quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009?

2009 entra pra história como o ano dos maiores achados. e também dos maiores perdidos. faço uma lista, para que caso algum pertence teu tenha ficado pra trás possa procurar e eventualmente encontrar. ou não.

michael jackson
porres homéricos
direção defensiva
asunción
pose, essa menina
clan
bossa stones
músicas autorais
zelas
aviões
ônibus
dinheiro
muita água
amizades
respeito
dignidade
powers, a.
indie
las vacas
paciência
fígado
coração
cabelo laranja
cabelo vermelho
cabelo azul
cabelo colorido, afinal
palavras
fôlego
vontade de viver
peso
medicação controlada
e descontrolada também
frio
segredo
contos de fadas
sorrisos
aulas
gripe suína
saudades
mais álcool
trabalho
alívio
coragem
direção
sentido

mas dentre tudo, me avise se você encontrar alguma esperança por aí, principalmente se disser respeito a acreditar que todo mundo vai cumprir suas promessas de ano novo.

(o futuro a Deus pertence, me disseram. Nem os ateus discordaram.)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

um

os dias correram, o trabalho parecia infinito, a vida lá fora continuou a correr embora nem soubessem que a chuva caía a cada fim de tarde na cidade que amanhecia ensolorada, intocada. voltei por fim à rotina de palavras, a velha traição lírica de si mesmo, simbólica sempre. começava a depreciável contagem regressiva, as roupas brancas. nunca gostei de roupas brancas. minha empreitada agora incluía apenas a impressão dos efeitos colaterais das medicações. e só. nada mais de prometer ser melhor, perder peso, manter as bagunças arrumadas e parecer mais plastificada. nada mais de celebrar ano novo. cada dia já era insuportavelmente novo e o mesmo.

a insônia terminal vinha forte, percebi que pela solidão começava a dialogar em outras duas línguas para não perder a prática. os sentidos se perderam pelo caminho, os sonhos eram mais vívidos que a realidade. desconfiei do rosto ingenuo que me encarava por trás daquela transparência toda: era só meu reflexo. eu, que nunca fui pontual, acordava de hora em hora.

ainda assim ninguém me concedia o direito de celebrar a melancolia, mesmo que me obrigassem a me trajar em alvo e alvo.

garçom, desce vintinha, por favor. glup glup glup. salud, mis amigos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

i'm so fucking back

... sobretudo, meu caro, terei a força das palavras errantes, aquelas mesmas que me acompanharam ao longo de meus jovens anos. tendo o peso das lembranças mais surreais por bagagem, os ombros, como diria drummond, suportam o mundo.

mas acima de tudo, terei a coragem do primeiro gole enquanto ainda tiver meus últimos comprimidos intocados.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

padarias

eu poderia dizer que não gosto do creme e nem do açúcar. seria tudo mentira, eu sempre amei sonhos de padaria. mas fico pensando que sonhos são só sonhos, bonitos de se ver por trás do vidro, naquela eterna ilusão de que está a nosso alcance. não tenho paladar pra uma coisa tão doce todo dia. sonho é superfluo, pão francês é necessário. e você é assim, todo pão: versátil, cotidiano, real. e é por isso que eu aprendoa te gostar cada vez mais.

fluoxetina

"Brasília, 14º dia.

hoje o dia é cinza, daqueles em que o céu é o limite e as nuvens não são macias pra quem tenta ascender. o calor é implacável ainda assim, minha boca está seca e eu não sei mais se é ilusório ou apenas o gosto da cidade, difícil de engolir. os sabores se perdem em questão de segundos, como se todo desejo fosse mero capricho e a auto-destruição apenas um passatempo.
hoje o dia é cinza, a cidade está silenciosa. póstuma, eu diria. não há árvores de natal ou misericórdia, só panetones. os ruidos que ousam se levantar são aplacados misteriosamente. e eu não sei se são meus protetores auriculares de plástico, a visão desfocada, a desrealização ou apenas os efeitos colaterais da maldita fluoxetina: meu porto seguro e minha tempestade."

