sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

antes que o ano acabe...

primeiro, à deriva, pensei que o sinal luminoso no céu fosse um pedido de socorro, logo aprendi que fogos de artificio não precisam de extintor de incêndio. vamos queimar.

quem precisa de retrospectiva, quem precisa viver de velhas memórias quando temos uma eternidade de presentes pra fazer memoráveis? eu quero um futuro de presentes.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

irlanda

eu mostrei a minha cidade pelos caminhos que só eu fazia nos tempos em que eu estava perdida. eu aprendi a amar aqui, eu aprendi a amar a secura e o vermelho, a estiagem e a primavera dos ipês, a inconstância e as chuvas repentinas, eu aprendi a ser um pouco mais como a cidade. pequenos detalhes que tinham se perdido no cotidiano de concreto, minha mão em um trevo de três folhas, uma borboleta, um coração. e uma lágrima para cada metade dos corações partidos: o que começa em festa e borboletas nem sempre termina em estiagem.
eu mostrei a minha cidade pelos meus olhos castanhos que te emprestei, e eu vi uma infinidade de coisas inéditas no reflexo dos teus olhos verdes.
era a chuva de dezembro em brasília.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

meu exílio em L.C.

Qualquer homem fica interessante à meia luz, ao som de um jazz, mas só ele era tão excitante ao som de qualquer música. As mãos para o piano e para mim, de unhas bem feitas, cabelos ralos e desgrenhados, os olhos castanhos com cílios maiores que os meus - eu competia por tudo mesmo! O tal .................. era um sujeito interessante. Hmmmm, interessante? É, interessante. Algo na sua expressão facial me encantava, o formato do nariz combinando com a boca, a orelha desenhada, as pintas no pescoço, a cicatriz no braço. Com modos ingleses, frio como um inverno europeu, tradicional como a arquitetura barroca, mas algo ali, eu sabia no fundo, era muito mais contemporâneo do que ele podia imaginar. Eu não disse nada entretanto, sendo a primeira e única vez em que me calei em sua presença.
Passamos mais uma noite conversando aleatoriedades musicais, ele era cheio de teorias, seus sentimentos eram como música escrita nos pentagramas. E eu era música cifrada, tirada de ouvido. Eu era mais Rolling Stones e ele muito Beatles. Hey baby, don't let me be misunderstood. Mas eu sempre dava um jeito de ser mal entendida. É o que eu faço de melhor, faz parte do meu show, meu amor.
Ele me mostrou os livros na sua escrivaninha improvisada, eu olhei com a mesma atenção de sempre. Ele me deixou sentar na sua cama enquanto eu ficava olhando para ele, eu com a mesma cara de sempre, me perguntando bem lá no fundo pra que ele não ouvisse como é que alguém podia ser tão rotineiro e tão excitante ao mesmo tempo. Eu não entendia. Quase dois anos se passaram desde esse dia, em que eu quis ver bem mais de perto como é que se fazia isso que ele fazia tão bem, eu não conseguia entender, eu tinha só 18 anos.
Não consegui extrair mais uma palavra sobre L., me perguntei o que eu tinha feito com esses quase três anos de memória. Simples: eu tinha abrido um blog.

p.s.: you had me at the rolling stones.

Depois dos 20 a gente começa com umas manias de transformar qualquer amor do passado em poesia.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

albania

ontem eu sonhei com alguém que conheci amanhã durante uma noite em que eu fugia do tédio, seu nome é indrit e eu esqueço seu nome enquanto me entretenho com sua gargalhada franca, caindo em contradição a cada frase. primeiro ele boceja com seus olhos escuros quase fechados, depois diz que eu sou peculiar e alguns minutos depois dá a primeira gargalhada. eu sorrio pouco, me contradizendo outra vez. ele me pergunta do futuro, eu pergunto do presente. ele tem insônia, eu tomo prozac. ele me conta de sócrates, eu falo de foucault: ser excêntrico é complicado, tudo é normal. o tédio se desmancha em risadas, estamos em slow-
mo-
tion.

façamos planos, durmamos bem e bons sonhos pra você. e pra mim se você quiser dar o ar da graça.

domingo, 19 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

tarot

minhas mãos caminharam pelos traços do rosto que eu mal conhecia, o lápis sem borrachas, as maçãs sem rostos, os espinhos sem rosa. as cartas diriam que havia um viajante em meu caminho, eu não saberia dizer se era eu, você ou nós dois ao mesmo tempo. Norte e sul são só questão de referencial e a sorte também.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

confessions on a dancefloor


ela sentou e sentiu o mundo cair em pedaços no seu devido lugar, a cabeça pesou depois da dose de whisky e sequer notou a presença dos casacos nas pessoas ao redor - estava frio, muito frio. ela sorriu pela enésima vez sem motivo aparente enquanto ajeitava as mechas de cabelo que saíam do coque arranjado no meio da pista de dança. ele riu da cara boba que ela fazia enquanto arrumava os cabelos, ela mordia os lábios e ainda conseguia continuar sorrindo, tudo ao mesmo tempo.
ela levantou os braços de repente anunciando a música que tocava: 'at first I was afraid, I was petrified - but I will survive!' e deu um largo sorriso pra ele enquanto comentava para si mesma que amava aquela música. Ele a convidou pra dançar dizendo que amava aquela música, ela sorriu mais ainda: era bom demais pra ser hetero.
ela recusou, fazendo menção de tomar mais uma dose. ele a segurou pelo braço, ela virou o rosto para encará-lo. Ele a convidou pra dançar, ela sorriu mais ainda: a noite inteira...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

don't go away mad

just go away - motley crue.
 
"nós poderíamos cruzar os mares
ou pegar um trem desgovernado
ou entrar num foguete pra chegar no espaço
nada mais a se fazer
coisas demais foram ditas
para fazer com que se sentisse
como nos sentimos ontem

as estações devem passar
estradas diferentes, caminhos diferentes
se tivermos de culpar alguma coisa
vamos culpar a chuva

eu sempre soube
que eu teria de escrever essa música
jovem demais pra me apaixonar
acho que sempre soubemos disso

está certo, está tudo bem
nós estávamos atravessando a juventude
sorrindo nos momentos de dor
está certo, está tudo bem
vamos virar a página"

sábado, 11 de dezembro de 2010

e a chuva cai sobre os vivos e mortos, sobre os justos e os injustos, de uma vez só, porque somos tudo isso de uma vez só. às vezes esqueço da tua presença sem fazer questão, entretanto você insiste em surgir nos corredores vez em quando. quando você quis nos matar minha única inquietação foi porque você não me deixou em paz.

e a chuva cai sobre mim e sobre você, porque sabemos que vivos ou mortos, ainda habitamos o mesmo lugar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

bolo de coração

o problema não é partir o coração, o problema é o que você vai fazer com os pedacinhos. i must admit you broke my heart. 

você vai entender se clicar.

eu resolvi fazer um mosaico.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

o que aprendi com m.a.m.

ei,
hoje vi uma propaganda daquele filme que a gente assistiu junto, fazendo as piadas mais nonsense. lembrei de você, especificamente você, com seu jeito engraçado de parecer sério, com o seu jeito menino de querer ser homem, sabendo que em termos de whisky só eu colocava o pau na mesa. dos porres com hora marcada, da guitarra tocada à noite, das fugas de uma noite só, dos rabiscos que deixei na tua parede e no teu âmago do ser, dos prêmios jamal. do medo de crescer e do medo de estagnar. das caronas e das maioneses caprichadas. carne à vontade e música alta. rock the casbah. das pequenas coisas, do lirismo prático. dos supermercados e das árvores de natal. dos park days. nada científicos.
lembrei de você, deixei escapar um sorriso daqueles que eu não dava fazia tempos. tentei lembrar quando eu tinha ficado tão amarga... não lembrei de você. tentei lembrar quando você me fez temer por mim mesma, concluí que foi na hora em que olhei pra você e pras suas angustias e vi meu futuro.
lembrei de você, mais do que um dos homens da minha vida, você é grande parte do homem em mim.

uma dose de whisky pra você, uma dose pra mim. sem gelo, por favor.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

8 vezes você

o champagne voou em câmera lenta em direção ao solo. 5, 4, 3, 2, 1. Uma parte de mim ia junto, sabendo que eu não podia me entorpecer de álcool, só de fármacos. piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii - estamos perdendo ela, estamos perdendo. perden... do.

ela brincou de roleta russa buscando uma montanha de mesma nacionalidade, mas cheia de emoções. eu já sabia de tudo: eu estava morta. enquanto isso ele me fazia companhia, acreditando na vida até o último momento: me ama que eu sei que você é feita de amor. e eu amava o pouco que eu podia, um dia de cada vez. ele sorria amarelo, comia minha comida, dobrava papéis comigo. aprendendo francês.

o cabelo azul ficava verde que ficava branco que ficava roxo. as mãos ficavam paradas que ficavam trêmulas que ficavam fechadas. então em uma janela, em outra faixa, você me dava um sorriso de graça. assim, por nada. e eu aceitava presente de estranhos. ele fez música, eu fiz amor com os olhos - lisérgico, a pós modernidade dá conta de tudo. e ele fez o que eu fazia de melhor, na minha frente. faz parte do meu show...

o outono veio e foi, com as cores se misturando no ceu, com os gostos se misturando na boca, com os gostares se misturando no peito. nada a fazer nada a fazer nada a fazer e milhares de coisas a serem feitas. eu definitivamente tinha sorte no jogo. com 315 reais no bolso, um empréstimo de 420 reais e um outro de 300 fiz as malas pro peru. elas me fizeram companhia, acreditando na vida até o último momento. eu fazia o que eu sabia fazer de melhor: ser uma estrela cadente, atravessando uma noite inteira num brilho meteórico e sumindo pela manhã, pela tangente do horizonte, viajando o resto do universo enquanto acreditavam que eu tinha me apagado. nos encontramos em outro planeta, em outra vida - como eu sempre mencionei. se what comes around goes around então meu amor foi um modelo.

você me deu um sorriso de graça,  eu te fiz um desenho. bariloche, buenos aires. meu quarto e uma pilha de papéis. florida e santa fé. sorriso e corações de jujubas em todo o lugar. antes que o ano terminasse você estourou os fogos de artifício: feliz vida nova! a primavera veio, minha vida nova também. você ficou. do outro lado do canal. mas eu lembrei de você com amor, com desejos de todos os sorrisos que você me deu. what comes around goes around, baby. i assume you deserve the best, and so does the karma.

sábado, 4 de dezembro de 2010

retrospectiva

ao meu melhor amigo,
que permanece ao meu lado nos dias cinzas e nublados
nos quentes e molhados
na ciência e na arte
na lógica analítica e na lógica minha

ao meu melhor amigo,
que permanece comigo nos dias em que eu não falo
planejando uma viagem pra índia
um retiro no templo budista
pro próximo semestre estudar metafísica



ao meu melhor amigo,
um gênio de palavras lidas e escritas,
que sabe como ninguém lidar com meus caprichos
e sismas de apagar tudo que escrevo
sem apagar tudo o que fomos e queremos ser.

ao meu melhor amigo,
que burla o calendário tradicional
e conta anos em loucuras realizadas
que muitas folhas se virem
e nós continuemos líricos, leves e soltos.

(que nós sabemos que o que a internet uniu nem a internet separa)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

os sintomas foram me preenchendo aos poucos, o coração batia descompassado, os olhos ficavam mais úmidos que o normal, a respiração ficava ofegante, um tremor subia das pernas para os braços passando pelo peito. senti que ia desfalecer, aos poucos, vendo tudo ao meu redor se desmanchar em câmera lenta do mesmo jeito que vi minhas certezas se despedaçarem um tempo atrás. as formigas escalavam meus braços, minhas pernas, meu rosto e adentravam meu corpo, fazendo meu estômago formigar. meu corpo se encolhia em medo, mas por dentro eu continuava de queixo erguido: o que eu sentia não tinha nenhuma razão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

uma carta pra você

um alívio pra mim.

