domingo, 19 de novembro de 2017

te vejo por aí

eu não pensei em nada enquanto minha cabeça estava no ombro dele. eu olhava as ruas da cidade ficando pra trás às 4 da manhã e o lembrete dele pra vista da ponte foi um ato muito gentil. ele não sabia que eu era uma amante de pontes, uma entusiasta de ligações estruturadas mas nada rígidas entre pedaços de terra antes inimaginavelmente ligados. eu lembro da ponte sobre o estreito da Dinamarca ligando Malmo a Copenhagen, eu lembro do trem da SJ, da minha satisfação solitária de atravessar mais uma fronteira antes de embarcar em algumas horas pra Londres. mas ele chama o motorista de motorista, eu retorno pra ponte de Williamsburg, e me dou conta que as palavras não importam, as ligações silenciosas e invisíveis são como as pontes que atravessam rios e mares. eu não entendo aonde elas se apoiam mas elas se sustentam lá no alto suportando tráfico intenso de uma lado pro outro. eu não entendo, mas acho as pontes criações humanas lindas e significativas. e então eu apreciei nossa conexão construída em algumas horas apressadas que eu não sei pra onde foram, ele é meu camarada, meu irmão, um ser humano como eu - e eu tenho medo.

as escadas ainda me assustam mas eu subi me apoiando nas paredes, encarando a altura que crescia ao meu lado. eu encarei o que me intimidava encobrindo meu terror como fiz minha vida toda. eu saio do meu corpo e lembro daquele dia em que fui naquele balanço giratório nos jardins do Tivoli, em Copenhagen, a uns 80 metros do chão girando e vendo a cidade, eu não suporto encarar meu medo e fecho os olhos enquanto espero descer, aterrorizada demais pra expressar meu medo, mas dentro de mim me engano que encarei a tarefa de superar meus medos, jogando eles de novo para baixo de algum tapete dentro de mim. eu retorno ao presente, o momento dura pra sempre, e eu estou de novo flertando com algo perigoso que vai vir à tona a qualquer momento, como um vulcão submarino que entra em erupção. o desejo e o medo me coabitam, e meu desejo é tão intenso, mas o medo vence e finge dar passagem pro que eu quero. mas como no balanço do Tivoli eu vou girar e girar e voltar ao mesmo ponto sem ter visto nada, nem mesmo meus medos, porque fiz tudo de olhos fechados.

é noite, eu sei, mas eu me sentia à vontade navegando pelo escuro, nas sombras, com os fantasmas dos livros que ficam nas paredes. eu e meus medos ignorados navegamos pelo escuro em quase-silêncio. depois de anos insônes eu sabia que a manhã sempre chegava. e quando ela veio, a luz dourada e as sombras roxas e lilazes das silhuetas da cidade pela janela me paralisaram. devia ser 6 da manhã. por alguns segundos fiquei sem me mover ali, esperando as cores mudarem, mas quando você está imerso no movimento, na mudança, você muda junto e então o novo e o velho não se separam. penso isso agora, mas na hora as cores me invadiram desmontando todos os meus pensamentos e repetições. eu era parte daquilo tudo, do mundo? eu era. um sentimento de pertencimento me inundou junto com as cores e as sombras coloridas. a noite e o dia, quando você está imerso no movimento, não se separam.

cada degrau era uma dúvida, uma questão, uma crítica nova: ah cara que que você tá fazendo a três metros de altura do chão nessa cama sem proteção com um pulso cheio de parafusos? o silêncio era minha resposta. a negação, a idealização de tudo. desde que ele estourou minha bolha de proteção às 4 da manhã em um banco do smalls tudo que eu tinha pra ver era eu mesma e minhas negações me empurrando pra confirmar meus medos e justificar minhas fugas. minhas fugas de mim mesma e dos outros me levaram a 28 países, eu, a autora de um crime sem vítimas e sem culpados, era uma fugitiva procurando a mim mesma e me escondendo em todas as esquinas. eu carregava cicatrizes e cicatrizes das minhas fugas, e eu me exibia com meus disfarces, a expressão do meu desejo de reconhecimento e do meu terror de esquecimento. eu habito o hiato entre o passado e o presente, o trauma, e por isso as pontes me fascinavam: elas eram os pontos de transição necessários onde todos passam mas ninguém habita. mas eu era habitante das pontes.

