terça-feira, 17 de junho de 2014

tua mão encostou na minha numa rua de nova iorque antiga. estremeci. voce sussurrou em frances no pé do meu ouvido que não há acaso, só encontros. e assim, encontramos o white horse tavern. voce falava sem parar e sorria, eu sentia o teu cheiro de longe - a atmosfera que nossos olhares criavam me engolia. não existia mais passado ou futuro, eu nao sabia se era 1940 ou 2016, voce e eu éramos atemporais. "a pain stabbed my heart as it did everytime i boy i loved took the opposite direction in this too big world of ours". (...)
voce me levou pela mão como se fosse da cidade. a verdade é que a cidade era nossa, voce era meu e eu era tua, perdidos na nova iorque antiga. voce me abraçou, me levantou no ar. voce suportou o meu peso, minha insustentavel leveza, e giramos ao redor do teu corpo na 13rd com a 10th. pegamos um taxi, 9th, 8th. New York Times.
(...)
à meia luz voce se mostrou inteiro. tua mão na minha no bar, nossas linhas da vida se cruzaram e não passaram batidas. nem mortos nem feridos, nós dois sobrevivemos.

domingo, 20 de abril de 2014

gnossienne

toujours lui
lui partout

... as notas ficaram soando, dançando na minha cabeça, trilha sonora daquela noite que eu nunca fui capaz de esquecer, aquele que eu nao conseguia lembrar. de repente eu me vi obcecada pela sua memória que eu nunca registrei, obcecada pela necessidade de preencher os espaços que o dia seguinte que não vivemos deixou. eu te inventei, tinta, papel e água, com as cores do meu pensamento. daquela noite que passou mas que talvez nunca tenhamos vivido. muitas coisas ainda me lembram você, e trazem de lembrança os sorrisos que voce não pôde me dar. eu te inventei e te inventaria de novo quantas vezes fossem necessárias com a ponta do meu pincel, com a ponta do meu lápis.

nunca esqueci aquela noite que eu não conseguia lembrar,
nunca esqueci teus beijos que tu nunca me deu. não lembro mas não esqueço,
sequer sei se te conheço.

domingo, 26 de janeiro de 2014

viver três estações esperando pelo verão, sempre o verão. e a vida toda que corre e corre, condição única da morte. tudo que morre um dia esteve vivo, e a vida dói tanto me escapando enquanto eu tento me agarrar a ela, sabendo que rio represado não é mais rio, que a vida contida não é vida, é morte. e aí eu me vejo procurando vida no túmulo que é teu corpo, os teus olhos vazios, vácuo. teu olhar ainda me atravessa como uma faca cega só pra me dar certeza do machucado. minhas paixões duram cada vez menos e são cada vez mais avassaladoras. e eu deixei de ser tão insistente, e ao mesmo tempo me tornei obcecada pela sensação de estar apaixonada. apaixonada pelas minhas paixões passageiras que se apagam como passos na areia com os movimentos da maré. da lua.
little brown sugar. voce me diz com um brilho no olhar que eu reconheço de outra vida. outra ou talvez uma, de quando tanto voce quanto eu estávamos vivos. de quando nenhum de nós dois se agarrava tanto à vida desesperadamente na esperança de que ela nunca acabasse. e assim nos tornamos áridos, secos. desertos. voce é tao contido, é represa, é barragem. e toda a vida que ameaça transbordar a qualquer momento mas nunca transborda, e eu não tenho mais tempo nem idade pra acreditar que eu sou gota d'agua nem tempestade.. nao posso me dar o luxo de esperar que tu me regue, que tu me carregue. que me inunde e me arraste, me devolva para o mar.
e enquanto isso eu me distraio com a tua boca distante, fresca, cheia de promessas e desejos nunca conjugados no presente, esperando uma palavra e quem sabe um beijo. voce me (a)paga em silêncios e é isso. copacabana, arpoador e ipanema. silêncio do leme ao pontal. sem o piano de escudo voce é só um homem de saúde frágil e sono leve, cheio de medos e cercado de seguranças. tu é europa e eu sou américa latina mas tu não consegue me colonizar.
ninguem sabe a duração de um momento, mas eu sei que aquela noite durou pra sempre.