sexta-feira, 13 de setembro de 2013

nao consigo te fazer poema nem verso
nem linha nem nota
nem letra nem música
nem artigo
só indefinido...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

no fim das contas nosso amor não passou de origami de papel levado ao vento, sempre prestes a ser amassado. frágil e tão destrutível. como aquele livro que tu me deu um dia, em uma língua que nunca vou ler sobre algo que eu nunca vou saber fazer bem, você ama me torturar com a ideia de que eu não vou ser o bastante. mas hoje eu sei que eu sou demais. demais pra você.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

de repente me bateu uma tristeza por toda a vida que escorre pelas mãos das pessoas ao meu redor, aqueles que nunca experimentam a adrenalina do descontrole - que é coisa cotidiana, que é a vida, afinal. como eu fiquei triste. porque a vida é tao preciosa e tão pequena, tão frágil mas tão intensa. como as ondas que se formam no mar, que nos arrastam mesmo que a gente as parta ao meio com a nossa presença insistente, que não sai do lugar ainda que todo o mar se mova na direção oposta. a vida é isso se assim você a vê: algo a enfrentar e não algo que te leve. a vida é inevitável e vai na direção em que ela quiser. ou o destino, sei lá. e nós somos só pequenos grãos de areia revoltos no fundo do oceano... que ou sedimenta e vira pedra ou se deixa levar pela corrente. o mar sabe o que faz. e a vida também.

eu quero é nadar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ah, e todas as coisas que eu quero fazer contigo por causa disso que nao cabe em mim e transborda, transborda e atravessa o oceano atlantico e deságua no seine. eu me a-lago e transbordo e é isso, sem mais. e nosso a-mar desemboca no rio de janeiro, lindo lindo.

ahhh... eu, voce e la mar. 

sábado, 10 de agosto de 2013

que culpa tenho eu, no fim das contas, de prezar mais pelo desconhecido do que pelo que eu take for granted. que culpa tenho eu, me perguntei durante anos, sem perceber que nao havia brechas pra culpa, apenas espaços pras responsabilidades. "que culpa tenho eu?" ecoou na minha cabeça enquanto meu coração insistia em doer, em se fazer presente no meu peito, em sei lá. em bater.
que culpa tenho eu de prezar mais pelos meus desejos, ainda que desconhecidos, do que por todos os outros desejos ao meu redor? oras ,como posso eu agradar e satisfazer os desejos de alguem que nem sabe o que quer? no fim das contas, eu estou quites com todo mundo...
 mas que culpa tenho eu?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

é que eu amo a secura, os espaços vazios e a distância que transformam tudo ao meu redor em horizonte.

sábado, 3 de agosto de 2013

and all that jazz

- as small talks, eu num frenesi raro de mim, como se estivesse de novo no auge de mim, sendo aquilo que eu queria e coisa e tal e de repente, assim, pof, eu caio em mim. aquele tédio assustador e ao mesmo tempo consolo, aquela sensação de estar na inércia, pairando no ar como uma folha que perdeu o chão mas continua no eterno movimento da vida. eu caí em mim. eu que até algumas semanas atrás era anestesia senti o calor do entusiasmo pela vida ser injetado lentamente em minhas veias, comprando livros sem parar, todos eles, e todas as tintas que eu precisava, lápis, borrachas, pinceis, papeis, tudo tudo tudo que sempre esteve ali na minha frente e ao meu alcance e o que me faltava era a força pra ir buscar, to come and get it. sentindo pela primeira vez que a vida se ofertava, se dava como eu me dava nas camas, de pernas e ventre aberto, fértil e esperando ser fecundada. Uma vida fértil como eu sonhava anos antes, em que eu mergulharia nos livros e desenhos e pinturas. E de repente eu caí em mim com o mesmo entusiasmo que eu pairava - ironicamente - e... junto com o desejo voraz de não só existir mas de viver me vem a sensação devastadora de que há tanta vida em todo lugar para experimentar e que uma só de mim e uma só vida não são suficientes pra desfrutar de todos os prazeres e dores do mundo devidamente, com o paladar aguçado, sem deixar um gosto camuflar o outro, sem engolir tudo às pressas. - e será que por isso eu era tantas e não era nenhuma, e será que por isso eu insistia em (me) matar e (me) morrer tudo que encostasse só pra que pudesse viver novas vidas?
E então eu tinha 23 e eu sentia o peso vazio dos primeiros sulcos que se abriam na minha face, as erosões do tempo no meu rosto, fruto dos meus excessos de choros e risos e da enxurrada sentimental na qual eu sempre me deixava carregar e na qual eu  insistia em ser carregada, sem nunca de fato segurar nos resgates que me ofereciam. Porque eu sou peixe, e talvez sereia, me sentindo confortável por um lado e extremamente sufocada pelo outro fosse na terra ou fosse no mar pelo simples fato de não conseguir ser nem plenamente mulher nem plenamente peixe, coisas dessa minha indecisão que sempre pesa escolhas, escolhas, escolhas demais. 
ah, e as small talks que pra mim poderiam dizer tudo, que eu queria que dissessem tudo aquilo que a gente não podia falar. Eu sinto tua falta, porra! E que crime há em amar assim, instantânea como café solúvel em água quente, forte e evaporando mas sem deixar tua sede na mãe, de uma vez, sem tempo de duvidar nem de ter certeza? Que crime cometo eu - que merece tais punições de mim mesma - quando tendo te visto uma meia dúzia de vezes, sem muitas palavras, e sinto que te amo assim, estranho, desconhecido, improvável e cheio de possibilidades livres das minhas pirações de insegurança, culpa e ciúme que insistem em fugir de qualquer tipo de compromisso? Que crime tenho eu, pesando tudo a minha volta, em querer viver de amores leves como as nuvens disformes que pairam sobre as nossas cabeças sem nunca despencarem quando nós queremos? Deixo que se precipite sobre mim, porque pra mim o único amor é o precipitado, que vem de repente, verão ou inverno, e que nos pega desprevenidos. que nos molha e que às vezes é celebração mas que às vezes é fastio, é excesso, e que me dá umas ânsias de vômito porque é demais - demais, demais pra mim! E eu não posso dizer nada disso se não exprimir em pequenas palavras, em small talks o que eu sinto, o que quero e às vezes nem quero dizer mas sinto que devo dizer e espalhar pelo mundo como coisa contagiosa - espalhar minha loucura e confusão pelo mundo como coisa contagiosa, que na verdade é apenas meu desejo de denunciar a loucura e confusão do mundo que nós criamos e criamos todos os dias. E então se eu posso dizer, sem saber já sabendo o que sinto, então não encontro palavras que se encaixem logicamente. e então eu me deixo escrever em palavras sem graça e... com toda minha ânsia de correr o mundo - eu quero ser uma garota independente -  e lá vou eu saltitando de destino em destino, plic plic plic, pingando no mapa mundi como chuva também, me precipitando sobre a vida como eu quero que o amor se precipite sobre mim, como eu quero que você se precipite sobre mim no verão, mas com um medo dos diabos de que tua chuva seja tempestade e que me leve pra longe de mim e que eu não consiga voltar se tua correnteza me abandonar à deriva de qualquer outra onda. 
e aí eu caio na estrada, caio em mim, caio caio caio, porque andar sobre dois pés às vezes me parece presunção demais da humanidade que quer sempre estar em um patamar que julgam acima da animalidade bestial e selvagem que eu tanto adoro. lutando contra as forças de toda natureza sempre... um tédio, uma luta que todo mundo já sabe bem o final. assim eu me explico pra quem queira entender porque me entrego - como quem sabe que tem culpa no cartório e fora dele - e estou sempre entregue, sempre entregue a essas torrentes de selvagerias emocionais... é a minha natureza. 
e então me vejo ali, naquelas palavras que devem dizer tudo mas que pra mim já não dizem nada. minha loucura assusta como a loucura do amor dos outros por mim me horroriza e me espanta, como se eu fosse pega desprevenida sempre pelas admirações que não busquei. trabalhar, NYC e cair na estrada até LA passando por Frisco, Seatlle, ou aonde a estrada e minha carne me levar - porque também o coração é feito de carne, e então coisas maçantes da vida e aí paris, paris, paris! minha cura e minha doença, meu veneno e meu remédio... mais veneno, porque para ser remédio é preciso que seja tomado com a disciplina das doses homeopáticas, e a disciplina nunca foi virtude minha. E aí Paris e aí o que? Longas caminhadas pelo Musee d'Orsay, e pintar os amantes promissores na ponte dos cadeados em frente ao Louvre, e ficar marginal, ali em volta do Seine na madrugada quente-demais-pra-Paris bebendo vinho barato e divagando sobre toda a poesia que eu jamais vou escrever e toda a música que tu jamais vai tocar- ah que tristeza que a vida moderna é - e bebendo teus beijos em doses vertiginosas que me fazem rodar mais que a roda gigante da Place de Concorde. e depois teu peito nu e quente, lacrimejando gotas de suor, chorando o calor ao qual eu estou tão acostumada e que eu amo sem moderações. e depois teus tintilos improvisados pelo piano, teus dedos passeando rápido demais pelas teclas fazendo aquelas coisas que me fazem estremecer como se cada nota que você tocasse na verdade fosse um toque em uma diferente parte do meu corpo desconexo. aqui, sol, lá. mi mi mi mi. sem dó de mi, nenhum. fa fa fa fa. si si si si. tudo si, nada de não e essas coisas, no balanço das cordas que eu não sei tocar. e aquela minha expressão facial ingênua que eu não aprendi a disfarçar - e nem quero, sei lá, e depois a minha expressão forçada de quem não quer parecer presa fácil, de quem não quer parecer indefesa como sabe que realmente é. Dó. E tocar umas músicas bestas que eu escrevi em Montmartre, e pintar as gentes que passam sem cobrar nada, só em troca do precioso tempo delas, em troca de todas as outras preciosas possibilidades que eles deixam escapar enquanto se entretem comigo, só pelo preço e pagamento de ser escolhida entre tantas maravilhosas e brilhantes possibilidades, só pelo preço de ser a escolha. e depois é culpa que cai sobre mim, eu que nunca devia ser escolhida e que nunca devia desafiar ou desbancar minhas amigas, as possibilidades infinitas da vida, porque entre tudo que vive nesse mundo e tudo que já morreu é isso que eu também sou: possibilidade. e que pode vir a nunca ser escolhida. é a vida, e ainda assim eu sou possibilidade, independente de escolhas... 
e aí voce talvez me acharia excitante, e viva, e me trataria não como um bibelô que você carrega pelo braço enquanto desce a St. Michel, mas como vida, como movimento, como música - que só é música porque se move, que te contagia mesmo que você não a toque, ela sempre vem e toca você, que sorri como uma criança. (...) e ahhh, eu olharia outra vez pro teu rosto só pra ver se eu realmente entendi o que vi naquele dia quando você não conseguiu me atravessar com um olhar e ficou preso aqui dentro em algum lugar de mim, como uma flecha que estanca a ferida que ela abriu, e sem a qual eu sei que irei definhar e definhar... até que eu seja só sangue que escorre sem pulsar. eu em mi e você, sol. aquela felicidade dos teus olhos que eu não esqueço, aquele brilho repentino e infantil quando tu me viu cruzar os umbrais do bar fingindo não te ver, e depois você na conserva do whisky pra me conversar, o olhar torpe de quem já tinha entrado numa estrada sem volta, o olhar embriagado de quem queria me derrubar - na cama - numa queda de (a)braços. e eu obviamente caio na tua, na verdade tu não me derruba porque - é... - eu já tinha caído há tempos. Ne me quite pas e essas coisas bonitas em notas improvisadas, because maybe you're gonna be the one that saves me and after all you're my wonderwall. e aí eu vivo nesse eterno suspense, que é o que me mantém de pé, o que me mantém suspensa no ar e vivendo, de te querer perto de mim e continuar te afastando, pra que a tensão continue no ar, pra que eu ainda alce vôo sem paradas planejadas e sem destino, mas com todos os destinos do mundo. e como eu não gosto de brincar com o coração dos outros, e nem de brincar com os outros em si e fazer leviandades e sabe-se lá, atacar a seriedade de tudo aquilo que ninguém mais leva a sério além de mim e uma outra dúzia de loucos eu vou brincando com as palavras, e com as cores e as notas das poesias que eu nunca te escrevi, dos quadros que nunca te pintei e das músicas que nunca te cantei. 