eu amava estar em nyc, em uma cidade de 8 milhões de pessoas eu sempre me sentia mais sozinha que em qualquer outro lugar do mundo. sempre isolada como uma ilha embora eu estivesse na cidade das pontes e dos túneis. talvez eu precisasse construir minhas pontes ou descobrir meus tuneis que me levariam ao resto do mundo. mas a realidade, quase sempre dura demais pra minha alma delicada, naquele momento era só a luz quase dourada da manhã no Brooklyn no rosto dele como uma cerimônia solene. ele era um anjo de ressaca na luz da manhã flutuando pelas ruas ao meu lado até a estação de trem mais próxima. meu próximo vôo de fuga não me importava naquela hora, só a luz me importava, só o tormento agridoce do rosto dele - e eu não queria macular a realidade com meus devaneios. eu queria guardar aquela imagem pra sempre, eu suspiro, ah, enquanto ele dissipou minha contemplação com uma despedida casual - 'te vejo por aí' - que me fez sorrir do quão cotidianas são as despedidas embora a conexão não fosse nada casual.

como toda fugitiva eu não olho pra trás fisicamente, mas aquela imagem me faz voltar pra porta da estação outra e outra vez, seu rosto permaneceu flutuando na minha memória. o rosto dele no sol matutino de outono aquecia meu coração como aquela pintura de Veneza do William Turner que fica na entrada de trás da Tate Britain em Londres - só que o rosto dele era mais bonito e mais etéreo que a pintura do Turner. eu que só acreditava na permanência das pinturas a óleo na luz após a sombra vivi um profundo maravilhamento diante das aquarelas de Turner. pra pintar aquarelas, eu aprendi, você tem que entender que tudo é luz, o vazio é luz. o rosto dele fica na minha mente ensolarada com a melancolia do outono e a promessa de todos os fins de que o recomeço sempre vem, uma marca, outra cicatriz, me lembrando que nem todas as marcas da vida que não planejamos são de acidentes e momentos tristes. atravessei a ponte de volta pra ilha, crendo iniciar outra fuga quando na verdade eu só estava retomando uma empreitada de meio mundo, crendo me esconder dos outros eu só estava fugindo de mim mesma. minha busca obsessiva por independência tinha se tornado só mais uma forma de dependência de tudo aquilo que eu queria me libertar.

enquanto eu fugia, ignorando as pontes, tomando vôos e pulando de continente em continente com a mesma familiaridade de quem não tem nada pra deixar pra trás, eu sempre desejava "te ver por aí".

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

a cura

pra onde vão os erros que não aceitamos? eu me perguntei enquanto caminhava sob uma quase chuva pensando no terceiro guarda-chuva esquecido no mês. eu vivia o pesadelo epistemológico de quem ou não tem memória ou se recusa a aceitar que errou: e assim eu vivia me repetindo, frustrada com minhas decepções de roteiros semelhantes, sempre excitada com as alegrias repetidas, acusando as pessoas de mesmice quando na verdade era só eu me repetindo. de uns tempos pra cá, em resignação relutante, eu comecei a repetir uma nova frase que embora repetida soava pelo menos mais sincera. "não é você, sou eu". e assim eu continuava carregando meu passado igual uma mala sem alças por aí, sempre me sentindo exausta. shhhhhhhhhh e ele ia se arrastando ao meu lado, atrás de mim. exausta emocionalmente desde 2008. os erros - a forma como batizei minhas perdas - que não aceitamos voltam pra nos assombrar em forma de repetição, a bênção e a maldição da condição humana criativa demais pra fazer infinitas variações de um mesmo tema.

*

luciano me perguntou o que diferia, afinal, a cura da depressão da cura de uma fratura. a diferença, eu expliquei, é que a fratura é de frente pra trás, e a depressão é de trás pra frente. é uma questão de temporalidade, eu insisti. a inversão do tempo do trauma. o osso primeiro quebra, e você sente o desconforto, e você busca o diagnóstico, a intervenção e recebe um prognóstico. reconstruído, as cicatrizes são a marca do fim daquela cura. a depressão, ao contrário, começa com uma certeza prognóstica de que com uma cicatriz tudo acabou, a intervenção te traz um diagnóstico que se revela um pouco todos os dias, você busca desesperadamente o ponto de quebra, você simplesmente não tem um raio-x pra sua alma, pras suas ideias, pras suas fantasias. você nem sabe o que perdeu. depois descobre que perdeu o desejo, e essa é uma perda horrível mas também muito reconfortante. a cura é encontrar a fratura e saber que talvez tudo dentro de si já tenha colado daquele jeito mesmo e que pra tentar outro reposicionamento, só quebrando de novo.