inocencia

lá em cima da cidade
tem um corpo de veneno
quem tocou morreu
(complete aqui)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

rascunho


e quando a ausência dá forma a presença como na dança dos rastros negros que o lápis deixa no seu contato com o papel - fruto do atrito, coisa da física - é que a presença de todas as cores, o branco, ganha forma e nome.
e mesmo no papel a presença só parece ter beleza sob o abraço do nada absoluto: sem a ausência não há história alguma.
os românticos me dirão que falta a arte final com as cores, eu direi que a idéia de perspectiva basta, ainda que em branco e preto. a mim me bastam os rascunhos, para que cada um complete da maneira que bem quiser, nas entrelinhas.

diários de 20 mg


"embora os movimentos sejam constantes algo sempre insite em parar na beira da estrada. sentimentos deixados pra trás adoram pedir caronas. as portas dos armários permanecem fechadas, as malas vazias e as camas arrumadas - mas tudo em movimento, nem que seja inerte.

(...)

eu gosto assim, natural, quente e amargo, forte e difícil de engolir. que se perde no ar quente e espalha seu aroma por todo o prédio. gosto de profundidade. obscuro, mas solúvel. eu gosto assim, quando no seu olhar encontro uma noite inteira, negra, que na verdade é no maximo castanha. e me surpreende porque no fim das contas cabe em qualquer forma. eu acho que o café assim não é pra qualquer um, é preciso lingua afiada e estômago para essas coisas (...) mas ainda assim eu gosto mesmo é quando seus restos me deixam ver meu destino no fundo do poço, no fundo do copo. e se no fim do gole nada me restar, eu sei que meu destino é o mundo inteiro. definitivamente o café assim não é pra qualquer paladar."

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

sentido

então desaprendi a pintar a raiva em cores vibrantes e palavras soltas, cotidianas e banais. acontece.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

18 horas

"...o sino descompassou, as horas iam longínquas. ela deixara sua casa sob as luzinhas de natal piscando intermitentes ao meio-dia. isso deveria significar alguma coisa. não importava quão alto despontasse no céu o sol de brasília naquele momento, o fim (do dia) chegava surfando nos ponteiros do relógio.

voltar ao normal, alguém disse. ela sorriu longamente, pensando em como voltar a um lugar em que nunca esteve..."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

direitos

... não consegui freiar o meio sorriso que se desenhava na curva da minha boca indicando o sarcasmo quando alguém disse que todo mundo deveria lutar pela vida - a própria, a alheia, a relacional, a dos animaizinhos. algo em mim desatinou: e o direito de morrer? e quando viver ultrapassa qualquer luto? será que as palavras derramadas em sofrimento eram mais leves que os pontos finais das mortes? o outro canto da minha boca entrou em concordância com o primeiro a se manifestar.
não é apatia ou falta de vontade, não é apologia a morte ou ao morrer em si. é que eu acho que a gente só vive de verdade quando aprende a hora de deixar morrer, como diria o grande paul mccartney.

e quando a morte vier, lembra que meu ombro vai estar aberto para visitação 24 horas por dia, 7 dias por semana. e eventualmente nós celebraremos como no méxico, em homenagem a todos aqueles que ficaram enterrados no passado e na lembrança.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

é preciso...

quando a noite cai, às vezes a gente tem que fazer um esforço pra não deixar ela se espatifar no chão. é preciso ombros fortes.

é preciso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

crônico

a vida quando cabe numa garrafa de bebida e o futuro no fundo de um copo ou no último pedaço de doce tem sentido pros outros e é sentida por quem a vive. etica e moralmente questionável, mas ótima companhia. os esmaltes, as tintas, os cremes hidratantes... ah, não há amaciante que amoleça coração endurecido. e nem maquiagem suficiente pra colorir uma vida assim.

o esforço é inútil: nas palavras não cabem a angustia, a solidão, a sensação iminente de morte simbólica - eu sempre fui uma boa assassina. ele certamente me recriminaria, por convenção social, mas depois gargalharia deliciosamente: a vida tem dessas coisas, mas você tem muito mais. eu só quero que tu seja feliz, guria.

crônico, ele anunciou. as resoluções desesperadas são assim na maioria das vezes, pensei. o ônibus já ia longe, a hora já ia longe, a maioria das coisas já ia longe demais. existia um mundo inteiro ao redor, mas a velha história da redoma de vidro ao redor da vela fazia mais sentido que nunca: na falta de oxigênio a gente sempre pode incentivar a combustão com álcool.