"gosto do teu sorriso ainda, atemporal, sem destino
do teu andar de chuva, pingando aqui e acolá
gosto ainda, sem estações
dos gestos ingênuos e das utopias
das aulas chatas e da filosofia
da boa música em todo lugar:
beatles, rolling stones, musica popular.
gosto do teu sorriso ainda, das coisas etéreas
da lógica fraca que sigo
de implicar com seus amigos
gosto de você ainda, meu amor é hermético
gosto do teu sorriso ainda
meu amor se explica no materialismo dialético."

terça-feira, 30 de novembro de 2010

crônicas da vida virtual

"no you can't find peace in company of me but you may find it out on the road"

ele navegou as ruas da cidade em que nasceu mas da qual já não tinha nenhuma memória, a última vez que tinha estado ali não sabia nem andar. correu em volta da praça sob a chuva fina que caía graciosa das nuvens cinzas enquanto ouvia uma música após a outra sem nenhuma ordem a não ser a da sorte. ele era apaixonado pela música, pela chuva, pela cidade que acabara de conhecer.

enquanto isso, ela sentava em um ponto mais alto da mesma praça, contemplando o céu por alguns segundos enquanto alguém tirava uma foto do momento. ela riu com a amiga enquanto via de longe os pombos, as árvores, a bandeira tremulando no alto da torre do relógio que marcava 3 da tarde. elas levantaram, caminharam em volta das árvores, viram as pessoas passearem com os cachorros. o homem com o cavalo.

ele andou pela rua que ficava ao lado de seu hotel, buscando um café pra sentar e escrever alguns cartões postais. encontrou uma livraria e foi irresistivelmente atraído para dentro, sugado pra dentro do espaço-tempo rompido que é um ambiente cheio de livros, desenhos e música tocando.

ela andou pela rua, observando tudo que podia, absorvendo tudo o que podia. parou ao lado de uma banca de jornais, admirando os chaveiros com nomes que pendiam do teto. desejou os chocolates, eventualmente comprou algum. desejou as flores no balde, não teve nenhuma, soube que não poderia carregar nada perecível a não ser ela mesma ali. viu uma livraria em frente: foi inevitavelmente atraída pela música tocando.

ele fez sua refeição favorita: milanesas com batatas fritas. ela fez sua refeição favorita: milanesas com cerveja. ele bebeu seu drink favorito: cuba libre. ela bebeu seu drink favorito: cuba, sem libre. ele se deitou no quarto de 100 reais por dia, ela se deitou de sapatos no leito de 15 reais por dia.

ela checou sua correspondência virtual, sem novidades. ele checou sua correspondência: uma nova mensagem.

ele a viu nas árvores enquanto caminhava outra vez na praça, com o cachecol colorido. ele acenou, ela sumiu. ele lhe escreveu uma mensagem:

ei, você está em todo lugar mas eu nunca te encontro.

ela não respondeu por alguns instantes. lugar certo, épocas diferentes. ele estava só um ano atrasado.

1

"mas eu sigo e por vezes eu sinto saudade, sabendo que ir em frente e sentir saudade não são exclusivos. e então as minúcias do que fomos me atingem pouco a pouco, começam pelos olhos, vão para os sorrisos e finalmente atingem os joelhos, meu ponto fraco. eu tento não fazer ridículo de mim, mas a piada é inevitável, a vida é irônica às vezes. eu rio um pouco, e lembro de respirar. and then i try to stop to hold on to it. somos todos transitórios, a vida é toda transitória. eu discordaria: as cicatrizes são pra sempre."

domingo, 28 de novembro de 2010

diplomacia

"I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: Two roads diverged in a wood, and I– I took the one less traveled by, And that has made all the difference" Robert Frost

a holandesa disse que na estrada eram corações partidos, casos de uma noite só e casais. o barman italiano riu, era tudo verdade. o israelense fez um carinho no meu rosto antes dormente - eu sentia outra vez. eu perguntei como chegamos até ali, o barman italiano riu: ele sabia que era tudo verdade...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

mr. brightside

pequenas rugas ao redor dos olhos, 28. provavelmente miope, os olhos azuis e a barba feita. um feito. o cabelo desenhava na minha mão, a boca no meu ouvido direito. desculpa, eu não entendi. sem nome, sem endereço, sem atribuição. só corpos que se movem em câmera lenta enquanto eu dou mais um gole longo no jack daniels que você me comprou. sem componente cognitivo, você me pegou desarmada. um é pouco, dois é bom, três é demais - quatro é contar com a sorte. bang bang. flash. e as meias se perdem junto com os sapatos e a blusa do kiss. flash. 44. flash. retorno ao meu corpo, sendo. mais um flash. pacotes no chão, uma vela perfumada, jeans e xadrez, botas. tenho documentos, pouco dinheiro, escova de dentes, creme dental sabor uva, uma bandeira do brasil e uma lanterna. o sol vai alto lá fora, as blusas retornam, as meias não. foi um prazer te conhecer, eu traduzi livremente e literal. 125.

we gotta hold on to what we got. uma dose solitária de vodka pra mim, uma de sprite pra você. uma dança solo pra mim, uma pistola carregada pra você. bang bang. você é mr. brightside, eu sou elizabeth II. i know you want me, you know i want ya. as espadas, os dados, e as cartas: voce tem tudo. eu danço, tu danças, ela dança. eu danço, tu danças. e ela dança. e três viram um. antes de atravessar outra noite, atravessamos a porta. eu digo que quero ar fresco mas na verdade só quero tomar um folego. fernanda, fernanda, fernanda, 20 anos. você ri. desculpa, não entendi. sem doses adicionais de álcool. você confirma o que eu suspeitei por tempos: a vodka me faz transcender o corpo e eu falo até dormindo. e se saimos do corpo, não podemos voltar de repente. just a little bit. eu canto enquanto você mata minha sede. sua voz sempre sussurrada, seus modos impecáveis que me conduzem pela rua e de volta ao meu corpo, as sombras brincam no escuro, a última folha intriga você: um. dois. três. três? não, quatro. eu vejo os contornos, amazing. quem disse que pra baixo todo santo ajuda não sabia muita coisa. voce mata minha sede e eu mato tua fome. a decoração exótica do mc donalds e o hip hop. a mesma música pela segunda vez: que tengo que hacer? a mesma dança, meu casaco na sua cintura, meu corpo nos seus braços no banco de uma praça. a lua mingua e ao invés de whisky a gente toma um táxi. meu corpo nos seus braços no banco de um táxi. cuesta santa ana, 3. agora eu sou tão grande quanto você e posso procurar não só minhas meias sozinha, mas também a mim mesma.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

fogos de artifício

três linhas e um sorriso em uma terça-feira. estamos indo bem, muito bem.

nirvana

(o que aprendi com C.H.R.)

algumas phrasal verbs em inglês e uma dúzia de adjetivos para definir beleza,  banho, cama e mesa.
um pouco de história americana e histórias de vida. planejar uma viagem pra argentina.
Meia dúzia de novas maneiras de dizer bom dia: em alemão, em tcheco, com os dedos, com os olhos. Mesmo que ao meio-dia.
gostar de dias cinzas.
trabalhar cantando, não levar a academia tão a sério.
usar música sem prescrição como remédio.
embrulhar presente em laço
anotar experimentos passo a passo.
a ser mais mulher sem deixar de ser menina
planejar uma viagem pra bolivia.
respirar outra vez nuevos y buenos aires
que sem diploma a gente também atravessa mares.
desenhar outra vez, fazer rascunhos
escrever mais, conhecer o outro lado do mundo.
que jujubas no sorvete ficam duras e jujubas no calor derretem
não é simples, mas é físico.

 ah! e aprendi a acreditar no que não é visível... oh my, it's faith! 
ainda assim ao invés de café eu prefiro leite.


boa noite de novo, El Libertador. 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

uma noite a mais

as luzes piscam, a gente dança
os sapatos são mágicos
os disfarces nem tanto
as camisas falam
meu sono também
no 42 eu vou muito além

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ten years gone

Changes fill my time, baby, that's alright with me
In the midst I think of you, and how it used to be

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

tchau

i was feeling sad, can't help looking back, highways flew by
run run away, no sense of time
i would like you to stay
want you to be my prize

a gente escolhe o próprio caminho não olhando pro horizonte e traçando uma reta, mas em cada pequeno passo que a gente dá. os meus me levaram a você, a ele, ao paraguay, à argentina, a voce, a mim, ao peru, de volta à rotina. não que isso seja ruim, do meu lado caminham as pessoas mais lindas que eu ja conheci.

prazer em te conhecer, mas tchau.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

p.s.'s e tal

eu te escreveria um poema se eu soubesse que voce leria
eu te faria uma musica se voce ouvisse
eu te escreveria cartas e postais
mas como eu nao sei de nada
eu escrevo você poema que é pra guardar voce em papel
do bolso da minha calça
no fundo do meu coração.




to ficando brega...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

de fora

... pra dentro.

quis que você me encontrasse em qualquer ponto da estrada
fosse no meio ou no começo
fosse daqui a seis meses ou agora
na norte-américa ou na américa latina
na rússia ou na argentina
falando tcheco ou inglês
espanhol ou tudo de uma vez
quis que voce me encontrasse até na china
num plaza hotel ou na hospedagem da esquina
eu com um laço na cabeça
e voce com nada além de cabelos bagunçados
eu seria mais do mesmo
e voce me acharia engraçada
e eu continuo querendo que a gente se encontre
em qualquer ponto ou virgula da estrada

sábado, 30 de outubro de 2010

pra não dizer que não falei das flores

tenho necessidade de apagar certas coisas, outras, apesar de tudo, permanecem. pra não dizer que não falei das flores, pra não dizer que não falei de amores, digo - antes tarde do que nunca - que ambos vivem em mim de certa forma, junto com as borboletas e todos os outros bugs que insistem em me rodear:  i love you and all that jazz... numa madrugada de sábado. e então eu me dei conta que de todas as flores, o cactus foi o único que sobreviveu à estiagem. cheio de espinhos, mas sempre fiel. um incenso e um jogo noturno - pra não dizer que não falei dos cactus.

i love you all
and all that jazz.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

dois

a amargura deixava agora espaço na minha língua pros sabores mais simples: um gosto de fim de tarde, de céu nublado, de chuva na universidade, de conversa com conhecidos sobre intimidades. sem me dar conta que dois meses tinham se passado desde aquele dia em que resolvi amar um pouco mais - é impossível não se apaixonar diariamente pelas ruas de pedra, pela primeira chuva em 100 dias, pelas luzes.

as noites etéreas e o álcool nos copos certos mas nas doses erradas, do jeito que eu gosto. perder foi o jeito como me encontrei, um pedaço em cada parte do mundo. the way you make me feel/ you really turn me on. eu sentia de novo as borboletas no estômago, o sangue correndo em minhas veias, a satisfação pós-meia-noite que eu não sentia há 3 anos. brindei aqui, ali, em todo lugar. dancei aqui e la, em todo lugar. com a mesma prepotência de quem pensa que sabe tudo que eu exibia na universidade.

tomei um fôlego, tomei uma dose, tomei vergonha na cara. meu caso era de urgência na fila pra psicoterapia, mas dois meses se passaram. e eu passei com eles.  hoje eu sei que gosto de ser mulher, de fazer psicologia e que eu falo até dormindo. hoje eu sei que me encontrei quando perdi - a vergonha, o medo, as meias...

sábado, 23 de outubro de 2010

life in mars

Queria te falar da minha vida no novo continente, das ruinas que vi e vivi, dos olhos vermelhos e das doses a mais de álcool, sem família ou cama de hotel, sem roupas caras ou sapatos bonitos. eu vivo quando saio daqui, quando me deixo fluir com a vida, bem mais simples do que nós jamais imaginamos, cara pálida: cores, texturas, sabores, cheiros, pessoas, dentes, barraquinhas, carros e buzinas. minha fé cresce um pouco a cada dia, meus pulmões também. percebi que vivemos no limite, a mais de 400 dias por ano, ultrapassando a barreira do som, destruindo as estruturas do amor e de todas as outras coisas singelas, todas simples demais para nós.
Aos meus amigos minha gratidão e meus melhores desejos de uma vida cheia de coisas simples - ou cheia de uma simples coisa, que seja. Escrevo menos agora, ouço mais, vivo mais. Meu querer é simples, minha ambição é uma só. Sem pedidos de desculpa - algumas coisas dificilmente mudam. Mas percebo que estava errada e que viver de olhos fechados e se enganar só é facil na música dos beatles. minha consciência é meu sentido mais aguçado.
Não explodo mais com tanta facilidade, não falo mais tanto sem pensar, não tomo mais porres homéricos na minha cidade mas ainda atraio todos os caras gays. Algumas coisas dificilmente mudam. Mas hoje leio filosofia e penso em política genuinamente enquanto espero meu cabelo secar.
Queria te falar de toda beleza que eu vi, de toda vida que se passou diante dos meus olhos. Queria te falar das cores, do meu trabalho, do que eu descobri dentro e fora das páginas dos livros, dentro e fora da academia. Queria te falar de tudo isso, mas as palavras eram complexas demais. E eu quero uma vida simples.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

rolling stones

eu gostaria de ter ainda um pouco de voce em minhas entrelinhas, mas eu sei que a página já foi virada. ainda assim eu assino com saudades. não é crime, né?

