domingo, 30 de maio de 2010

runaways? yeah yeah yeahs

"run run run away
 lost lost lost my mind"

Ele a viu pela janela em preto e branco, quase apagada. Se perguntou aonde haveria ido o sorriso tímido dela, as cores vibrantes, as palavras em uma escrita descontraída. Agora ela não era positivamente estonteante, mas ainda era morbidamente linda, escondida entre os jogos de sombra e luzes, o cabelo caindo em plena face, a boca semi aberta como se ela nunca pudesse ter dito suas palavras finais. Era meia-noite quando ele decidiu segui-la, ela só o percebeu pela manhã, quando o silêncio cresceu absoluto, sem passos como fundo musical. Antes que se voltasse à rotina, ela deixou-lhe uma nota de rodapé:

'i was feeling sad
cant help looking back
highways flew by
run run run away
no sense of time
i would like you to stay'

Ele leu o recado com um meio sorriso no rosto: all along, not so strong. yeah yeah yeahs? Ela sorriu com a resposta em forma de pergunta, ele sabia que por trás de todas as cores do arco-íris dela não haveria pote de ouro algum - e mesmo assim ele manteve os olhos abertos enquanto deitava na cama e contemplava o céu que os separava e os unia, imaginando as quedas e toda a natureza, a ilusão de ótica que era o arco íris: intocável, irretocável. A voz no beliche de cima perguntou qual era o seu problema, ele cantarolou quase num sussurro:

"lost lost lost my mind..."

a voz do beliche de cima rompeu mais uma vez o silêncio: 'yeah yeah yeahs?'. o silêncio cresceu significando o sim, a voz sabia que os ouvidos na cama de baixo esperavam uma resposta. 'run run run away'.

terça-feira, 25 de maio de 2010

te vejo do outro lado.

Não perguntou seu nome ou sua idade, perguntou como estava - não que a resposta fizesse diferença. Ela ensaiou seu melhor sorriso enquanto pensava que não tinha nada a perder, com os olhos grandes e contornados com maquiagem borrada. Ela disse que amar era como escrever a lápis, ele disse que era como escrever a caneta: pra solucionar as rasuras imperdoáveis, ela recorria à borracha; ele, virava a página ou escrevia por cima.
Ela soube que nas binomiais, só cabia um lado da moeda - questão de sorte, ela diria; questão de estatística, ele diria. Ele arrancou as roupas dela sabendo da vulnerabilidade juvenil em que ela se encontrava, ela se deixou despir sabendo da própria vulnerabilidade. Sartre sorriu no túmulo. Ela embarcou no último avião depois de fazer as malas que deixaria pra trás, ele ficou. Ela lavou sua alma com álcool do outro lado da fronteira, ele fez não-se-sabe-o-quê do lado de cá. Eles retornaram ao erro já conhecido: ele perguntou, ela falou das letras minúsculas no seu contrato. Ele disse sim, ela também.
Eles viraram nós, ela quis ficar. Ele embarcou no primeiro avião, ela permaneceu aonde sempre permaneceu. Ele voltou, ela disse que o amava enquanto chorava, ele a beijou, ela o despiu sabendo da própria vulnerabilidade. As tardes multiplicadas por cinco agora eram divididas por 10. Ela tomou fôlego antes de mais um mergulho, ele não tomou nada. Ela pensou em algum recomeço, ele pegou um ônibus qualquer. Ela levou boas vindas de volta a ele, ele levou um ponto final. Ela pediu uma razão, ele deu uma mentira. Ela perguntou do amor, ele se contradisse. Ele disse que algumas verdades machucavam, ela disse que algumas mentiras eram crueldade. Ele disse pra ela ficar bem, ela sabia que ele não dava a mínima. Ele falou que ela tinha uma grande imaginação, ela soube que era verdade: ela criou um nós onde só existiu ele. Ele virou a página. Ela comprou um caderno novo. Ele disse até logo. Ela disse "te vejo na outra vida", sabendo que ele não acreditava em nada disso.