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eu era sempre igual, me repetindo em variações de um mesmo tema, buscando novas soluções pra velhos problemas insolúveis. e como diz o ditado, e as depressões curadas, o que não tem remédio remediado está. antes eu pensava a cura como esterilização de mim mesma. mas agora a cura, pra mim, era aquilo: o que não tem remédio está remediado. como no dia que o luciano me fez pensar em um queijo mineiro, um queijo curado, pra me falar do que era a cura. a cura é a maturação, é fazer aquele queijo ser mais queijo, mais ele mesmo. eu queria ser o melhor queijo de mim, eu disse pra ele.

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enquanto eu estava deitada no divã olhando pra janela, o mundo lá fora chovendo, eu sem guarda-chuva, disse que quando eu aceitasse meus erros eu poderia parar de carregar meu passado igual mala sem alça, pesado, embaraçoso mas que eu não consigo abandonar. "e você vai fazer o que com o passado?". quando eu aceitar meus erros talvez eu possa viver com as quase-certezas leve da experiência. uma bagagem de mão, só o que é necessário - e às vezes nem isso. eu que tinha viajado tanto carregando culpas e medos maiores que minha mochila tive muitos torcicolos de tanto olhar pra trás tentando adivinhar qual fantasma do passado me assombraria. pra minha triste surpresa de quem se nega a proteção da experiência eles eram sempre os mesmos. e eles eram minha sombra.

