domingo, 31 de agosto de 2008

cuidado com seus desejos,

eles podem se realizar.



'eu não sei como estou, querendo um não-querer. quero alguém mas quero estar sozinho.' ele disse.


'vontades antagonicas, como um desejo de fazer algo que voce desconhece... tipo tocar o intocável, sei lá. as vezes me sinto assim, ... e por eu nao saber o que eu desejo sempre me flagro insatisfeita.' e ela disse mais sem dizer nada.


diálogo curto.

it's raining men

'é sábado, será que eu devo sair e encontrar um outro voce?' Sexed Up, Robbie Williams.


era realmente sábado de novo, que surreal. em pleno agosto quase setembro Brasília ameaçava chover, e isso era mais surreal que o fato de ser sábado. ela não fazia idéia de como as coisas aconteciam daquela maneira, toda vez que ela expressava o mínimo interesse em alguém que também a queria era desencadeada uma espécie de reação em cadeia: ex-amores, ex-pretendentes, ex-qualquer coisa que atendesse por substantivo masculino. era realmente inexplicável e tão recorrente que não poderia ser mero acaso ou superstição.


e ela já imaginava uma conferência de 'ex-zês', reunidos em assembléia extraordinária para decidir qual deles agora iria tentar invadir seu mundo e virá-lo de pernas pro ar.


'oi?' um rapaz alto e de grandes olhos verdes se vira depressa ao cruzar com ela.


'?' ela olha pra trás e finge não reconhecer. era o mesmo que há um ano ela tinha expulsado com um 'não' e sem olhar pra trás, era o primeiro de seus não-arrependimentos.


'é voce mesma! que coisa!' ele pareceu feliz, ou pelo menos fingia muito bem...


'ahhhhh...' ela fingia reconhecer o rapaz.


'nossa, quanto tempo! que saudade. me dá um abraço aqui...!' e sem perguntar mesmo , ele já ia a fagocitando em um daqueles abraços de velhos amigos. ou mais que isso talvez.


'oi...' ela estava sem graça.


'como vai?' ele perguntou.


'feliz... saltitante. sei lá.' ela respondeu um tanto sem saber mesmo, começava a se lembrar dele enquanto iam para um lugar mais claro. 'e voce?'


'o mesmo de sempre.' ele respondeu parecendo insatisfeito, parecendo ter perdido todas as novidades da vida.


(...) um longo silencio se sucedeu.


'porque a gente parou de se falar?' ela perguntou e estava realmente interessada em saber, ele era bonito, era gentil, não era o mais inteligente... mas era legal.


'não lembro... mas eu nunca esqueci de voce, meu amor. queria saber porqeu nos afastamos, não tenho tido nada desde que voce se foi.' ele respondeu coçando os longos cabelos cor de mel.


'que coisa, é sempre assim!' e ela riu, lembrando porque parara de falar com ele. era piegas demais e ela não tinha nascido pra isso.


***


o outro rapaz já especulava há tempos, achava que era uma garota genial apesar da idade, achava que era diferente. mas que pessoa não era?


'e então?' ele perguntou.


'então o que?' ela respondeu sem saber do que falavam.


'voce... eu...?' ele hesitou um pouco, pareceu rápido pra ela, eterno para ele.


'pronomes pessoais, não? eu-tu -ele-nós-vós-eles!' ela continuava respondendo, consultando sua eterna enciclopédia de ensino médio.


'não é isso... voce sabe do que eu...' e ele se interrompeu, ele sabia que ela realmente não sabia do que estavam falando. 'deixa pra lá...'


(...)


'sabe o que eu gosto em voce?' ele perguntou um tanto retoricamente, com certeza ela não sabia o que ele gostava nela.


'?' ela olhou pra ele daquele jeito que fazia ela parecer mais jovem do que era realmente.


'a sua espontaneidade.' ele respondeu pra si mesmo e pra ela, parecendo sempre encantado com a imprevisibilidade dela, era daquelas que podia decidir a qualquer instante que queria dançar no laboratório ou que queria ser astronauta.


'hm...' ela não pareceu surpresa, já tinha ouvido aquilo muitas vezes. e olhando profundamente nos olhos do rapaz queria que ele pudesse ler seus pensamentos: 'sabe o que eu gosto em voce? a distancia.'


***


'voce não me conhece.' agora ele parecia tomado pelo álcool.


'claro que conheço!' e ela respondia incisivamente.


'não, não conhece.' e ele começava a desviar o olhar.


'conheço, voce quer que eu conte tudo aqui?' e ela ameaçava ele.


(...)


'tá bom, conhece.' e ele agora aceitava.


'voce que não me conhece.' ela estava decidida.


'claro que conheço!' parecia que eles tinham trocado de papel.


'voce nao sabe onde eu nasci!' ela acusou ele.


'sei sim! e conheço voce, voce é muito previsível.' ele agora a ameaçava, mas ela não sentia medo.


(...)


'é, são 4 anos...' e ela olhava pra cima, procurando aquilo qeu ninguém mais via.


'é... um casamento. as vezes tenho até vergonha de ficar perto de voce. é pior do que ficar pelado um na frente do outro.' ele refletia.


e ela pensava que talvez ele tivesse razão: a nudez de alma a incomodava muito mais que a nudez corporal. e ela estava vulnerável a ele.


***


de alguém que está na chuva há muito tempo e não entende porque ainda não se molhou. deve ser porque tem um grande guarda-chuva.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

'eu quero um bilhete...

...eu quero um remédio
que me leve embora no primeiro avião.'



'eu quero férias. pronto, falei.' ela despejou de uma única vez, como fazia sempre.

'hem?' uma menina ao seu lado olhou pra ela um tanto deslocada.