E então ela decidiu morrer como se nunca tivesse vivido. E não era mais uma de suas falácias: as noites doloridas de fevereiro eram as únicas que lhe haviam dito a verdade.

domingo, 23 de maio de 2010

limites

brasília, 19:51:
meus pensamentos cristalizaram e entupiram as veias do meu coração, eu acho. passei as últimas 4 horas sentada na cama, contando os bichos de pelúcia, contando quantos dias me restam, contando os cabelos que a ansiedade me arrancou e os prazeres que o prozac me roubou. Apesar de ter perdido tantos quilos, todo o resto de mim ainda pesa uma tonelada e a gravidade me mantém colada nos lençóis da minha cama por horas a fio. eu acho que meus pensamentos mais densos, aqueles que gostam de correr pelo corpo inteiro como calafrios, entupiram as veias do meu coração.

depois de café, chocolate e prozac fica difícil acreditar que a felicidade não é nada além de um efeito colateral de alguma droga que provavelmente vai te arrastar a todos os seus limites e principalmente ao limite dos outros - aquele limite desenhado por alguém delimitando quem você devia ser. eu já não bato mais.

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pensei que eu fosse um caso perdido: que nada, só esqueci de tomar o prozac hoje.
eu quis te contar da minha descoberta, daquilo que você já tinha me dito e daquilo que eu já sabia. eu quis te contar porque eu tinha tanto medo das minhas palavras e dos meus desenhos, dos meus sonos e sonhos, eu quis dizer porque eu corri tanto em círculos. eu quis dizer de toda a miséria que era a felicidade, a segurança e o romance romântico, eu quis te dizer porque goethe já era, porque as mesas de café estavam decadentes e os intelectuais eram tão last week, eu quis te contar da minha epifania sobre o regime de 64, a ditadura, a censura e todas as vezes que os intelectualóides clamaram pelo nome da democracia. eu quis te contar do progresso e do futuro, eu quis te contar tudo. mas eu encontrei tudo isso no seu olhar perdido entre o mundo inteiro e o resto dele. você sorriu na mais pura simpatia, mudando de assunto, mas nunca deixando de dizer alguma verdade...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

ignorando as grades de proteção (cont.)

(...) hoje já não penso em todo o tempo que perdi, só creio que não há desperdício em questão de juventude. ela citou chico buarque, eu citei ferris bueller: "a vida passa muito rápido e se você não parar pra dar uma olhada de vem em quando, você pode desperdiçar ela". As mães sorriam para ela, as mães condenavam minha infâmia e vulgaridade, minha vaidade. Eles perdiam madrugadas inteiras pensando nela, eu era tão entediante que os fazia dormir. Ela bebia socialmente e só falava de social, eu fazia jus aos tempos de marinheiro do meu pai e contava piadas sujas. apesar de tudo o rio de janeiro e a baixada fluminense ainda corriam em meu sangue, cada curva do meu corpo dizia samba, caipirinha e churrasco. As mães não gostavam de mim, mas eu não ia diminuir o volume dos meus versos e das minhas canções para não me sentir mais deslocada: adicionei em post scriptum um foda-se em letras garrafais, como sempre transgredindo as normas da ABNT. Eu não ia permitir que a mediocridade me diagramasse em letras de notas de rodapé, eu não venderia meu ouro por preço de pirita.

ignorando as grades de proteção


pensei que não queria mais escrever, mas percebi que isso era essencialmente uma parte de mim. meu coração apertou no meio da noite, as sirenes soavam não tao longe quanto eu desejaria, os policiais iam rondando e as prostitutas rodando a bolsa na ponta do dedo, no ponto de ônibus. O ponto de conversão, o ponto de partida e tantos outros pontos que só me inspiravam o desejo de ser reta e percorrer a menor distância entre dois deles. meu pensar me levava de volta no tempo em que eu tinha oito anos e minha mãe dizia que eu poderia ser tudo o que eu quisesse. eu quis ser tudo, ela disse que eu já era. aos 20 anos eu não conseguia viver sem deixar rastros e traços, eu me imprimia em todo lugar com minha infâmia: não vi bauhaus, não li nenhuma obra completa de machado de assis e nunca tomei aulas de história da arte. ah, e ainda questionei o maniqueísmo hipócrita dos revolucionários em toda parte: hitler e todos os outros tiranos começaram assim, sendo a reta entre esses dois pontos tão próximos.