e mesmo o relógio andou mais devagar, contemplando que ela atravessara o tempo ao sair dos limites do plano piloto outra vez. sufoquei o sentimento outra vez, dessa vez sem promover morte alguma. o que não mata, certamente fortalece. e foi o que aconteceu quando o relógio marcou meia-noite outra vez. de novo e de novo. e eu permaneci contida, sufocando a chama pela falta de oxigênio.

a contradição da permanência me contemplou: ficar é impossível, partir inevitável. e se calar é preciso na maioria das vezes pra que o mundo seja um lugar melhor. o amor deixou de ser um sentimento universal pra ser no máximo intracidade, intraclasse, intraqualquercoisa. alguém perguntou porque calar e eu pensei que o motor do ônibus nunca cessa na presença dos passageiros. e nem as folhas deixam de cair porque os bons tempos chegaram. no fim é tudo questão de tempo.

domingo, 22 de novembro de 2009

dois meses

é incondicional ou trivial
mas é minha sugestão:
quando eu me sentir abatida
ou insegura
se eu me expor demais e te disser talvez
me faça sorrir em um caixa 24 horas
em uma sexta à noite.

sábado, 21 de novembro de 2009

essencialmente

trago palavras como quem traga um cigarro, na ânsia de viver um dia mais tomando um gole de veneno. viver no agora entre pintar as unhas ou trocar as cores do cabelo como medida paleativa para toda forma de desespero ou solidão enquanto as soluções definitivas são só utopia: é meta, filosofia, método e estilo de vida. opção.

deixam-me à beira e à flor, como quem não encontra mais lugar algum para descartar o que me tornei. é só um bandaid na queimadura de 3º grau, é só mais uma maneira de sobreviver. opção. os anos passam. outras coisas não, irremediáveis.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

81: uma péssima idéia

o lirismo falhava como se da caneta acabasse a tinta. o sono bateu forte na sua cara, pesou nos seus ombros - infalível. o peso pesou em seus ombros como reflexo de todas suas últimas falhas com gostinho de batatas fritas. ela leu e percorreu a linha, como se visse o seu fim, iminente:

é que cada um bem sabe das dores e das delícias de ser quem se é. coisa da cultura ocidental contemporânea... sigmund freud, analyse this.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

one in a million


e se não fosse amor, que seria então? que seria dos fins de noite, dos toques de celular, dos outros toques que o tato bem conhece? antes de tudo a expressão de homem com a fragilidade de um menino que já bem vi, as mãos firmes, o cheirinho dele. às vezes as coisas acontecem bem ao contrário, mas a gente sabe que vez ou outra o passado é uma montanha de lixo.

o fato é que quando uma estrela cadente passa, mesmo quem não é supersticioso acaba fazendo um desejo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sábados

o relógio anunciou as 8
o fim da aula anunciou o meio-dia
mesmo que ainda fosse 9
a carona tomou o lugar do ônibus
o sanduíche o lugar do almoço
as roupas novas me abraçaram
e eu abracei minha carteira
a diferença ficou de lado
e da sexta fez-se um novo tipo de sábado.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ready or not, here we go

o som da guitarra se fez sofrível ao toque das 11 da noite, sem nenhuma das tarefas do dia seguinte completas - ainda. o livro ficou aberto no chão, a cabeça no espaço, as mãos no ar gesticulando. conclui que nunca estaria pronta pra nada, mas que fazer era a melhor maneira de se preparar.

os protocolos se estenderam na mochila, estruturas desconhecidas são melhores que estrutura nenhuma.

domingo, 8 de novembro de 2009

sobre meninos e jujubas

"i've lied tonight just wishing you were by my side"



hoje não canto o medo
nem meu talento pra gerenciar melancolia
nas curvas mais perigosas em que minha língua já correu
mora meu sorriso favorito


tuas portas quando abrem pela manhã
tem cheiro de ontem com gostinho de futuro
os teus braços quando saem do balanço e reabrem
tem sabor de hortelã, ahh (refrescante)


trago papéis e canetas
minha angustia não cabe em mim
mas meu corpo cabe direitinho nos teus braços
e meu amor em teus beijos.

sábado, 7 de novembro de 2009

A.

na tênue linha entre o vício e a virtude é muito mais fácil tombar pro esquerdo.

