direção eu fingi que não o vi e desviei o olhar pra baixo como eu costumava fazer sempre que eu me sentia constrangida. sei que voce fez o mesmo. enquanto eu arrumava minhas coisas na pasta vi que voce fazia hora, e isso acalentou meu coração. o pensamento que isso disparou na minha cabeça era de que voce ainda me queria a despeito de tudo e de todos. fiz questao de desfazer esse auto-engano sustentado por provas muito questionaveis. voce disse tchau pra todos que ficaram, e eu nao conseguia dirigir meu olhar a voce, extremamente envergonhada dos meus desejos, e provavelmente mais ainda dos seus por mim. e de desejar que voce me desejasse de tal maneira.
***
naquele dia voce me disse que se lembrava de mim comprando um violão, com um vestido longo e estampado, com os cabelos azuis. eu ri desconcertada porque apesar de a loja ser pequena não lembro de ter te visto lá. eu era péssima pra lembrar de rostos, e eu me sentia mal por não lembrar do seu, que eu julguei tão bonito enquanto você me contava isso. naquele momento não notei que você provavelmente era um par ou dois de anos mais novo que eu e que você ainda tinha espinhas nascendo aqui e ali, e que a barba mal crescia. apenas sorri desconcertada, nervosa. e desatei a falar, coisa que eu faço quando fico ansiosa demais. voce se despediu de longe, eu apenas acenei sorrindo sem mostrar os dentes.
***
quando entrei na sala voce estava diferente, como se pela primeira vez seus olhos brilhassem tanto que pegavam fogo. um fogo que eu nunca tinha visto nos seus olhos sem vida, mortos, estáticos. seus olhos continuaram pegando fogo durante toda a aula, e eu tive medo que aquilo me consumisse. no fim da aula voce perguntou se eu queria um sorvete. como se soubesse que eu sou facilmente corrompível por doces. aceitei constrangida e enquanto dava as primeiras colheradas no sorvete corri até voce sorrindo e dizendo obrigada. naquela tarde, enquanto eu lia sentada em um sofá no patio senti que seus olhos estavam colados em mim tentnado decifrar o que eu pensava enquanto lia aquele volume tao bonito de luto e melancolia qeu eu tinha comprado na semana anterior. o que eu poderia estar pensando enquanto lia luto e melancolia do freud com um meio sorriso no rosto?
***
enquanto eu caminhava pelo salão vi voce ali parado, como se esperasse algo acontecer, algo extraordinario. eu me senti ambivalente: queria que voce me visse mas queria me esconder de voce. escapei em todas as vezes. mais tarde, inevitavelmente, enqaunto eu dançava com meus amigos o seu amigo se aproximou de mim, e eu o fiz rir. ele naturalmente tocou meu ombro dizendo que eu era uma pessoa muito engraçada. voce tambem riu, mas discreto, e disse depois mais baixo, se curvando pra se aproximar do meu ouvido que voce tambem me achava muito engraçada. todos interagiam, e eu tentava me engajar naquilo mas sempre me vendo de longe, contando os passos, pensando que queria ficar do teu lado mas que não podia ficar perto demais. na primeira oportunidade me aproximei de voce mas mantive uma distancia de segurança. que voce nao respeitou, me tocando sempre que podia pra esclarecer algo que eu nao havia ouvido bem entre as batidas altas de musica. ali estavamos nos dois, parados no meio da pista de dança conversando como se estivessemos em um café ou em um corredor da universidade. durante mais de duas horas. volta e meia alguem questionava porque nao estavamos dançando, apenas franziamos os ombros como quem responde 'não sei mas nao me importo'. eu estava ali, sem me vigiar, sem contar os passos. eu e eu éramos uma de novo. e pouco antes de eu ir embora, me calei. quando aquele ex caso passou por mim e me cumprimentou como um velho conhecido, me abraçando e me beijando calorosamente na bochecha-quase-na-boca voce se silenciou. ele foi embora e o silencio ficou pairando no ar. olhei as horas no meu celular, liguei pra minha carona que disse que estava indo. mais silencio. voce entao se curvou em minha direção levemente e com um ar de menino travesso que vai aprontar alguma me confessa eu sei que nao deveria fazer isso, mas não consigo mais evitar, eu tô doido de vontade de ficar com voce. e enquanto eu reunia a força que me restava do embate que eu passava por dentro de ambivalencia voce me tomou sem moderação em um beijo que pra mim durou a  vida toda. um beijo que eu sinto até agora nos meus lábios. a sua mão nas minhas costas aproximando meu corpo do teu. me desvencilhei vagarosamente do teu abraço e disse que não podia, que eu era... e então voce me beijou outra vez, me calando. me fazendo engolir minhas palavras com a nossa saliva. seus labios eram macios e suas maos eram firmes. eu senti meus joelhos vacilarem. olhei voce e pedi pra que ao menos saíssemos da pista de dança. quis segurar tua mão mas nao podia. parei na sua frente assim que voce escolheu um ponto na varanda perto do lago. estática. voce logo continuou de onde paramos. eu nao sabia se era a fome, o remedio ou a falta de agua mas eu me senti flutuar por alguns instantes, voce se contendo, tenso, como se fizesse algum esforço pra não cruzar as linhas. meu telefone tocou anunciando minha saída, voce me acompanhou ate a porta e se despediu de mim com um abraço demorado dizendo no meu ouvido que tinha sido divertido. ha sido divertido me equivocaria otra vez, quisiera haver querido lo que no he sabido querer. eu disse o mesmo e fui embora sem olhar pra trás. naquela noite passei todo meu sono sonhando contigo. acordei sem saber o que tinha acabado de acontecer.
***