'é, eu quero fé-rias! não agüento mais, eu quero dormir 7 dias consecutivos e acordar e não ter ninguém me mandando fazer alguma coisa.' e ela começava sua maratona de fala. 'e eu quero depois ter tempo pra ler o que eu quiser, na hora que eu quiser, comer o que eu quiser, ir pra onde eu quiser, com quem eu quiser e sem dar satisfações pra ninguém.' e parecia realmente inconformada.


'hm... férias... mas não temos nem um mês de aula!!!' a garota não entendia de onde ela tirava essas idéias, ela vivia fora de sala, fora do ar.

alguém que passava por ali e ouviu o comentário respondeu: 'acho que voce quer é um sonho...'

e talvez fosse isso mesmo que ela precisava.

de alguém que precisa ir pra paris. agora.



a raiva.


'o amor, a paixão, a determinação dão vida às pessoas. parece inclusive que a vida de muitas pessoas giram ao redor disso e elas não vêem nada mais. parece que não têm visão periférica.' alguém disse no anfiteatro.

'que idiota...' outra pessoa resmungou baixinho no ouvido do colega ao lado, que parecia tão entediado quanto o primeiro.

'ah, eu acho que é o amor que move as pessoas. e só.' uma menina disse, parecendo fantasiar contos de fada.

'quanta abobrinha,... não acredito que eu acordei cedo e não estou matando aula pra ouvir essas abobrinahs sobre o amor universal.' uma garota que parecia muito irritada com toda essa conversa resmungava pra si mesma. 'saco!'

a professora interveio.

'a raiva move o homem.'

ao soar dessas palavras a garota levantou a cabeça e olhou para a professora com mais atenção, como nunca tinha feito antes. ela era a unica que parecia entender o que ela queria dizer. e era assim que a professora pretendia conduzir o curso: provocando raiva.

a raiva realmente a levara até muitos lugares. mas será que a raiva também era uma boa bússola?

aulas e devaneios do 2º semestre de psicologia.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

sigmund freud, analyze this.

estava tudo acabado - ou seria começado? ela não sabia o que fazer, a cortina estava aberta e o sonho tinha a despertado. não podia ser.

pela primeira vez o som do despertador lhe pareceu familiar. ela olhava para o telefone que piscava ao lado de sua cama anunciando a hora de levantar - acordar era bem mais difícil - pegou o telefone e adiou por cinco minutos o levantar, assim como nos ultimos dias tinha adiado todas as suas obrigações... talvez porque só tivesse elas de companhia.

voltou a dormir na esperança de continuar no sonho. mas ele já tinha ido e deixado com ela uma inquietação tão pesada quanto seu sono... e era por isso que não queria acordar, ela não acreditava até ali que os sonhos poderiam ser a expressão de seus desejos mais recalcados, a expressão de seu inconsciente. ela sequer acreditava em inconsciente, imagine acreditar em sua mais fidedigna representação? não. não. não. ela odiava a possibilidade de admitir algo que ela lutava para não acreditar. odiava.

e ainda via o sonho se aproximar dela e fazê-la ser o que ela escondia: fazia dela apenas uma menina indefesa que precisava de alguém para lhe dar a mão e mostrar o caminho. ela era uma andarilha, queria andar. e só. ela sabia que ninguém conseguiria segui-la, ela era volátil demais, evasiva demais. mas ele sabia como fazê-la ficar, ele era tão nômade quanto ela imaginou não ser. e isso a supreendia. e assustava: 'sera que é assim que alguém se sente ao meu lado?'

e isso a perturbava por longos minutos, era o fim, o fim da sua 'autonomia'. por certo não queria depender de ninguém. e nesse momento ela se martirizava por não ter prestado atenção nas aulas de psicanálise 'droga, se eu tivesse estudado mais saberia o que esse sonho quer dizer...'. ela estava em um de seus delírios matutinos. de novo. então já se imaginava tendo de estudar tudo de novo, longos debates sobre filosofia, psicanálise, freud, lacan... quanta resistência! ela só queria uma transferência positiva, podia ser?

e levantou-se, não queria esperar o fim deitada. não mesmo. e ao se colocar de pé, despertou de seu delírio. lembrou-se da única coisa que ficara das aulas de Personalidade com a professora psicanalista:



'às vezes um charuto é só um charuto...' (Sigmund Freud)

e pela primeira vez ela concordava com ele.

sonhos e delírios matutinos sobre a psique vindo de alguém nada mentalista.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

shhhhhhhhhhhhhh!

r: 'sabe o que eu gosto em voce?'
f: '?'
r: 'voce é fraca de personalidade...'
f: '!?'
r: '... é amável e gentil, sabe conversar e tem umas nóias legais...'
f: 'do tipo diplomática?'
r: 'é, tipo um smurf azul...!'
f: 'redundante mas verdade...'



***


'___________, voce fala demais' ele falou com o mesmo jeito de sempre, ela já não sabia se era uma crítica, uma reclamação, uma confissão, um desabafo, um elogio ou tudo isso junto.

'...hm' ela refletiu, mas nao em silencio. 'é, eu sei, é um mau hábito. eu tenho de parar com isso, sabe?'


'é, por isso que tô falando, voce não pára nunca!' ele continuou, parecia querer dar uma bronca, mas o jeito dele nunca faria qualquer palavra parecer uma crítica.


'é que eu odeio o silêncio!' ela se justificou.


'é, mas não pode ficar falando o tempo todo!' ele parecia realmente incomodado com isso.


'hm, mas é que eu REALMENTE odeio o silencio' ela tentava ainda mais se justificar para si mesma, ela só queria se comunicar com o mundo inteiro de uma unica vez. mas falr constantemente não era se comunicar necessariamente...