e ah... 

o teu riso nervoso com um copo de whisky na mão e o piano, o mundo e o meu coração na outra - e você nem sabendo que tinha que equilibrar tudo isso, e aí me faz cair, pof. e a gente brinda a distância à distância, mas é assim mesmo porque a gente sabe que meu sentimento é grave, mas não são as leis da física, coisas da ciência, que dizem que dois corpos exercem atração um sobre o outro? e a gravidade dos nossos sentimentos, assim ferimentos fatais como tudo que vive e está marcado pra morrer, nos atrai, irremediavelmente, até que a gente se canse de colidir e exploda, você dentro de mim. boom. e eu já nao sei me explicar. 

meu sentimento é improviso. i love you (-) and all that jazz


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

E nós (en)rolamos pelos lençois, agridoces, ela puro mel e eu suor. Ela palavras e - ahhhhhhs - eu suor, chovendo nela, inverno quase primavera. E aquele sorriso que derretia e que evaporava, condensando ao encontrar meu peito gelado, me encharcando por dentro e por fora. E eu suor. Say you'll remember me in the morning - eu disse a ela, pingando, me derramando, inundando a casa com o nosso perfume, eu e ela uma coisa só. E seus olhos grandes na noite como duas luminárias, a boca entreaberta, promessas de uma boa memória na qual eu não queria confiar. Quantos homens teriam visitado aquele templo, aquele lugar que pra mim era sagrado mas que eu tinha certeza que pra muitos era parque de diversões daqueles que se entra com bilhete único - one night stand? E quantos teriam ido não só de passagem, quantos teriam bilhete só de ida, quantos teriam ficado ali - quem sabe? - pra sempre? E eu ali me derramando, e me entornando nela de um prazer duplo, de ida e volta, de vai-e-vem, vem vem vem. E embora ela não se desse bem com muita gente - assim ela me dissera brevemente em sua introdução - ele se deu toda a mim no espaço de  meia noite, na largura de uma cama de solteiro, na altura dos seus modos reais, na profundidade de uma garrafa de whisky.
E ali eu tinha acabado com ela e comigo, acabado com eu e você enquanto matava tempo. E destruindo qualquer possibilidade de que pudéssemos seguir caminhos distintos separados - ainda que diferentes nossos caminhos agora estavam irremediavelmente ligados pelo nosso encontro, no ponto. Eu queria ser marca naqueles lábios, não cicatriz, mas marca sem dor não é marca permanente, e assim a nossa separação anunciada prenunciava a duração do vestígio que sua passagem não-programada e displicente por mim deixaria - permanente. E assim ao fim ela permaneceu estática na cama, como se estivesse realmente morta, e aos poucos enquanto retornava de sei-lá-onde que ela estava, fui para o banho. O que eu faria com aquele corpo que jazia na minha cama, o ventre em canela que eu maculara com leite, as coxas macias, os seios se espalhando por todo lugar, os cabelos desenhando coisas inimagináveis no meu colchão... o que eu faria agora que eu tinha acabado, que ela tinha acabado? E a água que agora escorria por mim, não mais suor, a água quente, e a neblina ao me redor que me confundia cada vez mais e meus pensamentos esfumaçando junto e... toc toc toc na porta do meu box?  E ao abrir a porta, a neblina foge levando meus pensamentos com ela, minhas duvidas, divagações, loucurinhas de estimação e "may I come in, sir?" ela me diz doce, nua, sem duvidas e sem certezas, a ingenuidade me batendo à porta da maneira mais improvável, em forma de mulher nua, minha mulher aquela noite, e eu inevitavelmente rio convidando-a para entrar. E ela se ensaboa calmamente, natural, íntima, virando bolha de sabão em todo lugar. E ela vem, sabão e sabonete, espuma em mim, leve, me levando no balanço dela, beijos destros e canhotos, molhados, pingando. Tudo vai se encadeando naturalmente, ela e eu numa coreografia perfeita, e nós (en)rolamos na toalha, deixando rastros molhados pelo apartamento denunciando a direção da cama onde ela se precipita como chuva de verão, sem anuncio, ainda nua, como veio ao mundo e como parou na minha cama. E se acomoda a um canto, mostrando respeito ao pedaço que me cabia daquilo tudo que eu mesmo criei, e me deitando ao lado dela vi que tinha os olhos de uma garota e a voracidade de uma mulher que sempre quer mais e eu assustado sem saber se eu era ou se era mais . ou se não era nada de mais. E o olhar sereno, embriagado mas não bêbado, os beijos pela minha face, de amor e não de amante, coisa assim sobrenatural, e ela se confessava, olhos fechados e mão na minha face, como se pedisse perdão pelo que ela nunca podia falar - não porque não quisesse, mas porque ainda não sabia. "o que tem aqui no seu cordão?" e olhando os pequenos pingentes do seu cordão de prata, percorrendo seu pequeno pescoço com olhos, indo até a sua boca procurando pela resposta. "i always carry with me this rosario my mom gave me though i'm not a catholic person at all, and these other two were gifts from friends" e ouvindo aquela última palavra eu estremecia e sabia que o que eu queria perguntar não era o que eu tinha perguntado, e vendo aquele anel como seu pingente eu me indagava se toda aquela gratuidade e doçura era perversão ou ingenuidade. E então ela começa a contar toda aquela história sobre os amigos que encontrou na viagem, a gondola e o mapa da Itália que ganhou do amigo italiano com quem aprendeu a falar italiano, e o anel do amigo que trabalhava na metalurgia, um inglês ou coisa assim, os dias que passou na campagne e como tudo era diferente do Brasil. E assim, ainda assim, ficava em mim a dúvida e a certeza de que eu queria que ela lembrasse de mim no Brasil. E ela desinibida e sem malícias, só desejo, coisa direta nas curvas do seu corpo pequeno e frio contra o meu, nada lembrava a outra brasileira com quem eu havia transado algum tempo antes. Estando com essa mulher era como se fosse sua primeira e última vez - primeira pela ingenuidade de seus olhos, doces e pesados, acusativos; última pela certeza com que guiava seu corpo em direção ao prazer, como se tivesse tanta experiência que sua boca já não pudesse falar, e o que a boca cala o corpo fala. Perguntei se ela queria dormir ali ou voltar pro seu studio onde a amiga certamente a esperava, e ela se acomodando em meu peito disse que ficaria, pedindo permissão depois inutilmente, já acampada no berço do meu braço. De repente ela me pergunta coisas, e confessa seus antecedentes 'i saw you there the first time i got in to the piano bar and i thought what a fantastic musician he is, i was so impressed by your talent, but i couldn't see a man, only a very talented musician, something that goes beyond ordinary humanity, then you looked at me and i wondered how odd it would be if you were to be into me but i just laughed at myself and walked away with the image of you in my mind... then i came back some other day and there you were, and you looked straight at me and gave me a wave that shaked me forever. then i wanted you to want me and i wanted you, know what i mean?' e toda aquela conversa surreal que eu já não sei dizer se foi ensaio dos meus sonhos ou as realidades malucas daquela mulher dos cabelos azuis e boca vermelha. "then you walked to me and said hello and i was really shy, actually I AM a shy person... i didn't know what to answer and i probably looked stupid, so when the show was over i left in shame. Then the other night when I walked in you waved again and I knew that if looked stupid the other night at least you didn't care about that. But then you didn't make any move later and I left and wondered if you really wanted me and to be honest I only was sure about that when you kissed me, and either way I, sometimes, won't be sure you wanted me. Because you know, we can never be sure for certainty is a serious risk for our fragile selves." e então ali estava aquela mulher, corpo, alma e outras coisas mais espalhada pela minha cama, desmontada, como um quebra-cabeça que está montado seja lá qual for a disposição das peças, linda e louca - não necessariamente nessa ordem, e eu assim me sinto convidado - porque nao intimado? - a também me confessar "i saw you that friday and i knew i wanted you, you looked so fine, and every night after that i was waiting for you to walk into the piano bar, which you did every night after. I tried to get your attention in every way but you were just SO cool to pay this kind of attention in a show. And knowing I had let you go saturday I waited impatiently for you at the piano and when you came I felt something burning in my face and I guess it was my mouth melting into a smile. As I didn't want any doubts or insecurities to distract me from getting to know you better I had a few sips of whisky, and when I saw you were also having whisky glasses no doubts came to my mind anymore." E ela sorriu gentilmente, recebendo minha confissão sem julgar nem me dar penitências, só liberdades de falar, e ela me abraçou suave e longamente beijando minha testa e meus olhos, sem dizer uma palavra. "I had to finish the show earlier because I thought you were leaving and I knew you would be flying back home the day after. But you stayed." "i stayed" ela disse me abraçando ainda, e quando se desfez do abraço eu podia ver aquele riso gentil repousando no seu rosto macio, delicado como a cabeça de uma boneca de porcelana montada sobre o corpo de pano. "You are so cute... I can't believe how cute you are. You are so cute" eu repetia incrédulo, acariciando o rosto dela e cobrindo-a com o cobertor enquanto ela agradecia, tímida, e retribuia em elogios murmurados em ingles e portugues. E assim ela adormeceu, ainda falando, se encolhendo na cama ora com calor ora com frio.
Na manhã ela ainda era a mesma, doce, pequena, louca. E deixei-a na cama enquanto ia tomar meu banho, e ela levantando devagar, bocejando em câmera lenta e etc. Esperei que dessa vez ela não pedisse permissão mas que entrasse sem cerimônia no chuveiro mas ela não apareceu. Ainda assim eu cantei sob a chuva de água quente "I don't take coffee I take tea my dear"  e sabia que pra ela o que era importante mesmo era "be yourself no matter who you are"  e que no fim isso era mesmo cançao pra ela dançar. Assim saí do banho vestido pra trabalhar, e ela terminando de se vestir pra sair de uma maneira tão inesperada, silenciosa e tranquila. Meu beijo a surpreendeu, e ela sorriu ainda com a minha boca na dela, desgrenhando meus cabelos com carinhos - penteados de amantes. Notei que ela parecia mais jovem à luz do dia, sem o batom vermelho, sob a claridade de um dia de inverno comum e não sob a luz vermelha de um boteco parisiense. You are SO cute, did you know that? e ela ria tímida dizendo que não e mudando de assunto rapidamente, ainda mais cute e era isso, a manhã havia chegado e o sol que não se mostrava, covarde atrás das nuvens, anunciava nossa separação. Saímos do meu apartamento, ela carregando uma bolsa de livros que eu não havia notado na noite anterior, meu aniversário de 31, eu cruzando a praça com aquela mulata nos meus braços, como se a desposasse, e ninguém ousava questionar a legitimidade de nossa união mais que provável - esperada, anunciada - e nossa pátria. As ruas não tinham nada a dizer, como se fossemos também parte do cotidiano parisiense, nós, estrelas escritas nos mapas da cidade de Paris, quartier latin. E caminhando até a estação de metrô onde eu seguiria pra minha rotina de dias e noites na corriqueira Paris e ela pro Charles de Gaulle de volta ao Brasil notei que nós éramos cotidiano mas nem por isso permanentes marcas nas ruas da cidade. Sabendo que o destino final chegava perguntei se ela reconhecia aquela rua, ao que ela afirmou com surpresa que sim, apontando para a estação Cardinal Lemoine. Ela fez as honras, e eu a beijei como se fossemos nos ver ao fim do expediente - que ninguém sabia quanto duraria e se um dia chegaria a acabar. Assim ela seguiu descendo a Rue du Monge, e eu sumi na multidão francesa e apressada demais pra desviar uns dos outros rumo ao cotidiano, sem esquecer que beijos de adeus eram cotidianos em Paris, mas nem por isso permanentes...

