quinta-feira, 30 de abril de 2009

medo de escuro

How can I decide what's right?
When you're clouding up my mind?
(Decode, Paramore.)


ela deu um passo a frente, embora ele não tenha solicitado em voz alta. voce brilha - ele disse com os dedos quase tocando os sinais dela, todos abertos. só porque você é escuridão - e mesmo com toda a balbúrdia ao redor deles, tudo que eles ouviram foram os desejos um do outro.

obrigada.


e a você, meu pequeno grande amigo, dedico canções, dedico histórias, dedico um pedaço de quem sou hoje. um brinde, embora você não beba, um brinde a todos as paixões e desejos que evanescem na primeira brisa de inverno, porque você, meu amigo, você sempre permaneceu.


'these last 4 years of madness sure put us straight' 14 years, guns n roses

quarta-feira, 29 de abril de 2009

do amor


"Aquela foi a última vez que senti teu cheiro, enquanto deixava as cobertas frias flutuando em câmera lenta até atingirem a cama, assim como eu - em queda livre, mas em câmera lenta: inevitável e fatal - quando foi embora. o brilho nos olhos, um destino nas mãos, nem um real no bolso. milhares de frases loucas escorrendo de sua boca: (...)

(...) foi então que o amor virou silêncio. e eu sempre soube que você o odiava."

(e eu, que sempre fui escrava das palavras, me encontrei admirando o silêncio de pertinho. (...) ah, meu bem, que se o sentimento fica, as palavras são poucas; não, não completo tuas lacunas com palavras ou palavrões. viver, sentir. falar se sobrar fôlego.)

terça-feira, 28 de abril de 2009

psicologizando

gosto mesmo é da iminência da perda, desse gostinho de dúvida que por vezes demais foi mais doce que o da certeza. acho que fiquei grande demais para a terceira pessoa, mas ainda pequena demais pra preencher essas lacunas.

misunderstood

a certeza estava ali o tempo todo, na linha reta que unia o abraço de despedida e o beijo de boas-vindas, a felicidade pendurada no céu da boca dele em um convite formal a experimentá-la.

toc toc.

'deixa eu entrar e acender a luz.' e não era e nunca foi um pedido, mas sempre uma ordem.

'so sorry, baby. não dá.'

chuta a porta.

esquecera que não estava em trajes formais. ou que era um outro tipo de festa... não que fosse uma má perdedora, mas até os perdedores mereciam um prêmio de consolação que não envolvesse sorrisos complacentes e tapinhas de resignação. mas indignou-se mesmo porque sua porta estava sempre aberta para todos que tivessem uma boa conversa ou apenas aquele brilho no olhar.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

eu que te quero

eu que te quero todo, inteiro
de corpo e alma
eu que te quero agora
eu que te quero sem hora
é o mesmo eu que te quero bem longe,
fique claro...

há algo de mágico no modo como ele olha, lá dentro de mim, sem nem encostar na superfície. eu que sempre quis uma vida cheia de cores só percebi agora que o arco-íris sempre corre atrás de mim, ilusão de ótica ou não.

cinzas


ele olhou para mim pela primeira vez naquela vida em que dividíamos sem aquela expressão de que eu sabia de tudo. eu, quase que maternalmente, sorri pra ele aquele sorrisinho que ele tanto conhecia. mesmo que fosse um ano, eu tive muito mais invernos com você do que é metereologicamente possível. e será que isso não faz das primaveras mais coloridas?

se a cada piscar de olhos ficar mais cinza, eu não duvido que seja mais amor. mas se ficar frio e só frio, então eu começaria a duvidar.

domingo, 26 de abril de 2009

sorte


as cartas todas diziam as mesmas coisas de sempre. dormirei. e, pela manhã, não sei se é sorte ou coisa parecida, por pelo menos 20 segundos vou acreditar que minha última noite não passou de mais uma parte do meu sonho estranho que às vezes chamo de vida.
acho que só dói quando você ri.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

'acho que a vida é colorida demais quando não se tem amor...' ela disse.

'porque?'

'porque o amor é cego, como voce poderia ver alguma cor?'

'ahhh...'

'o amor é tão monocromático...'

quarta-feira, 22 de abril de 2009

cartas de amor pt.1

meu bem, põe a carta na mesa e deixa de jogo... você nunca teve sorte no vício, talvez seja sua sorte no amor.