voce logo parou de onde continuamos...

domingo, 16 de junho de 2013

tudo parece pequeno no meio do deserto, do tamanho de um grão de areia solto na vastidão do universo árido. e o céu vai te engolindo, e você já não sabe se é o chão que cede ou o céu que passa. e você fica. você permanece com a areia do deserto, em constante movimento. o vento paciente do deserto move montanhas, e nada é o que foi há um segundo atrás. no deserto tudo é contradição. tudo é pequeno, se perde nas vistas. e tudo é gigante. é imenso. você, uma das poucas formas de vida em quilometros. sua vida é absoluta no deserto. e voce tambem, e tudo o que voce sente. mas entao aí está a grande contradição: os problemas simplesmente se reduzem a pó, é tudo poeira, é tudo pedra, é tudo matéria. tudo é gigante no meio do deserto, até mesmo o início e o fim...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

eu estava ali, contemplando o olho do furacão, de longe. prestes a me jogar no meio da tempestade.
porque era tão dificil dizer que eu não estava bem? talvez porque nem eu quisesse me dar conta de que eu estava em pedaços, que eu ainda estava desmanchando na chuva como se fosse feita de açúcar. minha única vontade era voltar a deitar na cama e esperar o sono me abater, o amor me bater e a vida ter. eu tinha ido a nocaute outra vez, depois dos seguidos combates que travei comigo mesma. e eu não tinha mais dinheiro ou coragem suficientes pra viajar, pra fugir. eu estava encurralada. encurralada pelos meus não-desejos.
na verdade não sei precisar quando isso começou e nem porque, não sei precisar o que causou esse mal-estar com o qual constantemente me deparo ao viver uma vida ordinária. talvez tenha sido gradual, ou talvez eu tenha acordado um dia me sentindo péssima e tenha ignorado o fato. minha memória tao boa me trai nesse momento. talvez eu tivesse 16 anos ou 18. talvez eu tivesse os dois. com 18 anos eu vagava como o fantasma de alguém que não percebeu que morreu pelos corredores da universidade, trocando o dia pela noite, tendo sonhos vívidos demais - ou vivendo uma realidade surreal demais. eu tomava meus primeiros porres, frequentava aquela sinuca no subsolo de uma rua escura até de dia na 13, sentia um horror à vida quando o relógio marcava as seis da tarde. nas tardes em que eu não conseguia sair do campus eu caminhava até a biblioteca, e entre as estantes cheias de romances de literatura estrangeira eu sentava, folheando os livros mais velhos que eu, me inebriando com aquele pó que resistia à vida na universidade como ninguém nunca resistiu. e então eu escolhia uma sombra qualquer no gramado pra me deitar, e lia, e mudava de lugar de acordo com a sombra, e lia, e cochilava. ninguém percebia minha presença ali, e eu me questionava se por acaso eu realmente já não teria morrido e tinha me tornado invisível. uma as-sombra-ção que só podia ser vista sob a luz do sol. e eu insistia em me refugiar nas sombras.
perdi a conta dos romances que comecei a ler naqueles gramados. entre goethe e marques de sade, simone de beauvoir, leituras obrigatórias pra uma das 5 matérias que eu fazia na época. ninguem pode dizer que eu nao lutei, que eu nao levei as coisas até suas últimas consequencias. que eu não tentei me encaixar no resto do mundo pra ver se minha existencia passava despercebida por mim, engrenagem dessa engenhoca moderna todo que insistimos em chamar de vida. comecei a tomar café pra nao ceder ao cansaço da insônia, a comer chocolate amargo. eram os unicos sabores que nao me lembravam que um dia eu já soube provar o doce.