quarta-feira, 31 de julho de 2013



Outra noite, outra noite, outra noite. Todas iguais mas nunca as mesmas. Naquela noite quem atravessou meus olhos ao atravessar a porta foi uma mulher na casa dos 20 anos, lábios pequenos mas carnudos pintados em batom vermelho sangue-vivo-e-pulsante, um cabelo pretensiosamente desarrumado e crespo e... azul? Sabe-se lá, se à noite todos os gatos são pardos, os cabelos tem a cor que for, seja qual for. Não dá pra confiar na luz negra e rubra dos botecos de Paris. Eu apertei os olhos pra desfazer a recente ilusão de cabelos azuis que via naquela mulher mas não parei de tocar um instante sequer. 
Naquela noite eu estava sozinho ao piano, sem a presença quase-que-solar de Dominic pra me eclipsar ou pra eclipsar minha plateia. Lancei um sorriso discreto praquela mulher, que me olhava mas não me via. Ela atravessou a porta e também atravessou a minha alma - e que vestígios teria deixado? E aí eu já me interrogava, inutilmente: De que país seria? Quantos anos teria? Será que eu a veria de novo, será que ficaria muito, será que eu conseguiria abordá-la no intervalo? E todas essas perguntas devoravam meu tempo, mas ao longo dos anos quando você está atrás do piano voce simplesmente aprende que a sua plateia na verdade é quem faz o maior dos espetáculos da casa, e voce muitas vezes tem de se contentar em assistir, atônito, vendo tudo passar sem poder fazer nada, sem poder sequer pedir uma canção ou pedir pra que mudem o tom ou pra que troquem o ritmo. Você só toca, se toca. let it roll, babe. 
Ela não tirou o casaco, apenas sentou e fez um tour panorâmico com os grandes olhos castanhos escuros pela casa, e parecia gostar do que via. De novo seu olhar passou por mim tomando o devido cuidado de não me tocar, e eu me contentava em tocar meu piano ali - era ela quem dava as ordens. Estava acompanhada de uma mulher mais velha, provavelmente na faixa dos 40, com quem conversava longamente enquanto examinava tudo minuciosamente, piscando demais, parecendo estar num transe indistinguível: drogas ou puro entusiasmo juvenil? Não sei... Ela bateu palmas, séria, sentada no canto do bar, e deu um sorriso quase irreconhecível, e a outra mulher se levantou fazendo-a segui-la. Ela atravessou a porta, atravessou meu peito mas não tocou em nada. Nada parecia a tocar, talvez fosse parisiense mesmo. 
***
Naquela noite eu estava sozinho outra vez ao piano, improvisando números de hip hop com arranjos de piano clássico que faziam os caras do leste europeu irem à loucura, e um americano pular de seu lugar e começar uma dança estranha. E então ela, lábios vermelhos, cabelos desgrenhados, olhos amendoados e doces fez sua grande entrada enquanto eu fazia meu número cênico. Ela riu, aplaudindo enquanto ninguém mais aplaudia e enquanto a música ainda rolava, em uma mistura de surpresa, incentivo e admiração. Ela estava mais viva do que eu imaginava, e se movia em câmera lenta só para mim. 
Acenei para ela, que acenou de volta. Eu - ou seria o piano? ou seria a música? ou seria o álcool? - tinha a tocado. Elas continuaram pedindo drinks, e no intervalo me aproximei da mesa discretamente, tão discretamente que a assustei quando disse olá. Ela não largou sua taça para conversar comigo, e polidamente dava sorrisos enigmáticos que eu não sabia dizer se eram de simpatia, de etiqueta ou de interesse. Your hip hop classical piano arrangement is great, man. Ela disse com uma ginga nova-iorquina de quem frequenta os subterrâneos do jazz e do blues da big apple. Perguntei de onde eram, com um jeito esnobe de quem não ligava realmente, e ela jogou um sorrisinho malicioso junto com um guess it que me desconsertou. American? Ela riu simpaticamente, acenou negativamente com a cabeça dizendo Brasil com um sorriso tropical, que era maior que a linha do Equador, e me devolveu a pergunta. Eu disse que era francês, e ela parecendo surpresa perguntou de que região, ao que eu respondi que era de Paris mesmo, filho do quartier latin. Voltei ao piano prometendo que se ela voltasse eu tocaria uma música brasileira para ela, ela balançou a cabeça como se dissesse sim e gritou um deal enquanto eu me dirigia ao piano. Ela estava de saída, acenou pra mim e desapareceu com sua amiga na multidão de turistas deslumbrados que se apinhavam na sexta à noite, na rue de la huchette. E ela não me prometeu nada, não pareceu ser do tipo que fazia promessas. E muito menos do tipo que as cumpria.
***
Naquela noite Dominic estava sentada na cauda do piano, a casa cheia de gente de todos os lugares do mundo. E então aquela alma sem corpo atravessou a porta outra vez, ainda batom vermelho e cabelos azuis. Eu sorri menos tímido dessa vez, sabendo que se eu falhasse em conseguir sua atenção estava protegido na sombra de Dominic. Ela sorriu abaixando o rosto, e em seguida se virou pra amiga que a acompanhava cochichando alguma coisa. A amiga, cabelos negros, lisos e longos pousou o olhar em mim, sabendo o que queria sempre, e devolveu o cochicho para ela, sem desviar os olhos de mim. Sorri também para ela, era de graça. Não sabia quanto tempo aquilo ia durar - e quando é que a gente sabe? - mas ao ver que pediam drinks entendi que talvez um pouco mais que da última vez. Pediram kir, a cereja descansando no fundo da taça, e ela bebericava elegantemente, parecendo dar beijinhos no copo. Delicada e súbita. Ao fim do drink quem estava embriagado era eu. 
Terminei a canção e disse a Dominic que acabara de entrar na casa uma mulher de cabelo azul brasileira e... antes que eu terminasse minha frase feita de palavras soltas, Dominic sorriu entendendo o que eu queria. This one is for our brazilian friends right there, hello there, girls! E eu acenei para aquela mulher que eu nem sabia o nome, cumprimentando-a como uma velha conhecida, que pareceu estremecer ao som da frase, escondendo o rosto por trás de um pedaço de cabelo solto. Mas que nada, (...) você não vai querer que eu chegue no final
Pediram mais um kir, e eu continuei tocando, dessa vez com algum sucesso. Ela cantarolava comigo e Dominic como se dublasse as canções, e eu a assistia fazendo isso lá do piano e achava graça. Uma graça.  Perguntei o que ela estava achando da noite, em inglês, e ela respondeu em um inglês de sotaque também indecifrável que adorava as músicas que eu acabara de tocar. Perguntei se havia algum pedido musical e ela sorriu dizendo que o que quer que eu tocasse estaria bom. Ainda assim voltei para o piano sem decifrá-la - mas com muito mais vontade de devorá-la. Dominic foi embora me dando uns tapinhas nas costas e me desejando boa sorte, seja lá o que no fim das contas isso significasse.
 Não consegui mais tirar os olhos dela e eu improvisava arranjos longos que não demandavam minha atenção na partitura só pra não ter de desviar o olhar do dela. Ela parou de tomar drinks, mas a amiga continuou e a noite ia longe. Ela ia se apagando conforme a noite, e eu sem saber o que fazer, com a única certeza de que tocar era preciso. Tocar, tocar e tocar. E ela cantava, se encantava e era isso, a noite inteira. Terminei o trabalho e sentei ao bar. T(r)ocamos olhares, ela acenou com a cabeça para mim e eu acenei de volta. Talvez não valesse a pena abordá-la outra vez, talvez fosse  mais digno terminar a noite sozinho do que na companhia de uma frustração. Esperei que ela se denunciasse mais, mas ela não produzia provas contra si mesma. A amiga voltou do banheiro e elas se levantaram. Sabe-se lá se eu a veria de novo. Era sábado-quase-domingo, ainda que ela voltasse eu só a veria na terça feira, que era quando eu tocaria outra vez no piano bar. 
Toda noite no piano bar era igual: sempre a mesma mas nunca igual. E minha única certeza sobre ela é que ela realmente tinha os cabelos azuis. 
***
Oito e meia da noite, terça-feira. E nada, e nada. Agora eu já me perguntava o que eu teria feito de errado, ou se eu jamais a veria outra vez. E também me perguntava se era era realmente era brasileira, se ela realmente estava ali a trabalho, se ela realmente... se ela era real? Continuei tocando, Dominic fazendo todo o show, eu, coadjuvante, me concentrava em dividir o trabalho com o Joe - responsável por abrir a porta para que os clientes entrassem e saíssem - de observar todos que entravam. E eu nem sabia o nome dela. Tentei me concentrar nas teclas, pretas, brancas e vermelhas. Vermelhas como a boca da mulher que acabara de entrar. Era ela de novo, indecifrável. Ela não me via, só via o whisky na prateleira e que ela pedia sempre em doses duplas. hit the road, jack. e eu não conseguia sair do lugar. 
Dominic pediu que eu tocasse Girl From Ipanema, e assim o fiz, e aquela mulher, do outro lado do bar sorria de olhos fechados sussurrando a letra da música para ninguém e para todos ao mesmo tempo como se estivesse hipnotizada, continuei. Enquanto a música ia abaixando até terminar, Dominic continuava ao microfone pra que toda a casa ouvisse "oh and when she passes I smile, but she doesn't see, she doesn't see" ainda que já não fizesse mais parte da música. Eu sorri e acompanhei-a com um "why doesn't she even look at me, Dominic?" ela sorriu ainda cantando sobre os improvisos do meu piano "she just doesn't see, Jean, she must be with her eyes closed. Or maybe she's just sipping one more whisky glass before she can actually see, who knows..." e eu a atingi aquela mulher, do outro lado do bar, com um olhar em cheio. Ela paralisou. Eu tinha acertado em cheio. 