"concluo, antes de tudo, tristemente, que procuro suas sardas, que procuro seus cabelos bagunçados, suas mãos de dedos grandes, seus olhos caídos, seu nariz grande e sua boca estranha em cada homem que conheço. e quando encontro a mínima evidência de você em outro corpo, não me surpreende que eu me apaixone com a mesma velocidade com que inconscientemente te procuro em cada um desses rostos.

(...)

certamente não te negaria amor algum, mesmo que em outros homens, você me conhece como ninguém jamais conheceu, eu e meu jeitinho falso de easy-going-person que voce sempre desmascara: voce tem um gênio dos infernos, sabia? e ainda assim não te negaria amor jamais.

(...)

e justo eu, que já perdi tanta beleza e tanta juventude, que já desperdicei tanta loucura, tanta inconsequência, justo eu que não aprendi a ser amada e justo você que não aprendeu a amar ninguém, justo nós, dois estranhos na vida, aprendemos a amar um ao outro.

(...)

e certamente, meu pequeno, não te negaria amor algum: digo que abandono a todo meu lirismo barato se por toda a eternidade eu puder ter todos aqueles teus silêncios..."

terça-feira, 21 de abril de 2009

amanheceu domingo na terça-feira, a grama convidativa, o céu mais ainda: deixa eu navegar no espaço, deixa? senti como mergulhando no infinito de uma vez só, sem tomar fôlego. e acordei em um quarto escuro que não era o meu.
voltei a beber. e não foi pouco... eu quero casar com uma grande garrafa de whiskey!

olha, eu gosto de você. droga, eu estou dizendo de novo. mas eu gosto, sabe? dos seus grandes olhos cor de mogno, da sua boca que eu não sei como é, do seu nariz torto, dos seus traços mais finos. gosto do jeito como você senta ao meu lado, o jeito como me olha nos olhos se desvio o olhar nas minhas divagações. gosto mesmo é do jeito como você me prende à vida real, como se toda essa trivialidade de ser adolescente e universitária valesse a pena, como se toda essa banalidade de ser eu fosse mágica, como se eu fosse mágica. gosto do jeito como você se encanta com o cinza do mundo, o jeito como você me faz gostar dos dias chuvosos. você é tão real que faz a vida parecer toda especial, faz as segundas-feira parecerem feriado sempre, mesmo que eu tenha de ler dezenas de páginas em poucas horas.

mas o que eu amo mesmo é a pessoa que eu sou do seu lado. uma garota que fala baixo, que não é boca suja, que não bebe. uma garota chata, eu diria antes. mas aí eu conheci você, quando eu pensei que tivesse perdido as vontades de morrer... que você sabe que significa vida. que antes eu tinha preguiça até de morrer, pois pra morte me falta vida demais, baby. e agora, digo que renuncio ao álcool, a essa minha vida sórdida de poetinha insone, a esses meus hábitos estranhos de almoçar às 3 da manhã se voce apenas me der uma última chance de ser melhor. de ser mais chata, eu diria.

de ser menos eu e muito mais voce.

se não eu me derramo em alcool... nada que eu já não conheça.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

rock the casbah

ela olhou as mensagens pendentes no computador com aquela velha expressão de desconforto, o corpo tenso. as amigas faziam uma pequena festa no quarto menor ainda enquanto isso, trocando de cores de esmalte, penteando os cabelos.

'eu não quero mais...' ela sussurrou, as meninas se calaram. 'eeeeei! eu não quero mais!!!!' ela agora falava alto e firmemente.

'o que? ahh, finalmente!' uma das amigas a abraçou.

estranhamente as coisas ganharam todas um sentido, um sentido de ir pra frente: não era aquilo que ela queria, nem aquele, nem com quem. nem o momento. ela só queria alguma coisa pela primeira vez em muito tempo, e não podia deixar aquela sensação evanescer. não.
'oh, senhora Dalloway, sempre dando festas para cobrir o silêncio.' antes fossem festas, mas não tenho mais palavras.

domingo, 19 de abril de 2009

palavras


(...)certamente não sou nenhuma das minhas palavras, mas me imprimo com tanto sentimento em cada uma delas, que estou em suas mãos se te escrevo uma carta de amor. Se me ler, não procure nas entrelinhas que elas são em branco, me sinta em cada vírgula mal-colocada, em cada neologismo, em cada metáfora. (...)assim como voce não deve procurar a vida na própria vida, te digo que não me procure em mim mesma, mas em tudo aquilo que me rodeia e - principalmente - me faz rodar (...)