'eu não gosto mas já acostumei.' ele respondeu, agora já estavam no térreo.


(silencio inedito)


ela parecia pensar como sempre fazia, vislumbrando o horizonte distante e inexistente do predio curvo que era o Instituto Central de Ciências.


'voce já se acostumou com o silencio ou com eu não parar de falar?'


'ah, com o silencio.' ele respondeu também olhando pro horizonte que não existia, eternamente coçando sua barba.


'hm...' e mais silencio, ela estava pensando. 'então eu não falo nunca mais, pronto, falei.' e olhou pra ele, tentando trazê-lo de volta pra terra.


'não! também não precisa não falar nunca mais!' ele pareceu um pouco assustado com essa possibilidade impossível. ela parar de falar era como cair chuva em setembro.


'ah, tá bom então... eu falo menos.' e ela se calou.


(mais silencio)


'mas voce viu como eu estava quietinha hoje?' e ela olhou para ele com um de seus sorrisos infantis.


é, era como esperar chuva em setembro!
diálogos (ou seiram monólogos?) infinitos entre o mineiro do rio e a carioca do mundo.

( _________ !)

'estou entediada,' ela concluiu tragicamente. ', e nem posso fugir do tédio. estamos em pleno meio de semana, as novidades me parecem todas atrasadas demais e as horas dentro das salas são infinitas, parece que habito entre dois universos paralelos: o passado e o futuro. e habitar esse meio-termo chamado presente mina todas as minhas criatividades fúteis.'

...

'eu estava lembrando de um amigo meu, o roberto. ele disse que eu tenho o dom de transformar as futilidades em coisas importantes. acho que ele tem razão' e ela ficava falando sem parar, pra ver se algo lhe ocorria.

mas nada lhe ocorria, nada.

até que levantou-se da sala e resolveu que a solução para ter uma boa idéia, era uma boa idéia.



é tudo de que ela precisava naquela semana: uma boa idéia.

de uma meia quarta-feira.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

um dia qualquer

'...é sobre algo que te falei há uma semana.' ele disse sério.



'hm, sobre o que mais especificamente? nós conversamos por horas ininterruptas todo dia.' ela respondeu, talvez só quisesse lembrá-lo que eles estavam próximos demais.



'eu menti.' ele, incisivo.



'?' ela não entendia.



'eu menti pra voce sobre minha vida. não é nada do que eu te disse. eu levo uma vida totalmente diferente.' ele continuou, parecendo estar possuído por um espírito adulto.



'?' ela ainda estava sem entender.



'é, lembre do que eu falei sobre minha família?' ele a interrogou, como se ela fosse a mentirosa.



'hm... ' ela procurou algo no ar, como se não quisesse ver a unica coisa que estava ali além deles dois, a mentira.



(...)



e ela procurou ouvir, e compreendeu perfeitamente. ela era uma artista afinal, uma artista de sons, uma artista de palavras, uma artista de traços, mas nunca tinha visto que era uma atriz.



'olha, eu entendo voce' ela respondeu.



'não, não entende! ninguem nunca entende!' ele continuou negando.



'claro que entendo. eu vou te ajudar, prometo.' ela fez mais uma promessa.



'como? voce nao pode me ajudar, ninguem pode me ajudar!' ele negou ainda mais.



...



e assim ela desistiu dos sons, das palavras e dos traços. assim ela se tornou uma caçadora de tesouros e buscava incessantemente a chave que libertaria todos os homens da escravidão mental.



assim ela se tornou psicóloga.

o cara que eu amo.

'...eu sou mais rápido que você. Sou mais forte que você. E com certeza, vou durar muito mais que você. Eu não sou o futuro, você é.
Se eu pudesse desejar alguma coisa coisa, desejaria ser humano. Para saber o que significa ter sentimentos. Ter esperanças. Ter angústias. Dúvidas. Amar.
Eu posso alcançar a imortalidade: basta não me desgastar. Você também pode alcançar a imortalidade: basta fazer alguma coisa notável.
eu tenho a lógica perfeita, você pode ter idéias. Eu não durmo nunca, você pode sonhar.'




agora já era tarde, ela já nem tinha fome, ela já nem tinha sono: ela sentia que não tinha nada. os dias passavam tão devagar sem ele... o relógio insistia em fazer tic tac tic tac tic tic tic tic. e isso a irritava profundamente.



as palavras não lhe socorriam, os dias estavam quentes e ela sabia que tê-lo naquele momento apesar de reconfortante não seria nada bom. ele era quente, era forte, era amargo. quando o tocava sentia o calor invadir-lhe as entranhas, quando sentia seu aroma já se sentia tonta. olhá-lo preso e ver sua superfície serena a encantava, ouvi-lo era como ouvir um grande mestre. quando ele lhe tocava os lábios era o ápice de seu delírio. mesmo ali a seu canto ele a seduzia dia após dia, parecia chamar seu nome mesmo que ela nucna tivesse dito seu nome a ele.



ele era inteligente, com certeza. e não tinha mais que 15 anos. ele a tinha, com certeza. e tê-lo era a única certeza dela. ele nunca a abandonara, ele estava lá, vitrificado esperando-a em sua sala de estar, parecendo andar mesmo que nunca saísse do lugar. e mesmo que ele nao pudesse sair dali, motivava-a apenas continuar andando, indo em frente. e talvez fosse isso que ela amava nele: mesmo sendo selvagem, quente, forte, ela sabia que ele estaria ali a esperando.



e o via todo dia ali, a esperando. já não podia mais lutar contra isso. o amor me chama, johnnie me chama. e totalmente embebecida pelo amor, ela se entregou de uma única vez: um generoso gole de whisky johnnie walker black label pela manhã, um santo remédio.