Ela continuou cantando todas as músicas conosco, e em uma das pausas Dominic me perguntou o que estava acontecendo. Aparentemente o número do oferecer uma música não funciona mais, é isso, Jim Fizz? Eu ri nervoso, ela estava certa. Não sei, não consigo ler essa mulher, olha pra ela e me diga se você pode. Dominic  a fitou de longe, e quando percebeu que a mulher viu que ela a olhava acenou. Realmente eu não sei, Jean. Talvez não haja nada pra ler, não? Ou talvez esteja escrito em outra língua, realmente não sei. Você está ficando velho, monsieur R.? Traga seus óculos no próximo show. E deu um meio sorriso, anunciando a saída pra fumar um cigarro enquanto eu me recompunha pro resto do nosso número. Estava tenso pra uma terça-feira. Dominic sabia das coisas, só não sabia como dizê-las, só como canta´-las. 
Cinco minutos D. voltou e lancei as notas de Can't take my eyes off you, e ela sorriu maliciosamente da cauda do piano, assentindo com a cabeça e sabendo o que se seguiria. Oh Jean, você sempre canta quem quer tocar. Dessa vez permaneci de boca calada e falava apenas com os dedos, minhas frases eram melodias escritas em linhas de partitura. Dominic desceu de um pulo da cauda do piano, fazendo aquelas caras burlescas que ela fazia como ninguém, os grandes olhos azuis, os lábios com um batom cor de estou-sem-batom, o cabelo loiro alisado, e foi seguindo pelo bar, cantando frases pra diferentes clientes como se estivesse se declarando, até chegar àquela mulher de quem eu realmente não podia tirar os olhos e trocar as letras pra que todos soubessem que a música era pra ela. You're just too good to be true, can't take off my eyes of your hair and it's blue! -  ela cantava com espanto, constatando isso, e voltou à cauda do piano encerrando a canção dramaticamente: and let him love you, babe, let him love you... e a mulher sorriu pra mim com um sorriso infantil, e pela primeira vez eu pensei que talvez realmente não houvesse enigmas, apenas um livro aberto esperando ser devidamente folheado. Fiquei extasiado com aquilo, o que aquele sorriso me contava - na verdade indagava... quantos anos aquela mulher teria, que vida viveria no Brasil, o que a levara a Paris e o que a arrastava de volta pra casa? 
Dominic foi embora, de novo desejando-me sorte. Seja lá o que isso fosse. Fiz algumas versões novas e me apressei pra terminar o show antes que ela fosse embora. Ela já tinha tomado 3 doses de whisky e eu achei que ela não duraria muito mais. Ela agora só sorria, de olhos fechados, sussurrando as letras das músicas comigo, balançando o corpo levemente. E aplaudia, ainda de olhos fechados. Anunciei a saideira, ela já não tomava mais nada, então me aproximei e ela disse descontraída hey man, congrats for the show, you rock!  Eu agradeci e ofereci um drink, sem jeito. Ela agradeceu já levando o canudo à boca, dando grandes goladas. "Hmmm, I like this, I really like this, thank you, man. But this tequila sunrise is tasting a little different than the usual, have it here" e dirigiu o copo para mim, sorrindo e eu dei uma golada dizendo que aquilo era um Sex on the beach, ao que ela pareceu paralisar "that one drink with... vodka?" e parou subitamente de beber, continuando seu monólogo em um tom cômico para mim, trágico para ela: "oh no, not again... oh why vodka, oh why! Vodka gives me amnesia." E eu ri, tirando o copo da mão dela, ela riu e agradeceu de novo, perguntando meu nome. Jean-Marie, enchanté. Ela fez uma reverência real, dobrando um pouco o joelho e fazendo um gesto com o braço como se me desse passagem. Ela era bem-humorada ou estava nervosa demais pra levar a vida a sério. 
Terminamos o drink e sua amiga retornou, falando da estada em NY no fim do ano passado e revelando que era professora dela na universidade e que a levara a Paris como companhia para as visitas técnicas acadêmicas. Nessa hora olhei de novo para ela e vi que apesar do porre aparente agora ela se recompunha assentindo com a cabeça, imaginei que tipo de pessoas achariam natural uma relação tão íntima e fraternal entre duas mulheres de idades tão diferentes e sem parenteseco, de status tão diferentes. Definitivamente ou o Brasil não era a França ou aquela mulher simplesmente era fascinante demais para seus colegas de vinte-e-poucos anos. Ou os dois? 
O piano bar anunciava sua fechada, e ela anunciava o fim da sua temporada na Europa: I'll be flying back home in 18 hours, can you believe it? E eu sugeri que fossemos tomar mais uns drinks, mesmo sabendo que ela não beberia mais nada. Sua amiga-professora agilizou os trâmites e iniciou o movimento no piano bar, recolhendo os casacos e cachecóis de todos e criando enquetes pra descobrir o que faríamos em seguida e aonde faríamos. Ela, já recomposta, me sugeriu que tomassemos um vinho na casa de alguém, na delas ou na minha. Ofereci minha casa, não fazia ideia de onde elas estavam e não tinha certeza se ela havia entendido que a minha confraternização pretendia ser só com ela. Ela concordou e comunicou à amiga, que foi andando na frente ainda que estivesse seguindo o rumo da minha casa, a qual ela nunca tinha ido. As duas faziam uma dupla improvável e cômica, fazendo piadas em português entre si e rindo risos sinceros que eu invejei. Ela virava, traduzia as piadas que não faziam muito sentido em inglês e dava de ombros "I assure you it's fucking funny in portuguese, i promise" e mudava de assunto me perguntando coisas aleatórias. Entramos num mercado, duas da manhã, ela ficou examinando doces enquanto a amiga interagia com os outros clientes do mercado e eu escolhi um vinho doce, de sobremesa e saímos rumo ao meu studio, atravessando a rua do Pantheon. "Wooooooow John Mary, you live in such a nice parisian spot" eu ri agradecendo o elogio, e quando chegamos ao meu studio ela continuava com seus comentarios aparentemente nonsense que faziam a amiga rir em gargalhadas altas que acordariam todo o quartier latin. Deixei-as no apartamento com a desculpa de buscar um saca-rolhas quando na verdade fui buscar algumas camisinhas. Voltei correndo, mas ainda sem pensar o que fazer com a amiga. Quando cheguei brindamos o meu aniversário que acabara de começar, elas cantaram parabéns em inglês, espanhol, francês e português como se fôssemos velhos amigos celebrando a minha existência que tanto as consolava há anos. A amiga disse que seu vôo sairia mais cedo que o da outra mulher e se despediu de mim, pedindo que a dirigisse até o portão do prédio e mostrasse a direção da Rue de Écoles. Levei-a, e no caminho ela agradeceu o vinho e os bons momentos no piano bar, e ao invés de me desejar boa sorte, como a Dominic fizera nas noites anteriores, ela apenas constatou: "you're a lucky man". E se despediu, acenando longe. E eu ainda não sabia os seus nomes. 
Voltei apressadamente ao studio para encontrar aquele corpo de formas arredondadas abraçando meu violão e fazendo-o gemer. Senti um tesão indescritível, não pelos lábios dela ainda vermelhos que ela mordia enquanto tentava alcançar uma nota mais longe, não pela coxa que se desnudava pelo modo como ela se sentava, não pelos seios que se espremiam contra o violão. Senti tesão pelo movimento das mãos dela, delicados de um lado, intensos do outro. Aos poucos reconheci a música, era Stairway to Heaven e eu permanecia parado, estático, acompanhando o movimento dos dedos dela. Me aproximei lentamente dela e pedi pra que ela me ensinasse a tocar a música. Ela riu enquanto eu a abraçava por trás, tentando me conter, e levou minha mão direita até as cordas do violão junto a sua, e depois, segurando minha mão esquerda, apontou as cordas que faziam o primeiro acorde, compenetrada. Eu não ouvia nada, só acompanhava os lábios dela e meus olhos iam descendo pelo pescoço e indo até o colo onde eu podia ver o soutien preto dela por baixo da blusa semi-transparente. Soltei a mão direita da dela e a repousei sobre sua coxa, fazendo com que ela se virasse para mim em busca de outro tipo de atenção. Repentinamente ela explodiu numa risada gostosa, ingênua, constatando "hahahaha oh Jean" - e pronunciou meu nome em francês perfeito - "you're a just 31 years old professional musician and I am a 22 years old woman who haven't been playing much guitar lately", se dando conta das minhas intenções, e continuou rindo ainda com as mãos no violão, evitando olhar pra mim. Escondeu o rosto com as duas mãos, deixando o violão livre. "You want me... you want me?". Ela parou de rir e virou o rosto para me ver atrás dela. Eu a apertei contra mim, suas costas no meu peito, seu pescoço na minha boca que subia lentamente até sua boca úmida e nervosa com gosto de álcool. E ela se desmanchou como se fosse feita de açúcar nos meus braços, se espalhando até a minha cama. Ela era um doce que eu finalmente devoraria, e eu o instrumento que ela tocaria a noite inteira.
*** 