sábado, 2 de outubro de 2010

perfect strangers

and if you hear me talking on the wind
you got to understand
we must remain
perfect strangers...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

panamá

quando cinco são doze e a primeira chuva de setembro molha outubro, não importa de quantos nãos a razão é feita, eu sinto tua falta miseravelmente numa sexta-feira à noite: um crime, um pecado, um sacrilégio. os oceanos separam alguns continentes, um canal é o que nos distancia ao invés de mandar as mensagens. descansei minha cabeça no travesseiro tão macio quanto o teu colo, infelizmente faltavam dedos. (...) somos feitos de ar. e você, de terra, sepultou meu coração, colocando uma cruz - que ninguém sabia se era religião ou sinalização do mapa do tesouro.
o tédio acabou em minhas mãos, as férias agora eram mera formalidade, eu estudava de janeiro a janeiro e você comprava a sua próxima passagem para a-gente-sabe-bem-onde, de encontro marcado com um novo estilo de vida, de encontro marcado com uma nova perspectiva de eu. eu e eu éramos nós afinal de contas. a um oceano de distancia estava o velho continente, a um vôo de distância estava o lado latino da américa, a um canal de distância estava você:

(tive receio das linhas seguintes, deixei o cansaço me abater sem misericórdia: é sexta-feira)

um canal de distância, bastava dedos e coragem pra ligar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

traduzindo

"não quero estrela cadente
não quero ver a aurora
eu quero olhar seus olhos cor de coca-cola

voce é o ar e eu, papel
se eu vivo às escuras,
luz da loucura, vem me iluminar

sabe que quero mais, 
não sei viver só de cinco sentidos"

Por la boca vive el pez, Fito & los Fitipaldis

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

aviões e navios: vamos cair na estrada?

voce me chama do outro lado da tela, do outro lado da vida. eu disse que passei por bons tempos no peru, voce disse que passou bons tempos na tcheca, a república. eu não consegui explicar a ninguém o que passava ali, meus lábios estavam esticados em um grande sorriso bobo. o titanic agora tinha botes de salvamento e eu ouvia o samba do avião: me gusta viajar, me gustas tu. que voy hacer, je ne sais pas, que voy hacer, je ne sais plus. que voy hacer, je suis perdu. que horas son, mi corazón? eu mordi minha língua enquanto você me fazia sorrir, sorri mais então. o amor porteño me seguia em todos os lugares.

"don't you know it's been a miracle? I've only known you two days! It might be trivial or unconditional but let me tell what I'm thinking in my own way..." - a gente não sabe de nada mesmo...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

sufoco

desculpe, meu amor, os anéis só sinalizam, o que aprisiona mesmo são as paixões. o que foi feito, assim está feito, algumas bênçãos vem em forma de fim e eu agradeço por alguém ter pensado bem no meio de nós: le amour est fini, mon cher. e abrimos a temporada de caça com a maior classe, carimbando passaporte, comprando um diário novo, acreditando que os 20 são só o começo.

here we go!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

só por uma noite

elle dansait pour de vrai pour lui plaire à lui seul, il pensait quel malheur que vous ne m'aimiez

todas as coisas, pessoas, gostos, desgostos, desamores e amores são agradáveis quando tem dia marcado pra acabar...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sem falacias, com muitas jujubas

nao tinhamos nada pra deixar pra trás por aqui, a não ser nossas camas e nosso conforto de levar uma vida mais ou menos, mais pra menos que pra mais. com o direito de levar uma mochila nas costas, deviamos colocar os pés no chão e a cabeça no lugar. sem choro nem vela.
o vôo seguiu sem maiores turbulências, sobrevoamos o pacífico. era tudo o que eu precisava: paz. a cidade enorme, os onibus eram os mesmos e a passagem nos girou em torno dos andes. eu podia perder meus sapatos e minhas meias, mas jamais a cabeça ou o ônibus. O deus do caos e a mãe terra estavam em harmonia, e porque nos nao estariamos? mesmo que tudo estivesse em ruinas, mesmo que tudo fosse apenas sombra do império que um dia ja foi, era tudo lindo. e a gente crescia um pouco mais a cada passo em direção a um metro a mais de altitude. sem oxigênio mas cheias de amor pra dar.
a vida em volta da praça, as noites de salsa, a disco music, os drinks. tudo denunciava que haviamos ligado a maquina do tempo e quebrado as barreiras do espaço, o universo era aqui e a vida era agora. éramos seis de começo e éramos muito mais por fim.
reencontrei minhas meias favoritas, mas o medo de viver eu perdi pra sempre - e espero nao encontrar outra vez...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

sintéticos

a gente faz musica
a gente faz café
a gente faz comida
a gente faz drama
a gente faz parte
a gente faz comédia
a gente faz tempo
a gente faz amor
todo o tempo
o tempo todo

domingo, 22 de agosto de 2010

filosoficamente falando

ela arrumava as malas, ele escrevia mais algumas linhas. as cataratas do iguaçu eram o cenário de mais um plano. ele comprava as passagens, ela entrava em órbita. ele tinha um gato preto, ela era cheia de sorte. ele fazia luz com os dedos, ela brincava com as faíscas. ela fazia música cheias de defeitos, ele criava defeitos cheios de música. ela o desenhava em pequenos detalhes, ele a fotografava enquanto ela criava um mundo. ela mudou de cabelo outra vez, ele adicionou um recorte no seu casaco jeans. ela tomou uma dose de whisky sem gelo como nao fazia há muito tempo, ele tomou uma garrafa de cidra.

ah, a pos-modernidade.

conclusões

às vezes o amor pode ser tão conveniente. ou nunca ser. ou ser demais. ainda é amor e todos nós somos pequenos, pequenos, pequenos. ela voltou a ser incrivelmente livre, ele não voltou. no fim das contas ela seguiu em frente, dançando às terças-feiras, comendo chocolate aos sábados, dormindo até tarde numa segunda, vivendo diariamente.

(...)

entre um café e outro, ele sabia que o sorriso dela nunca amarelaria. e por isso ele a desejou mais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

tudo de mim, mais de voce

a lucidez me atingiu feito bala perdida na calada da noite enquanto o álcool ainda percorria cada uma de minhas veias.






"manifesto em minhas linhas - de expressão ou de caderno, talvez aquelas imaginárias que formem o limite - a necessidade de colocar o pé no chão outra vez, de colocar o pé no freio pela primeira vez em tempo(s) de viver. manifesto em pobres palavras, aquelas menores e mais fracas, que ainda saem pelas lacunas que deixa o grande nó na garganta, que preciso engolir a verdade antes que eu morra engasgada. (...) não há, meu bem, maneira alguma de me prender à realidade quando tudo em você é tão onírico: teus cabelos, tua cara ingênua, tua felicidade instantânea e tão frágil quanto brinquedo de criança. liberto então, e porque não dizer, que ME liberto então, desvencilho-me daquela ligação invisível, imaginária que ainda me unia a você, que ainda me unia à não-humanidade. confesso que serei então uma pessoa melhor, mas somente porque você assim me ensinou."





sobre o amor, que é surreal demais pra uma pessoa que precisa tanto sentir o chão sob os pés quanto eu.
é que eu tenho medo de jamais experimentar algo tão belo quanto eu experimentei com você.

senhoras e senhores: fernanda duarte.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

estrelas

o sol se punha suave, as cores se misturavam de forma imperceptível: suavidade era a lei do universo. eu sabia que aquele era um momento único, que mesmo se o sol se pusesse da mesma forma, com as luzes na mesma intensidade, eu já não seria mais a mesma.o universo nao deixa nada a ser vivido, é tudo agora, no momento exato e nada além. despedidas suaves, saudades saudáveis. eu fiz um pedido pra primeira estrela da noite, eu pedi pra morrer.

mesmo as estrelas se apagavam no fim das contas. e o universo inteiro continuava a existir.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

nós na garganta

o nós fica entalado na garganta, o peito já não dói de esperança, só de certeza. o amor que era doce teve fim amargo: devia estar podre - ou vai ver é só a minha língua. já não interessavam os motivos e nem se houve ou não amor, tudo o que interessava é que já não havia mais querer e nem querido, nem amor e nem amado. um ano e meio ficou pra trás, a amargura não. nem as dores, nem as alterações de apetite, nem a falta de desejos e nem a falta de interesse generalizada: não há viagra pra impotência emocional.

"às vezes acontecem coisas com as pessoas que amamos e queríamos que as coisas fossem diferentes. é por isso que eu falo todas essas coisas agora." ele disse, por medo de perder. uma parte de mim havia morrido na última guerra, a outra voltara aos pedaços. eu perdi, todos perderam. a paz agora era mera formalidade para que os pecados fossem perdoados. não havia culpas ou culpados, réus ou juízes, bom ou mau. não havia nada a ser feito. coisas irreversíveis.

Algumas coisas na vida tinham de ser engolidas e só. eu engolia pouco a pouco, pra que o fel fosse menos amargo: pura ingenuidade. eu engoli, só não contei com a ânsia de vômito pós-deglutição. se eu pudesse,  seria mais, faria mais, sentiria menos. mas já não me canso de dizer que não há nada a ser feito. os amores morrem e um pedaço da gente também.

e não há nada a se fazer. especialmente quando você sente que nem os abraços são mais abraçados da mesma forma. se é indesejado e ponto. as mãos estão atadas e nem os abraços são mais os mesmos. e eu perco mais tempo, sabendo que não há nada a fazer, que não há amor a retribuir, que volto ao sul e à condição de sempre: eu e eu mesma, sem nada a preservar.

quis ligar centenas de vezes. quis dizer centenas, milhares de vezes. me contive em todas menos uma. era tudo perda de tempo, era tudo em vão: o presente me trouxe um não amor, uma angustia e mais uma impotência. eu poderia insistir em amar. resolvi que eu não faria nada.

não há nada a ser feito.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

fantasmas


 alguns diriam que é um tempo de vinganças, eu diria que é o tempo de conhecer um pouco mais as pessoas que nunca saem do nosso lado: nós mesmos.  matar memórias faz parte do cotidiano dos corações partidos. as consciencias já não pesam, é tudo em legítima defesa. não que haja culpados: já não há mais ninguém além de si mesmo, confortavelmente solitários, deixados a sós consigo mesmo.
matar memórias fica fácil depois de alguma experiência, difícil mesmo é exorcisar os fantasmas...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

logo logo

"voce pensará em mim e em como eu costumava ser".

embalou os livros velhos, os desenhos velhos, papéis velhos e tudo o mais que já não lhe servia: tudo aquilo a que ela foi fiel eque não lhe ofereceu nada de volta. era estressante viver esperando retribuições ou amor do mundo pelos seus atos de bondade, era pura burrice. ela sabia que algumas milhas caminhadas até sua casa, algumas corridas em volta do mesmo lugar - fisicamente falando - seriam melhor que qualquer outro remédio. se a fuga não vinha até ela, ela ia até a fuga.
as mãos se abriam para deixar ir e ao mesmo tempo para receber, ela sabia que mãos fechadas não ganhavam nada. abriu além disso seu coração e seu sorriso. e era o bastante desde que a boca se mantivesse fechada por alguns momentos preciosos. be strong, keep telling myself that it won't take long till i'm free of my disease. ela acreditou que as coisas seriam melhores de ontem em diante. e foram.

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

cachorro

o cachorro de pelúcia gigante, presente de minha madrinha, jazia no meio do meu pequeno quarto desde sempre. percebi que já não tinha mais idade pra isso, resolvi jogá-lo fora. minha mãe insistiu para que eu o mantesse. contrariei, caminhei com o nada de pelúcia gigante até a lixeira do prédio:

ocupa espaço necessário para outras coisas, não tem utilidade - nunca teve, é bonitinho mas me atrapalha.

os sentimentos deviam ser removíveis da mesma forma...

under pressure

como aconteceria de eu ser uma pessoa interessante? a arte me tinha secado dos dedos, os olhos estavam igualmente secos. meu coração mais árido ainda. cada segundo era dolorido de tal maneira que nem o remédio me trazia alívio. aos poucos ia arrumando a bagunça do quarto, dos olhos, do peito. da vida. compreendi que não poderia haver amor por tão pouco: no caso, eu.

lutei por meses, sobrevivi. aos poucos ia retornando à superfície, de olhos fechados. o telefone tocava vez ou outra, chamavam meu nome vez ou outra, nunca no tom que eu esperava. alguma coisa estava profundamente errada e eu tive medo: não dependia de mim. o coração apertou outra vez como se fosse implodir. eu estava me tragando, eu pra dentro de mim mesma.

se eu pudesse assassinaria todas as memórias de você, se eu pudesse, eu descansaria. se eu pudesse. mas eu só tenho 20 anos e uma ansia de viver tão grande que não cabe em mim: viver que clama por morte, eu me assassino um pouco mais a cada dia, respirando bem mais fundo. me recuso a qualquer mudança motivada por outrem, me recuso a assistir qualquer indicação - quero ficar em silêncio e ouvir minha própria voz.

