terça-feira, 30 de dezembro de 2008

insonia dançante

'vou cantar um blues pra quem já amou um dia
e hoje só tem a solidão como companhia
pra quem bebe sozinho numa mesa de bar
e nao tem pra quem voltar
(...) pra quem tem medo e vai
e tá largado nesse mundo
vou cantar um blues.' Bartô Blues Band, Blues da Solidão.

naquela noite ela não dormiu. se revirava na cama, sentia ansia de vomito, seu nariz lhe incomodava e a musica nao lhe agradava nada.

2 da manhã. 'ótimo' ela pensou resolvendo deitar em outra posição. 'logo o sono vai chegar.' não chegou.

3 da manhã. 'excelente' ela agora estava se sentando á beira da cama com o edredon enrolado na cabeça.

uma eternidade se passara. 3 e 15. '3 e 15?????????????? não é possivel, isso é pior que aula de historia e sistemas e psicofisiologia juntas!' ela já não sabia o que fazer. mas lembrou de um certo cara:

'eu danço pior que boi manco.' ela dizia.

'dançar é uma coisa que se faz sozinho no seu quarto às 3 da manhã' ele respondeu a afirmativa.

ela resolveu tentar. mesmo que fosse no ritmo do silencio.

domingo, 28 de dezembro de 2008

e eu.

'eu te amo.' as três palavras mais simples lhe pareciam tão impossíveis de serem faladas.

'voce nunca vai me deixar?' ele parecia ansioso.

'nunca.' mas ela pensava ao dizer essas palavras. ela odiava mentir, embora nao parecesse. ela sabia que era tão volátil quanto um litro de álcool em um vidro aberto. e que ele não iria tampá-la, de jeito algum. e isso doía, estar tão só, tão livre: pela primeira vez ela desejava que não fosse assim, que ela estivesse realmente presa a ele. mas não era tangível, não era possível. ela o queria demais, tanto que machucava. ela tinha se tornado teimosa demais para desistir.

'eu te amo. de verdade.' ele reafirmava.

e isso só tornava as coisas mais difíceis do que já eram. mas de repente ela se lembrou dos ultimos meses, das suas noites no bar, das suas noites em claro, das sua páginas lidas, dos seus escritos. e ela agora tentava entender que talvez nao o amasse.

'eu também.' ela agora não mentira, mas omitira as três letras que lhe apontaria como mentirosa.

o brilho eterno.

havia milhares de coisas que a intrigavam por aqueles dias: o pensamento que lhe fugia do radar para encontrar 'ele', as páginas que pareciam já terem sido viradas voltando para lhe mostrar que a leitura não havia sido bem feita fazendo-a sentir como se só pudesse virar páginas molhando os dedos - com suor, com saliva ou na pior de suas expectativas, com lágrimas.

ela estava intrigada com os sonhos do seu pequeno amor que lhe diziam mais que qualquer monólogo que ele já tinah feito - voce estava grávida de gemeos, eu era o pai e nós íamos casar, mas algo me dizia que ele era o pai e voce estava tentando me enganar. loucura. ou não.

e mais lhe intrigava ainda que ele, o ele que o outro enfatizava em suas palavras, andasse a visitando. mesmo que amasse outra. amasse outra. outra. tra. a. (os pensamentos ecoavam em sua cabeça) e ela sabia que não amava ele. sabia bem. mas odiava não ser o objeto de adoração de alguém, odiava não poder destruir a vida de mais um. odiava.

e ela sabia que amava o outro. sabia melhor ainda. sabia que a página estava sim virada. mas por alguma razão estranha ela sentia que não. fazendo-a sentir como se só pudesse virar páginas molhando os dedos - com suor, com saliva ou na pior de suas expectativas, com lágrimas. ela já tinha suado e salivado, lhe faltavam as lágrimas.

e naquele dia ela decidiu que ia chorar. mas nada lhe ocorria. nada lhe socorria.

is it all just wasted time (can u live with yourself when u think of what u've left behind?)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

:)

'tenho que te confessar uma coisa' dessa vez ela foi rápida, sucinta.

'?' ele não entendeu quando eles entraram e nem como entraram nesse confessionário.

'sabe, eu queria agradecer o *****. queria abraçar ele bem forte e dizer: 'cara, obrigada. eternamente obrigada.' e abraçar mais forte ainda.' ela soltou o elo sem o resto da corrente do pensamento.

'o quê? voce tá LOUCA?' ele deixou em letras garrafais. 'voce prefere ele? aquele bebado?'