terça-feira, 30 de julho de 2013

o ano era 2009 e eu definitivamente tinha meu próprio Dean Moriarty, com quem eu começava a enlouquecer um pouco também, um dia de cada vez. M. A. simpatizou com meu jeito ingênuo, desbocado e sentimental demais de vi-ver o mundo ainda em 2008 quando eu tinha 18 anos e - oh my! oh my! - uma vida pela frente. Essa vida que me acreditavam promessa mas que para mim parecia o prenúncio de uma colisão entre ela e eu. Ao ouvir essa máxima de vida pela frente a imagem que invadia meus olhos e inudava meu corpo era de um trem vindo em minha direção, implacável, irrefreável e com vários vagões pra passar por cima de mim, entre mim, sobre mim. E um entorpecimento me abatia subitamente quando eu pensava nisso. E os anos que já tinham passado? Os anos que ficavam atrás de mim iam sendo enterrados e virando promessas, mas promessas de arqueologia. Fósseis que talvez um dia fossem resgatados.
Ah, eu sempre me perdendo em devaneios aparentemente desconexos. M. A. era um cara interessante, tão monótono que era interessante. Angustiado, tão agitadamente angustiado que frequentemente se via paralisado pelos seus dilemas, entre as tradições de conveniencia e seus desejos súbitos e espontâneos, sem planejamento. Ainda lembro a primeira vez que tive algum tipo de contato mais duradouro com ele. Eu ali, 17 anos, caloura na universidade, rabiscando as últimas folhas do meu caderno com pequenas caricaturas. Ele e alguns amigos, todos quase no final do curso, batendo papo no centro acadêmico de psicologia. M. A. tinha longos cabelos lisos, negros como as nossas visões de futuro seriam em alguns anos. Seus olhos eram puxados, bem japonês, todo caricato. Nessa época eu costumava iniciar interações sem contextos específicos, sem parágrafos, sem introduções. "Olha, seu amigo, ele é bem desenhável, tá vendo? Ele é uma caricatura..." e continuei rabiscando. Alguém sugeriu que eu desenhasse ele, oras. Rabisquei aqui e ali, uma dúzia de traços e finalizei o pequeno rascunho de M.A., pra quem eu timidamente entreguei o pedacinho de papel irregularmente rasgado apontando o que tinha feito. "Uaaaau, cara! Olha só que doido... sou eu, olha, olha!" e quando terminou a pequena exibição aos amigos guardou o pedaço de papel na carteira, prometendo grudar na parede de sua casa que eu sequer imaginava onde podia ser. Ele parecia ser tudo que eu queria ser: viva, espontânea e com uma grande pitada de i dont know and i dont care que os longos cabelos negros dele exalavam quando ele passava por mim, sem notar na minha presença inesperadamente discreta. Ele realmente não se importava com nada e nem podia se importar: estava tão ocupado com a monotonia de uma vida desregrada que não podia prestar atenção a nada. e eu de novo me equivocava: ele não era a vida que escorria dos atos espontaneos dele que me comoviam, mas toda a tensão que ele criava entre esse impulso de vida louco e maravilhoso que germinava no interior dele e o impulso de matar essa parte dele que queria viver demais, de calar essa parte dele que queria falar demais, de cegar essa parte dele que via demais, que fervia demais. e isso o tornava uma contradição ambulante das maiores que eu já tinha visto, e eu sentia a fragilidade do ser humano sempre que nos aproximávamos nos nossos íntimos contatos distantes... tanto a fragilidade da humanidade dele quanto da minha, e isso me fazia sentir mais humana, mais viva. mas também cada vez mais ávida pela morte, cada vez mais impulsiva e auto-destrutiva. O que é viver se não um exercício constante de morte? Quanto mais oxigênio o fogo respira, mais intenso ele queima e mais rápido consome tudo ao seu redor até que ele mesmo, vítima da própria tragédia, algoz de si mesmo, se extingue no vácuo que só ele poderia criar. Ahhhh, era uma cilada.
M.A. nasceu no mesmo ano que o irmão mais velho que eu nunca tive. E não foi o irmão mais velho que eu não tive e nem o que tive. Ele simplesmente não foi - e nem ficou. Nunca saberei dizer se me apaixonei por M.A., só posso afirmar que o amei, amei, amei com todos os motivos e sem razão nenhuma. Eu realmente tinha o meu próprio Dean, e lembro como se fosse hoje daqueles dias em que eu naufraguei. Eu estava à deriva mas eu sabia que navegar era preciso - pra onde quer que fosse. Quem poderia condenar meus rodeios quando eu só estava mesmo perdida, sem rumo, sem bússola que me apontasse o norte da vida? Até mesmo o mundo dá voltas - porque eu haveria de fazer diferente?

sábado, 27 de julho de 2013

uma hora e meia.
enquanto eu não podia ir à estrada, resolvi deixar a estrada vir até a mim. sentada em um balcão com formato de lataria de kombi eu viajava sem sair do lugar. entre check ins e check outs eu me via mais só que todos os viajantes que passavam por mim. tudo passava, rápido ou devagar, mas passava por mim deixando rastros infinitos de memórias. e apesar de eu ser presença enquanto passavam, depois eu apagava como se nunca tivesse existido. todos os homens que viajam sozinhos me parecem incrivelmente solitários. ao mesmo tempo que me parecem incrédulos, me parecem crentes demais em toda a humanidade, ou como se quisessem muito acreditar em algo ou em alguém. todo mundo na estrada parece livre demais.
naqueles dias eu sentia um sono descomunal, que me tragava pro bréu dos devaneios que eu não podia controlar, entre sonhos e pequenos delírios noturnos. e a fome que me consumia, e o meu recente ódio pela minha própria figura gorda, que até alguns dias não tinha nada de mais. os quilos que mais pesavam eram aqueles da minha imaginação...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