(...) e ela diz que está tudo muito errado. e eu sei que eu jamais ousaria mentir pra mim mesma.

apesar de tudo, eu sabia que daqui a cinco anos eu estaria aonde voce sempre quis estar: jovem demais, linda demais, boa demais. irremediável. intocável. fevereiro tinha voltado no meu peito sem festa, sem quarto escuro. mas a dor ia fundo como da outra vez e eu precisava mais que nunca de um bálsamo com teu cheiro e teus gestos mais ingênuos: vem brilhar fora da redoma. eu tinha milhares de coisas a serem feitas, mas nenhuma delas estava a meu alcance naquele momento.

eu precisava de paciência antes de tudo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

diário

o clima seco outra vez como se fosse 2006 pela segunda e última vez, a juventude de certa forma me escapa entre os dedos mais rápido do que eu poderia imaginar. não quis acordar hoje, você foi tão amigável não só nos sonhos mas também, na realidade, você não tem sido nada mal. eu que estava no vazio senti você me colocar no chão, sem beijos ou abraços, um amor louco. escondi dezenas de fatos de você, mas não te importa nada enquanto eu ainda guardar em mim algo do que eu fui: falando besteiras, rindo alto depois da meia-noite, dançando nos shows de rock. quem é de lua entenderia.

ninguém entende como posso guardar tanto amor e carinho em um só peito. eu não entendo como eu poderia guardar tanto rancor em um peito. tenho a mais plena certeza que meus amores nunca morrem, só descansam, porque sinto ter o maior coração do mundo. você me deu o melhor abraço de todos esses dias, meu coração bateu de novo como se fosse 2006. e eu soube que nunca tinha deixado de te amar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

evolução

não devo ser mais poliglota ou falar de política, não devo mais ter longos cabelos brilhantes. não devo negar meu pai e nem maldizer minha mãe, não devo mais ouvir mpb. não preciso mais amarrar o telefone ao corpo, nem ser menos do que realmente sou. e nem mais. não preciso falar japonês ou comer sushi, não preciso escrever uma dúzia de frases sem sentido. não preciso sorrir amarelo, não preciso quebrar minhas próprias regras, não preciso correr riscos desnecessários. não preciso de intercâmbio, não preciso de dois diplomas de graduação. não preciso fazer viagens ou fingir amizade com gente que não conheço. não preciso mais do toque desconhecido, não preciso mais ouvir que eu devia fazer arte. não preciso mais dividir minha insônia e nem multiplicar meus prozacs. não preciso mais ver filmes cult, não preciso mais usar sapatilhas. não preciso mais dançar. não preciso mais consolar. não preciso lidar com caras feias e fechadas. não preciso mais chorar, não devo mais me depreciar. não preciso mais fingir que não me importo - porque eu realmente já não dou mais a mínima pra nada disso.

que vocês que me quiseram assim fiquem de quatro: eu já ando sobre duas pernas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

pagando os impostos

nada a declarar:
nada que tive é o que tenho
não tenho adeus pra dizer
não tenho saudações a fazer
não tenho de fato nada a declarar
não há soluções
não há problema
não há nada de nada
não há eu e nem você
não há nada a ouvir
ou nada a dizer
não há pronomes possessivos
não há nós
que nos prendam um ao outro
me emancipei há meses
me encontrei há meses
sem nada a dizer
não tenho mal
também não tenho bem
não tenho nada que me faça declarar
que faça eu (me) declarar
apenas o silêncio
que é de ouro
e minha ausência
de platina.

faz sentido

quando o sol se põe e eu corro cegamente pelas calçadas da cidade, tudo reformado. acabo me encontrando na porta do teu prédio, a alguns quilômetros da minha casa. o som toca nos meus ouvidos, dizendo que somos mais que um amor portenho: "y yo que pensava que no me importava, que una caricia podia borar el color de mi ciudad". sei que sou sempre bem-vinda nos teus olhos, mas sei melhor que ninguem que as portas da tua casa estarão fechadas até mesmo pra voce, que aí reside. escrevi-te uma mensagem assim que voltei da rua, você sorriria, eu sabia do teu destino melhor que ninguém, eu estava com a tua sorte nas minhas mãos amarradas pelo teu pessimismo. "tua amargura me encanta", voce diria. eu entenderia que era porque voce gostava muito de café, voce diria que era porque gostava muito de mim. enquanto caminhava de volta pra minha casa encontrei um ramo de flores no chão, as famosas primaveras de brasília. recolhi-as com carinho, minha mãe sempre me disse que por onde quer que eu andasse, sempre haveria muitas flores no meu caminho. percebi que meus cabelos agora tinham cor de primavera - o mundo havia dado uma volta em torno do sol e eu tinha quase certeza que era setembro outra vez. não consegui ver o futuro, mas eu sabia que era tão brilhante que os despreparados poderiam ficar cegos.

domingo, 1 de agosto de 2010

ms. rainbow

'voce tem os olhos brilhantes, o sorriso mais branco. seu cabelo é vermelho, sua pele tem cor de canela. e suas unhas hoje são verdes como jade. gosto das cores em você, gosto de me ver refletido nos seus olhos coloridos, onde tudo faz sentido ao vivo e a cores. voce poderia estar ainda mais viva?'

'je ne vivais plus que la nuit' ela tentou sorrir enquanto prendia os cabelos de dia seguinte que segue a noite anterior. as olheiras iam fundo. mais um dia, a rotina fingia que era igual, ela fingia que não sabia das coisas. algo ia mais fundo do que as olheiras - e ela sabia bem o que era.

sinal verde

de repente eu tive medo, inexplicável. Devia ser o álcool ainda no meu corpo me deixando tensa. O que acontece depois de sábado? O que acontece em agosto? O último mês, os trabalhos. Estou pela primeira vez correndo atrás de dinheiro. Parece que o relógio faz piada de mim: você não vai dormir mais de 7 horas diárias, voce não pode parar um segundo sequer. Sinto então o corpo congelar de dentro pra fora, do que me sobrou de coração pro que me resta de corpo. Posso dizer? Eu queria sentir falta do tempo em que não havia nada a ser feito, mas não vou me lamentar pelo tempo em que há tudo a se fazer. Pelos meus amigos, meus trabalhos e tudo que negligenciei há quase um ano e por um ano inteiro - me arrependo como sinal do mais genuíno crescimento: errei, posso consertar e vou consertar. As luzes se apagam, piscam, brilham, estão loucas. Eu danço na festa de despedida do mês, eu canto uma dúzia de músicas do aerosmith, eu ainda sou parte do que fui. Sorrio, voce também. Só tive medo que as coisas voltassem a ser como eram mas no fim das contas eu sei: estamos a gosto de Deus.

sábado, 31 de julho de 2010

que importa, amor
as festas acabam
os livros são devorados pelas traças
o frio é implacável
e as flores insistem em nascer
pre-maturas,
mas não menos bonitas.

que importa, amor
as roupas mudam
as maquiagens são fúteis
eu me acostumo ao frio
e meu amor insiste em crescer
juvenil
mas não menos maduro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

flores

algo mudara profundamente em brasília. o rapaz cruzou seu caminho, pegou-lhe nas mãos, sorriu amarelo como nunca fizera. ela seguiu adiante. do outro lado do prédio de 1 km de extensão, como se não houvesse ninguém mais ao redor, recolheu uma flor para si mesma por saber que ninguém a presentearia com uma assim, sem aviso, ao natural. uma senhora cruzou seu caminho perguntando se toda a indumentária era teatro: não, era psicologia. mais um sorriso amarelo - parece que o mundo inteiro sabe que ela escolheu o curso errado... o homem sentava no mesmo lugar de sempre, ela tinha cores diferentes no cabelo. ainda assim, sorriu enquanto a via de longe e ela fingia que não sabia quem ele era - nem todas as coisas mudavam tão profundamente em brasília.
ela olhou o céu outra vez, como se fosse mais um setembro daqueles implacáveis, em que tudo muda. ele voltara pra sua vida outra vez, nada que uma tarde vazia não fizesse pelos dois. refizeram um dos caminhos que a marcara tanto, dos tempos em que irreconhecivelmente ela era doce e fazia carinhos em um alguém. inevitavelmente deram de cara com a drogaria: "nosso inconsciente nos carrega pra qualquer lugar de cura, não é?" ela sorriu enquanto caminhou por mais algumas quadras, sem perceber que tinha deixado o passado pra trás, sem poder ser quem ela foi ao seu lado.
"quem te deu essa flor? vai, não esconde, eu sei que tem alguém especial por trás disso" ele disse. "eu mesma? e antes que pergunte porque... porque ninguém vai me dar uma e entao eu mesma me dei." ela respondeu. "hm...". e seguiram por quadras e quadras até a flor ir de encontro ao chão. ele a recolheu e perguntou se ela queria que alguém lhe desse a flor. "porque não?" ela pensaria.

algo mudara profundamente em brasília. e não eram seus olhos.

domingo, 25 de julho de 2010

nas alturas

me deixo ficar alta
como solução
pra quem não aguenta mais problema
abanono uma matéria aqui
uma roupa suja ali
um amor acolá
a psicologia em todo lugar

nada de congresso
nada de chatice
nada mais de artigos inúteis
nada mais de gente pedante
chega de café
chega de calouro
chega de veterano
chega de questionário e análise fatorial
chega de aumentar currículo com nada

compro uma passagem
e a beleza da liberdade com uns trocados
errado era quem disse que felicidade nao tem preço
pelo menos tem uma taxa de colaboração...
deixo pra trás livros que amei
maquiagens que nunca usei
roupas que nunca vesti
amores que nunca vivi
e uma vontade de não viver
que me atormentou por dois anos

de ontem em diante só o melhor do melhor
sem amor nenhum
muitos desejaram que eu tomasse em um lugar em particular
mas sinto dizer que
de amanhã em diante
só tomarei no peru

quinta-feira, 22 de julho de 2010

viva S/A

então levei a ela chocolates, sem pedras nas mãos eu agora ostentava uma pedra no peito - geladinha, não era pura e era isso que a fazia mais bonita, com todas as nuances e contornos mágicos... sorrimos por horas, adiamos as obrigações por mais alguns minutos. festas em plenas terças à noite, matando elvis presley e cantando alto, ninguém precisa fazer escolhas quando se tem amigos: as coisas simplesmente acontecem da melhor maneira. queimamos um incenso, ouvimos um funk antigo e nos vestimos à la flashback. estamos vivendo e festejando como se fosse 1980 outra vez, somos finalmente nosso ideal e tomamos banho de chapéu.



