quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009?

2009 entra pra história como o ano dos maiores achados. e também dos maiores perdidos. faço uma lista, para que caso algum pertence teu tenha ficado pra trás possa procurar e eventualmente encontrar. ou não.

michael jackson
porres homéricos
direção defensiva
asunción
pose, essa menina
clan
bossa stones
músicas autorais
zelas
aviões
ônibus
dinheiro
muita água
amizades
respeito
dignidade
powers, a.
indie
las vacas
paciência
fígado
coração
cabelo laranja
cabelo vermelho
cabelo azul
cabelo colorido, afinal
palavras
fôlego
vontade de viver
peso
medicação controlada
e descontrolada também
frio
segredo
contos de fadas
sorrisos
aulas
gripe suína
saudades
mais álcool
trabalho
alívio
coragem
direção
sentido

mas dentre tudo, me avise se você encontrar alguma esperança por aí, principalmente se disser respeito a acreditar que todo mundo vai cumprir suas promessas de ano novo.

(o futuro a Deus pertence, me disseram. Nem os ateus discordaram.)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

um

os dias correram, o trabalho parecia infinito, a vida lá fora continuou a correr embora nem soubessem que a chuva caía a cada fim de tarde na cidade que amanhecia ensolorada, intocada. voltei por fim à rotina de palavras, a velha traição lírica de si mesmo, simbólica sempre. começava a depreciável contagem regressiva, as roupas brancas. nunca gostei de roupas brancas. minha empreitada agora incluía apenas a impressão dos efeitos colaterais das medicações. e só. nada mais de prometer ser melhor, perder peso, manter as bagunças arrumadas e parecer mais plastificada. nada mais de celebrar ano novo. cada dia já era insuportavelmente novo e o mesmo.

a insônia terminal vinha forte, percebi que pela solidão começava a dialogar em outras duas línguas para não perder a prática. os sentidos se perderam pelo caminho, os sonhos eram mais vívidos que a realidade. desconfiei do rosto ingenuo que me encarava por trás daquela transparência toda: era só meu reflexo. eu, que nunca fui pontual, acordava de hora em hora.

ainda assim ninguém me concedia o direito de celebrar a melancolia, mesmo que me obrigassem a me trajar em alvo e alvo.

garçom, desce vintinha, por favor. glup glup glup. salud, mis amigos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

i'm so fucking back

... sobretudo, meu caro, terei a força das palavras errantes, aquelas mesmas que me acompanharam ao longo de meus jovens anos. tendo o peso das lembranças mais surreais por bagagem, os ombros, como diria drummond, suportam o mundo.

mas acima de tudo, terei a coragem do primeiro gole enquanto ainda tiver meus últimos comprimidos intocados.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

padarias

eu poderia dizer que não gosto do creme e nem do açúcar. seria tudo mentira, eu sempre amei sonhos de padaria. mas fico pensando que sonhos são só sonhos, bonitos de se ver por trás do vidro, naquela eterna ilusão de que está a nosso alcance. não tenho paladar pra uma coisa tão doce todo dia. sonho é superfluo, pão francês é necessário. e você é assim, todo pão: versátil, cotidiano, real. e é por isso que eu aprendoa te gostar cada vez mais.

fluoxetina

"Brasília, 14º dia.

hoje o dia é cinza, daqueles em que o céu é o limite e as nuvens não são macias pra quem tenta ascender. o calor é implacável ainda assim, minha boca está seca e eu não sei mais se é ilusório ou apenas o gosto da cidade, difícil de engolir. os sabores se perdem em questão de segundos, como se todo desejo fosse mero capricho e a auto-destruição apenas um passatempo.
hoje o dia é cinza, a cidade está silenciosa. póstuma, eu diria. não há árvores de natal ou misericórdia, só panetones. os ruidos que ousam se levantar são aplacados misteriosamente. e eu não sei se são meus protetores auriculares de plástico, a visão desfocada, a desrealização ou apenas os efeitos colaterais da maldita fluoxetina: meu porto seguro e minha tempestade."

inocencia

lá em cima da cidade
tem um corpo de veneno
quem tocou morreu
(complete aqui)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

rascunho


e quando a ausência dá forma a presença como na dança dos rastros negros que o lápis deixa no seu contato com o papel - fruto do atrito, coisa da física - é que a presença de todas as cores, o branco, ganha forma e nome.
e mesmo no papel a presença só parece ter beleza sob o abraço do nada absoluto: sem a ausência não há história alguma.
os românticos me dirão que falta a arte final com as cores, eu direi que a idéia de perspectiva basta, ainda que em branco e preto. a mim me bastam os rascunhos, para que cada um complete da maneira que bem quiser, nas entrelinhas.

diários de 20 mg


"embora os movimentos sejam constantes algo sempre insite em parar na beira da estrada. sentimentos deixados pra trás adoram pedir caronas. as portas dos armários permanecem fechadas, as malas vazias e as camas arrumadas - mas tudo em movimento, nem que seja inerte.

(...)

eu gosto assim, natural, quente e amargo, forte e difícil de engolir. que se perde no ar quente e espalha seu aroma por todo o prédio. gosto de profundidade. obscuro, mas solúvel. eu gosto assim, quando no seu olhar encontro uma noite inteira, negra, que na verdade é no maximo castanha. e me surpreende porque no fim das contas cabe em qualquer forma. eu acho que o café assim não é pra qualquer um, é preciso lingua afiada e estômago para essas coisas (...) mas ainda assim eu gosto mesmo é quando seus restos me deixam ver meu destino no fundo do poço, no fundo do copo. e se no fim do gole nada me restar, eu sei que meu destino é o mundo inteiro. definitivamente o café assim não é pra qualquer paladar."

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

sentido

então desaprendi a pintar a raiva em cores vibrantes e palavras soltas, cotidianas e banais. acontece.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

18 horas

"...o sino descompassou, as horas iam longínquas. ela deixara sua casa sob as luzinhas de natal piscando intermitentes ao meio-dia. isso deveria significar alguma coisa. não importava quão alto despontasse no céu o sol de brasília naquele momento, o fim (do dia) chegava surfando nos ponteiros do relógio.

voltar ao normal, alguém disse. ela sorriu longamente, pensando em como voltar a um lugar em que nunca esteve..."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

direitos

... não consegui freiar o meio sorriso que se desenhava na curva da minha boca indicando o sarcasmo quando alguém disse que todo mundo deveria lutar pela vida - a própria, a alheia, a relacional, a dos animaizinhos. algo em mim desatinou: e o direito de morrer? e quando viver ultrapassa qualquer luto? será que as palavras derramadas em sofrimento eram mais leves que os pontos finais das mortes? o outro canto da minha boca entrou em concordância com o primeiro a se manifestar.
não é apatia ou falta de vontade, não é apologia a morte ou ao morrer em si. é que eu acho que a gente só vive de verdade quando aprende a hora de deixar morrer, como diria o grande paul mccartney.

e quando a morte vier, lembra que meu ombro vai estar aberto para visitação 24 horas por dia, 7 dias por semana. e eventualmente nós celebraremos como no méxico, em homenagem a todos aqueles que ficaram enterrados no passado e na lembrança.