senti medo pela primeira vez em tempos, como naquele dia em buenos aires. eu não era ninguém e naquele instante eu me dava conta disso. sem direção eu seguia desnorteada, perdida em um lugar em que eu não era ninguém ou nada. só um número em um passaporte estrangeiro, uma mulher latina jovem e de cabelos azul royal que ninguém tinha notado naquela estação de trem onde eu tinha desembarcado.
saí pela porta da frente, seguindo reto, sem um mapa em mãos. o queixo sempre erguido, os olhos semi cerrados. primeiro desci à esquerda passando pelos motoristas de taxi mal encarados que faziam ofertas em francês, e as quais eu recusava com um 'non merci' baixinho pra que ninguém notasse meu sotaque. e fui seguindo, as ruas cada vez mais desertas, a cidade cada vez mais cinza e silenciosa. o horário de almoço era cruel, mais frio que o normal, eu não tinha comida e não sabia pedir comida em francês. ao chegar em um beco vazio resolvi dar uma meia volta buscando pela torre da estação de trem com os olhos, era o meu norte naquele momento. e voltei caminhando tranquilamente como se fosse dali, chegando a uma rua que dava em uma pequena praça comercial de onde se podia ver a estação de frente. ufa. parei por um instante com as mãos nos bolsos do sobretudo fingindo olhar a vitrine quando na verdade só estava absorta em meus pensamentos leves, sonolentos. eram fotos de casamento expostas, uma loja de fotografia. e quando tomava um fôlego, respirando fundo, um homem me abordou em francês. olhei em volta, não havia ninguém na rua além de nós dois. me perguntei se era comigo e ele repetiu o que disse anteriormente. balancei a cabeça negativamente e juntei um 'je ne parlais pas français' dando de ombros e me virando de volta pra vitrine.
ele não era feio. mas naquele momento pensei que poderia ser um batedor de carteira, um estuprador, um sequestrador. um traficante de órgãos. ou de pessoas? ele tentou então em espanhol. hablas? e eu arranhei algumas palavras fingindo não falar espanhol, e ele tentou então o inglês. eu sorri amarelo, examinei as mãos dele e ele carregava um copo de café daqueles de máquina. segurei forte as alças da minha mochila e pensei em correr, mas vi a subida até a estação de aproximadamente um quilometro. ele era maior, mais magro, mais forte e não carregava uma mochila com 7 kg de roupas e outras coisas. descartei essa possibilidade rapidamente. seria o meu fim? ele obviamente estava me cantando, e eu fingia não entender. ele disse ser egípcio e perguntou o que eu fazia em limoges em fevereiro sozinha. respirei fundo, não dava pra correr mas dava pra andar em círculos, e isso eu fazia muito bem. eu então disse que eu não podia conversar muito porque tinha de voltar a estação de trem pra esperar meu namorado que estava chegando pra me buscar. ele se propos a me acompanhar já me acompanhando. a subida parecia mais íngrime do que era, e eu escapava das investidas verbais dele. ele insistia. ao ver a porta da estação cada vez mais perto eu sentia alívio, e já não prestava mais atenção no que ele dizia. e pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança?
eu voltava a mim, no sentido mais literal: voltava ao meu estado em mim mesmado de sempre, isolada do mundo exterior, vivendo de devaneio em devaneio. sentei numa mesa, ele sentou do meu lado. ele me perguntou se podia me ver em paris já que ele também estaria lá em alguns dias. eu disse que não, que meu namorado não gostaria. ele concordou e se despediu em inglês. eu acenei com a cabeça, com um sorriso francês. eu o vi se afastar e senti a paz retornando a mim com as doses de alívio. suspiro. eu não tinha pra quem pedir socorro ali, e notei que ainda que estivesse em outro contexto, outro tempo ,outra situação, eu nunca tinha a quem pedir socorro. ninguém estava ouvindo. suspiro. só os meus próprios devaneios, e as minhas mentiras... como o namorado que acabara de inventar. uma mentira que me salvou a vida.
pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança? a vida começara ali, numa estação de trem no interior da frança...

sábado, 29 de junho de 2013

aconteceu rápido demais pra que eu reagisse a tempo. fui tragada lentamente por um buraco negro com a forma da tua boca que eu já nem me lembrava mais não senti gosto algum. tive certeza que uma parte de mim morreu. nem a mesma ingenuidade nem a mesma espontaneidade dos meus 19 anos me acompanhavam mais. era sempre um gosto amargo na boca, um riso amarelo e um olhar melancolico, pesado como as nuvens - ilusorio. nao senti nada com teu abraço mecanico. eu estava anestesiada, em coma. e notei que nao tinha me recuperado das sucessivas quedas dos anos anteriores: caindo no real, caindo no real, caindo no real. e o real caindo em mim.
eu aprendi a viver como o resto do mundo: alheia, cínica, anestesiada. pra que suportar o peso da realidade fosse mais fácil, pra que ser esmagado por ela não doesse tanto. os ombros suportam o mundo. e o seu sorriso era mais frio que teu coração metálico, enferrujado, tetânico. ainda assim me deparei com a contradição de perceber que apesar de ter morrido, o fantasma de mim ainda me assombrava com os risos bobos, com o carinho nas pontas dos dedos.

domingo, 23 de junho de 2013

minha poesia se cala a tua ausencia presente, na tua presença ausente, como quem não pode calar o que fala mas sabe que sufoca sempre o que quer dizer. eu vejo teus olhos escuros, vazios, vácuo. como dois buracos negros que me fazem virar pó sempre que os olho diretamente. primeiro viro pedra, como se tu fosse medusa, e então eu viro pó, despedaçando em partículas tão pequenas que se perdem pelo ar. e os seus olhos, sempre os olhos. os olhos vazios como a ausência que você faz questao de fazer presente entre nós dois. o silêncio ecoa enquanto por uma fraçao de segundos ou por uma eternidade eu me pego imaginariamente circulando os teus olhos como quem anda ao redor de um poço muito fundo sem saber se tem água lá no fundo ou se é só um buraco mesmo onde a gente se enfia e tem muito problema pra conseguir retornar à superfície. me pergunto se já habitou algum dia neles alguma vida... sei que voce quis olhar fundo nos meus olhos, mas só porque no brilho deles você conseguia se ver, como narciso quando encontra o espelho pela primeira vez sei que voce encontrou essa imagem fantástica de você no brilho dos meus olhos castanhos quase negros que ja viram coisas que minha boca nao pode testemunhar. nao produzo provas contra mim.
***
enquanto voce vinha em minha direção eu fingi que não o vi e desviei o olhar pra baixo como eu costumava fazer sempre que eu me sentia constrangida. sei que voce fez o mesmo. enquanto eu arrumava minhas coisas na pasta vi que voce fazia hora, e isso acalentou meu coração. o pensamento que isso disparou na minha cabeça era de que voce ainda me queria a despeito de tudo e de todos. fiz questao de desfazer esse auto-engano sustentado por provas muito questionaveis. voce disse tchau pra todos que ficaram, e eu nao conseguia dirigir meu olhar a voce, extremamente envergonhada dos meus desejos, e provavelmente mais ainda dos seus por mim. e de desejar que voce me desejasse de tal maneira.
***
naquele dia voce me disse que se lembrava de mim comprando um violão, com um vestido longo e estampado, com os cabelos azuis. eu ri desconcertada porque apesar de a loja ser pequena não lembro de ter te visto lá. eu era péssima pra lembrar de rostos, e eu me sentia mal por não lembrar do seu, que eu julguei tão bonito enquanto você me contava isso. naquele momento não notei que você provavelmente era um par ou dois de anos mais novo que eu e que você ainda tinha espinhas nascendo aqui e ali, e que a barba mal crescia. apenas sorri desconcertada, nervosa. e desatei a falar, coisa que eu faço quando fico ansiosa demais. voce se despediu de longe, eu apenas acenei sorrindo sem mostrar os dentes.
***
quando entrei na sala voce estava diferente, como se pela primeira vez seus olhos brilhassem tanto que pegavam fogo. um fogo que eu nunca tinha visto nos seus olhos sem vida, mortos, estáticos. seus olhos continuaram pegando fogo durante toda a aula, e eu tive medo que aquilo me consumisse. no fim da aula voce perguntou se eu queria um sorvete. como se soubesse que eu sou facilmente corrompível por doces. aceitei constrangida e enquanto dava as primeiras colheradas no sorvete corri até voce sorrindo e dizendo obrigada. naquela tarde, enquanto eu lia sentada em um sofá no patio senti que seus olhos estavam colados em mim tentnado decifrar o que eu pensava enquanto lia aquele volume tao bonito de luto e melancolia qeu eu tinha comprado na semana anterior. o que eu poderia estar pensando enquanto lia luto e melancolia do freud com um meio sorriso no rosto?
***
enquanto eu caminhava pelo salão vi voce ali parado, como se esperasse algo acontecer, algo extraordinario. eu me senti ambivalente: queria que voce me visse mas queria me esconder de voce. escapei em todas as vezes. mais tarde, inevitavelmente, enqaunto eu dançava com meus amigos o seu amigo se aproximou de mim, e eu o fiz rir. ele naturalmente tocou meu ombro dizendo que eu era uma pessoa muito engraçada. voce tambem riu, mas discreto, e disse depois mais baixo, se curvando pra se aproximar do meu ouvido que voce tambem me achava muito engraçada. todos interagiam, e eu tentava me engajar naquilo mas sempre me vendo de longe, contando os passos, pensando que queria ficar do teu lado mas que não podia ficar perto demais. na primeira oportunidade me aproximei de voce mas mantive uma distancia de segurança. que voce nao respeitou, me tocando sempre que podia pra esclarecer algo que eu nao havia ouvido bem entre as batidas altas de musica. ali estavamos nos dois, parados no meio da pista de dança conversando como se estivessemos em um café ou em um corredor da universidade. durante mais de duas horas. volta e meia alguem questionava porque nao estavamos dançando, apenas franziamos os ombros como quem responde 'não sei mas nao me importo'. eu estava ali, sem me vigiar, sem contar os passos. eu e eu éramos uma de novo. e pouco antes de eu ir embora, me calei. quando aquele ex caso passou por mim e me cumprimentou como um velho conhecido, me abraçando e me beijando calorosamente na bochecha-quase-na-boca voce se silenciou. ele foi embora e o silencio ficou pairando no ar. olhei as horas no meu celular, liguei pra minha carona que disse que estava indo. mais silencio. voce entao se curvou em minha direção levemente e com um ar de menino travesso que vai aprontar alguma me confessa eu sei que nao deveria fazer isso, mas não consigo mais evitar, eu tô doido de vontade de ficar com voce. e enquanto eu reunia a força que me restava do embate que eu passava por dentro de ambivalencia voce me tomou sem moderação em um beijo que pra mim durou a  vida toda. um beijo que eu sinto até agora nos meus lábios. a sua mão nas minhas costas aproximando meu corpo do teu. me desvencilhei vagarosamente do teu abraço e disse que não podia, que eu era... e então voce me beijou outra vez, me calando. me fazendo engolir minhas palavras com a nossa saliva. seus labios eram macios e suas maos eram firmes. eu senti meus joelhos vacilarem. olhei voce e pedi pra que ao menos saíssemos da pista de dança. quis segurar tua mão mas nao podia. parei na sua frente assim que voce escolheu um ponto na varanda perto do lago. estática. voce logo continuou de onde paramos. eu nao sabia se era a fome, o remedio ou a falta de agua mas eu me senti flutuar por alguns instantes, voce se contendo, tenso, como se fizesse algum esforço pra não cruzar as linhas. meu telefone tocou anunciando minha saída, voce me acompanhou ate a porta e se despediu de mim com um abraço demorado dizendo no meu ouvido que tinha sido divertido. ha sido divertido me equivocaria otra vez, quisiera haver querido lo que no he sabido querer. eu disse o mesmo e fui embora sem olhar pra trás. naquela noite passei todo meu sono sonhando contigo. acordei sem saber o que tinha acabado de acontecer.
***

voce logo parou de onde continuamos...