a risada esteve rígida por pelo menos 15 minutos, as mãos amarradas mas não mais que a cara, os olhos que eu conhecia tão bem. além de qualquer compreensão, pensei que entendimento não traria conforto mais que simpatia, empatia, sei lá. um passo em falso e a gente cai da escada, eu pensei em dizer a ela pra que assim talvez ela se mantesse mais firme que antes, mas comecei a questionar se firmeza era tão positivo. maleabilidade era coisa de fernanda, era defeito e qualidade de fernanda. suspirei. resolvi não dizer nada. provavelmente eu falaria demais na intenção de que ela não entendesse, só pra vida ser mais vida mesmo... pensei nos lados também: não julgaria por bom ou ruim, mas como se todas as coisas fossem poliedros, cheias de lados - talvez infinitos. desafiei o silêncio outra vez com as mãos, colocando as palavras que nunca seriam faladas num papel.

apesar da distância, eu certamente me senti conectada a ela de alguma forma: ninguém sabe dos deleites e das dores de ser dessa forma.

tentei me desfazer mais em risos que qualquer outra coisa. falhei miseravelmente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

sessão da tarde

quando os corredores estão parados e os sofás vazios. chove lá fora, molha aqui dentro - sem guarda-chuva ou sombrero, andale!

e ela abriu a porta. sorri.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

último trem do teu não-riso

antes que o sol viajasse pro outro lado do mundo e só lhes restasse o escuro ele colocou em suas mãos os livros dela e suas músicas prediletas, tirando das mãozinhas de menina as correntes amarradas ás responsabilidades de cultivar vidas alheias: vai que tu pode ir longe, guria. certamente ele sustentava a crença de que se ela usasse seu talento de pintar vidas consigo mesma ela estaria a salvo. os dedos pesariam mais se ele tirasse a própria vida, ela pensou antes de dizer mais alguma coisa ou apagar mais um número de telefone. as conversas correram soltas junto com o vento seco da noite, algo entre setembro e outubro mas ainda indefinido, a única certeza de que estavam ainda e então estagnados no trânsito de brasília. viajantes e nada mais.

ele se colocou em uma redoma dessa vez, afastando-se do toque dela, os olhos mortos e pesando também. mais que o silêncio até. bonito vestido, eu gosto. ela se surpreendeu: eu também. as palavras saíam difícil por entre os dentes e garganta vazia, como se ela perdesse o dom de destruir os pedacinhos de silêncio. ele achou que ela talvez tivesse perdido o dom da mentira que ele sempre achou bonito como um vestido lilás em uma garota não tão-bonita. os carros eram as coisas de sempre, as filas as de sempre, os produtos os de sempre, os assuntos também, mas eles eram mercadoria nova na lista de consumo do mundo inteiro: hmm, interessante... naquela noite os risos foram todos milimetricamente calculados e metódicos, ele lembrou que ela era cética, controladora e descontrolada... e deu a ela de presente as promessas mais falaciosas, do jeito que ela sempre gostou.

ela pontuou o período em que ele estava entrelinhado antes que precisasse usar óculos pela vista cansada de procurar o que nunca esteve escrito. ironicamente naquela noite de despedida eles caíram na gargalhada e pela segunda vez ele lhe mostrou os dentes: não agradaram a ela, mas eram novos.

os sinais se abriram e (se) tocaram. próxima parada: (insira sua esperança aqui).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

nem choro nem vela


"e então por não encontrar nenhuma maneira digna de viver, decidi procurar toda e qualquer maneira de morte", ela esboçou seu último sorriso entre os dentes separados.

ela se situou dentro do cômodo 2x2, em pé na cama enquanto ela ainda não era convidativa outra vez, olhando pela janelinha. a rua estava domingo, vazia. um pé na cama e o outro de volta à realidade, ela pensou.

ele a abraçou por trás. ei, não é engraçado como às vezes a gente tem que olhar pra fora pra ver a realidade? ela disse ainda olhando o lado de fora. porque? ele perguntou de volta. porque voce é bom demais pra ser verdade, ela respondeu ainda olhando pra fora. inevitavelmente domingo. eu sou real, ele disse.


e eles caíram na cama depois de cair na real.