sobre a senhora Walker.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

lacunas e loucuras.

era primavera mas o dia estava estranhamente cinza, de cima a baixo. não sabia quanto tempo tinha se passado desde a última vez que o vira, mas com certeza fazia muito tempo. e ele agora não tinha mudado muito: estava lá, sentado no meio da sala, com o cabelo tão bagunçado quanto nunca vira, os olhos vermelhos e vitrificados, os movimentos vagarosos e pesados.

parecia uma personificação da loucura. e era. talvez ele não tenha aguentado os intermináveis dias, talvez ele não tenha aguentado a falta de noites, talvez ele não tenha aguentado o peso da vida em seus ombros magros e de ossos saltados. e tudo aquilo a chocava de uma maneira que ela não parava de rir, descontroladamente. e ela sabia porque ria: ela ria de si mesma.

as noites em claro, os dias maníacos, as corridas em círculo, os raciocínios rápidos, as doses de whisky em garrafas de chá, o café puro praticamente injetado em suas veias. tudo indicava que ela não iria suportar mais um dia sequer. e ela ainda lutava, insistia. ela vestia a camisa.

vestia a camisa. mas alguém sabe dizer o que diferencia uma camisa normal de uma camisa-de-força?




ela cuidava dele, mas era porque gostava demais de si mesma: 'poderia ser qualquer um naquela clínica... poderia ser eu.'

sobre alguém que quase surtou.

domingo, 24 de agosto de 2008

, minha casa.

era setembro pela primeira vez na vida dela. e aquela aula de duas horas parecia não terminar, era quase impossível manter a atenção no que a mulher a frente falava. blá blá blá. e ela não conhecia ninguém ali, parecia ser uma ilha. estava sem saída.



sentada à segunda cadeira da fila, uma garota que está sentada a sua frente parecia nunca ter estado naquela sala. ela nunca tinha reparado nela... estranho. de repente, alguém comenta algo sobre filmes a suas costas. mas ela não se envolve em nada.



...



de modo que ela não se lembra, tão abruptamente, a garota da frente se vira pra ela e, sem dizer uma única palavra, estica o dedo. não era possível. não podia ser.



'et, telefone, minha casa!!!' a garota que antes estava na ilha parecia ter se jogado ao mar.







e ao encostarem os dedos mal sabiam que nunca mais poderiam se separar.



como juntar uma martella e uma jujuba.

sobre conchas e homens.

'aos amores de minha vida, que são todos e nenhum. em cada um deles reside uma fração de meu desejo insaciavel, isoladamente não saciam, juntos são minha morte. ao pequeno eu reservo a beleza; ao grande, a compreensão; ao velho, a segurança; ao selvagem, os beijos; ao maior de todos, a proteção.' Todos os Homens da Minha Vida.



' , sabe, eu sempre digo que o mundo é uma praia, (...) os homens são as conchas espalhadas ao longo da orla e eu sou uma criança que gosta de brincar perto do mar. e então eu te pergunto: porque se desgastar com uma concha só se há tantas conchas na praia?' a mais velha explicou para a mais nova.







'... eu gosto das conchas bonitas.' a mais nova respondeu, simplesmente.


' , na maioria da vezes as conchas bonitas estão vazias. e as que têm algo dentro são tão difíceis de abrir... continuo acreditando que não vale a pena sair em busca de uma concha que nem quer te proporcionar diversão!' a mais velha voltou a responder.


'hm...' a mais nova hesitou. 'mas voce é forte, voce consegue brincar com as conchas.' a mais nova mostrou que ainda precisava aprender algumas coisas sobre a mais velha.

'é, mas eu sempre acho que elas se divertem mais.'



ainda sobre homens.

receita de jujuba.

ele a esperava fazia dias, a garota de cabelos coloridos por um rosa gritante. sentado na frente de uma tela piscante, não arrumava os cabelos, não atentava a outra coisa. ele a caçava silenciosamente. e de repente ela aparece.

'oi, finalmente voce apareceu...!' ele disse, tentando não parecer desesperado mas já parecendo... e antes que ela pudesse responder, ele continuou: 'o que voce tem feito, menina? é férias, voce deve estar saindo muito, não?' e ele queria parecer um velho amigo seu, mas nunca tinha sido um bom ator.

'ah, não. sabe, eu gosto de jujubas!' ela respondeu. ele não sabia a que pergunta essa resposta cabia, mas pra ela tudo fazia sentido.


ele riu. riu sozinho, porque a garota era realmente o que ele precisava naquele momento, ela era uma dose de espontaneidade meticulosamente articulada. ela era inteligente, mas sua melhor qualidade era fingir que não era e nunca tinha sido.




...



'lembra de quando a gente se falou pela primeira vez de verdade?' ele perguntou.



'hm, lembro.' ela respondeu sem de fato lembrar, pois todas as suas conversas com ele pareciam estranhamente repetitivas, como eternos dejá-vùs.



'a primeira coisa que voce me disse foi: eu gosto de jujubas.' ele complementou, olhando para as pessoas que estavam ao seu redor e olhavam atentamente para ela.



'sério? que coisa...' ela riu de si mesma. 'acho que é porque eu gosto mesmo de jujubas, sei lá. voce não gosta?' ela levantou a pergunta no ar com a leveza de uma pluma.



as pessoas pareciam não entender o que se passava ali, talvez nem os dois entendessem o que se passava ali. houve um tempo de pausa, as pessoas saíram e eles ficaram a sós.



e enquanto a fitava carinhosamente, sabendo que nunca a teria em mãos, sabendo que seria impossível habitar o mesmo mundo que ela - por falta de oxigênio - aproximou-se dela com dificuldade e respondeu-lhe: 'eu gosto das jujubas rosas.'