domingo, 16 de junho de 2013

tudo parece pequeno no meio do deserto, do tamanho de um grão de areia solto na vastidão do universo árido. e o céu vai te engolindo, e você já não sabe se é o chão que cede ou o céu que passa. e você fica. você permanece com a areia do deserto, em constante movimento. o vento paciente do deserto move montanhas, e nada é o que foi há um segundo atrás. no deserto tudo é contradição. tudo é pequeno, se perde nas vistas. e tudo é gigante. é imenso. você, uma das poucas formas de vida em quilometros. sua vida é absoluta no deserto. e voce tambem, e tudo o que voce sente. mas entao aí está a grande contradição: os problemas simplesmente se reduzem a pó, é tudo poeira, é tudo pedra, é tudo matéria. tudo é gigante no meio do deserto, até mesmo o início e o fim...
eu simplesmente não sou capaz de esquecer aqueles dias. entre o chile e a bolivia, entre a morte e a vida. respirando o mais fundo que podia eu me surpreendia ao constatar que o pouco ar disponível àquela altitude ainda me fazia sentir mais viva que todo o ar que eu tinha respirado no nível do mar. os vulcões, a terra. eu era da cor da terra, da cor das ruínas. eu era o deserto, e o deserto me engolia, me consumia. e eu me consumava.

sábado, 15 de junho de 2013

passo as noites em claro. a única clareza que posso me garantir, a obscura clareza da noite. é o que posso me dar quando tudo é tão pouco. a paciência, entretanto, me salva. carta após carta, um movimento após o outro. lentamente as possibilidades vão se extinguindo. ou aumentando. e um gesto pode mudar uma dezena de outras oportunidades de se chegar ao fim. o fim que eu bem sei que nunca é ponto final, que pode não ser bandeira quadriculada e champagne derramando, que pode não ser trofeu. fim que pode ser vírgula, que pode ser prólogo, que pode ser uma dezena de outras coisas.
e essa sou eu, e eu só sou quando dói. apesar das tarjas pretas, das legendas, dos diagnósticos, das estruturas. mas essa sou eu, chorando uma dor que ninguem pode ver, confiando no tato por saber que não dá pra confiar na visão: o mundo é um lugar escuro. e nós somos cegos.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

eu estava ali, contemplando o olho do furacão, de longe. prestes a me jogar no meio da tempestade.
porque era tão dificil dizer que eu não estava bem? talvez porque nem eu quisesse me dar conta de que eu estava em pedaços, que eu ainda estava desmanchando na chuva como se fosse feita de açúcar. minha única vontade era voltar a deitar na cama e esperar o sono me abater, o amor me bater e a vida ter. eu tinha ido a nocaute outra vez, depois dos seguidos combates que travei comigo mesma. e eu não tinha mais dinheiro ou coragem suficientes pra viajar, pra fugir. eu estava encurralada. encurralada pelos meus não-desejos.
na verdade não sei precisar quando isso começou e nem porque, não sei precisar o que causou esse mal-estar com o qual constantemente me deparo ao viver uma vida ordinária. talvez tenha sido gradual, ou talvez eu tenha acordado um dia me sentindo péssima e tenha ignorado o fato. minha memória tao boa me trai nesse momento. talvez eu tivesse 16 anos ou 18. talvez eu tivesse os dois. com 18 anos eu vagava como o fantasma de alguém que não percebeu que morreu pelos corredores da universidade, trocando o dia pela noite, tendo sonhos vívidos demais - ou vivendo uma realidade surreal demais. eu tomava meus primeiros porres, frequentava aquela sinuca no subsolo de uma rua escura até de dia na 13, sentia um horror à vida quando o relógio marcava as seis da tarde. nas tardes em que eu não conseguia sair do campus eu caminhava até a biblioteca, e entre as estantes cheias de romances de literatura estrangeira eu sentava, folheando os livros mais velhos que eu, me inebriando com aquele pó que resistia à vida na universidade como ninguém nunca resistiu. e então eu escolhia uma sombra qualquer no gramado pra me deitar, e lia, e mudava de lugar de acordo com a sombra, e lia, e cochilava. ninguém percebia minha presença ali, e eu me questionava se por acaso eu realmente já não teria morrido e tinha me tornado invisível. uma as-sombra-ção que só podia ser vista sob a luz do sol. e eu insistia em me refugiar nas sombras.
perdi a conta dos romances que comecei a ler naqueles gramados. entre goethe e marques de sade, simone de beauvoir, leituras obrigatórias pra uma das 5 matérias que eu fazia na época. ninguem pode dizer que eu nao lutei, que eu nao levei as coisas até suas últimas consequencias. que eu não tentei me encaixar no resto do mundo pra ver se minha existencia passava despercebida por mim, engrenagem dessa engenhoca moderna todo que insistimos em chamar de vida. comecei a tomar café pra nao ceder ao cansaço da insônia, a comer chocolate amargo. eram os unicos sabores que nao me lembravam que um dia eu já soube provar o doce.
eu ia cada dia mais preenchendo os vazios da minha grade horária com matérias obrigatórias, horas de laboratório, horas na empresa. menos horas pra mim e pra minha miséria, sem perceber que era ela que preenchia praticamente todos os horários. nesse tempo meus melhores amigos eram um menino deprimido e um brilhante escritor pra sua idade de 16 anos, um cara melancolico da psicologia de 22 anos que ja tinha desistido de outros dois cursos e um cara engraçado da psicologia de 23 anos que estava quase formando. e nenhum deles sabia o que queria (da vida), assim como eu. a vida era um porre de whisky sem gelo, de jack daniels, que tinha um gosto amargo e que descia quente pela garganta, lembrando que tudo que temos por dentro é vivo, é ferida aberta.
e quando eu me embriagava aquele cara de 22 anos me oferecia o ombro pra recostar minha cabeça pesada e tonta, e dizia que as coisas estavam bem. e aquele cara de 23 anos me levava pra casa enquanto me fazia comer meia dúzia de balas de menta pra que ninguém notasse que eu era puro álcool. e eles cuidavam de mim, e me faziam rir pra que tudo aquilo não se tornasse tragédia. e eles viam um brilho meu que eu não conseguia enxergar e alimentavam esse fogo, com medo de que isso se extinguisse, com medo de que eu me apagasse e virasse cinza, como praticamente todo o resto que nos rodeava. eu só tinha 18 anos, eles diziam, e uma vida toda pela frente. e isso me assustava.
esse brilho que eu nunca consegui ver, esse fogo com o qual eu queimava todo o ar ao meu redor, pra mim eram queimaduras, era a intoxicação da fumaça. de dentro da chama a gente só vê o escuro que nos cerca. só vê as sombras daquilo que iluminamos. qual a vantagem de ser brilhante se tudo que vai estar ao seu redor é a sombra ou então a cegueira de olhar direto pra luz? e cada dia eu lia menos, cada dia eu desenhava menos e cada dia eu me tornava mais silencio de mim. cada dia eu fazia menos daquilo que nós só podemos fazer quando estamos vivos e fazia mais e mais aquilo que os mortos fazem: nada.
e então eu tinha 19 anos, e aquela vida toda que eu via pela frente me parecia ameaçadora vindo em minha direção rápido demais, como se fosse me atropelar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

(...) gostaria de voltar a desenhar. rabiscando entre as aulas, entre as linhas. suspiro. porque nao consigo mais desenhar? porque o vazio que sempre se abre em mim insiste em me sugar, em me consumir pra dentro de mim mesma? como se, não podendo caber em mim, eu fosse obrigada a escapar, a me esvair de mim. me consumo quando consumo um pedaço a mais de doce, um pedaço a mais de pizza, um pedaço a mais de obrigação. suspiro. e a vida cotidiana me massacra, vai passando por mim sem pedir licença, esbarrando nos meus desejos, derrubando minhas vontades, meus deveres. e aí me vejo prostrada na cama. a vida cotidiana vai me atropelando, passa como se apostasse corrida enquanto eu só quero mesmo é passar como bloco de rua, carnaval sem fim. e a vida cotidiana transborda, inunda o mundo como um oceano de pequenas obrigações, pequenas repetições inéditas. suspiro. e eu, peneira, vejo a felicidade passar como pequenos grãos de areia perdidos na correnteza louca, sem conseguir reter nada além da efêmera, fugaz sensação de ser atravessada por essas partículas tão pequenas da existência chamadas alegrias. e o resto fica em mim, com o peso das rochas que levam vidas pra se desfazer em poeira. suspiro. gostaria de voltar a desenhar, mas ao invés disso só consigo permanecer sentada assistindo o desenho dos rastros que a vida cotidiana deixa quando passa por mim. suspiro.sobreviver é fácil, difícil mesmo é quando a gente tem que viver a vida sem preposições, só verbos...  sus(piro)