rascunho de dois




as palavras, ah, minhas palavras
tão possessivas que já sou delas
-e não elas minhas-
na primeira vez é uma virgula
na segunda reticencias
na terceira é borracha

não te viro a página na cara
que se um vento passa
vai que a pagina volta?
(nem vem, meu bem
nem vem que não tem)
na minha cama as palavrinhas
ficavam pulando a noite inteira
'_________, sua cretina!'
mas elas estavam lá
e eu amava cada uma delas
até as conjunções adversativas, ah!

acho que cresci, meu amigo
prefiro uma vida sem palavras de amor
e cheinha de amores sem palavras.

sábado, 18 de abril de 2009

lua (de mel?)


quando as paixões duram mais de 4 dias
e o medo mais de uma noite inteira
quando nem o whisky enche o vazio
enquanto a vida começa à meia-noite
e se vive de meios sorrisos, dele e dela
há receio em cada curva e em cada reta
quando faltam palavras e sobra vontade de dizer
e uma dúvida é mais docinha que tentar certeza
talvez seja porque ela tome só adoçantes
e tem medo de se intoxicar com seu açúcar
se ela voltar a brilhar,
pode saber que é porque está escuro
e encontrou um sol particular.

acidentalmente

no carro o vento me fazia um daqueles carinhos de que eu tanto precisava, as coisas esfriaram tão rapidamente no sol que eu tive medo de congelar outra vez. à noite mesmo eu tratei de pedir por uns goles generosos do meu amor tão caloroso, que embora não pudessem ser direto do gargalo, foram com toda a voracidade contida daquele dia em que eu pensei que fosse desmanchar enquanto caminhava pela universidade.

nem o whisky me esquentou e isso me fez pensar que eu devia estar perdida mesmo. perdidamente apaixonada por aquela sensação dos pedacinhos de mim se juntando enquanto ele me abraçava. nunca me solte, não. se juntando pra sempre, porque eu sempre derretia e podia ser mais maleável, quase tão flexível quanto um líquido bem colorido. não havia nem encruzilhada, eram dois caminhos: um pra frente e um pra trás. e eu quis ir pra frente. então conclui que estava acidentalmente apaixonada, e isso me fez dirigir com mais cuidado.


quinta-feira, 16 de abril de 2009

aquela viagem


ele me deu aquele olhar que eu conhecia tão bem, aquele mesmo olhar de muitas tardes em que a única música que eu queria ouvir era a canção do silêncio, dançando com a solidão. e que ele insistia sempre em entrar de penetra. ele fez aquela menção de tocar meu rosto, hesitando a cada centimetro, a cada obstáculo superado. aquela menção de brincar com os meus cabelos, que já não eram mais os mesmos. não gosto do seu cabelo assim. talvez ele precisasse mais do que uma mudança de embalagem pra saber que o que vinha dentro do pacote não era mais a mesma coisa.

ele me deu aquele olhar de quem está à beira de um abismo, apenas escolhendo a melhor forma de se jogar. ele me deu aquele abraço de chegada depois de uma viagem daquelas, ele me deu um daqueles sorrisos que eu nunca tinha sorrido. embora eu nem soubesse o seu nome, sabia que a resposta de alguma das minhas perguntas era algo a ver com aquilo. eu perguntei onde era minha casa, e ele disse que era aonde eu quisesse. e foi assim que eu resolvi embarcar naquela viagem. segura minha mão que eu seguro teu destino, baby.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

derretendo


dizem por aí que ela trocou o geladinho do álcool
pelo calor de duas mãos
dizem por aí que ela cansou dos verões gelados
dizem por aí que embora feita de açúcar
ela nao desmancha mais na chuva
dizem por aí que a primavera chegou mais cedo
dizem por aí que se ela está num ponto
e se dois pontos formam uma reta que a liga ao passado
ela tem borracha que apague eles
e faz das reticencias um grande ponto final.
dizem por aí.


terça-feira, 14 de abril de 2009

mal-entendido


de repente o carro freiou. eu estava indo rápido demais outra vez, irremediável. esse teu gênio ainda te mata. quando se está rápido demais sequer podemos ver a paisagem, quando se está rápido demais, se acidentar é muito mais fácil. quando se está rápido, o destino chega logo. minhas paixões duravam um dia ou dois, mas minhas epifanias duravam meses.