viva! viva!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

reticencias

ela nasceu entre as tuas palavras e teus silêncios, entre os seus olhares perdidos no horizonte, as suas mãos de dedos compridos e palmas macias, o seu nariz perfeitamente posicionado no rosto, os olhos grandes por trás dos óculos e os sonhos que nunca compartilhou comigo: por toda a displicência inerente ao meu ser, pela minha frivolidade e minha explosão de energia momentânea. eu devo ter sido tua estrela cadente, não me deixei acreditar, apaguei.
ela então nasceu entre os sorrisos mais francos, livres e despreocupados, no peso da voz grossa. lembro das tuas orelhas de lobo preso e uma pintinha que se fazia passar por brinco, teus dentes alinhados, as unhas bem feitas - detalhes mínimos que me deixavam encantada e em silêncio. lembro das histórias que me contava, de quando a barba encostava o meu rosto nos cumprimentos, nos abraços mais seguros que já recebi.
cultivei-a entre as primeiras tentativas de palavras, timidamente. as primeiras metáforas, as primeiras tentativas de poemas, todas pra você. o receio me preservou de mim, os sonhos me atormentavam dia após dia com o teu rosto e os beijos que nunca tinha provado. lembro da primeira vez que tua pele tocou a minha.
deixei-a crescer devagarinho dentro de mim: minha poesia crescia exponencialmente enquanto não percebia que cedo ou tarde o mesmo oxigênio que me abastecia me colocaria em combustão para que eu virasse cinzas. minhas palavras já não se conectavam mais, estavam solitárias como eu - cronicamente solitárias, amargas, detestáveis. continuei a escrever pra que eu vivesse da lembrança dos meus erros: errei em não ser bonita ou inteligente o bastante, errei em ser eu, errei por ser consciente demais. mas continuei a escrever dia após dia, contando os dias sem sentido algum, sabendo que estava condenada a ser isso e nada mais.
ainda escrevia, ainda tentei dar vida a minha poesia. tua companhia constante me veio na primavera, na primeira chuva de setembro. eu sabia que inevitavelmente eu secaria e que nesse dia eu definharia, com ou sem você. ainda assim alimentei minhas últimas palavras pela satisfação de ver teus dentes alinhados, teus olhos com cílios grandes, as sobrancelhas grossas e as pequenas cicatrizes que revelavam teu passado. dei vida aos meus últimos traços pela satisfação de teus abraços e sorrisos que me eram tão caros, pela satisfação de te ver dormir serenamente ao meu lado. fingi que não me importava porque me apegar demais a qualquer lembrança me seria outra vez fatal. pela terceira vez desejariam minha morte.
cultivei ainda alguns versos desagradáveis, os textos cada vez menores, os desenhos cada vez mais pobres, eu cada vez mais alta. 10, 15, 20, 25. 30 mg. "não sei ser feliz", disse a outra. eu sabia que compartilhava de seu anseio pela melancolia crônica, pela falta de desejos para que nos poupássemos das frustrações. nos chamariam de covarde, eu diria que somos emofílicas. e ainda diria que temos o dom de estragar todos os sentimentos que tocamos.
a mulher me viu chorando, sentiu pena da condição humana em mim porque sabia que não poderia me amar, sabia que não haveria nada da pele para fora que me pudesse curar, era tudo questão de decoração interior. velou meu sono enquanto rezava buscando algum remédio que me salvasse de mim mesma, sabendo que nem a fluoxetina me tiraria do coma em que me encontrava. uma morta-viva de olhos de peixe e cabelos desgrenhados sempre, não importava quanto cuidado a ele dedicassem. senti minha poesia morrer quando vi você ficar pra trás no ponto de ônibus e pela primeira vez pensei que talvez todos os meus versos tenham sido pra você.

tudo em vão, que é só o que eu sei ser: vazia.

terça-feira, 20 de julho de 2010

dia 1

deixei a energia da vida fluir, como quem deixa a represa arrebentar. disse a ele dos erros que descobri, em vão. Ele não me ouviu em nada, disse que era cabeça-dura demais pra tudo isso. Disse que não se permitiu mais me amar, disse que era objetivo. Eu li só incoerência. Eu quis que ele e a objetividade dele se explodissem, que ele e os amigos dele se explodissem. Deixei um pedaço de mim perecer: aquele que se permitia dar a ele alguma chance de ser o que ele nunca teve espaço pra ser - alguém que se permite sentir e se apegar. Ele disse que me amou muito, eu sabia que isso também não fazia sentido algum. Hoje sei que perdi meu tempo de estar nos bares, meu tempo de viajar, minha oportunidade de ter me matado. (...)
passei 6 meses dopada. Ele não pensaria em nada, só diria a mesma coisa sempre, como disco riscado: eu sou cabeça-dura, eu sou individualista, eu te faço mal. Diria que seu amor muda sem aviso, como se fosse uma música do George Harrison. Diria que quer realizar sonhos, que quer aprender - mas ele é cabeça dura demais pra isso. deixei a energia da vida fluir: dessa vez eu embarquei num barco a motor, quem quiser, só entrar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

quase

ela voltou mais cedo pra casa pensando nas pílulas em cima da escrivaninha que deixara pra trás, alguém lhe perguntou se estava bem, ela obviamente desabou sem motivos aparentes. o carro azul destruído na traseira de um ônibus fez seu coração parar pela primeira vez na vida., o telefone estava mudo. não há tragédia insuperável e não há páginas em branco de futuro, talvez as tintas de algumas canetas acabem mais cedo. Às vezes a gente só precisa recarregar as baterias.

ela teve certeza que Deus a perdoaria pela coragem excessiva. E teve mais certeza ainda que ele lhe daria uma outra chance...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

unção dos enfermos

"nadie se curó se no se puso enfermo
 y es tan frecuente cuanto extraño
 se no puede hacerte daño
 no te harás feliz"

"quero estar em meus poemas, quero estar em minhas frases. quero me escrever em todo o canto, não aguento mais essa solidão, quero que me toquem. não posso viver de solidez, quero me desmanchar antes que me destruam. nego todos os meus desejos por um mínimo de controle, sou patética, sou mais ridícula que todos aqueles que critico, só sou consciente: a ignorância é minha maior bênção. quero dormir antes que eu me entorpeça, quero desaparecer antes das 6 da tarde. tenho uma certeza imbecil que me denuncia, tenho que permanecer parada nos 5 minutos que seguem meus impulsos. sinto uma agonia sofrível de um amor que brinca de esconde-esconde nos meus pensamentos: o amor-próprio, diga-se de passagem. Meus delírios estão em franca evolução, posso prever o futuro. e tenho medo.

estou doente, miseravelmente doente."

segunda-feira, 12 de julho de 2010

tudo ou nada

me acostumei a viver de incerteza, entre palavras, traços, desenhos, pinturas, esculpindo teu rosto em todo lugar por anos a fio. me encontrei entre a cruz e a espada, entre as cores que iam do vermelho ao preto e branco, das cores que faziam o cinza. sei como é ser uma mulher desinteressante como ninguém, sei como desistir antes de tentar como ninguém, sei como me contentar com meias palavras: por falta de rumo me deixo levar até mesmo por horóscopos. meu corpo agora é humano e só, sem o remédio e o veneno correndo no meu sangue. Sei bem como o tudo e o nada nunca serão suficientes pra satisfazer minhas vontades exigentes demais, aprendendo a viver um dia após o outro, coisa sofrível pra quem não carrega relógios no pulso. aprendendo a viver no frio, coisa sofrível pra qualquer pisciano que sabe que o gelo se derrete no primeiro raio de sol.

vejo uma mudança genuína nos teus olhos, que são só o meu reflexo. as roupas floridas denunciam minha nova obsessão por coisas vãs, mais uma que esconde o quão mórbida eu sou e eu continuo pintando os cabelos numa tentativa ridícula de entrar em combustão. hoje eu danço conforme a música e a companhia, já não alimento mais as bestas da raiva, penso um pouco mais antes de falar - ou não. ainda mudo de idéia conforme os ventos sopram - ou não. os porres de meio-fio, daytrips pra cidades próximas, rituais inteiros; deixo tudo pra ti, sem motivo algum e com todos os motivos do mundo, por saber que estamos ficando velhos e chatos como planejávamos ficar. o contrato foi cumprido, nossos olhos estão secos e cinco anos fazem de nós duas pessoas que eu gostaria de dizer que são melhores do que fomos ontem, mas que não posso dar certeza de nada. o futuro a Deus pertence, eu disse, e você me respondeu com o sorriso mais irônico que voce era ateu. Sabemos que estamos indo a lugar nenhum. Ninguém sabe quem são as pessoas... E as pessoas dificilmente saberao quem somos nós, os dois poetas mais miseráveis da nossa geração perdida.

Esperei pelo meu lirismo suave e doce, tive que lidar com a sordidez e desespero das minhas palavras. Eu nunca seria nada além disso, nem que eu quisesse muito - só se eu pretendesse viver em mentiras. "she's so... shiny hair, style column, Vera Wang. And I... I am the sex column right next to the ads for pennis implants". Ainda assim eu sabia que eu podia ser tudo o que eu já procurei naquelas páginas.

domingo, 11 de julho de 2010

adeus buenos aires

as fotos já se foram junto com os momentos
teus cabelos lisos e teu cigarro perderam o senso
o mais óbvio de nós dois
e o mais difícil de ser feito
que nunca seja dito
mas adeus, meu amigo
agora não te pinto nem em branco e preto

equinocio de inverno

 há um ano deixamos a cidade pra trás, há um ano deixei meus afetos pra trás. Fiz meus cálculos, desconsiderei a companhia com aroma de cigarro dele, as caminhadas na brasília noturna e notívaga, obtive resultados promissores. Vivi o dia mais longo do ano à beira-lago, envolta em fumaça e música: dancei conforme a musica, do jeito que me ensinaram. E sabia que a música logo não faria sentido algum, sabia que o álcool era traiçoeiro, quis dizer uma dúzia de palavras e só pude usar meus braços pra dizer alguma coisa. A noite era uma criança e nós menores ainda, só pude rir de tudo o que o trânsito dos planetas nos tirava sem saber que na verdade ele trazia uma nova condição, um grande e gigantesco presente.
Os homens cultuavam Vênus, prostitutas e a razão. Em shorts e maquiagem, nos faltava pouco pra subjugar todos os homens do universo. Ela me sorriu, outro brinde foi feito: se não podemos deixar a cidade para buscar a estrada, que a estrada venha até nós.

Amém.

terça-feira, 6 de julho de 2010

cartas de despedidas - e despejos

Lembro do bar, da nossa primeira noite juntos pelo excesso do que fazer e a falta de vontade de fazer. Lembro que ainda era capaz de nadar mesmo com o peso que me puxava para o fundo, mas lembro que era porque eu deixava a correnteza me levar. Lembro de todos os trabalhos que nao serviam pra nada, do desperdício de tempo que a gente chamava de graduação e da desesperança que nos unia em algo que por ilusão apelidamos de amizade.
Lembro com tristeza profunda mas não com menos orgulho de tudo que já vivi. Me vem à cabeça o cheiro do cigarro dele, o toque de setembro, os cabelos longos e todo o resto de mim que tinha deixado pra trás quando resolvi deixá-los pra trás. Me vem à cabeça as risadas mais superficiais que já compartilhei, meus talentos não-usados, minhas fugas noturnas, minhas crises de ausência. As noites vazias, sem entender porque as companhias não eram mais sentidas.
Lembro das camas, dos motivos e das viagens. Lembro de um abraço recebido no meio do corredor da unversidade, ele tinha o cabelo manchado e a risada mais doce que eu já tinha visto. Estar com ele era sentir a brisa bagunçar os cabelos numa tarde livre qualquer. Lembro das tentativas de se morrer, lembro das ambulancias, lembro dos hospitais e dos carinhos recebidos numa roda de samba. Lembro do primeiro avião e da rodoviária, lembro da luz vermelha que já se apagou sem motivo algum: a gente sabe que tudo termina, mas que as vezes nao é justo.
Sei bem da sensação de estar sozinha, lembro dos 6 meses que vivi em coma: vazios, sonolentos, helplessness. Lembro da vez que você me fez chorar no estacionamento não pelo dito, mas pela minha ilusão de que você seria sensato. Lembro das férias de verão, do calor infernal, do prozac no café da manhã, da recepção que te fiz com os olhos vermelhos de saudade. Lembro do teu desgosto e das mentiras que ele dissera que você não devia me contar. Esse foi meu segundo grande desgosto. Lembro da maneira como tentei reunir os dois.
Lembro da letra de música que dizia que um grande amigo jamais deixaria o outro na estrada, sem saber que pegar um ônibus era o de menos, o pior mesmo era que eu que jamais te dei as costas, ficaria no acostamento a espera de um conserto.
Lembro do álcool, lembro das festas, lembro das curas. A certeza era amarga, a paz era necessária e eu só percebia o quanto as referências só me fariam mais perdida. Ele sorriu pra mim: se tu não puder ir até a estrada, eu trago a estrada até você. Eu sorri pela primeira vez em dias: Benvinda de volta.

terça-feira, 22 de junho de 2010

vuelvo al sur

o inverno se anunciou na cidade, ele também. o frio a colocava de cama, ele adorava isso. os jogos a pintavam, ele achava lindo. ela fazia seu show, ele pedia bis. ela tirava as máscaras, ele se despia. as folhas já tinham caído, ele só via flores nos olhos dela. ela cozinhava, ele se satisfazia com o aroma. as expressões duras dançavam sobre a face dela, ele ficava instigado. As sombras e luzes corriam pelas curvas dela, derrapando; ele ia devagar. "você é ilogicamente linda." ele disse. ela mudou de assunto. o inverno se anunciou na cidade, ele pediu um café. ela bebeu sem titubear, ele nao sorriu. O receio lhe cortou a língua, ele a deixou correr. "desenho, escrevo, componho, toco, sou auto-didata e estou a caminho do 4º idioma. sou criativa, versátil e carismática.", ela disse. ele adicionou "e doce". ela sorriu generosamente. "si vuelvo al sur, vuelves conmigo?"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