terça-feira, 4 de junho de 2013

até mesmo o verso
ficou pequeno nos tempos modernos

the golden hour

o sol de fim de tarde passou entre as nuvens uma vez cinzas e pesadas fazendo-as ficar leves, prateadas, preciosas. não consegui mais distinguir o tempo (...) era como se ainda fosse inverno, era como se ainda fosse fevereiro, como se eu ainda te dissesse que aquela era a golden hour sem saber que, na verdade, aqueles eram os golden days que eu tanto tinha esperado e vivido na minha imaginação fértil. you're my golden god, babe. você andou pelas ruas da cidade durante toda aquela sexta-feira comigo a tiracolo, me olhando do alto dos teus quase dois metros, se curvando de esquina em esquina pra sussurrar no meu ouvido um i love you, babe que sempre soava surreal pra mim, que respondia com um i love you too, babe, que era pra não perder a chance de repetir pra mim mesma que eu amava. outra vez, eu amava outra vez. e eu sorria com os lábios e com os olhos, e você me dizia que não acreditava que eu poderia ser tão doce e gentil, tão bonita, tão inteligente, tão amazing. você disse i can't believe how lucky i am to have you in my arms now. eu sorri daquele jeito que tu gostava, puxei teu corpo pra junto do meu no meio da rua e te dei um beijo, você fez sonzinhos engraçados, como se ronronasse. por fim beijei a ponta do teu nariz gelado e você sorriu dizendo que não gostava do próprio nariz.
naquela manhã você me esperava na estação como disse que estaria. andando de um lado pro outro, pontual no seu jeans azul e no seu casaco de couro de motoqueiro. e eu atrasada como sempre, ofegante, com flocos de neve espalhados pelo meu cabelo. a primeira vez que te vi te vi de costas, e fui me aproximando enquanto você fazia uma de suas meia voltas em torno de si pra andar outra vez de um lado pro outro. voce virou e me acertou em cheio. meu coração parou de bater.
tudo que eu consegui dizer foi i'm sorry i'm so late, it started snowing and i couldn't find my way to the station, i'm sorry e voce abafou o som das minhas desculpas com um it's ok, babe, you're as beautiful as i expected e me beijou longamente enquanto eu fazia todo o esforço do mundo pra me manter nas pontas dos meus pés. desabei de volta pros meus 1,60 de altura. antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa voce disse que queria me entregar algo que era importante pra voce pra que quando eu fosse embora voce estivesse sempre na minha vida. e disse isso tirando o anel de aço que tinha em um dos dedos, me entregando nas mãos o anel que era grande demais pra qualquer um  dos meus dedos. voce me ajudou a tirar o cordão que eu usava e a colocar o anel ali, pra que eu o carregasse sempre junto a mim.
você não tinha dinheiro pro almoço, e constrangido em me dizer isso, se limitou a elegantemente dizer que não estava com fome. voce que trabalhou todo o dia  anterior no campo tirando os galhos secos das cercas dos campos alheios, que estava com as mãos cheias de pequenos cortes da tarefa, que era um operário simples, era um gentleman. como se espera que qualquer homem inglês seja. mesmo que voce ainda fosse um menino. eu realmente nao me importava naquele momento, enquanto dividia meu almoço contigo eu brincava com os teus cabelos dourados, com tua barba ruiva, e insistia pra que voce comesse mais, me perguntando se aquele nao seria o homem mais lindo que eu já tinha tocado na minha vida.
mal sabia eu que em alguns momentos, antes de me apresentar seu pai, nós veríamos o sol se esconder em roxo, azul e rosa no meio de uma pequena floresta que alcançamos por um caminho sem pavimento. era como se eu sempre tivesse estado ao seu lado, seu cheiro rapidamente se tornou familiar assim como seus beijos e o aconchego dos seus abraços que me engoliam. era como se nós sempre tivéssemos dividido aquela cama, como se soubéssemos o lado da cama a ocupar e a hora de ir dormir assim como a de acordar. nosso relógio biologico simplesmente funcionava igual.
naquela sexta-feira enquanto o sol se escondia por trás dos campos que beiravam a A20, a rodovia que liga paris ao interior da frança, me recostei no teu ombro e quando te olhava de canto de olho via que ainda que o sol já tivesse se posto você continuava brilhando. era sempre golden hour do teu lado.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

me põe na linha das tuas canções
nas cordas bambas das nossas guitarras
rápido, mas sem derrapar
nas curvas dos nossos sorrisos
na batida em que nos embalamos
nos perdemos sem perder o ritmo
me toca, me tira de ouvido
me canta, dança comigo
solo em mi sustenido
(tu me traz insônia com esse acorde impossivel)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

leve

me toma
me engole
como veneno
como remédio
me leva contigo, leve
me leve à loucura
só não me leve a sério

sábado, 25 de maio de 2013

quando eu pinto nao tenho de perguntar quem eu sou, porque eu sou, eu só sou, sou. sou aquilo que pinta, aquilo que fica entre a tinta e tela, ou o que fica entre o lapis e a folha. aquilo que fica - sem ficar, só indo - no ar. o movimento, a fluidez. como se numa poesia eu fosse aquilo que fica entre as palavras, entre as linhas. aquilo que não se pode escrever, aquilo que não se pode pintar nem desenhar. eu sou aquilo que escreve, aquilo que pinta, aquilo que desenha. e aí eu vou me descobrindo aos poucos - prazer em conhecer! - quando vejo o que já fiz. não é que eu me imprima nos papeis, mas eles são a mais pura impressão de mim.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

o que fazer quando a noite é maior que a minha vontade de viver? eu já não posso mais me embriagar, já não sou capaz de ignorar o peso daquilo que não sei dizer. já não sei me embriagar de vinho nem de whisky, só sei me embriagar desse meu querer que não quer nada, que só se quer e pronto. enquanto isso eu assisto de longe.

cai a noite, cai
cai em mim
com o peso do teu corpo
- maior que o meu -
com o peso da existência
- maior que eu -
cai a noite, cai
cai em si
como estrela cadente
que não cai, que só anda
queda livre, queda humana
riscos calculados ainda sao riscos?


vinte3

depois dos 21 a minha vida ganhou pronome, ganhou adjetivo. a minha vida que já não me escorre pelas mãos, mas que passa por mim como rio, que me invade com a correnteza e com os ventos que movimentam o sul, passa e não me passa pra trás. é a minha vida. não a vida, aquela que me infligiam como penalidade, como tarefa cotidiana e maçante, dura contra a minha face, mais dura ainda contra o meu peito. sei que vivo em um universo particular em que os dias começam às 10 da noite, onde se janta às 3 da manhã, onde o sol nasce ao meio dia - que é seis da manhã. "Falta-me coragem pra ver o outro que vive fora de mim". sei que vivo em um universo paralelo onde a minha vida só é minha porque não tem de esbarrar com outras nos cruzamentos das nossas existências bestas. é besta, mas é besteira minha, e quantas besteiras não são mais legítimas que tantas coisas serias do mundo? Meu pai sempre me dizia que não se podia levar a vida tão a sério, e hoje eu entendo que não se pode não porque não há seriedade na vida, mas porque a vida não se leva como prêmio ou como castigo, é porque a vida se vive contraditoriamente entre repetições inéditas e inesperados previsíveis. a vida não se leva, a vida não é levada, a gente não leva a vida. a vida acontece. e nos leva sei lá pra onde, só sei que às vezes, quando paro pra respirar, relaxo no banco do carona e sorrio olhando a paisagem, sentindo os carinhos que os ventos me fazem no rosto. enquanto isso eu assisto a vida passar, fazer e acontecer. enquanto isso eu já não me pergunto porque eu não me faço parte, porque eu só me faço arte e ponto, ponto, ponto. reticente. sei que não tenho mãos, nem perfil, nem cara nem coragem pra me fazer gente, self made man. a vida me fez assim, eu diria. a vida aconteceu em mim, aconteceu pra mim. a vida me disse "me leva que eu te levo à loucura". e eu aconteci assim, gozada, sem vergonha de repetir o que predisse pra mim aos 14 anos: que a inércia me carregue. sem a culpa da impotência anunciada que é condição essencial da nossa existência. que a inércia me carregue: às vezes a preguiça é a única garantia da manutenção de nossos movimentos pela vida. condição de nossas matérias. que a inércia me carregue, eu diria, sem medo do crime e da benção da preguiça: é que a inércia às vezes é muito mais movimentada que qualquer rotina cheia de impulsos...

sexta-feira, 22 de março de 2013


meu avô nunca foi um cara bacana, nem um cara rico. meu avô colocou algumas vigas em brasília, foi operário na construção da cidade. trabalhou de caminhoneiro muitos anos pelo brasil e nos arredores, indo até onde o chão pudesse alcançar. ele cruzou mais fronteiras do que se possa imaginar. (...) meu avô era um cara semi analfabeto que passou fome e sede no meio do ceará. pobre, preto. mas que ensinou ao meu pai o gosto pelas letras. hoje meu avô morreu. e dele eu herdei fortunas que nunca foram testamentadas: meu pai, a cor da minha pele, a capacidade de me reinventar e a vontade de ganhar o mundo.

que seu espirito esteja em paz.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

gosto de pássaros
de desertos
do cerrado
do sertão
das matas
de ver o mar
de olhar as nuvens
gosto de dias ensolarados
gosto de noites estreladas
e de dias de vento frio, mas ensolarados tambem
tenho um fascínio por torres
por construções humildes
por construções suntuosas
gosto de ruínas
e de tudo aquilo que brota em meio a aridez
desafiando a secura
me fazendo lembrar que algo lindo
talvez, um dia, quem sabe?
possa florescer tambem no meu coração cerrado
gosto de livros
de poesia
gosto da melancolia dos poetas incompreendidos
e também do delírio desses
gosto de flores
de folhas
de plantas
do pé, de folha e de prédios também
de paisagens da natureza
de rios
de lagoas
de praias
de mares
de ares
de bares
gosto de vida em forma de animal
bois, cavalos, jegues
insetos
animais domésticos
animais selvagens
flamingos, gaivotas, garças
pardais, vagalumes

ah, gosto de cactus!

gosto das luzes
gosto do fogo
e dos de artifício tambem
gosto de gatos
de expressões espontâneas
gosto de rostos humanos
do corpo frágil
do corpo forte
do corpo nu
de mãos, braços, narizes
olhos e sobrancelhas
gosto de cabelos
gosto de bocas
e tenho uma tara por papel
gosto de cores que se misturam
de auroras boreais e de arco iris
de crepusculos e nascer do sol
gosto de luas cheias
gosto de outono e de primavera
gosto do verão e do inverno
gosto de cores que nao sei definir ao certo quais sao
gosto de paisagens urbanas
de arquiteturas planejadas
e arquiteturas espontaneas
gosto de calçadas
de estradas
gosto de mapas
de tarot e dos astrais
gosto da rua
de árvores
gosto de detalhes banais
daquilo que não é
mas acaba sendo pelo meu olhar

gosto de fazer retratos das coisas
e de pintar paisagem de gente