rabisquei outro desenho no caderno que pedi a meu pai fazia tempos. Os lápis foram encontrados na rua enquanto minha mãe caminhava. A hora passou rápido enquanto eu corria pelos riscos, a casa em constante movimento parou pra assistir minha arte final aquela noite, já fazia quase um ano desde meu último rascunho e ao fim da linha me aplaudiram. pensei que não queria mais desenhar, ouvi dezenas de vozes condenando minha ignorância e vulgaridade, meu vocabulário baixo, minha maquiagem pesada e meu gosto excêntrico. me escondi atrás de um livro qualquer e de tudo que eu já fui: uma pessoa ruim. as mães sorriam amarelo pra mim, as crianças queriam ser eu. mais um de meus cachos escapavam do coque e eu mordia mais uma caneta com as pernas cruzadas elegantemente, sempre me contradizendo - o que eu fazia de melhor... ou não?

tive vontade de ir até a sinuca no subsolo da oficina da outra quadra e pedir uma dose de whisky sem gelo e um marlboro. tive vontade de me embriagar com a fumaça dos cigarros, com o aroma do ácool destilado. tive vontade de não deixar minha cama outra vez. (...)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

repetição

antes eu escolheria calar, hoje eu escolhi não dizer nada. e de todas as palavras que disse, as únicas que ele quis ouvir foram as amenas. eu disse pra ele que eu sentia muito, ele me disse que era melhor que não sentir nada. contei do meu medo e contei as feridas no meu corpo, ele disse que logo tudo faria sentido. contei do meu receio de adormecer, ele disse que logo tudo seria sentido. eu pedi um abraço, ele negou veemente: segue em frente com as tuas mãos que elas são mágicas. ensaiei um sorriso: faz sentido...

terça-feira, 18 de maio de 2010


abre a janela, meu bem, deixa a luz entrar. agora abre os braços e deixa todo o resto sair...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

diálogos de um só

antes de tudo eu te conto do medo da solidão, dos calafrios e das justificativas, das lágrimas secas, do exaurimento emocional em que me encontro. não é questão de coração mas sim de sensatez, não é questão de amor, é questão do que eu nem sei nomear. nas pontas dos meus dedos as soluções emergenciais: os comprimidos, as palavras e os números de telefone. antes de tudo te conto que eu não aprendi a ficar sozinha, que quando eu sou peça única eu me sinto mais deslocada que fantasia de carnaval em guarda-roupa de executivo. antes de tudo te conto não do medo do futuro, mas do medo do agora e da sozinhice de ser eu, de escrever no vácuo do meu lar na certeza de que você aí, você mesmo que eu talvez nem conheça, me acompanha em cada tip tip tip do teclado. você me chamaria de hipócrita, não é verdade? que eu que cantei a melancolia e pintei a solidão de tomar uma dose rápida no balcão do bar, eu que estampei o soar curioso do violão pela noite mais silenciosa do alto da minha sacada na verdade não passo de poesia parnasiana sobre a arte da solidão só pra entreter você, que creio eu, no alto não só de minha sacada mas também no de minha sabedoria, ficará lisonjeado de saber que alguém no mundo se importa com teu tédio e permanecerá aqui, acompanhando meus tips e tacs e me poupando da verdade da sozinhice, aplaudindo minhas hipocrisias de aclamar a solidão da qual eu sempre me esquivei, me escondendo no fundo dos copos, dos corpos e onde mais eu coubesse na hora do aperto.

antes, deixa eu te contar das minhas esquivas: qualquer mentira é segurança precária, já diria Marcelo Tavares. E eu tenho sido uma péssima guarda-costas pra mim mesma.

domingo, 16 de maio de 2010

letra de samba


eu já não tenho mais peito pra tanto batuque
pra tanto ziriguindum
e muito menos quadril ou jogo de cintura
pra tanta amargura
até o amargo de cerveja não me desce mais
o gosto de whisky já não satisfaz
e no final
o gelo ficou

onde tinha que ficar
no fundo do copo e do coração
na menor escala dessa canção
na aspirina e na inspiração
na risada que eu sorri
no edredon já não fico mais
a maquiagem fica pra trás
não me fale de amor no Rio
nem de carnaval
nem de carnaval