'mas não existem jujubas rosas...' ela respondeu contemplando o horizonte da pequena sala enquanto mordia uma de suas unhas com o cuidado de não roê-la.



e ele saiu. e assim ela nunca entendeu, sem se olhar no espelho, ela nunca tinha visto uma jujuba rosa.




diálogos sem pé-nem-cabeça, só com jujubas.

sábado, 23 de agosto de 2008

até tu, Skinner, meu rei!

"Vamos morrer embriagados no amor, luxúria e no prazer da carne.
Nos corpos volupiosos que navegam no desejo...
Na firmeza das mãos, dos beijos e mordidas
Na sutileza dos gemidos.
Embriagar!
E depois ao amanhecer sofrer com a enxaqueca da realidade.
Mas saber que morremos naquele momento, naquela noite.
Morremos de desejos.
E desejar muitas outras mortes.
Sendo assim, desejo morrer ao seu lado." Sexo Mata, de Ignis.




e ela se jogou. esperando que lá embaixo tivesse um rio ao invés de uma pista, exatamente como seu amigo disse que ela faria. porque assim lhe parecia o amor, assim lhe parecia tudo. e ao cair na avenida movimentada demorou a levantar-se. demandou um esforço sobrehumano, tanto que ela se tornou mais que uma garota. ela talvez agora fosse super. e já fazia muito tempo desde a última vez.



'sabe, eu acho que o amor é intenso demais pra que se queime como um vela. acho que ele deve ser queimado de uma vez só, como numa grande fogueira...' ela disse.



ele não respondeu nada. e ela continuou: 'sabe, eu sinto saudades. das coisas mais banais.'

ele continuou em silencio, sentado ao seu lado no onibus que parecia nao ter destino final. o silencio parecia maior que a distancia entre as duas cidades e ela menor que a distancia que os separava.

'quando voce vai sinto falta desse seu cabelo torto, desses seus dentes amarelos, dessa sua mão grande com dedos ásperos. sabe que sinto falta mesmo da fumaça do seu cigarro? sinto saudade. e é só isso que sinto.' ela transbordou de uma unica vez, talvez porque ele fosse a gota d'água que a fazia inundar.

o silencio persistiu, não era mais que 10 da manhã naquele ônibus que os levava para um lugar desconhecido. ela cansou.

olhou para fora. ele mascava um chiclete na esperança de esquecer do vicio e aquele mastigar parecia incomodá-la. parecia que lhe era preferível a fumaça tóxica e impregnante do cigarro mal-fumado dele.

ela tentou cruzar os braços. ele esticou as pernas. parecia um diálogo de mudos.

'_____________, tenho saudades da gente. acho que voce é o amor da minha vida' ela disse, pela utlima vez.

ele a olhou atentamente. parecia não se surpreender. ele realmente já escutara aquilo vezes demais dela. pra ela nunca era o bastante dizer, talvez porque ela não soubesse de fato amar. e ele sabendo amar, apenas não sabia dizer amor. e nisso eles se completavam há 4 longos anos.

e sem hesitar, ele lançou-lhe um olhar profundo e disparou: 'o amor e a saudade são mentalismos, apenas ficções explanatórias.'

nesse momento ela se sentia traída pela sua própria sabedoria. 'é, eu nunca deveria ter ensinado behaviorismo a ele.'

diálogos de ônibus entre o pequeno e a grande.

uma grande lição.

, morra. vá, fique, espere. brilhe. mostre-se, esconda-se, seja, desminta, esqueça. conheça, converse, finja. abrace, segure mãos, machuque, dificulte, supreenda. beije. tente, apaixone-se, esqueça, lembre, reviva, invente, sorria. chore, grite, cante, escreva, desenhe, rabisque. jogue, aposte, ganhe. não durma, pare. tente, perca. desista. chore, sinta, entenda. abrace, beije, ame...


...mas nunca, meu amigo, nunca se envolva.

filosofia de vida de alguém com vasta experiência teórica e empírica.

'vai com calma, sua criança louca...


...você é tão ambiciosa para uma adolescente

mas então se você é tão esperta, me diga porque você ainda tem medo?

onde está o fogo? pra que é a pressa?

é melhor esfriar a cabeça antes que tudo incendeie

você tem muito o que fazer e tão poucas horas em um dia


você não sabe que quando a verdade é contada

você pode conseguir o que quer ou você pode apenas ficar velha?

você vai desistir antes mesmo de passar metade do caminho

quando você perceberá que Vienna espera por você?


devagar, você está indo bem

você não pode ser tudo que você quer ser antes do seu tempo

embora seja tão romântico estar no limite hoje à noite

tão ruim, mas é a vida que você leva

você está tão longe de si mesma que esqueceu do que precisa

apesar que você pode ver quando você está errada

você sabe, você não pode sempre ver que quando está certa, está certa


você tem sua paixão, você tem seu orgulho

mas você não sabe que apenas bobos estão satisfeitos?

sonhe, mas não imagine que eles todos se realizarão

quando você perceberá que Vienna espera por você?


calma, sua criança louca

tire o telefone do gancho e desapareça por um instante

está tudo bem você pode permitir-se perder um dia ou dois

quando você perceberá que Vienna espera por você?

porque você não percebe que Vienna espera por voce?'


Vienna, de Billy Joel. sobre alguém que tem muito pela frente.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

juro dizer a verdade, nada mais que a verdade.

Você tem o poder de fazer as pessoas acreditarem nos maiores absurdos acadêmicos? E nas maiores abobrinhas metafísicas? Se voce tem, parabéns, você é um legítimo falaciador.

