quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

you got me

se antes eu contava tempo em números, agora conto em histórias. sem números, por extenso e sem abreviações. (...) a [minha] vida é frágil, líquida, escapando entre os dedos antes mesmo que eu pudesse me convencer de que ela poderia um dia estar em minhas mãos. evapora ou vira história. e entre um meio sorriso e outro, dessas coisas da minha cretinice intelectual, eu te disse a única sinceridade de mim, com palavras que roubei:

"nada difere o presente das memórias, apenas se diferenciam depois quando se conhece as cicatrizes". e hoje eu sei que tu é memória. ouch.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

imóveis em brasília

tudo chove no espaço e no tempo de um verão todo
pra afogar minhas nostalgias bobas de quem mal tem 20 anos

andarilha das entrequadras
habitante das entrelinhas
do concreto que não me deixa escoar
e fazer a terra fértil
fazer as plantas saírem do papel
e virarem alicerce e estrutura
metal e concreto, tijolos, objetos

futuro do pretérito
nostalgia que vem em blocos
navegantes das calçadas
a gente quer sair do papel, virar trânsito
onde nenhuma reta vira esquina
onde mulheres viram meninas

e eu ainda quero a contradição
dos espaços abertos que não deixam fluir
de ganhar passagem ao estender a mão
ganhar de inverno a maior estiagem
e passar o maior frio no verão
a gente vai ficando cinza, branco e amarelo
fazendo figuração na obra do arquiteto

é que a gente é assim aqui em brasília:
quando seca, vira pó
e quando chove, inunda
ou enche a cara
nos bares sem esquina nenhuma
imóveis, mas sempre de passagem
rodeados de lago, nada mais do que margem

carioca em brasília é assim
procura cantos em todas as bocas
na falta de encontrar esquinas
sem laje nem cobertura
e sem encontrar lapa nem redentor
uma melancolia dos diabos me bate
toda vez que meu coração apanha e vai a nocaute

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

botânica

seca por fora e inundando por dentro
no maior egoísmo de toda a água que sou
é que comigo-ninguém-pode:
eu tenho o coração cerrado

sei que me fiz cactus por ocasião
na terra árida dos amores-perfeitos que nunca colhi
na maior secura onde tudo o que se planta dá
deixo que me (re)colham pra eu pensar que amadureci

se eu te deixo plantado é que tu floresce
muito mais rápido que erva daninha
o que a gente planta embaixo dos lençóis
só se cresce se regar com lágrimas, suor e saliva.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

reforma ortográfica

adjetivos iguais
substantivos próprios
e seus
pronomes de posse
voz ativa
sujeito e objetos
desejo gramaticais
e líricos
oníricos
separando tudo
em
si -
la -
bas
indicativos
gerúndios acabados
bilinguismo amoroso
sem considerar coesão
ou coerência
fuga ao tema
futuro do presente
subjuntivo
me faz 3ª pessoa do plural
que eu te dou um vocativo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

45 do segundo tempo

e em breve serão apenas fotografias que tirei nas viagens que nunca fiz
vocabulário e gramática dos nossos casos marginais escritos nas entrelinhas
sem separar em sílabas

declarações em voz ativa de toda a sordidez lírica que sempre procurei
serão só lembranças das noites vividas seis horas no passado e pra ti
eu deixo a culpa da qual nunca me perdoei

as cartas que você colocou embaixo da minha manga, no meu decote
provas do crime e evidências que em breve serão só memórias
de um amor que sempre dura 14 dias

sábado, 3 de dezembro de 2011

ligação

é que eu ando meio desligada
contando as páginas que ainda não escrevi
e sonhando sem ter dormido sono algum
não leve a mal - só me leva

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

tudo acontece agora, entre os beijos que não te dei e o arrependimento que não veio, entre a meia-noite e as três da manhã. come mi manchi, caro sconosciuto! vou misturando as línguas, enlaces de salivas, beijos de real. intangível. ceci n'est pas un bisou, c'est le désir, impacable. e eu ainda tenho tanto o que aprender e desprender, mas agora o futuro não me parece mais abreviação, o futuro não me é mais numérico, agora o futuro é extenso. e eu sou feita e vou me fazendo dos passos que dei, mesmo os em falso, e da melancolia de se ter 18 anos... and singin' the blues. as horas são pequenas e a vida tão grande. e eu tremo, sabendo que o futuro que mais esperei é agora. e que eu estou há milhas de distância de quem um dia já fui. mas sem nunca esquecer de onde eu vim.