quinta-feira, 30 de maio de 2013

me põe na linha das tuas canções
nas cordas bambas das nossas guitarras
rápido, mas sem derrapar
nas curvas dos nossos sorrisos
na batida em que nos embalamos
nos perdemos sem perder o ritmo
me toca, me tira de ouvido
me canta, dança comigo
solo em mi sustenido
(tu me traz insônia com esse acorde impossivel)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

leve

me toma
me engole
como veneno
como remédio
me leva contigo, leve
me leve à loucura
só não me leve a sério

sábado, 25 de maio de 2013

quando eu pinto nao tenho de perguntar quem eu sou, porque eu sou, eu só sou, sou. sou aquilo que pinta, aquilo que fica entre a tinta e tela, ou o que fica entre o lapis e a folha. aquilo que fica - sem ficar, só indo - no ar. o movimento, a fluidez. como se numa poesia eu fosse aquilo que fica entre as palavras, entre as linhas. aquilo que não se pode escrever, aquilo que não se pode pintar nem desenhar. eu sou aquilo que escreve, aquilo que pinta, aquilo que desenha. e aí eu vou me descobrindo aos poucos - prazer em conhecer! - quando vejo o que já fiz. não é que eu me imprima nos papeis, mas eles são a mais pura impressão de mim.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

o que fazer quando a noite é maior que a minha vontade de viver? eu já não posso mais me embriagar, já não sou capaz de ignorar o peso daquilo que não sei dizer. já não sei me embriagar de vinho nem de whisky, só sei me embriagar desse meu querer que não quer nada, que só se quer e pronto. enquanto isso eu assisto de longe.

cai a noite, cai
cai em mim
com o peso do teu corpo
- maior que o meu -
com o peso da existência
- maior que eu -
cai a noite, cai
cai em si
como estrela cadente
que não cai, que só anda
queda livre, queda humana
riscos calculados ainda sao riscos?


vinte3

depois dos 21 a minha vida ganhou pronome, ganhou adjetivo. a minha vida que já não me escorre pelas mãos, mas que passa por mim como rio, que me invade com a correnteza e com os ventos que movimentam o sul, passa e não me passa pra trás. é a minha vida. não a vida, aquela que me infligiam como penalidade, como tarefa cotidiana e maçante, dura contra a minha face, mais dura ainda contra o meu peito. sei que vivo em um universo particular em que os dias começam às 10 da noite, onde se janta às 3 da manhã, onde o sol nasce ao meio dia - que é seis da manhã. "Falta-me coragem pra ver o outro que vive fora de mim". sei que vivo em um universo paralelo onde a minha vida só é minha porque não tem de esbarrar com outras nos cruzamentos das nossas existências bestas. é besta, mas é besteira minha, e quantas besteiras não são mais legítimas que tantas coisas serias do mundo? Meu pai sempre me dizia que não se podia levar a vida tão a sério, e hoje eu entendo que não se pode não porque não há seriedade na vida, mas porque a vida não se leva como prêmio ou como castigo, é porque a vida se vive contraditoriamente entre repetições inéditas e inesperados previsíveis. a vida não se leva, a vida não é levada, a gente não leva a vida. a vida acontece. e nos leva sei lá pra onde, só sei que às vezes, quando paro pra respirar, relaxo no banco do carona e sorrio olhando a paisagem, sentindo os carinhos que os ventos me fazem no rosto. enquanto isso eu assisto a vida passar, fazer e acontecer. enquanto isso eu já não me pergunto porque eu não me faço parte, porque eu só me faço arte e ponto, ponto, ponto. reticente. sei que não tenho mãos, nem perfil, nem cara nem coragem pra me fazer gente, self made man. a vida me fez assim, eu diria. a vida aconteceu em mim, aconteceu pra mim. a vida me disse "me leva que eu te levo à loucura". e eu aconteci assim, gozada, sem vergonha de repetir o que predisse pra mim aos 14 anos: que a inércia me carregue. sem a culpa da impotência anunciada que é condição essencial da nossa existência. que a inércia me carregue: às vezes a preguiça é a única garantia da manutenção de nossos movimentos pela vida. condição de nossas matérias. que a inércia me carregue, eu diria, sem medo do crime e da benção da preguiça: é que a inércia às vezes é muito mais movimentada que qualquer rotina cheia de impulsos...