O que é uma falácia?

A falácia é uma articulação de idéias não verdadeiras por natureza mas que podem se tornar verdades ao longo de sua aplicação, conforme sua estruturação no contexto em que está inserida.

Porque falaciar?

As falácias não devem ser usadas em vão, devem ser utilizadas em momentos propícios e estritamente necessários. Do contrário, a arte da falácia transmuta-se em mero lançamento de caô a distância, que desqualifica o sujeito pretendente a falaciador. Falacia-se quando os estímulos ambientais não evocam uma resposta verdadeira, então usa-se a falácia para suprir essa lacuna deixada pela verdade.

A Falácia ao longo da história da Humanidade.

A falácia, vulgarmente nomeada de caô ou rasante da gaivota, é de altíssima utilidade no meio universitário, ainda mais se voce está inserido em cursos de ciências humanas. Ela tem sido aprimorada desde os primórdios e ainda hoje reina absoluta como técnica secreta entre estudantes e profissionais bem-sucedidos. Se você é adepto da teoria criacionista, pode encontrar o primeiro rastro de falácia no livro de Genesis, quando a cobra manda a falácia sibilante na Eva. Se não, você pode ver a falácia em várias personalidades históricas como os gregos, que se afirmavam machos e assim se fazem acreditar até hoje pros menos atentos a falácias.

Pré-requisitos de um falaciador bem-sucedido.

É simples falaciar. Porém, para ser um bom falaciador é sugerido que voce possua eloqüência, convicção em sua falácia, bom repertório gestual e um grande arcabouço de vocábulos rebuscados ou cultos. Portanto, nem só de falácias vive um falaciador: é preciso ler muito e observar os grandes mestres da falácia (ver TV Senado e TV Câmara). E não se esqueça de falar pouco, ser sucinto em suas falácias e de preferência anotá-las para posterior consulta.

Grandes falaciadores modernos e contemporâneos na sociedade ocidental.

Os grandes falaciadores de verdade não são reconhecidos como tal, afinal, boas falácias nunca são denominadas falácias. Apenas um bom falaciador reconhece outro. É como uma sociedade secreta, um irmandade que nunca expõe a falácia ao uso desnecessário. Porém, no Brasil, nossos maiores falaciadores são os políticos, alguns deles são os reis. Dentre os maiores falaciadores contemporãneos encontramos publicitários, administradores, advogados e psicólogos (ver Akira e Gagá, os mestres).

Erros de falácia.

Deve haver o mínimo de embasamento na elaboração de uma falácia e de preferência pequenos resquícios de verossimilhança, dados fidedignos em sua essência que corroborem com seu ato falacioso. Ao hesitar ou contradizer uma falácia dita por si mesmo, ela perde sua validade (ver Instrumento de Medição de Falácias Eficientes).

Considerações finais

Verdade e falácia andam sempre juntas, ao falaciar, não esqueça de após esse momento sublime em que a falácia foi seu estepe, ir em busca da verdade subjacente a essa entidade mágica que é a falácia.

texto por Jujuba, a Rainha da Falácia. Logo, tudo isso é uma grande falácia!


buuuum!

ela era explosiva demais. rápida demais, jovem demais, selvagem demais. e não tinha mais que 17 anos de idade. a garota tinha um brilho nos olhos e um calor no seu jeito que fazia com que tudo ao seu redor ganhasse vida. ela era uma garota viva demais e queria viver tudo demais, depressa demais. e era o mês de setembro na cidade de brasília: quente demais.

o rapaz a observava desde sempre. ela era estranhamente bela, com feições infantis e olhares que fitavam algo que ele nunca conseguia ver. e parecia tão sábia. mas era inocente demais, pura demais. ela era tudo demais. e ele odiava isso. odiava saber que ela sempre seria demais para ele. e odiava mais ainda o fato de se apaixonar por ela a cada dia.

e passavam tardes juntos falando um com o outro, mas nunca se comunicavam. eles nunca se entendiam, talvez porque ela fosse subjetiva demais. era uma artista das palavras, das cores e via obras de arte nas nuvens. e ele odiava não ver também.

e a queria cada vez mais, e assim ele se afastava cada vez mais. ela o lembrava do quanto ele poderia ser e isso o irritava profundamente. de verdade. e quanto mais tocava o corpo, mas se afastava da alma. mas o que ele nunca soube é que ela nunca teve alma alguma. e ele odiava isso.

e estavam em meio termo, ela não sabia se era com-paixão ou com paixão. e se afastava porque era forte demais, apegada demais. e era assim que ela era: volátil demais. exatamente como o álcool, prestes a entrar em combustão. e talvez por isso ele se sentisse familiar a ela: era um viciado em bebidas alcoólicas.

mas eles eram assim. tão semelhantes que eram diferentes demais. e tudo que os separava agora era o espaço do último beijo.

porque eles explodiram.simples assim.

sobre a sobre-vida de alguém que já morreu numa explosão.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

o amar é pra quem não acredita em amor,

'psicólogos não casam... eles se dedicam demais aos estudos, às pesquisas...' alguém retrucou na sala.

'tudo um povo amargurado, doido...' ela fez mais uma de suas infinitas gracinhas.

'nããããããão' cortou o rapaz que estava sentado em frente a um dos computadores sem mexer no computador 'eles casam entre si' concluiu como quem soubesse algo que as duas não soubessem.

'sério? ah, agora tenho esperanças...' a primeira disse.

a outra ignorou.

***

'sabe, um dia eu quero seguir carreira academica.' ela disse decidida.

'eu também me interesso por isso...' ele respondeu alheio.

'imagina... os velhos decrépitos e amargurados que só estudam!' ela falou um tanto para si mesma. 'é...'