'calma.' ela sorriu pra ele, transmitindo a calma que era uma parte dela. 'deixa eu terminar'

ele parecia intolerante, com suas sombrancelhas marcantes quase grudadas em seus cílios. ela contiinuou.

'eu queria agradecer ele. de verdade. abraçaria ele e diria assim 'obrigada. obrigada por fazer daquela noite uma noite tão vazia, uma noite tão deprimente, uma noite tão dolorida. obrigada por se embebedar e me tratar como uma qualquer. obrigada por não me fazer sentir especial. obrigada por ser idiota. obrigada por não ligar no dia seguinte. você é ótimo nisso. obrigada por me fazer sentir mal pela primeira vez em um ano. obrigada, porque tudo isso me fez lembrar que eu tinha alguém gentil, amável e doce que apesar de não ter sido capaz de tocar uma única parte do meu corpo, foi capaz de me amar como ninguém mais amou. obrigada, porque se não fosse voce, aquele ponto que, na verdade eram reticencias, teria se tornado o ponto final. infinitamente obrigada.'

ele descruzou os braços antes amarrados a seu corpo. seus olhos estavam abertos de maneira incomun, sua boca talvez sorrisse. mas ele ainda nao tinha entendido.

'e sabe... eu lembrei de voce quando eu acordei na minha cama, sozinha e com mutia dor de cabeça. lembrei porque eu tinha feito tudo aquilo: pra te esquecer. lembrei das coisas ruins que voce quis dizer, lembrei de tudo. lembrei de como eu amava voce de uma forma tao infantil, eu era so uma criança mesmo. lembrei que voce ainda estava em algum lugar desse mundo, talvez precisando de mim pra te amar. talvez nao. mas lembrei de voce. eu era feliz, mas não era igual, faltava o entusiasmo que eu sentia só de pensar em voce voltando de algum lugar longe, faltava algo que eu nao sabia nomear. amor? não sei, só sei que doia quando voce me falava aquelas coisas, mas incrivelmente doia mais estar tão longe de voce.'

ela ainda continuou, mesmo que sentisse as lágrimas brigando contra sua força de não parecer fraca. 'hm... *risinhos* ... e entao eu corri pro computador e te escrevi aquela mensagem que voce responderia meses depois.'

'eu lembro' e ele sorriu.

'mensurando os dias de verão
apenas concluo que eles se desmancharam em cinzas
as horas me trazem dor

pensando em como tudo era
será que voce ainda lembra daqueles dias
e pensa em nós de novo?

eu penso.' ela pausou. 'é tangerine, do led zeppelin. minha musica favorita.'

'eu sei.' ele sorriu amavelmente, como fazia poucas vezes.

eles ficaram quietos por um instante.

'eu também sou grato a ele.' ele disse ainda sorrindo. 'muito grato.'

'tis strange but true...

... for truth is always strange.'

ela teve flashbacks naqueles dias, talvez em decorrencia da correria natalina. se nao fosse ela, ela estaria vendo filmes inteiros que ela nao queria ver.

mas naquele dia 25 foi diferente. ela sentiu como se ele ainda estivesse ali, do seu lado. sentiu medo mas nao sentiu saudade. e foi enfrentar o medo: de frente mesmo, como sugere o verbo. sentou e procurou alguma coisa que ela nao sabia, mas procurou com força, com vontade. queria encontrar alguma coisa que, apesar de ela nao fazer ideia do que fosse, lhe explicaria tudo. via fotos, cartões, escritas.

e ela encontrou. diferente do que ela esperava e ao mesmo tempo igual: algo assustador, horrivel, quase nao podia olhar e ao mesmo tempo nao desgrudava o olho. ela fechou a pagina no computador. esperou. mal percebeu que tremia. sacudiu a cabeça desgrenhando seus cabelos já despenteados.

'não... preciso... olhar... não...' e abriu de novo a pagina. era horrivel mesmo.

ela parou. olhou. desviou o olhar. olhou de novo. 'ninguem precisa disso!' e fechou a pagina.

ao mesmo tempo que estava satisfeita, estava terrificada com a visão, era horrivel. 'meu Deus! NINGUEM precisa disso!'

e riu. riu porque era boba. riu porque todos tinham sua época de errar. riu porque a dela já tinha passado - pelo menos naquele assunto. riu porque no fundo ela sabia que aquilo era algo do que se rir. pelo menos agora. riu porque já tinha chorado, riu porque ja tinah sofrido.

riu porque ela agora estava viva de novo. e ele? pelo menos no mundo dela não. nem morto nem enterrado - cadáveres podem ser exumados, zumbis existem.

riu porque sabia que no escuro tudo era beeeeeeem mais facil. mas que agora era hora de realmente acender as luzes e começar o show.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

férias.