caipirinha com limão e sal

sábado, 15 de maio de 2010

Melancolicos Anonimos

shhhhhhhhhhhhhhhhh... toc toc toc rrrrrrrrrrrrrsh

"Antes a vida era na rua, as madrugadas eram a melodia que me colocavam pra dançar, o zunido dos carros na avenida eram minha canção de ninar e o edredon me encobria nos dias de verão. os sabores explodiam no céu da boca, os olhos se enchiam de cores e o coração apertava - me dá mais um? Eu viveria de doce em doce, de mesa em mesa, de banho em banho mas nunca de cama. E então veio ele, inédito e preciso nos últimos dias que precediam o verão; o milagre prometido na terra do tédio, o achados e perdidos da perda de temperamento e de controle. Veio ele, barato e insensível ao fim da tarde, a boca seca, a promessa de dias melhores e mudanças de que eu necessitava para sobreviver mais um tempo, veio pedindo exclusividade, dedicação. eu entorpeci. Veio então o recesso e a recessão, e mais uma dose agora pela manhã. 5 meses passaram, eu já não podia escrever ou dormir. Desenhar era tarefa impossível, a coordenação falhava e a memória se escondia ao chamar o próximo acorde no violão: tanto fá... ele já tinha me colocado no lugar que me prometera em sua bula, eu já pesava 15 kg a menos e já não contrabandeava brigas e discussões nas esquinas que eram só minhas. eu já tinha escolhido não falar, nao dizer, nao tocar, nao sentir. Ele me deu o que eu sempre quis e que agora eu sei que nunca precisei. Meu nome é Fernanda, tenho 20 anos, alguns talentos e muita sensibilidade e não sei o que vou fazer quando o médico cortar meu cloridrato de fluoxetina, minha cura e minha doença."

sexta-feira, 14 de maio de 2010

convite

sem choro nem vela
sem fita amarela e nome dela
celebra o dia e a noite
o inverno e o outono
as flores de maio
antes que o sol se ponha

sem 20 nem anos
sem conhecidos nem estranhos
celebra a morte e a incerteza
o errado e o primeiro
o certo e o derradeiro
que são as únicas certezas da vida

celebra então qualquer motivo
celebra o crime e o castigo
os pés pela cabeça
o spare time e antes que esqueça
acorde e adormeça.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

rascunhos


Ele apareceu, como era de costume, no meio de uma aula. Ela sorri ternamente ao ver seu rosto juvenil de 18 anos com os traços de uma vida inteira que fora dura com ele, ele nunca reclamou nada, e ela tinha a mesma idade e tão poucas convicções. As conversas eram triviais, o tempo estava acabando, os caminhos se fechavam, as estradas se abriam, o abraço se apertou.


"eu não sei o que fazer com meu trabalho, com minhas escolhas, com meus estudos, com minha família, com meus amigos.", ela disse em um ar cômico para que rir de si mesmo fosse mais fácil. Não era.


"você é uma pessoa brilhante, nao desperdice isso." ele respondeu.


No fundo ela sabia que excesso de receio era medo justificado, medo de não ser tudo o que poderia ser porque ela teve preguiça, ou só se achou boa demais para ser boa. Ele a abraçou com toda a certeza e razão que lhe eram possíveis, querendo compartilhar nas partes de seus corpos que se conectavam tudo o que ele sabia que poderia ser, todo seu dom de vidência.


"você é brilhante como uma vela queimando. Mas você ficou dentro de uma redoma, eu não sei em que ponto ou como isso aconteceu, mas você criou um limite invisível que não deixa ninguém se aproximar demais e no entanto permite que assistam na primeira fila você se apagando lentamente, sufocando seu próprio brilho. Você tem que quebrar a redoma de vidro antes que o oxigênio acabe. Você pode queimar um mundo inteiro de oxigênio.' ele completou ainda no abraço.


Ele não percebeu que enquanto isso se desenhava uma lagrima no olho dela. Ela tinha medo da água e do vento, das tardes e das noites, de tentar e de conseguir. Ela já não percorria os bares e as quase madrugadas, os risos torpes, as cordas desafinadas e bambas - tudo em nome do equilíbrio, a maior contradição e desnecessidade quando se decide sentar e esperar que a vida passe. Ela perdeu um jeito de rir que tinha, um descompromisso no olhar. Ela deixou pra trás o que era de melhor em si pra ser mais leve caminhar, a quilômetros de qualquer vida. Ele só a conhecia há dois meses e sabia que ela estava leve demais para se manter no chão.


'Queima o mundo que é só assim que ele vai brilhar pra todos os outros que não tem chama alguma.' ele disse enquanto se despedia.


Ela voltou a aula, da qual nao restou nenhum ensinamento a nao ser as palavras dele. Ela sabia que o tempo tropeçava quando ele corria, que os desastres eram questão de tempo e disposição, ela desejou deixar a cidade já que não podia deixar a vida.



(...)