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mas ei, não é você
sou eu

sábado, 27 de maio de 2017

all that jazz

estou espremida no banco de trás de um civic, meio-dia de uma sexta-feira, o jazz parou por alguns instantes, e a cidade... que engarrafamento. tudo é engarrafamento, o carro espremido entre todos os outros carros, e eu espremida entre a porta, um estepe e um baixo. é isso, é meio-dia em nova iorque e a primavera decidiu fazer sua entrada triunfal com um calor inesperado naquela tarde depois de dias frios e cinzentos. eu que virei a noite entrei nesse evento diurno sem saber o código de vestimenta e passava calor de botas e vestido longo de veludo. matt também não estava vestido adequadamente pra chegada da primavera, e nem pra uma viagem de carro de algumas horas. se eu usava um vestido longo e decotado e vermelho de veludo molhado em plena luz de um dia quente, ele usava terno, gravata e sapatos. a gravata que eu escolhi cuidadosamente direto do seu saco de supermercado cheio de gravatas emboladas e com nós mal feitos. "essa aqui é muito séria...", "essa aqui não...", "ah, essa aqui marrom se voce quer parecer descolado mas não muito", "essa vermelha se voce quiser ousar". ele considerou tudo com parcimônia e optou pela marrom. meia hora depois, dentro do carro com ele na direção, eu derretia igual um quadro do salvador dali contra a porta olhando pros piers do chelsea ficando pelo caminho, o jazz rolando no toca-disco, conversas aéreas e significativas com matt enquanto ele pacientemente contemplava o engarrafamento. eu nao tinha ideia porque mas eu sentia que estava aonde deveria estar no momento em que deveria estar, sem maquiagem, nua nua, no meu lugar: um engarrafamento enorme e típico de uma das primeiras sextas ensolaradas em ny quando a primavera falhou miseravelmente por um mês. matt gentilmente tinha se oferecido pra me levar de volta, eu tinha suspeitas de que ele se atrasaria pro concerto que ele ia tocar em outro estado por fazer isso e aceitei mesmo assim. embora eu soubesse que o metrô seria mais rápido eu aceitei mesmo assim. existia algo especial na presença contemplativa e silenciosa do matt, um rosto triste e cansado mas sempre exultante. triunfante. cansado, mas vitorioso. o rosto do matt, e todo seu corpo, carregavam o peso de um baixo invisível o tempo todo, mas também a alegria das melodias possíveis. e eu senti quase que imediatamente admiração e respeito por aquela figura, aqueles sentimentos que não precisam de palavra alguma pra dizer tudo. o silencio entre nos era preenchido pelo jazz, e o calor, e o meu rosto sem maquiagem na luz daquele dia me davam mesmo os 22 anos que todo mundo pensava. mas eu tinha 27 e um monte de bagagens emocionais mais pesadas que o baixo do matt que me espremia contra a porta junto do estepe. me perguntei porque eu carregava tanto ressentimento, e enfim, a vida sempre nos surpreende mesmo, porque viver com tantos manuais de instrução como sobre se decepcionar? é, "que engarrafamento, não?", eu digo numa small talk, e todo mundo sabe que small talk é o recurso de defesa que a gente usa quando todo o resto falha. "it is what it is", matt diz, concentrado no trânsito parado. ah, a small talk falhou no seu propósito. ele tinha me acertado em cheio. a coisa é o que é. e nada além disso. mas também nada menos. eu repeti a frase, uhum, balançando a cabeça. não podíamos nos olhar nos olhos, olhei pra fora, olhei pra dentro. matt me contou ao passar por um dos piers que tinha saído dali pra um cruzeiro com sua mãe e o irmão pra comemorar o aniversário de 60 anos dela ano passado. ele tinha um irmão mais velho, assim como eu, e falamos das rivalidades e posições de cada filho. uhum uhum, matt respondia na direção, as vezes com alguma surpresa, as vezes sabendo exatamente do que eu falava. o transito melhorou um pouco quando chegamos na 34 pelo lado oeste, matt entrou com o carro rumo a leste, o rio hudson ficou pra trás com seus piers e partidas e histórias, passamos por baixo do highline, as obras, os turistas, os trabalhadores. e matt e eu tão perto mas longe de tudo isso. eu de férias a deriva em dois continentes, matt músico de profissão. iniciei os agradecimentos, gratidão pela(s) gentileza(s) espontâneas e gratuitas pela mera simpatia entre dois anjos que caíram de passeio na terra às vezes árida demais pra que a gente não vire pó de uma vez só. matt, como tinha feito nos últimos dois dias, abaixou a cabeça e a balançou dizendo que tinha sido um prazer, e o jeito como ele sacudia a cabeça e olhava para baixo me fazia sorrir embora eu quisesse conter o riso. existia algo muito especial naquele baixista de jazz de 26 anos, algo genuíno, mas tão genuíno e espontâneo, que me fazia questionar se a vida era mesmo um teatro. não era possível. mas bom, se fosse, devia ser um teatro de improviso e aquele menino do jazz sabia o que fazer o tempo todo, e só o sabia porque no fundo ele não esperava nada. e seguia pronto pra improvisar a qualquer tom.
it is what it is.