why do you kiss me if you dont love me?
because it's all about kisses, not love.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

clima


vi a ingenuidade no seu rosto me convidar pra um mergulho nos olhos castanho claro e minha desconfiança caminhar devagarinho pelas bordas contemplando o fundo. a resposta atingiu minha cabeça como um tiro certeiro, reduzindo a pó os últimos pedaços do meu orgulho: a iluminação de fim de tarde desenhando as formas do seu rosto, um vento que não existia em nenhum outro lugar se não ali entre nós dois. conclui que minha vida amorosa imitava o clima temperamental da cidade de brasília, que quando seca, seca mesmo e que quando molha, inunda.

e eu tinha um milhão de possibilidades, combinações. pequenos, grandes, conhecidos, desconhecidos. eu tinha um milhão de escolhas, mas só precisava de uma mudança. e era você, minha fonte alternativa de energia.

domingo, 12 de abril de 2009

drunk :/

eu simplesmente não sabia o que fazer com ele e sua expressão apática, seu sorriso estranho e suas mãos nervosas que voavam pelo ar que nos separava. odiei o sorriso dele, daqueles que mostravam mais do que a gente queria ver. mas amei desde a primeira vez a cordialidade por baixo do sorriso, amei ver as ruguinhas que se formavam no canto dos olhos dele. mas amei mesmo aqueles olhinhos castanhos e brilhantes em que eu sempre podia retocar minha maquiagem, eu sempre amei os olhos.
ainda assim eu não sabia o que fazer com ele, com suas mãos bobas que insistiam em nos aproximar. isso me deixou enjoada, coisa que eu não sentia desde a última vez que senti raiva. vi as coisas todas colidirem ao meu redor. eu não sou uma garota de relacionamentos. eu não me apaixono. eu não. e senti aquela excitação de quem tem 13 anos e está prestes a dar o primeiro beijo. mas eu tinha 19 e estava um pouco alta.
e mesmo assim, depois de tudo, eu não sabia o que fazer com ele: eu me apaixonei de novo, mas sabia que era só por um dia ou três. sei lá, o mundo agora era colorido demais. me serve uma bebida que eu te sirvo de amor.

sábado, 11 de abril de 2009

poeminha da redenção


sempre que anoitece me vem umas vontades estranhas
de ficar - fora de casa, dentro de você - de partir
de dançar até que o domingo vire sábado outra vez
de balançar em gangorras, de gangorrar em balanços
vontades de escorrega.

sempre que termina o verão me vem essas coisinhas
de aurora que fazem meu cabelo mudar de cor
de ventos de fim de tarde me despenteando
essas coisas de querer amar o não-amor
necessidade de insistir no ingostável.

essas coisas de querer sair de casa,
de querer deitar na grama.
não sei,
essas coisas que me lembram de esquecer voce.

mais azul


perdi as contas de quantos amores ela já teve, entre os verões e as primaveras, entre os outonos e os invernos, entre os mal -resolvidos e os piores ainda. de todos os tipos, de todos os sabores - ela achava que já havia provado de tudo. naqueles dias concluira que já não era tão amarga, concluira que os cafezinhos requentados que servia a ele haviam dado a ele um novo paladar, com um que de simplicidade, de 'estou satisfeito' mesmo não tendo bebido tudo que havia dentro daquela garrafinha colorida que ele não sabia nomear de tantas cores que tinha - logo ele, que sempre enxergara em preto e branco fora tomado como de assalto por aquela menininha dos longos cabelos coloridos demais.

'se voce olhar pro alto, vai ver que o céu é azul. posso te contar um segredo?' ela sussurrou enquanto ninguem estava por perto pra ele.

ele fez sua cara de interrogação.