'aaaaaaaaah, como é bom voltar pra casa depois de um semestre daqueles!' ela pensava.


e lembrava que esse talvez tenha sido o ano mais longo de sua vida. que 6 meses lhe acrescentaram mais que talvez 6 anos. que uma noite em claro poderia valer muitas notas boas, mas custar muita saúde. que procastinação é o passatempo de quem não tem nada a fazer. que dormir é necessário. que comer não é tão necessário assim. que algumas obrigações podem ser adiadas. que mentir um pouquinho às vezes nao faz mal a ninguém. que omitir faz menos mal ainda. que algumas coisas devem ser mentidas. que pra tudo - ou quase tudo - tem uma solução. que panetone e pisca-pisca podem ser vistos em qualquer época do ano. que nem todos os homens são idiotas. que nem todos os homens que são idiotas são gays. que nem tudo que reluz é ouro, e muito menos nem todo gay é bichona. que a perda de um grande grande amor pode doer uma noite... uma semana... um mês... ou nunca parar de doer. e que ainda assim se continua vivendo. que às vezes voce vai crescer metros, mas que nem todo mundo vai perceber. que às vezes a gente precisa fazer coisas que não quer, mas que vão fazer toda a diferença. que - sim, a gente vai sofrer por isso - a gente vai passar por tudo isso, mas só porque tem alguém especial pra segurar a mão.


e ela concordava com vinicius: tudo bem que morram todos os meus amores, mas eu sofreria infinitamente se perdesse todos os meus amigos. e talvez ela já não sentisse tanta paz em voltar pra casa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

inveja

ela era só mais uma garota: mediana, não medíocre. tinha uma ânsia das coisas mais difíceis, das coisas mais bobas, das coisas mais descartáveis.

e ele não era só mais um cara. ele tinha mais problemas do que alguém desejava ter, tinha ãnsias de vômitos em função da medicação pesada.

'sabe, eu queria ser como voce. eu lembro de quando te conheci: uma menina ainda, na escola, com trancinhas e aquele uniforme que fazia todo mundo parecer feio. lembro da sua vontade de trabalhar com desenho - ainda acho que voce etá no curso errado... mas voce sempre se sai bem no que diz que vai fazer. lembro do seu cabelo estranhamente de duas cores que mudavam conforme seu humor. e também lembro do seu violão desafinado e da sua voz feia, haha.' ele listava, se deleitava com essas lembranças futeis.

'besta. se eu era menina, voce era o que? eu sou mais velha que voce' e sorriu, ajeitando o cabelo que cobria metade de sua face. 'e é fato que o uniforme azul enfeiava todo mundo - menos voce, voce sempre foi bonito da escola.' ela olhava pra ele: foi. 'agora eu... azul ou não eu ficava feia do mesmo jeito, eu nunca fui bonita.' ela nem se incomodava mais, a anti-beleza era até sua amiga agora.

'é, pode não ser bonita, mas sabe que eu conheço dezenas de garotas que queriam ser você? levar sua vida, ter o que você tem, saber o que você sabe, estar onde voce está...' ele enumerava

'estar com quem estou?' ela agora apontava ele. 'elas são tolas. ser quem eu sou... hmpf. o preço é alto.' ela agora parecia se queixar.

'é?' ele não entendia.

'nao sei se a inveja mata, mas nesse caso, mataria... ah, se mataria...'

sobre as alegrias e tristezas de ser uma jujuba de sabor diferente.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

amor: substantivo masculino, abstrato.