***

ela estava prestes a sair. ele estudava.

'... vamos nos casar?' ela disse de repente.



'?' ele pareceu não entender.

'é! já que a gente vai ser professor, a gente se casa entre si mesmo! assim não vão pensar que a gente é psicólogo encalhado...' e ela ficou imaginando o quão surreal isso seria.

'ah... tá...' ele respondeu sem acreditar na idéia. 'casar?' ele deve ter pensado.

'mas é de mentirinha! a gente põe as alianças e aí se alguem perguntar de quem é a gente fala que é casado um com o outro. se aparecer alguem que interessa a gente tira!' ela continuou sua idéia.

'ah... tá...' ele concordou ainda sem entender de onde a garota tinha tirado essa idéia.

'tchau.' e ela saiu saltitante da sala de reuniões.

antes da porta bater indicando que alguém saíra, uma cabeça aparece por trás da barreira que dividia as duas salas.

'em las vegas?' ela tinha voltado.

'?' ele olhou com cara de interrogação. como sempre fazia quando ela tinha um de seus surtos criativos. ela parecia rápida demais, louca demais, jovem demais, esperta demais, má demais. mas era apenas uma criança.

'é, casar em las vegas. sabe... ' ela explanou calmamente.

'ah... tá' ele respondeu um pouco confuso.

'então formou. tchau.'

ele esperou que alguém voltasse antes que a porta batesse. mas ela realmente tinha ido agora.

mais um dos eternos diálogos entre a psicótica e o psicólogo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ah se essa blusa falasse.




P.: 'nossa, eu tinha medo de você... você parecia tão má com aquela sua blusa do led zeppelin'

F.: 'mas...'

P.: 'e eu lembro também que voce tinha aquele cabelo que fazia voce parecer tão... selvagem. sei lá.'

(e os dois olharam o sol das 4 horas ao céu do parque da cidade)

F.: 'eu também te achei mauzão... mesmo sem blusa do led'

***

'eu pensei: nossa, uma caloura que tem bom gosto... que coisa.' ele continuou.

'é, eu lembro de voce parado na minha frente dizendo isso...' ela respondeu sem desdém.

'mas sempre te achei mala.' ele disse quase sem dizer, como quem faz uma brincadeira que não quer se divertir.

'é, mesmo com a blusa do led' ela arrematou.

***

'voce me lembra uma amiga minha...' ele quebrou o silencio.

'?' ela olhou pra ele admirada.

'é... tocando violão, andando com os caras... com essa blusa do led zeppelin...' ele explicou.

'ah...legal' ela abaixou a cabeça, talvez porque não soubesse o que dizer. 'e o que aconteceu com ela?'

'hm... não sei... deve estar por aí. com a blusa do led zeppelin.'

'é... parece bom pra mim.' ela concluiu sem nenhuma esperança.

... parece bom pra mim.

diálogos de gramado de parque da cidade entre a lantejoula e a jujuba; diálogos eternos entre a mauzona e o bonzinho e diálogos inacabados entre a lei e a inocente.

porque ela é uma andarilha.

'não sou nada além de um vagabundo, um errante nessa vida. e quem de vós sois outra coisa?' Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Göethe.





...’me conta... pra onde a gente vai depois que morre?’ – ele quebrou o silêncio.


‘eu... eu não sei,’ – ela respondeu com a voz quase surda, desconcertada.


‘então me conta uma coisa, qualquer coisa que eu não saiba. ’ – ele pediu como quem pede um remédio.


‘uma coisa que você não saiba... bem, vou-lhe contar uma coisa que ninguém sabe: meu coração é um diamante. Você conhece os diamantes? Os diamantes são constituídos da mesma matéria que o grafite, só que sua estrutura passou por um longo processo que o tornou muito endurecido ao longo dos anos. Meu coração é um diamante... e você sabia que os diamantes só são riscados por outros diamantes, mesmo que sejam capazes de riscar qualquer coisa na face da terra? Sabe...’
, e ele a olhava atentamente em silêncio, porque sabia que a garota era um diamante e pela primeira vez viu um risco naquela gema preciosa. E evitou olhá-la mais a fundo, porque agora sabia que a fraqueza dela era ele mesmo.‘...não há muitos diamantes no mundo.’ – ela terminou.


E ele voltou a si e perguntou quase de maneira afirmativa:
_ Mas seu coração já está riscado, não?


‘ é, eu já encontrei um diamante... ’ e desviando o assunto, continuou ‘agora me conta uma coisa que eu não sei'


‘eu sempre soube que você era um diamante. ’


E ela não quis parecer vulnerável, permaneceu então calada: eles ainda estavam ali, lado a lado, um beijo de distância.


‘e agora, pra onde você vai?’ – ele perguntou enquanto levantava.


‘eu vou, apenas vou... sem complemento. ’ ela respondeu displicente.


E ao ouvi-la, sabia que ela estava certa. E ainda estavam lado a lado. Começaram a caminhar em direção ao local que acreditavam ser a saída, ao que ele lhe disse:
_ tudo bem, senhorita andarilha, se você pretende me seguir, saiba que está perdida.


‘ e se eu quiser te acompanhar?’ – ela insitiu.


‘então saiba que está sozinha. ’


Então cada um fez seu caminho, mas ainda assim continuavam lado a lado.


exatamente da maneira como sempre estiveram.
diálogos ébrios em uma tarde de domingo no campus da universidade entre o casal mais estranho que já foi imaginado.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

porque o amor é a 6ª dimensão.