subimos pela 10th avenue, matt virou na 57th street em direção a 9th av. e, entre um sinal fechado e outro, fez uma manobra cortando toda a rua pra fazer uma volta pro lado oeste da cidade. alguma musica tocando, a cidade fervendo, o onibus vindo pra parar no ponto. saí do carro com um salto pulando no meio da rua, carros indo e vindo, matt saiu da direção e, segurando meu ombro, me beijou com a naturalidade de amantes mais antigos que os engarrafamentos da cidade e com a rapidez dos pedestres passando. se cuida, ele disse entrando no carro. acenei enquanto atravessava a rua correndo e desejei uma boa viagem e um bom concerto. ele sacudiu a cabeça afirmativamente aceitando minhas recomendações em forma de desejos. e o carro sumiu no turbilhão de milhões de carros rumo ao oeste, todo mundo indo embora de nova iorque, e a cidade ficando sem parar. não olhei pra trás. na calçada, já do outro lado, caminhando com meu vestido de festa no meio de uma multidão de roupa casual e veraneica, não me reconheci no reflexo de uma das vidraças a caminho do hostel. eu tinha um sorriso enorme estampado no rosto, e eu parecia tão jovem, um frescor e uma leveza que eu não via há anos. porque que eu tinha que complicar a vida toda quando it is what it is? não tem nada além disso, e muito satisfeita com o que era e não com o que poderia ser ou o que tinha sido, eu segui rumo ao sul pensando que a vida não podia ficar melhor que aquilo. "não fica melhor que isso, cara, não fica"... disse pra mim mesma como promessa e como esperança. tudo o que eu sabia do matt era o primeiro nome, sua paixão pela música, seus sentimentos do mundo. e eu precisava de mais o que?é o que é. entrei no hostel, algumas pessoas indo e vindo, tantas línguas e nenhuma como a minha. mandei mensagens pra amigas contando sobre a minha nova epifania de que a coisa é como é e nada mais, como quem descobriu a grande verdade universal, a resposta de todas as questões vivas e mortas. cara, a coisa é como é, eu ia usar isso pra tudo, cê pode crer. tomei outro banho cheia de planos, minhas últimas 36 horas na cidade adiante e muito mais que 36 desejos a realizar, mas a cidade de nova iorque infinita me afrontava com a mais deliciosa das impotências: a da escolha. renúncias premiadas, de tudo que eu deixaria pra trás, eu ganhava sei lá mais quantas coisas adiante. a cidade era muito generosa comigo. sempre foi. e enquanto a água levava os restos das minhas preocupações e eu pensava em nada, absolutamente nada, uma perfeita meditação, eu nem sabia mais se era eu ou a água escorrendo pelo ralo lentamente. eu ainda tinha uma mala pra fazer e um monte de coisas pra comprar pra levar pra casa, mas o sol daquela tarde, a promessa de um dia de primavera quase verão em abril ainda me seduziu e eu deixei tudo de lado. como nos meus 24 anos no mês de maio, o sol, os sorrisos e as esperanças dos que iam e dos que ficavam me envolveram. coloquei o vestido primaveril que comprei em londres porque era lindo e muito barato e tinha cara de sol, e eu sentia falta das flores e do calor, de sentir minha pele sendo beijada pela luz e refletindo tudo ao meu redor. uma alça estourou quando suspirei mais fundo. costurei a alça partida. a outra estourou. paciência, coloquei o vestido de volta na mochila prometendo a ele os verões de quatro estações de brasília e coloquei outro vestido,com cara de sol mas não muito. fui rumo ao oeste e, de repente, fui tomada pelo desejo de comer morangos coberto de chocolate que só vendiam na 5th av. caminhei até lá, não encontrei os morangos, comprei um bolinho vermelho cheio de creme no lugar, atravessei a rua procurando mais morangos sem sucesso. e de repente, estranho,a catedral surgiu na minha frente, enorme, magnífica. torres góticas brancas e cinzentas contra o céu azul do fim de abril, resistindo em meio aos arranhas ceu. eu parei no meio da calçada sem acreditar, a catedral st patrick sempre esteve ali e quantas vezes eu passei por ela, e quantas vezes eu entrei e sentei e rezei um pouco, acendi velas, enfim, quantas vezes. mas eu me surpreendi e algo me puxou até ela, e de repente eu percebo que resisto mas a lágrima cai mesmo assim, eu sou tomada de uma emoção inexplicável e que na verdade eu sei a explicação mas prefiro curtir o momento da emoção pura e original, sem filtros. dentro da igreja os vitrais, a luz inunda tudo de cores loucas que combinam entre si em um sinal pra me passar alguma mensagem, o mundo quer me dizer algo há tempos, a vida quer me dizer algo há tempos, e eu sigo ignorando todas as mensagens, desligo as notificações do meu telefone achando que isso vai me proteger do mundo e das suas mensagens loucas e necessárias que as vezes nao quero ouvir. em 2014, quando entrei nessa igreja pela primeira vez, ela estava toda em reforma. restore your heart, os cartazes diziam. e eu sabia, não pude ignorar naquele momento, que eu precisava restaurar o meu. e três anos depois eu caminho dentro de uma igreja restaurada, aventuras loucas e decepções, quedas e vôos, mortes e vidas depois, a igreja e meu coração restaurados. com a euforia de um coração pleno e a ansiedade pela possibilidade de novos danos. a manutenção nunca pára. fiz uma oração e saí caminhando rumo ao norte pela 5th av. e pensando que nao poderia ficar melhor que isso.