ela era uma garota conceitual, embora nao fosse um conceito. sua memória era assustadoramente sua amiga, apesar de ser uma garota tão distraída. e sentia uma necessidade incessante de nomear tudo, de classificar tudo, de saber tudo em minúcias, ...
estavam a garota e o garoto talvez no ponto mais alto da cidade, admirando o céu nublado ao longe. ora andavam em círculos, ora paravam.
'o que voce tá pensando?' o garoto perguntou ao perceber que a garota ia longe, mais longe que ele pudera ir.
'tô olhando as pessoas fazendo coisas ridículas lá embaixo' ela apontou dando risadinhas contidas, talvez para não mostrar os dentes (será que tinha algum pedaço de biscoito preso neles?) ele contemplou. 'as pessoas são tão pequenas daqui de cima, é tudo tão pequeno daqui da cima.' ela continuou.
'é.' ele pontuou, monossilábico como sempre. (silêncio) 'faz tempo que voce nao vinha aqui?' ele agora interrogou.
'uhum.' ela continuou admirando o quão grande era ser pequeno. um pequeno universo estava contido em cada um daqueles pontinhos que vagava pela imensidão dos gramados verdes lá embaixo. 'fazia tempo, acho que três anos ou mais...'
eles pausaram. o vento bateu forte, bagunçando ainda mais os cabelos milimetricamente desarrumados dele e lutando contra os cabelos dela. 'eu vou sentir saudade também, mas eu volto.' ele olhou ao longe.
'promete?' ela questionou, ainda se pergutnando internamente se ele voltaria pro mirante ou pra ela. ou pros dois, ao mesmo tempo, quem sabe...
e ela sorriu ao perceber a afirmativa dele com a cabeça e se contentou com isso, sentindo milhares de cristaizinhos se espalharem pelo seu peito com a explosão de sentimentos estranhos que ela nao sabia nomear.
e nem queria nomear.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

bad medicine?

'sabe, acho que voce é meu cloridrato de venlafaxina.' ela disse um pouco tímida.

'é, te faço vomitar, te deixo tonta e com a boca seca.' ele respondeu.

'é, mas eu não posso viver sem. os efeitos colaterais valem a pena, voce não tem idéia do quanto isso me faz bem.' ela agora justificava a drogadição.

e aquilo que os outros chamavam de doença ela chamava de cura.

sábado, 6 de dezembro de 2008

cloridrato de venlafaxina

A venlafaxina (como cloridrato de venlafaxina) é um antidepressivo da classe dos inibidores selectivos da recaptação da serotonina e da noradrenalina. Não está relacionada quimicamente com os antidepressivos tricíclicos ou tetracíclicos
eles estavam ali, poucos metros de distancia fisica. ela não estava atrasada dessa vez. abaixou a cabeça e se aproximou dele, que também fingiu que não a vira.

(...)

e eles se abraçaram longamente sem dizer uma única palavra.

'eu senti tanta saudade de voce!' ela quebrou o silencio sem quebrar o abraço.

'eu também.' ele respondeu.

e se abraçaram mais forte ainda, como se nunca mais fossem se separar. de novo em silêncio.

pela primeira vez ela ficara em silencio por mais de 5 minutos, porém isso significava muitas coisas.

'i could die right now, ..., i'm just happy!' Eternal Sunshine of The Spotless Mind.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

anybody seen my baby

'ele disse que se sentia preso e que nao sabia mais

pra onde estava indo ou de onde tinah vindo

que não era como ele tinha planejado

que ele teve a cahve pra porta mas não quis abrir


e eu sei, parte de mim diz pra seguir em frente

a vida acontece de alguma forma

mas nao sei, nunca funcionou antes

mas desta vez e ufarei qualquer coisa

qualquer coisa pra me sentir melhor


(...) voce é a unica que me conhece

e que nao ignora que as alamas tambem sangram


eu sei que parte de mim diz pra ir em frente

que tudo tem sua época

mas não sei, cada dia é igual ao anterior

mas dessa vez, farei qualquer coisa só pra me sentir melhor.'


Just Feel Better, Santana feat. Steven Tyler


'... e voce me amou um dia?' ela perguntou. os segundos agora eram longos e ela nao sabia se por causa do álcool em seu sangue ou por causa dele.


'sim, sempre. mas não tem como explicar, você é como uma parte de mim, entende?' ele respondeu vagarosamente, cada palavra era dura de ser proferida.


'voce mudou tanto...' ela constatava e nao entendia, nao sabia se gostava, nao sabia.


'mudei...eu abandonei o cigarro e os velhos hábitos' ele realmente parecia mais homem agora.


ela ficou calada, de repente ela entendeu que o que amava nele eram os defeitos. cada um deles.


e que mesmo que fosse fraca pra aguentar os defeitos, era forte demais pra que a perfeição dele a tocasse.
sobre meninos e jujubas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

isis, a deusa da lua

a garota saíra da sala de aula com algumas idéias estranhas.

'ei, vamos no Centro Acadêmico conversar?' ela disse bastante sorridente, parecia ainda em clima de férias permanentes.

'hm... não sei.' a outra hesitava, talvez por medo da garota esquisita e de cabelo de duas cores que a chamava.

'vamos!' e a puxou pela mão.

ao entrar na pequena sala, ligou o som.

'ei, vamos falar de energia?' a garota do cabelo de duas cores perguntava.

'porque não, né?' e assim a energia fluiu pela primeira de muitas vezes. uma energia chamada amizade :)