'entende porque o mundo dá voltas? as coisas vão e voltam, você nunca reparou como Platão estava certo? O mundo dá meias-voltas eu acho. Tem coisas que nunca voltam, sabe?' mas ainda assim eu te amo,
mesmo que eu não acredite no amor e voce na psicologia. ainda assim eu te amo.





é engraçado como nas voltas que a vida dá eles sempre acabam se esbarrando. ela com suas mudanças e ele com seus olhos azuis, como andam em mundos paralelos e acabam sempre se cruzando? são como retas paralelas, creio eu, que quando dispostas em um plano e olhadas de um modo se cruzam numa ilusão de ótica. porque o amor deve ser uma ilusão de ótica.



'professor...' apesar de o rapaz não ser mais velho que ela 2 ou 3 anos era somente assim que conseguia o chamar, talvez porque não lembrasse seu nome '...tenho dúvidas aqui' era sempre assim que ela começava alguma conversa, na mais simplista pergunta. e ao fim, só restavam as mais grandiosas respostas.


'existem 3 dimensões... são as que vemos, certo?' ela acenava afirmativamente com a cabeça mesmo que estivesse pensando em como ele começou aquela resposta que nada tinha a ver com a pergunta sobre eletricidade. 'voce sabe qual é a quarta dimensão?'


e ela fazia cara de quem pensava arduamente 'sei! é o tempo!' ela respondeu.


'exatamente, mas nosso aparelho de visão não consegue vê-lo, certo? só o percebemos.' ele continuava a explicação e ela começava a lembrar como tiha chegado áquele ponto.


'...aaah, ele vai falar quais são as 27 dimensões geradas pelos 3 vetores x, y e z' ela pensou enquanto admirava os belos olhos azuis por trás dos óculos do jovem professor.


ele continuou 'voce consegue imaginar qual é a quinta?'


'a energia! é sim! tudo é energia, já reparou, professor?' ela falou alegre por ter conseguido raciocinar sobre física tão rapidamente.


'é, pode ser, porque não?' ele se admirou esboçando um leve sorriso, mas ainda não satisfeito '...mas você imagina qual seja a sexta?'


'hm... não faço idéia.' ela se retraiu um pouco e esperou a resposta do professor.


'o amor.' ele respondeu singularmente.


ela parecia esperar algo mais e continuava a olhá-lo atentamente.


'o amor é a sexta dimensão. se a energia é a quinta, o amor é a sexta. não?' e sorriu para ela.
ela devolveu o sorriso e antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a quarta dimensão exigiu dos dois que a sexta dimensão ficasse pra depois. e mesmo as 3 primeiras dimensões obedeceram a quarta...


mas - ah! - nas voltas que o mundo dá, os olhos azuis insistem em desobedecer qualquer lei da física ou da psicologia. e as estatísticas e probabilidades apontam para eventos tão certos como o nascer do sol.

diálogos de cursinho sobre física entre o pseudoprofessor e a pequena ladylove em mais um de seus encontros marcados pelo destino.

...entre 'lápises' e canetas.

eles atravessaram as portas do instituto e sentaram-se lado a lado: ele tomava um café e ela preenchia um formulário. burocracias.

'sabe, eu gosto muito de preencher lacunas, poderia fazer isso a vida toda...' ela comentou enquanto procurava alguns números no ar.

'hm...' ele continuava a contemplar o amargo do seu café com o olhar no horizonte do corredor vazio '...eu não gosto do café do restaurante universitário, ele é amargo demais e isso me faz lembrar da minha vida...'

ela riu como quem distribuísse sorrisos e continuou seu hobby '...'

'é, amargo...' disse ele como se dissesse a alguém que não passava no corredor.

ela parou seu passatempo e o olhou furtivamente. silenciou-se e continuou o que fazia. e de repente...

'sabe, pra mim, os acontecimentos da vida são como um lápis, sabe?' e antes que ele pudesse responder ela continuou a falar '...é, lápises. eles estão lá, mas aí a gente vai apontando, usando, escrevendo nossa história com eles. não é? mas um dia eles acabam, a gente aponta tanto que acabam. mesmo seu lápis preferido vai acabar um dia porque se voce não apontar como vai escrever sua história?! e no fim, só restam pedaços.' ela concluiu tristemente, como quem acabesse de fazer uma grande descoberta.











'pedaços que vão pra lata de lixo' disse o menino amargamente. talvez fosse o café em sua boca.

.silêncio

'então a paixão é como uma caneta.' ele terminou.

'?' ela olhou pela primeira vez mais diretamente pra ele.

' (!) as canetas ficam, mas as cargas vão! mas aí a gente só precisa trocar a carga!' ele olhou pra ela.

'é... faz sentido.' ela fitou a caneta em suas mãos. 'mas ainda prefiro os lapises... me dá segurança, dá pra apagar o erro cometido por lápis, e por caneta?' ela disse num tom que expressava sua fobia de compromissos.

'com a caneta, só passando algo por cima.' ele disse.

'hm, isso me remete a Lacan. odeio Lacan. mas faz sentido, não é ele que fala da alienação e substituição?' ela perguntou.

'é, ele mesmo!' ele respondeu animado, finalmente tinha encontrado a sua analogia.

mais silêncio e barulhos de riscos no formulário quase integralmente preecnchido.

'foi uma boa analogia!' ela disse colocando o ponto final no seu formulário. '...boa mesmo.'

e eles levantaram e saíram. ela ainda pensava nas canetas e tinha medo. ele não pensava em nada. mas ela concluiu que mesmo que fosse um lápis, ela certamente seria orgulhosa - ou seria preguiçosa? - demais pra carregar consigo uma borracha e usá-la.





(a borracha estava lá, mas pelo visto nunca tinha sido usada. )





diálogos vespertinos entre a rainha da falácia e o seu aprendiz.