I couldn't even recognize your face. It means now I just opened my eyes and realized who you really are: and you're such a piece of shit. I couldn't even recognize your face.

domingo, 20 de junho de 2010

eu sou carne, eu sou sangue. eu me dou, eu me vendo, eu compro. eu rio, eu me esvaio, eu morro. eu faço, eu me deixo fazer, eu deixo estar. eu fico. eu sou preto, eu sou branco, eu sou cinza(s). eu queimo, eu explodo, eu brilho. eu apago. eu quero, eu não quero, eu consumo e eu evito. eu pinto, eu escrevo, eu desenho, eu rascunho, eu rabisco, eu corto, eu costuro.




eu sinto muito - estou viva.

sábado, 19 de junho de 2010

epifanias

desceu ao fundo do poço em busca do tesouro
lambeu o chão imundo que tinha o mesmo sabor do teu beijo
dentro dos teus olhos mais perdidos que ela mesma
úmido, solitário e cheio de podridão
não se sabe ao certo se é o fundo do poço
ou teu coração
eis o pior e o pior de ti
a solidão e as tuas companhias
quem você foi e quem voce seria
teu espelho e teu retrato
não são nem mais dignos de estarem no seu quarto
não existe amor e nem respeito no fundo do poço
só auto-piedade e um medo louco
da solidão e do futuro
e por ter ficado em cima do muro
a ela restou cair com a primeira brisa
no fundo do teu poço
que hoje sabe-se que é um esgoto
não há moedas de desejos e nem tesouro...
foi tudo pura perda de tempo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

sombra e luz

era tarde da noite, a música amena emoldurava o momento, ela jogada na cama após uma surra de sentimentos, afetos e desafetos. Ela tinha uma mente brilhante, o que evidenciava ainda mais as sombras na sua pessoa pequena, solo, precoce. A leveza da juventude ia ficando pra trás e ela se via pesada: no mundo ideal uma pluma e uma bigorna atingiriam o solo ao mesmo tempo após a queda livre. o mundo não era ideal. As primeiras rugas apareciam no canto dos lábios, os olhos ficavam cada vez mais fundos, as olheiras mais roxas e as maquiagens já não eram capazes de camuflar sua falta de sono. Esteve observando sua existência do lado de fora do próprio corpo por meses, sem prazer algum de ser e de estar, frigidez emocional e apatia. Ela derramou lágrimas em luto à auto assassínio que cometia diariamente ao sentir o impacto de retornar ao próprio corpo.
O sussurro do homem lhe causava um calafrio estranho, o aroma de café fresco e o cheiro de inverno, seu cachecol cinza chumbo tão pesado quanto a sua sobriedade. Ela assumiu uma dúzia de verdades universais, sabia que não era uma mulher interessante e que também não era uma garota interessante, era bonitinha mas ordinária, leu nos dedos quietos do homem. Ela se calou, ele a desejou com intensidade. Ela não era mais doce nem amável, lembrou um velho amigo. Pela primeira vez alguém a desejou em silêncio, provando que seu rosto era bem mais brilhante que sua mente. Ela caiu em prostração, isso era o sinal dos tempos: o brilho da sua mente estaria se esvaindo para lugar nenhum?
Ela permaneceu deitada na cama com suas melhores roupas, se perguntou o que faria se ele pudesse ver o lado mais escuro dela. Ela sabia que ele viraria as costas e apagaria alguma última vela antes de sair, o que não importava a ela - o escuro sempre foi o lugar dos sentidos...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

dynamite et moi

naquela noite minhas unhas eram cinza chumbo e meus dedos pesavam mais de uma tonelada; um calafrio brincou de hide-n-seek no meu corpo, correndo dos braços para procurar abrigo na nuca, chegando por fim nos meus ouvidos que se levantavam em denúncia. the cold weather makes me sick: lovesick, homesick, buenos-aires-sick. eu já não sei se é o frio ou se o tremor da minha mandíbula tem algum outro significado subliminar. eu já não sei se são os 20 que me consomem ou se eu que consomo os anos, insaciável como sempre - eu trago tudo em mim: o verão, a região dos lagos, os churrascos, as pizzas, os rodízios, as viagens, as estradas, a família, os amigos, os livros, as palavras, o álcool, teu cheiro de cigarro barato, teu cabelo intocável, tua barba recém-nascida, uma vida toda pela frente, os doces, tua mão quentinha, tuas roupas cinzas, teus versos, minhas divagações e devaneios, a amargura do whisky sem gelo, uma prepotencia inerente aos 20 anos de idade, aquela vã, mas necessária.

eu não sou nada além de poesia, embriaguez e amargura - um whisky que ainda tem que curtir muito até poder ser consumido...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

You're awful bright, you're awful smart

I must admit you broke my heart
The awful truth is really sad
I must admit I was awful bad

se mesmo os stones caminharam pelas ruas do amor alagadas, porque eu não as atravessaria também? minha mãe sempre me ensinou a nadar...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

MM

que tuas mãos não se calem jamais:
que haja sempre o bar mais próximo
o amor mais próximo
e a próxima dose nas tuas palavras
que não te falte linhas para percorrer
mas sobretudo
que não me faltem ouvidos
para ouvir teu trem vindo

terça-feira, 8 de junho de 2010

e todo mundo admitia

são 09:13 em brasília, o sol perfura minhas cortinas, teu retrato revira o que os românticos chamam de coração e eu chamo de estômago. Mais um day off, mais um texto pobre, mais uma hora em casa e um anúncio que eu esperei por anos: I'm leaving the city, I'm striking off once again. Hit me.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

confissões matutinas e conversas consigo mesmo

"quando as coisas dão errado eu insisto em fingir que o passado não é real, mas... negar a des-sorriso agora é ignorar as rugas que começam a despontar na minha face: pura hipocrisia. e eu sempre guardei meu dom de mentiras para os outros, não vou provar do meu remédio e do meu veneno."

não-alcoólicos anônimos

as horas passaram calmas, o sono permaneceu. caminhando entre as gôndolas e as araras ela encontrava a paz que nunca tinha perdido: ela nunca tinha é comprado. Ela esperou que a vida se repetisse, que seus versos se repetissem, que seus olhos se repetissem pelo excesso de rotina, sem perceber que a rotina nada mais era que uma longa sequencia de fatos irrepetíveis. colocou em um papelzinho qualquer as obrigações daquela semana, calculou seu tempo de pensar, seu tempo de ser, seu tempo de estar e principalmente de bem estar. só esqueceu de contar as horas pra amar, essas eram longas...

antes de dormir, naquela noite ela separou as velhas fotos - uma desculpa pra revê-las antes de prendê-las a sete chaves no passado. ela fez um sinal da cruz antes de se acomodar no travesseiro, pensando na carta de alforria assinada pelos médicos: um dia de cada vez. sem alcoólico, só com o anônimo.

sábado, 5 de junho de 2010

do amor e do rock n roll

a chuva cai nas ruas do amor
não há mais campos de morangos pra sempre
e ninguém arrisca viver de olhos fechados
o amor é forte, eu ainda sou doce
she loves you - no no no
e eu prefiro ser uma pedra rolando morro abaixo
que ser só uma pedra sem história nenhuma...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Para aquele que não quiser ler

Brasília, 4 de junho de 2010.

Caro leitor,
antes de tudo gostaria de lhe condenar pela prepotência da tua razão que se diz esclarecida, pela tua petulância de desconstruir minhas palavras no intuito de hermeneutizar minha essência: não há nada de ciência em ser humano, só há sentir e sentido não nas linhas ou entrelinhas, mas no que está por trás do papel - diga-se de passagem, eu. A psicologia não é a resposta e nem eu sou a pergunta, percebo que a psicologia é a ferramenta e que a maioria de nós dois não tem nenhum preparo para pegar nessa enxada - e o diploma não faz do engenheiro um bom mestre de obras. Os números vão ilustrar, mas só as palavras vão fazer de tudo isso arte e da ciência, tecnologia. (Insira aqui tua risada ou teu meio sorriso de pseudocientista convencido que um dia o ser do humano será passível do método científico tal qual o universo).
Sem tomar meus remédios tudo me incomoda: o sol que me pinta a cara pela manhã na cama, os gritos de discussão pela madrugada na rua, o frio da rodoviária depois das 10 da noite, o carro amassado no estacionamento e principalmente a face apática dos que se escondem em laboratórios de 8 às 8 e que com certeza condenam os que se escondem em escritórios de 8 às 8 e os que se escondem em ateliers de 8 as 8. Tudo me incomoda e eu já não me envergonho do dom do paladar, quem tem lingua quer sentir o sabor doce, mas inveitavelmente vai sentir o amargo. Não quero viver de língua queimada, não quero perder o sentido do sabor e do saber.
O grande sábio recém-formado em psicologia me recomendou auto-negligência como remédio para o meu sentir imaturo e patológico, eu cuspiria todas as minhas pílulas na sua cara e carimbaria na sua consciência pesada minha carta de despedida e o convite para o meu funeral e de todos aqueles que ele certamente já havia matado silenciosamente em seu passado, sem melhor e nem pior de si, o que lhe restava era a maturidade que ele me vendia como o produto mais requisitado da sociedade pós-moderna. BULLSHIT. Ele cantarolou a minha canção em forma da sua mais sucinta maturidade no alto de seus 25 anos bem vividos. Se eu não havia morrido de inveja, com certeza iria me matar - ou não. Eu percebi que nem meu corpo aguentaria mais um instante de tanta maturidade que com certeza o deixava bem mais perto do apodrecimento do que eu,  verdinha no alto da árvore.
Em um outro canto da cidade o telefone tocou. O telefone dele já não tocava mais, ele não quis sentir nada, só quis pensar. Ela não quis pensar, só pegou as chaves do carro e saiu em direção à outra pra professar a maior das verdades que ninguém nunca quis ouvir: Nadie se curo, sino se puso enfermo /Y es tan frecuente como extraño/ Si no puede hacerte daño, no te ara feliz. Eu agradeço. Não posso negar a fé e nem meu paladar, não posso negar que sou teísta e nem que eu sinto muito, não posso negar nada disso mas não me peça pra arguir com você e lhe dar meia dúzia de argumentos lógicos pra provar tudo isso: viver não é lógico, sentir menos ainda.
Nunca me dediquei aos estudos de gramática, à leitura de clássicos, aos estudos físicos e matemáticos, à geometria ou ao desenho técnico, muito menos à física da música e suas teorias. Nunca me dediquei à filosofia. Ponto. Nunca li uma obra completa de Machado de Assis. Não decorei as letras de Chico Buarque e muito menos Caetano, não elocubrei interpretações para as poesias. Mas escrevi, toquei, desenhei, rabisquei, pintei, cantei e amei tudo que já fiz e toda a imaturidade que ainda sou. Abracei a mulher com quem discuto todos os dias sobre defeitos que provavelmente nunca se moverão enquanto ainda me ressentia pelo dia anterior e lhe disse que a amava. Não esqueci nada, mas perdoei tudo.
Não me negue o direito de perdoar fechando os olhos para a culpa, não me negue o direito de te amar, de te fazer e de te destruir, de te odiar, de te desprezar profundamente, de ter nojo de você e da sua condição imundamente humana, da sua prepotência infantil e dos seus vícios ridículos, da sua maturidade entre aspas da qual eu já experimentei e cuspi de volta no prato - maturidade essa que é entorpecimento puro. Não me negue o direito de amaldiçoar, de te machucar e de partir sua cara em dois. Não me negue o direito de espalhar cartazes pela cidade ridicularizando suas manias, não me negue o direito de me ressentir. Mas principalmente lhe peço que não SE negue o direito de tudo isso: de ser odiado, desprezado e ressentido por todas as coisas que fez. Não se negue a lei da física dividindo na mesa de bar minha vitimização sem sentido e o quanto vocês todos cientistas são maduros. Não me negue o direito de ser humana.
Hoje escrevo de baixo, entre os cobertores da minha cama e uma satisfação imbecil e vã toca minhas maçãs do rosto toda vez que percebo nos reflexos que sou verde, imperfeita, impassível de ciência. Que sou frágil, que a vida é frágil e o amor mais ainda. Que eu posso desmanchar na primeira chuva de verão. Que todos os conceitos que aprendi não me dão o dom da predição e que apesar de toda a certeza que carrego de que eu amo o que sou, não posso garantir a você que podemos baixar a guarda e seguir lado a lado. E tudo isso me satisfaz, o modo como eu não hesitarei em pular dos mais altos dos prédios com a certeza de que não há grades de proteção lá embaixo só pela liberdade da queda, sem negar os urros de agonia quando o fim chegar. E eu quero que você ouça cada um deles.
Ele me disse que eu sabia como você era e que eu não podia sentir muito por isso. Agora eu digo que todos vocês sabiam como eu era e que eu decreto aberta a temporada de ser humano: salve-se quem puder, não haverá ciência ou método científico capaz de predizer meus comportamentos. E eu, meu bem, meu amor, meu cretino, sinto muito: só posso viver o futuro se eu viver o presente.