eu ia cada dia mais preenchendo os vazios da minha grade horária com matérias obrigatórias, horas de laboratório, horas na empresa. menos horas pra mim e pra minha miséria, sem perceber que era ela que preenchia praticamente todos os horários. nesse tempo meus melhores amigos eram um menino deprimido e um brilhante escritor pra sua idade de 16 anos, um cara melancolico da psicologia de 22 anos que ja tinha desistido de outros dois cursos e um cara engraçado da psicologia de 23 anos que estava quase formando. e nenhum deles sabia o que queria (da vida), assim como eu. a vida era um porre de whisky sem gelo, de jack daniels, que tinha um gosto amargo e que descia quente pela garganta, lembrando que tudo que temos por dentro é vivo, é ferida aberta.
e quando eu me embriagava aquele cara de 22 anos me oferecia o ombro pra recostar minha cabeça pesada e tonta, e dizia que as coisas estavam bem. e aquele cara de 23 anos me levava pra casa enquanto me fazia comer meia dúzia de balas de menta pra que ninguém notasse que eu era puro álcool. e eles cuidavam de mim, e me faziam rir pra que tudo aquilo não se tornasse tragédia. e eles viam um brilho meu que eu não conseguia enxergar e alimentavam esse fogo, com medo de que isso se extinguisse, com medo de que eu me apagasse e virasse cinza, como praticamente todo o resto que nos rodeava. eu só tinha 18 anos, eles diziam, e uma vida toda pela frente. e isso me assustava.
esse brilho que eu nunca consegui ver, esse fogo com o qual eu queimava todo o ar ao meu redor, pra mim eram queimaduras, era a intoxicação da fumaça. de dentro da chama a gente só vê o escuro que nos cerca. só vê as sombras daquilo que iluminamos. qual a vantagem de ser brilhante se tudo que vai estar ao seu redor é a sombra ou então a cegueira de olhar direto pra luz? e cada dia eu lia menos, cada dia eu desenhava menos e cada dia eu me tornava mais silencio de mim. cada dia eu fazia menos daquilo que nós só podemos fazer quando estamos vivos e fazia mais e mais aquilo que os mortos fazem: nada.
e então eu tinha 19 anos, e aquela vida toda que eu via pela frente me parecia ameaçadora vindo em minha direção rápido demais, como se fosse me atropelar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

(...) gostaria de voltar a desenhar. rabiscando entre as aulas, entre as linhas. suspiro. porque nao consigo mais desenhar? porque o vazio que sempre se abre em mim insiste em me sugar, em me consumir pra dentro de mim mesma? como se, não podendo caber em mim, eu fosse obrigada a escapar, a me esvair de mim. me consumo quando consumo um pedaço a mais de doce, um pedaço a mais de pizza, um pedaço a mais de obrigação. suspiro. e a vida cotidiana me massacra, vai passando por mim sem pedir licença, esbarrando nos meus desejos, derrubando minhas vontades, meus deveres. e aí me vejo prostrada na cama. a vida cotidiana vai me atropelando, passa como se apostasse corrida enquanto eu só quero mesmo é passar como bloco de rua, carnaval sem fim. e a vida cotidiana transborda, inunda o mundo como um oceano de pequenas obrigações, pequenas repetições inéditas. suspiro. e eu, peneira, vejo a felicidade passar como pequenos grãos de areia perdidos na correnteza louca, sem conseguir reter nada além da efêmera, fugaz sensação de ser atravessada por essas partículas tão pequenas da existência chamadas alegrias. e o resto fica em mim, com o peso das rochas que levam vidas pra se desfazer em poeira. suspiro. gostaria de voltar a desenhar, mas ao invés disso só consigo permanecer sentada assistindo o desenho dos rastros que a vida cotidiana deixa quando passa por mim. suspiro.sobreviver é fácil, difícil mesmo é quando a gente tem que viver a vida sem preposições, só verbos...  sus(piro)

