quinta-feira, 9 de outubro de 2008

dez-pedidas

era sábado, chovia a cidade e eles ali, esperando. a rua deserta, o ponto de onibus escuro e alguns diagnósticos de casos amorosos no ar.


'olha, não vai passar nenhum ônibus, tá chovendo muito e eu vou ligar pra alguem buscar a gente.' ela disse séria como ele nunca tinha visto.


'não!!! eu quero toamr chuva, quero tomar muita chuva!' ele respondeu


'sai daí, voce vai ficar doente' ela falava com o antigo receio de ouvi-lo dizer voce-nao-é-minha-mãe...


'não! olha,...' e tirou o casaco branco, tão conhecido, e jogou para ela '...eu vou tirar minha roupa...' e jogou a blusa listrada para ela também. 'segura a minha roupa!'


ela, segurando as peças de roupa, não entendia 'o que eu fizpra vc? o que??'


ele agora sentava mendicalmente no meio-fio à espera de um ônibus ou de uma gripe, o que viesse primeiro. 'simples: voce roubou minha masculinidade!'


'??????'


'é, e voce sabe é verdade!' ele se confirmava.


'eu não fiz nada!!' ela se defendia.


'TUDO que aconteceu de ruim na minha vida, TUDO ... voce tava lá, voce causou! se eu nao te conhecesse...' e ele não terminou a frase.


a garota apenas confirmava. 'ah, entao tá, em 4 anos eu só te fiz mal... e porque voce nao foi embora?'


ele se calou. pensou antes de falar. 'desculpa... deixa eu corrigir essa minha frase infeliz: voce causou muita coisa ruim, mas mais momentos bons que ruins! se nao fosse voce eu nao estaria aqui nessa chuva tao boa!'


ela nao queria mais ouvir, ela nao queria mais nada. 'tá bom' e ela ficou ali em pé, atrás dele, de braços cruzados como sempre fazia. 'vamos, sai dessa chuva!'


'só saio se voce me comprar um cigarro.' ele sabia qu ela nao faria isso.


'eu nao vou fazer isso' ela se recusava.


'eu sabia, voce é tao previsivel...!' e nao é que ela era previsivel, eles se conheciam a 4 anos.


(...)


'entao vem, vem tomar chuva comigo!' ele se virava pra ela e a chamava 'vem, tira sua roupa também!'


ela nao entendia, mas estava tirando a roupa ali, na rua. talvez porque ela soubesse apesar de nao entender.


'é bom mesmo...'


(...)


e dentro do onibus de volta pra casa de uma longa jornada - ah, eles tinham ido longe demais dessa vez - eles conversavam sobre o tempo que se passara para eles.


'olha, eu nao quero me despedir.' ele falava para ela com os cabelos ainda molhados caindo na face.


'hm...' ela sorriu de canto. 'mas voce precisa ir, se voce for comigo voce pode se machucar.'


'...' ele nao sabia o que responder, talvez pq soubesse que aquilo era verdade.


'é aqui que eu desço.' e beijou-o carinhosamente, com o amor de uma mãe. 'se cuida'


e ela desceu sem olha pra trás.


'se cuida tambem!' ele gritou da janela embaçada do onibus.


e ela se cuidou: no outro dia, eles já não eram um.
sobre divorcios em dia de casamento.

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