Sem mais ou com ainda uma eternidade por vir,
F.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

cenas

(a cena se passa em um dos espaços verdes da universidade entre o instituto de artes e a galeria piloto, às raízes de uma grande árvore, a mulher senta-se em uma das raízer maiores, coloca a bolsa cuidadosamente em outra raiz e tira os sapatos, posicionando-se de forma a esconder o rosto com um livro fechado entre seus braços. O jovem se aproxima da moça, pulando de raiz em raiz, sorrateiramente até ser percebido pela jovem que, ao levantar o rosto, enxuga lágrimas de maneira desajeitada)

rapaz: oi, eu tava passando por aqui e vi que você tava com uma cara um pouco...
moça: inchada?

(ela seca mais os olhos e dá uma profunda fungada. o rapaz sorri, de pé, olhando para ela)

rapaz: não, hesitante.
moça: é, um pouco disso também.

(a moça sorri com os lábios, os olhos permanecem molhados. o rapaz faz menção de se aproximar)

rapaz: posso?

(fala enquanto se aproxima indicando que vai sentar)

moça: à vontade, eu gosto muito desse lugar, sabe?
rapaz: eu também, sempre passo por aqui.

(silêncio)

rapaz: e então? você quer falar alguma coisa? se não quiser também não tem problema... eu posso só ficar aqui, do seu lado.
moça: obrigada.
rapaz: quando eu fico assim, sabe o que eu faço?
moça: hã?
rapaz: eu tenho uma overdose de arte, eu leio um livro enquanto ouço musica e assisto televisão. se eu pudesse, tomava banho também, tudo ao mesmo tempo. é assim que eu amo, é assim que eu odeio: eu faço do meu sentir, arte. você não precisa temer o leão, raposinha.

(a moça sorri, o rapaz permanece atento, olhando para o outro lado do cenário)

rapaz: minha professora chegou, eu preciso ir. mas você vai ficar bem, não vai?
moça: sim, pode ir tranquilo. obrigada!

(o rapaz levanta e ajuda a moça a levantar)

rapaz: me dá um beijo?

(a moça o abraça forte e lhe beija a bochecha)

moça: boa aula!
rapaz: segue teu caminho, só não fica fria, raposinha. deixa queimar.

(o rapaz sorri enquanto a moça saltita pelas raízes buscando a calçada, descalça, segurando os sapatos nas mãos)

terça-feira, 1 de junho de 2010

14 horas

e 4 dias. duas certezas, o frio invadiu a cidade, a ilusão se perdeu na neblina do lago. O ônibus atravessa oceanos em questão de minutos, todos os caminhos mapeados e os mapas não são legíveis depois das 10 da noite. e já são 11. os motoristas e os cobradores, os passageiros e os permanentes, as prostitutas e os necessitados. é tudo noite, eu não sou e nem a meia dúzia que se esconde por trás do volante financiado em 5 anos e da liberdade de pensamento. É triste ver que os monstros na cabeça não são páreo pra você mesma, sua pior inimiga; triste mesmo é ver tu definhando. O inverno traz a chuva seca, a estiagem que consome até a lembrança, não se derramou mais uma lágrima sequer desde o outono: vai e vem, é tudo em vão, é tudo vão, VÃO. VÁ. as luvas saem das gavetas e as meias também, só tem gente que não sai do armário...

Ah o inverno. O inverno pede cinza por excelência: e eu por prazer, queimo.

16 horas. 4 dias. nada apaga o inverno dos nossos rostos cansados. e a gente queima, queima, queima....

cartas na árvore

por entre as árvores, encontrei palavras impressas e deixadas ao vento. Alguém diria que foi o maior ato de covardia, eu diria que foi a legítima coragem de se abandonar a qualquer mão amiga. A carta destinada a ninguém e a todo o mundo pintava o presente em tons de cinza, no lado em branco de uma folha já usada:

não evitarei que meu pescoço se vire procurando o passado, e nem negarei a nostalgia ao meu peito brilhante, recheado de pó de estrelas e coração. Não negarei aos meus pulsos os rabiscos que desenham seu rosto miserável, o amor, teus beijos: um brinde à distância. Não negarei a tristeza e nem as estradas, nem as forças e nem as risadas. Não negarei teu convite sem braços abertos para um abraço apertado, não negarei a oportunidade de me perder outra vez, não nego a oportunidade de perder outra vez. Mas eu gostaria que apesar de tudo você ficasse: quero que você seja minha recompensa. 

era o início de mais uma tarde maçante com gente chata na universidade: algum coração - ou pelo menos o que restou dele - ainda batia em algum canto daqueles concretos que queriam ser arte.  sorri feito boba, sorri como se eu fosse eu outra vez...

domingo, 30 de maio de 2010

runaways? yeah yeah yeahs

"run run run away
 lost lost lost my mind"

Ele a viu pela janela em preto e branco, quase apagada. Se perguntou aonde haveria ido o sorriso tímido dela, as cores vibrantes, as palavras em uma escrita descontraída. Agora ela não era positivamente estonteante, mas ainda era morbidamente linda, escondida entre os jogos de sombra e luzes, o cabelo caindo em plena face, a boca semi aberta como se ela nunca pudesse ter dito suas palavras finais. Era meia-noite quando ele decidiu segui-la, ela só o percebeu pela manhã, quando o silêncio cresceu absoluto, sem passos como fundo musical. Antes que se voltasse à rotina, ela deixou-lhe uma nota de rodapé:

'i was feeling sad
cant help looking back
highways flew by
run run run away
no sense of time
i would like you to stay'

Ele leu o recado com um meio sorriso no rosto: all along, not so strong. yeah yeah yeahs? Ela sorriu com a resposta em forma de pergunta, ele sabia que por trás de todas as cores do arco-íris dela não haveria pote de ouro algum - e mesmo assim ele manteve os olhos abertos enquanto deitava na cama e contemplava o céu que os separava e os unia, imaginando as quedas e toda a natureza, a ilusão de ótica que era o arco íris: intocável, irretocável. A voz no beliche de cima perguntou qual era o seu problema, ele cantarolou quase num sussurro:

"lost lost lost my mind..."

a voz do beliche de cima rompeu mais uma vez o silêncio: 'yeah yeah yeahs?'. o silêncio cresceu significando o sim, a voz sabia que os ouvidos na cama de baixo esperavam uma resposta. 'run run run away'.

terça-feira, 25 de maio de 2010

te vejo do outro lado.

Não perguntou seu nome ou sua idade, perguntou como estava - não que a resposta fizesse diferença. Ela ensaiou seu melhor sorriso enquanto pensava que não tinha nada a perder, com os olhos grandes e contornados com maquiagem borrada. Ela disse que amar era como escrever a lápis, ele disse que era como escrever a caneta: pra solucionar as rasuras imperdoáveis, ela recorria à borracha; ele, virava a página ou escrevia por cima.
Ela soube que nas binomiais, só cabia um lado da moeda - questão de sorte, ela diria; questão de estatística, ele diria. Ele arrancou as roupas dela sabendo da vulnerabilidade juvenil em que ela se encontrava, ela se deixou despir sabendo da própria vulnerabilidade. Sartre sorriu no túmulo. Ela embarcou no último avião depois de fazer as malas que deixaria pra trás, ele ficou. Ela lavou sua alma com álcool do outro lado da fronteira, ele fez não-se-sabe-o-quê do lado de cá. Eles retornaram ao erro já conhecido: ele perguntou, ela falou das letras minúsculas no seu contrato. Ele disse sim, ela também.
Eles viraram nós, ela quis ficar. Ele embarcou no primeiro avião, ela permaneceu aonde sempre permaneceu. Ele voltou, ela disse que o amava enquanto chorava, ele a beijou, ela o despiu sabendo da própria vulnerabilidade. As tardes multiplicadas por cinco agora eram divididas por 10. Ela tomou fôlego antes de mais um mergulho, ele não tomou nada. Ela pensou em algum recomeço, ele pegou um ônibus qualquer. Ela levou boas vindas de volta a ele, ele levou um ponto final. Ela pediu uma razão, ele deu uma mentira. Ela perguntou do amor, ele se contradisse. Ele disse que algumas verdades machucavam, ela disse que algumas mentiras eram crueldade. Ele disse pra ela ficar bem, ela sabia que ele não dava a mínima. Ele falou que ela tinha uma grande imaginação, ela soube que era verdade: ela criou um nós onde só existiu ele. Ele virou a página. Ela comprou um caderno novo. Ele disse até logo. Ela disse "te vejo na outra vida", sabendo que ele não acreditava em nada disso.

E então ela decidiu morrer como se nunca tivesse vivido. E não era mais uma de suas falácias: as noites doloridas de fevereiro eram as únicas que lhe haviam dito a verdade.

domingo, 23 de maio de 2010

limites

brasília, 19:51:
meus pensamentos cristalizaram e entupiram as veias do meu coração, eu acho. passei as últimas 4 horas sentada na cama, contando os bichos de pelúcia, contando quantos dias me restam, contando os cabelos que a ansiedade me arrancou e os prazeres que o prozac me roubou. Apesar de ter perdido tantos quilos, todo o resto de mim ainda pesa uma tonelada e a gravidade me mantém colada nos lençóis da minha cama por horas a fio. eu acho que meus pensamentos mais densos, aqueles que gostam de correr pelo corpo inteiro como calafrios, entupiram as veias do meu coração.

depois de café, chocolate e prozac fica difícil acreditar que a felicidade não é nada além de um efeito colateral de alguma droga que provavelmente vai te arrastar a todos os seus limites e principalmente ao limite dos outros - aquele limite desenhado por alguém delimitando quem você devia ser. eu já não bato mais.

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pensei que eu fosse um caso perdido: que nada, só esqueci de tomar o prozac hoje.
eu quis te contar da minha descoberta, daquilo que você já tinha me dito e daquilo que eu já sabia. eu quis te contar porque eu tinha tanto medo das minhas palavras e dos meus desenhos, dos meus sonos e sonhos, eu quis dizer porque eu corri tanto em círculos. eu quis dizer de toda a miséria que era a felicidade, a segurança e o romance romântico, eu quis te dizer porque goethe já era, porque as mesas de café estavam decadentes e os intelectuais eram tão last week, eu quis te contar da minha epifania sobre o regime de 64, a ditadura, a censura e todas as vezes que os intelectualóides clamaram pelo nome da democracia. eu quis te contar do progresso e do futuro, eu quis te contar tudo. mas eu encontrei tudo isso no seu olhar perdido entre o mundo inteiro e o resto dele. você sorriu na mais pura simpatia, mudando de assunto, mas nunca deixando de dizer alguma verdade...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

ignorando as grades de proteção (cont.)

