segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ao meu grande amigo,

"... e antes que o sol se escondesse do outro lado do prédio, sentou-se na varanda com ele para desafiar o silencio sacro de carnaval em brasília - pintada em branco, preto, céu e cerrado. sussurrou-lhe algumas palavras mágicas antes de tocar-lhe. a primeira nota soou irresistível, sem dó. o sol se escondia, ela estava quase lá. devorou a última nota com voracidade de quem experimenta uma certeza: ela finalmente estava de volta a si..."

o velho violão que jazia ressentido a um canto de meu quarto empoeirado.

extrema unção

Antes que amanheça quero que saiba da tragédia maior do lirismo, da contradição romântica na pós-modernidade e da arrogância de uma poeta que só sabe amar a distância - e à distância, do destino de uma cigana que vê a sorte em cartas, aquelas que ela mesma escreve a mão entre uma aula e outra, entre uma vida e outra.
Apenas uma voz me cabe mas ouvidos me restam, os teus garranchos me trazem alento, as linhas se multiplicam na velocidade da luz, totalmente intangível, e as responsabilidades crescem com juros compostos de fatura de cartão de crédito atrasada. Uma vida toda pela frente, ele me disse enquanto pousava em minhas mãos os doces, seria uma longa viagem em busca de alguma coisa que nenhum de nós sabia o que era exatamente. Os 20 e poucos anos denunciam a ingenuidade de pensar que dá pra encontrar alguma perspectiva ou alguma esperança nos achados e perdidos.
Você sabe dos meus anos desenhados e cantados, tocados no violão em notas que já não me tocam. O futuro parece abreviado a medida em que o passado cresce e o presente se desmancha. Shhhhhh. Falo baixo, já são quase 2 da manhã e o silêncio é o melhor guardião de segredos; e depois de tanto tempo sem comungar de nada, resolvi me confessar sem intenção de perdão mas com objetivo de desabafo, de desapego. Acho que estou doente e só posso matar e morrer, na conjunção aditiva mesmo, forçando as últimas falácias para fora do meu ser.
Segue teu caminho, amor. Segue. Que voce possa perdoar não meus dedos e não-me-toques, mas minhas mãos e minhas necessidades, que voce possa perdoar meu egoismo de mim e minha generosidade de palavras desmedidas. Que voce possa sobretudo entender que não há o bastante de mim para nós dois em tempos de estiagem. suspiro. E que ainda sobre misericórdia para que perdoe a Si mesmo por ter concedido ao Homem o Fogo e o Oxigênio ao mesmo tempo.

Amém.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

se as portas estão abertas entao porque tentar entrar pelas janelas? e se um dia ruim fosse a garantia de toda uma vida boa?

ainda assim a incoerencia escolheria o agora em nome da desesperança no futuro. salud, mis amigos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

passa passa passa

passa da meia noite
e eu nao passo da inercia
não tenho mais roupas passadas
nem agenda nem promessas
tem gente que fica passada

e tem gente que prefere bem passado
eu prefiro passageiro
passado a limpo e ao ponto
no tira gosto um conto inteiro
recheado e transbordando de passado.

qualquer inspiração não deve ser ignorada e sim cuspida no papel antes que o primeiro refrescar do verão infernal leve o modernismo embora...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

tem fogo?


o dia começou às 4 da manhã embora ela tenha tentado arduamente adiar isso, o pôr-do-sol estava distante, provavelmente ainda do outro lado do continente. "morrer é fácil, viver é difícil. e mais difícil ainda é morrer e deixar morrer". enquanto as lágrimas contavam as horas infinitas até o primeiro raio de luz que anunciava a vida nova - mais que fogos de artificios e champagne.
o tempo era duro, o futuro parecia cada vez mais abreviado; quis escrever o mundo todo em uma dúzia de palavras, talvez fosse seu crime. o calor estava implacável aqueles dias, tudo era e tinha mais sentido. ela não esperou que ninguém lesse a correspondência sem destinatário, mas o vento certamente deve ter levado sua melancolia com a leveza que carrega uma pluma em direção aos oceanos... as buscas por futuros resultavam em passados, e seus olhos à prova de balas ainda tinham suas fraquezas.
não demorou muito até se sentir patética outra vez, abandonara o gosto refinado pela literatura e a gana de estudar por uma preguiça descomunal e sem vergonha que davam a todos os dias tempero de domingo. havia sete dias que ela não saía de casa para nada, seu inglês praticado consigo mesma pelo menos melhorava. nada digno de poliglota, mas comunicável. ela se satisfez rápido. era assim com quase tudo já fazia algum tempo: 'hm, não existe inibidor de apetite pra alma', ela sorriu para a mãe.
o dia começou a escurecer outra vez, e, de novo ela não vira o sol. e continuou se sentindo patética, sem final nem feliz.