entrei pela entrada sudeste do parque, e as crianças e os casais, os idosos, os locais e os turistas, misturados e juntos pela curtição do sol, e a luz está magnífica às 3 da tarde, eu tenho planos de atravessar a ponte do brooklyn caminhando antes que o sol se ponha, eu faço planos de espalhar minhas etiquetas de bagagem com poemas de walt whitman pela ponte, eu tenho planos, mas por um momento eu preciso ver o parque e comer meu bolinho tranquilamente, sentir minha pele queimar por alguns instantes, escrever os poemas nas etiquetas, pintar. enquanto procuro um lugar eu ouço mais jazz, não é possível, aonde estava todo esse jazz antes da noite em que entrei pela primeira vez no smalls? e agora é tao natural, como se tudo fosse jazz o tempo todo, tao obvio, e o jazz esteve comigo o tempo todo tambem desde aquelas tardes e noites loucas que antecederam a primeira das minhas muita partidas e que nunca terminaram. o jazz no computador do akira rolando enquanto a gente desmanchava em preguiça e medo do futuro naquela kitnet quente em que ele morava. o jazz enquanto eu escrevia meu anteprojeto pro doutorado, anos depois, naquele café ensolarado de brasília no meio de uma tarde de semana. o jazz do saxofone daquele cara do balcony, que tocava caminhando em volta do balcão. e então em nova iorque eu descubro que ele sempre esteve la mas eu nao. mas agora eu vejo, e eu ouço, e igual uma flauta mágica a música me atrai, eu nao hesito, eu sigo, eu mudo meu caminho pela musica, é o que eu procurei mas nao sabia. e quando vejo a guitarra quase amarela mas não muito, a guitarra amarelo terra, os buracos no lado, é uma guitarra oca! - eu digo pra mim mesma. e abraçado a ela, fazendo cosquinhas nas suas cordas, está esse cara com cabelo anelado e preto, nem longo nem curto, eu não vejo seu rosto mas seu jeito de tocar encurvado, introspectivo e dedicado a descoberta de novas velhas melodias, me traz lembranças de alguma coisa e por um momento eu penso que é o steve, mas quais as chances de esbarrar num guitarrista de jazz que eu conheci no smalls dois dias antes, e que eu encontrei no dia anterior na jam na casa do matt, e que eu encontrei a noite na jam do rue b? tem 8 milhoes de pessoas em nova iorque mas eu mesma já sabia que a gente sempre encontra as que precisa encontrar - ou faz o melhor com as que encontramos. eu me aproximei, sentei em um banco curtindo a música e esperando ele levantar o rosto, e sim, os olhos de quem tá sempre com sono, um sorriso triste, o nariz romano, é o steve com sua guitarra triste triste rasgando melodias felizes em notas tristes. eu sorrio pra mim mesma, 8 milhões de pessoas, cara, 8 milhões... e eu encontro o steve que me fez sentir um senso de compromisso em menos de 30 minutos no canto do smalls com uns papos muito técnicos mas que por baixo me diziam tanta coisa e me sussurravam segredos que o proprio steve nem sabia que tinha - e por isso me consideravam uma mulher louca, porque eu via formas e ouvia vozes que ninguém mais dizia ouvir me contando nas entrelinhas os segredos das pessoas, e no fim era isso mesmo.
mas eu tinha achado o steve, primeiro, muito novo, e depois, muito bonito. foi no dia em que nos conhecemos no smalls e ele me perguntou se eu estava gostando da musica e porque eu estava chorando - era a garganta inflamada. e então ele me elogiou e o rosto dele ficou vermelho de tal forma que eu pude perceber até na meia luz do clube de jazz. e quando steve se juntou a banda tocando e confuso, e olhando pra guitarra como quem pergunta o que tá acontecendo, desacreditado, nem com raiva e nem com medo, descrente, steve desiste de fazer parte do movimento e fica lá com a guitarra pendurada tirando uma nota aqui e outra ali e na verdade nao sei se mais pessoas repararm. eu reparo, e estou olhando pra ele e só pra ele, eu ignoro as estrelas do jazz que todos parecem conhecer menos eu, eu ignoro os outros musicos que foram improvisar, e meus olhos sao do steve naquele momento. ele olha pra mim como quem diz sinto muito e eu dou de ombros simpatica como quem diz que essas coisas acontecem uma hora ou outra, eu nao conheço ele, eu nao sei nada.
e ali está o steve no central park, e eu, e ele toca a música divina que me arrastou até aquele banco no sol, sem sombras por perto. até que ele me vê sentada ali e, descrente, mas dessa vez uma descrença feliz, com cara de quem teve uma surpresa estranha mas boa, ele chama meu nome: fernanda? o steve lembra meu nome difícil demais pra ele pronunciar mas o faz com aquele sotaque americano que me irrita mas que eu adoro. "você tá me seguindo?" e eu respondo assustada que não, do outro lado da calçada, e pergunto rindo se ele nao estaria me seguindo. ele ri e diz que não, claro que não, ele já estava ali há algumas horas. e ficamos nos entreolhando e sabendo o que acontece ali, mas sem saber nada, rindo risos de descrença feliz, a vida nos pregou uma peça. a realidade venceu a imaginação.