terça-feira, 4 de junho de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

me põe na linha das tuas canções
nas cordas bambas das nossas guitarras
rápido, mas sem derrapar
nas curvas dos nossos sorrisos
na batida em que nos embalamos
nos perdemos sem perder o ritmo
me toca, me tira de ouvido
me canta, dança comigo
solo em mi sustenido
(tu me traz insônia com esse acorde impossivel)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

leve

me toma
me engole
como veneno
como remédio
me leva contigo, leve
me leve à loucura
só não me leve a sério

sábado, 25 de maio de 2013

quando eu pinto nao tenho de perguntar quem eu sou, porque eu sou, eu só sou, sou. sou aquilo que pinta, aquilo que fica entre a tinta e tela, ou o que fica entre o lapis e a folha. aquilo que fica - sem ficar, só indo - no ar. o movimento, a fluidez. como se numa poesia eu fosse aquilo que fica entre as palavras, entre as linhas. aquilo que não se pode escrever, aquilo que não se pode pintar nem desenhar. eu sou aquilo que escreve, aquilo que pinta, aquilo que desenha. e aí eu vou me descobrindo aos poucos - prazer em conhecer! - quando vejo o que já fiz. não é que eu me imprima nos papeis, mas eles são a mais pura impressão de mim.

sexta-feira, 22 de março de 2013


meu avô nunca foi um cara bacana, nem um cara rico. meu avô colocou algumas vigas em brasília, foi operário na construção da cidade. trabalhou de caminhoneiro muitos anos pelo brasil e nos arredores, indo até onde o chão pudesse alcançar. ele cruzou mais fronteiras do que se possa imaginar. (...) meu avô era um cara semi analfabeto que passou fome e sede no meio do ceará. pobre, preto. mas que ensinou ao meu pai o gosto pelas letras. hoje meu avô morreu. e dele eu herdei fortunas que nunca foram testamentadas: meu pai, a cor da minha pele, a capacidade de me reinventar e a vontade de ganhar o mundo.

que seu espirito esteja em paz.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

gosto de pássaros
de desertos
do cerrado
do sertão
das matas
de ver o mar
de olhar as nuvens
gosto de dias ensolarados
gosto de noites estreladas
e de dias de vento frio, mas ensolarados tambem
tenho um fascínio por torres
por construções humildes
por construções suntuosas
gosto de ruínas
e de tudo aquilo que brota em meio a aridez
desafiando a secura
me fazendo lembrar que algo lindo
talvez, um dia, quem sabe?
possa florescer tambem no meu coração cerrado
gosto de livros
de poesia
gosto da melancolia dos poetas incompreendidos
e também do delírio desses
gosto de flores
de folhas
de plantas
do pé, de folha e de prédios também
de paisagens da natureza
de rios
de lagoas
de praias
de mares
de ares
de bares
gosto de vida em forma de animal
bois, cavalos, jegues
insetos
animais domésticos
animais selvagens
flamingos, gaivotas, garças
pardais, vagalumes

ah, gosto de cactus!

gosto das luzes
gosto do fogo
e dos de artifício tambem
gosto de gatos
de expressões espontâneas
gosto de rostos humanos
do corpo frágil
do corpo forte
do corpo nu
de mãos, braços, narizes
olhos e sobrancelhas
gosto de cabelos
gosto de bocas
e tenho uma tara por papel
gosto de cores que se misturam
de auroras boreais e de arco iris
de crepusculos e nascer do sol
gosto de luas cheias
gosto de outono e de primavera
gosto do verão e do inverno
gosto de cores que nao sei definir ao certo quais sao
gosto de paisagens urbanas
de arquiteturas planejadas
e arquiteturas espontaneas
gosto de calçadas
de estradas
gosto de mapas
de tarot e dos astrais
gosto da rua
de árvores
gosto de detalhes banais
daquilo que não é
mas acaba sendo pelo meu olhar

gosto de fazer retratos das coisas
e de pintar paisagem de gente