'nem sempre foi assim.'

sexta-feira, 10 de abril de 2009

mais uma dose

de repente ela se viu demais naqueles olhinhos castanhos quase claros, se viu demais naqueles cabelos, se viu demais nele todo. mas o que ela queria mesmo era se ver nos braços dele, embora soubesse que ainda tinha a mesma natureza alcoólica de sempre. traiçoeira, volátil, volúvel. imprevisível.
e não que isso fosse ruim, mas ele simplesmente era fraco demais pro álcool.

interna


aqueles eram os famosos dias que não voltam mais, que dentro de alguns muitos anos seriam o insumo da nostalgia 'ah, os bons tempos que não voltam mais'. naquela noite, entre aquelas paredes - e também fora delas - o silêncio fugia pelas brechas que o anoitecer tinha deixado, junto com a enchurrada de risadas abafadas que preenchiam aquele espaço enorme entre o infinito e elas, fazendo até a lua parecer mais perto, ao alcance dos dedos quase. aquela amizade era maior que o tempo, maior que o espaço:


'aos dias que não voltam mais, quando aprendi que o que se faz é passado e o que fica é futuro, que as feridas se vão e as cicatrizes ficam, que a juventude se vai e a experiência, que é maior que as rugas, fica. um brinde às passagens só de ida, que nos levam para aquele lugarzinho chamado sempre sem abraço de despedida. acima de tudo um brinde aos homens, que vêm e vão, porque vocês, minhas grandes amigas, vocês sempre ficam.'

terça-feira, 7 de abril de 2009

e então eu podia escolher entre um copo de whisky ou ele. e adivinha o que eu escolhi?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

l'amour


'quando falo de amor' ela disse baixinho no ouvido dele 'falo daquele amor afogado no fundo dos meus olhos, aquele que de alguma maneira me ancora no mundo real. não significa verdade, e também não quer dizer que sou uma mentirosa. mas quer dizer que de alguma forma toda vez que você olhar nos meus olhos, você vai ter de considerar uma distorção. coisa da física.'

e, com os grandes lagos negros quase transbordando sobre ele, soube-se apenas que ele mergulhou. só não se sabe se ele sabia nadar.

domingo, 5 de abril de 2009

losers?

a fumaça inundou a noite outra vez, ela inalou tudo ao seu redor o mais rápido possível - a fumaça, a noite, ele.

'você se importa?' ele perguntou. a fumaça queria ela.

os pulmões sedentos daquele aroma de cigarro que trazia a juventude em retalhos de memoriazinhas quase perdidas, a boca seca, os olhos mais ainda. até que ela estava gostando da estiagem: eles estavam de volta à rua. e ela, que tinha sentido falta até das suas reclamações tragadas junto com os cigarros de fim de noite, falta dos seus silêncios que gritavam mais reclamações, falta de ouvir os pensamentos de alguém que falava pouquinho, também tinha sentido falta dele, falta de uma rotina daquelas que não significava tédio. uma rotina de coisas inesperadas, uma rotina de passeios estranhos, uma rotina de silêncios não-constrangedores.

'nem um pouco.' ela respondeu respirando fundo. 'acho que é assim que se diz eu te amo...'

sábado, 4 de abril de 2009

testamento


e pra você, meu achado e meu perdido,
deixo um olhar, deixo uns gestos soltos,
deixo um sorriso de fim de dia.
deixo aquele finzinho de risada,
deixo uns conselhos baratos,
deixo um almoço que nunca fizemos,
deixo minhas mãos desajeitadas.
deixo meus cabelos vermelhos,
deixo umas sutilezas que só falo em palavrões,
deixo os copos de cerveja e deixo minha mãe
deixo a maior poesia água-com-jujuba no fim da noite onde você só me deixou reticências.

sexta-feira, 3 de abril de 2009


o sol se pondo em algum lugar do instituto central de ciências desenhando um trilho de ouro na estrutura de concreto, os corredores vazios anunciando as não-aulas. hmmm, aquele calor pós-chuva de verão acompanhando uns alívios estranhos. algo que os tolos chamariam de liberdade, algo que ela chamaria de prisão.

mesmo de olhos fechados ela viu as nuvens negras se dissiparem, e dessa vez não era na superfície de um whisky que custava mais que toda sua verba para a sobrevivência semanal. o outono era mais verão que qualquer outro verão que ela vivera, era mais primavera que qualquer primavera mesmo, era mais claro que qualquer outro dia cinza.

suspiro.

ela nem o viu ali. 'ei, onde fica o pôr-do-sol?' ele perguntou.

suspiro. suspiro. suspiros.

ela se desmanchou em sorrisos. 'fica no fundo dos meus olhos, na palma da minha mão.'

quinta-feira, 2 de abril de 2009

carona



ei meu bem, me dá uma carona
eu prefiro que você me leve a todos os lugares
antes que me leve à loucura.

desejo


a vida, baby, cabe em um desejo
embora estejamos separados pela distância de um beijo.