No dia seguinte a caminho da universidade anunciou que desejava queimar seu dinheiro em uma viagem qualquer, em uma mentira a mais. Seu pai foi condescendente com o que, ele pensou consigo, sem jamais admitir a filha, ser provavelmente um dos últimos desejos dela ou uma das últimas coisas a se tentar. E mesmo o tempo contou a seu favor, ela ensaiava os erros com graça e leveza antes de sair de casa para que cada dia fosse mais fácil não olhar pra trás, fosse por medo ou por vergonha.


Fazer as malas era fácil, não pensar mais ainda. O futuro era agora pra todos aqueles que conheciam um atalho para o fim das contas - o pensamento lhe causou um calafrio que a fez sorrir amargamente. Ela abafava sua imaginação porque suas palavras eram afiadas demais e sua solitude, ciumenta. O tempo corria e já não tropeçava mais, o tempo aprendera a se equilibrar. Ela contou os comprimidos, contou as histórias que escrevera e os motivos que já havia inventado. Ela sorriu amargamente, ele mostrou a ela todas as possibilidades de sair da redoma, gentilmente. Ela hesitava por medo do frio, das tempestades e principalmente, pelo medo de ser humana. Antes de inventar uma desculpa a mais, antes de prometer deixar as letras, antes de qualquer invenção, ela soube que não podia voltar atrás: não havia mais passados ou presentes, era tudo falta, era difícil estar consigo por horas seguidas de distrações.


(...)


O tempo corria. Ela já tinha 20 anos. E era uma questão de tempo, de corridas, de condicionamento não tropeçar. Ou tropeçar e não cair. Ou cair e se levantar, sem perder o fôlego. Porque ela se poupava tanto se ela já não acreditava no futuro? Viver com medo não é viver, ele disse. Eu fiz besteiras e você não faz sentido, as pessoas acreditam em você como clientes que provam amostras grátis e te levam pras suas vidas, você acha certo não tentar porque você sabe que voce seria brilhante? Ou voce tem certeza que é uma farsa e por isso não quer tentar? Eu sobretudo acredito no que não vejo, e voce?


(...)


seu amor às palavras não a sustentava mas as palavras que ela cultivara a amavam profundamente, antes que elas caminhassem em ressentimento, deitaram-se ao seu redor e ficaram por mais uma noite e um sempre. Todas elas sabiam que estavam condenadas umas às outras por toda uma vida que já era grande.


'E será muito mais', ela disse retomando a caneta e o lápis, de quem jamais se separaria outra vez pela certeza de que um rascunho sempre poderia ser melhorado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"esperou que não passasse da meia-noite, onde seu sono desbanca mundo afora e só volta no meio da madrugada, bêbado e trôpego, incerto, indecente. alguém lhe disse que o céu lhe cabia nos olhos, e que ela sempre seria água ao invés de alcool para o bem de seus remédios e suas curas, que ia mudar de rota e de rotina mas que no fim das contas retornaria sempre ao mesmo lugar - o ciclo completo. a primavera e o verão se encontraram finalmente, ela tentou abraçar o céu outra vez, lhe escapou como o vento. no outro cômodo da casa as mesmas teclinhas que batiam no seu quarto, lá tintilavam, provavelmente codificando alguma mensagem realmente importante. ela esperou que não passasse da meia-noite: ela nunca conseguiria ser a menor distancia entre dois pontos. ela hesitou com o lápis na mão entre um rabisco e uma letra. escolheu o rabisco, pousou o lápis na esquina da boca para que lhe segurasse um sorriso. deitou-se na cama onde o edredon lhe confortou em mais um embarque para sonhos que lhe confundiam, o silêncio pairou mórbido e irredutível, na avenida mais próxima um carro ou outro passava rápido. as putas já batiam outra coisa que nao o ponto. o porteiro já cochilava. e ela jazia na cama:

aqui jaz um pacote de jujubas de todas as cores - na escala de cinzas.

sem graça, desinteressante. mas muito rara. ainda assim ela soube que não escreveria outra vez.'

segunda-feira, 10 de maio de 2010

(...) talvez eu nunca toque o céu outra vez. e eu não sei mais se é revolta ou se é comodismo, mas a vida segue de um jeito imperceptivelmente falho. e meu peito arde e se revira procurando algo que eu estava salvando bem no fundo pra esses dias livres. e eu percebo que das duas partes que eu sou, só uma pode ficar.

e eu sei qual é. é exatamente a mais covarde.