(...) hoje já não penso em todo o tempo que perdi, só creio que não há desperdício em questão de juventude. ela citou chico buarque, eu citei ferris bueller: "a vida passa muito rápido e se você não parar pra dar uma olhada de vem em quando, você pode desperdiçar ela". As mães sorriam para ela, as mães condenavam minha infâmia e vulgaridade, minha vaidade. Eles perdiam madrugadas inteiras pensando nela, eu era tão entediante que os fazia dormir. Ela bebia socialmente e só falava de social, eu fazia jus aos tempos de marinheiro do meu pai e contava piadas sujas. apesar de tudo o rio de janeiro e a baixada fluminense ainda corriam em meu sangue, cada curva do meu corpo dizia samba, caipirinha e churrasco. As mães não gostavam de mim, mas eu não ia diminuir o volume dos meus versos e das minhas canções para não me sentir mais deslocada: adicionei em post scriptum um foda-se em letras garrafais, como sempre transgredindo as normas da ABNT. Eu não ia permitir que a mediocridade me diagramasse em letras de notas de rodapé, eu não venderia meu ouro por preço de pirita.

ignorando as grades de proteção


pensei que não queria mais escrever, mas percebi que isso era essencialmente uma parte de mim. meu coração apertou no meio da noite, as sirenes soavam não tao longe quanto eu desejaria, os policiais iam rondando e as prostitutas rodando a bolsa na ponta do dedo, no ponto de ônibus. O ponto de conversão, o ponto de partida e tantos outros pontos que só me inspiravam o desejo de ser reta e percorrer a menor distância entre dois deles. meu pensar me levava de volta no tempo em que eu tinha oito anos e minha mãe dizia que eu poderia ser tudo o que eu quisesse. eu quis ser tudo, ela disse que eu já era. aos 20 anos eu não conseguia viver sem deixar rastros e traços, eu me imprimia em todo lugar com minha infâmia: não vi bauhaus, não li nenhuma obra completa de machado de assis e nunca tomei aulas de história da arte. ah, e ainda questionei o maniqueísmo hipócrita dos revolucionários em toda parte: hitler e todos os outros tiranos começaram assim, sendo a reta entre esses dois pontos tão próximos.

rabisquei outro desenho no caderno que pedi a meu pai fazia tempos. Os lápis foram encontrados na rua enquanto minha mãe caminhava. A hora passou rápido enquanto eu corria pelos riscos, a casa em constante movimento parou pra assistir minha arte final aquela noite, já fazia quase um ano desde meu último rascunho e ao fim da linha me aplaudiram. pensei que não queria mais desenhar, ouvi dezenas de vozes condenando minha ignorância e vulgaridade, meu vocabulário baixo, minha maquiagem pesada e meu gosto excêntrico. me escondi atrás de um livro qualquer e de tudo que eu já fui: uma pessoa ruim. as mães sorriam amarelo pra mim, as crianças queriam ser eu. mais um de meus cachos escapavam do coque e eu mordia mais uma caneta com as pernas cruzadas elegantemente, sempre me contradizendo - o que eu fazia de melhor... ou não?

tive vontade de ir até a sinuca no subsolo da oficina da outra quadra e pedir uma dose de whisky sem gelo e um marlboro. tive vontade de me embriagar com a fumaça dos cigarros, com o aroma do ácool destilado. tive vontade de não deixar minha cama outra vez. (...)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

repetição

antes eu escolheria calar, hoje eu escolhi não dizer nada. e de todas as palavras que disse, as únicas que ele quis ouvir foram as amenas. eu disse pra ele que eu sentia muito, ele me disse que era melhor que não sentir nada. contei do meu medo e contei as feridas no meu corpo, ele disse que logo tudo faria sentido. contei do meu receio de adormecer, ele disse que logo tudo seria sentido. eu pedi um abraço, ele negou veemente: segue em frente com as tuas mãos que elas são mágicas. ensaiei um sorriso: faz sentido...

terça-feira, 18 de maio de 2010


abre a janela, meu bem, deixa a luz entrar. agora abre os braços e deixa todo o resto sair...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

diálogos de um só

antes de tudo eu te conto do medo da solidão, dos calafrios e das justificativas, das lágrimas secas, do exaurimento emocional em que me encontro. não é questão de coração mas sim de sensatez, não é questão de amor, é questão do que eu nem sei nomear. nas pontas dos meus dedos as soluções emergenciais: os comprimidos, as palavras e os números de telefone. antes de tudo te conto que eu não aprendi a ficar sozinha, que quando eu sou peça única eu me sinto mais deslocada que fantasia de carnaval em guarda-roupa de executivo. antes de tudo te conto não do medo do futuro, mas do medo do agora e da sozinhice de ser eu, de escrever no vácuo do meu lar na certeza de que você aí, você mesmo que eu talvez nem conheça, me acompanha em cada tip tip tip do teclado. você me chamaria de hipócrita, não é verdade? que eu que cantei a melancolia e pintei a solidão de tomar uma dose rápida no balcão do bar, eu que estampei o soar curioso do violão pela noite mais silenciosa do alto da minha sacada na verdade não passo de poesia parnasiana sobre a arte da solidão só pra entreter você, que creio eu, no alto não só de minha sacada mas também no de minha sabedoria, ficará lisonjeado de saber que alguém no mundo se importa com teu tédio e permanecerá aqui, acompanhando meus tips e tacs e me poupando da verdade da sozinhice, aplaudindo minhas hipocrisias de aclamar a solidão da qual eu sempre me esquivei, me escondendo no fundo dos copos, dos corpos e onde mais eu coubesse na hora do aperto.

antes, deixa eu te contar das minhas esquivas: qualquer mentira é segurança precária, já diria Marcelo Tavares. E eu tenho sido uma péssima guarda-costas pra mim mesma.

domingo, 16 de maio de 2010

letra de samba


eu já não tenho mais peito pra tanto batuque
pra tanto ziriguindum
e muito menos quadril ou jogo de cintura
pra tanta amargura
até o amargo de cerveja não me desce mais
o gosto de whisky já não satisfaz
e no final
o gelo ficou

onde tinha que ficar
no fundo do copo e do coração
na menor escala dessa canção
na aspirina e na inspiração
na risada que eu sorri
no edredon já não fico mais
a maquiagem fica pra trás
não me fale de amor no Rio
nem de carnaval
nem de carnaval

caipirinha com limão e sal

sábado, 15 de maio de 2010

Melancolicos Anonimos

shhhhhhhhhhhhhhhhh... toc toc toc rrrrrrrrrrrrrsh

"Antes a vida era na rua, as madrugadas eram a melodia que me colocavam pra dançar, o zunido dos carros na avenida eram minha canção de ninar e o edredon me encobria nos dias de verão. os sabores explodiam no céu da boca, os olhos se enchiam de cores e o coração apertava - me dá mais um? Eu viveria de doce em doce, de mesa em mesa, de banho em banho mas nunca de cama. E então veio ele, inédito e preciso nos últimos dias que precediam o verão; o milagre prometido na terra do tédio, o achados e perdidos da perda de temperamento e de controle. Veio ele, barato e insensível ao fim da tarde, a boca seca, a promessa de dias melhores e mudanças de que eu necessitava para sobreviver mais um tempo, veio pedindo exclusividade, dedicação. eu entorpeci. Veio então o recesso e a recessão, e mais uma dose agora pela manhã. 5 meses passaram, eu já não podia escrever ou dormir. Desenhar era tarefa impossível, a coordenação falhava e a memória se escondia ao chamar o próximo acorde no violão: tanto fá... ele já tinha me colocado no lugar que me prometera em sua bula, eu já pesava 15 kg a menos e já não contrabandeava brigas e discussões nas esquinas que eram só minhas. eu já tinha escolhido não falar, nao dizer, nao tocar, nao sentir. Ele me deu o que eu sempre quis e que agora eu sei que nunca precisei. Meu nome é Fernanda, tenho 20 anos, alguns talentos e muita sensibilidade e não sei o que vou fazer quando o médico cortar meu cloridrato de fluoxetina, minha cura e minha doença."

sexta-feira, 14 de maio de 2010

convite

sem choro nem vela
sem fita amarela e nome dela
celebra o dia e a noite
o inverno e o outono
as flores de maio
antes que o sol se ponha

sem 20 nem anos
sem conhecidos nem estranhos
celebra a morte e a incerteza
o errado e o primeiro
o certo e o derradeiro
que são as únicas certezas da vida

celebra então qualquer motivo
celebra o crime e o castigo
os pés pela cabeça
o spare time e antes que esqueça
acorde e adormeça.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

rascunhos


Ele apareceu, como era de costume, no meio de uma aula. Ela sorri ternamente ao ver seu rosto juvenil de 18 anos com os traços de uma vida inteira que fora dura com ele, ele nunca reclamou nada, e ela tinha a mesma idade e tão poucas convicções. As conversas eram triviais, o tempo estava acabando, os caminhos se fechavam, as estradas se abriam, o abraço se apertou.


"eu não sei o que fazer com meu trabalho, com minhas escolhas, com meus estudos, com minha família, com meus amigos.", ela disse em um ar cômico para que rir de si mesmo fosse mais fácil. Não era.


"você é uma pessoa brilhante, nao desperdice isso." ele respondeu.


No fundo ela sabia que excesso de receio era medo justificado, medo de não ser tudo o que poderia ser porque ela teve preguiça, ou só se achou boa demais para ser boa. Ele a abraçou com toda a certeza e razão que lhe eram possíveis, querendo compartilhar nas partes de seus corpos que se conectavam tudo o que ele sabia que poderia ser, todo seu dom de vidência.


"você é brilhante como uma vela queimando. Mas você ficou dentro de uma redoma, eu não sei em que ponto ou como isso aconteceu, mas você criou um limite invisível que não deixa ninguém se aproximar demais e no entanto permite que assistam na primeira fila você se apagando lentamente, sufocando seu próprio brilho. Você tem que quebrar a redoma de vidro antes que o oxigênio acabe. Você pode queimar um mundo inteiro de oxigênio.' ele completou ainda no abraço.


Ele não percebeu que enquanto isso se desenhava uma lagrima no olho dela. Ela tinha medo da água e do vento, das tardes e das noites, de tentar e de conseguir. Ela já não percorria os bares e as quase madrugadas, os risos torpes, as cordas desafinadas e bambas - tudo em nome do equilíbrio, a maior contradição e desnecessidade quando se decide sentar e esperar que a vida passe. Ela perdeu um jeito de rir que tinha, um descompromisso no olhar. Ela deixou pra trás o que era de melhor em si pra ser mais leve caminhar, a quilômetros de qualquer vida. Ele só a conhecia há dois meses e sabia que ela estava leve demais para se manter no chão.


'Queima o mundo que é só assim que ele vai brilhar pra todos os outros que não tem chama alguma.' ele disse enquanto se despedia.


Ela voltou a aula, da qual nao restou nenhum ensinamento a nao ser as palavras dele. Ela sabia que o tempo tropeçava quando ele corria, que os desastres eram questão de tempo e disposição, ela desejou deixar a cidade já que não podia deixar a vida.



(...)


No dia seguinte a caminho da universidade anunciou que desejava queimar seu dinheiro em uma viagem qualquer, em uma mentira a mais. Seu pai foi condescendente com o que, ele pensou consigo, sem jamais admitir a filha, ser provavelmente um dos últimos desejos dela ou uma das últimas coisas a se tentar. E mesmo o tempo contou a seu favor, ela ensaiava os erros com graça e leveza antes de sair de casa para que cada dia fosse mais fácil não olhar pra trás, fosse por medo ou por vergonha.


Fazer as malas era fácil, não pensar mais ainda. O futuro era agora pra todos aqueles que conheciam um atalho para o fim das contas - o pensamento lhe causou um calafrio que a fez sorrir amargamente. Ela abafava sua imaginação porque suas palavras eram afiadas demais e sua solitude, ciumenta. O tempo corria e já não tropeçava mais, o tempo aprendera a se equilibrar. Ela contou os comprimidos, contou as histórias que escrevera e os motivos que já havia inventado. Ela sorriu amargamente, ele mostrou a ela todas as possibilidades de sair da redoma, gentilmente. Ela hesitava por medo do frio, das tempestades e principalmente, pelo medo de ser humana. Antes de inventar uma desculpa a mais, antes de prometer deixar as letras, antes de qualquer invenção, ela soube que não podia voltar atrás: não havia mais passados ou presentes, era tudo falta, era difícil estar consigo por horas seguidas de distrações.


(...)


O tempo corria. Ela já tinha 20 anos. E era uma questão de tempo, de corridas, de condicionamento não tropeçar. Ou tropeçar e não cair. Ou cair e se levantar, sem perder o fôlego. Porque ela se poupava tanto se ela já não acreditava no futuro? Viver com medo não é viver, ele disse. Eu fiz besteiras e você não faz sentido, as pessoas acreditam em você como clientes que provam amostras grátis e te levam pras suas vidas, você acha certo não tentar porque você sabe que voce seria brilhante? Ou voce tem certeza que é uma farsa e por isso não quer tentar? Eu sobretudo acredito no que não vejo, e voce?


(...)


seu amor às palavras não a sustentava mas as palavras que ela cultivara a amavam profundamente, antes que elas caminhassem em ressentimento, deitaram-se ao seu redor e ficaram por mais uma noite e um sempre. Todas elas sabiam que estavam condenadas umas às outras por toda uma vida que já era grande.


'E será muito mais', ela disse retomando a caneta e o lápis, de quem jamais se separaria outra vez pela certeza de que um rascunho sempre poderia ser melhorado.