domingo, 1 de novembro de 2009

dormir ou não dormir



correu entre os dedos os cabelos, a pele, mas principalmente as palavras. deixou-se correr entre as veias as lembranças de algum tempo distante em que o corujão era definitivamente inédito e divertido, e o café ainda era doce. não há mágica alguma no poder de escrever as dores mais banais nas linhas de expressão dos rostos cansados, mas definitivamente deve haver alguma na força das mãos que se desmancham em versos e prosas; alguém deixou escapar por entre os lábios. particularmente não acredito em mágica, mas definitivamente acredito no poder das obrigações de tirarem nosso sono.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

um gole de gyn


entre prédios e paredes
linhas e lençóis
chãos de azulejo
camas e caminhos
sem perder os sonhos
a gente perde o sono em goiânia

mas a gente sempre pode voltar pra brasilia...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

polêmica

"sou uma pessoa de personalidade fraca escondida atrás de palavrões, jogos de palavras e sensibilidades fúteis que se deixa imprimir em versos, canções, rabiscos e frases agressivas. todos os lados de um dado e todas as palavras de um dicionário. eis-me aqui estendida nas entrelinhas da tua vida: o melhor e o pior de mim. não te peço amor ou compreensão, mas fico agradecida se voce me der verdades."

here comes the sun, lalalala


e então lá estava no fundo dos olhos dele o nascer do sol - inevitável, ainda assim irrecusável.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

azul


deixo as palavras escaparem entre as linhas, os dedos enfraquecem mais que nunca, o futuro é agora, meu bem. a roupa já não cabe, a maquiagem já não cabe, a vida já não cabe - é tudo metalinguagem, eu e eu.

a tristeza é paradoxal: é agora e ontem, é fome e falta de apetite, é desejo e falta de vontade - o elevador sobe, mas também desce. e é tudo mecânico, mesmo a descida... e eu que sempre gostei da intensidade das cores não poderia deixar de idolatrar o blues.
certas coisas a gente só aprende com a idade.

domingo, 25 de outubro de 2009

enquanto isso...


enquanto alguns colocavam no display, outros colocavam na mira. naquela noite ainda pensou em como ele a colocara no lugar - não existe dorflex pra deslocamento social... ela sorriu entre as mechas de cabelo enquanto percebia que o clima pesava mais que um avião: pode até voar, mas não significa leveza. é só a força do hábito e a força da física.

enquanto isso, ela concluiu que na sinuca e na vida era tudo geométrico: questão de ângulo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


a gente se deixa morrer a cada respiração e escolhe a morte cada vez que tem a pretensão de viver. 'morrer é tão inevitável quanto a vida', ele disse. 'sobreviver é inevitável, viver é só pra quem já superou isso', eu disse.

e então a gente passou a tarde morrendo rapido. respira, suspira, respira, suspira. suspira.

às vezes é o melhor jeito de se viver: morrendo - de amores

terça-feira, 20 de outubro de 2009

contas


tardes que cabem em um sorvete
páginas que ocupam dias
horas de sono que duram piscares de olhos
aulas que duram eternidades
e vontades que duram segundos
decisões que atravessam estradas
nas mãos de quem segura o sempre
molhado e escorregadio

são 30 dias pra mudar de vida
pra pagar as contas
e fazer mais investimentos
e apesar de tudo eu não sei
quanto tempo dura um mês...

viagens


"e então a maioria das pessoas que cruzaram meu caminho na estrada não queriam encontrar nada, só perder aquela coisinha que as incomoda tanto... meu bem, não existe mapa e nem bússola que apontem o norte da vida."

domingo, 18 de outubro de 2009

sábado, 17 de outubro de 2009


crimes perfeitos não deixam rastros
amores perfeitos deixam marcas em todos os lugares.
bang bang, i shot you down.

LC

'quando estou triste ele vem até a mim com milhares de sorrisos que ele me dá de graça: está tudo bem, ele diz, tudo bem, voce pode levar tudo que quiser de mim' Little Wing, Jimi Hendrix.


agora seu rosto estava limpo
minha boca ainda cheia de mentiras
meu coração cheio de angustia
e minhas mãos trêmulas
antes que eu desfalecesse
antes que eu caisse no real
antes que precisasse tirar a pele rosa
as palavras se seguiram certas
como numa prece:
a vida é paradoxal mesmo,
às vezes o paraíso é quente demais
e o inferno só frieza.
quando o silêncio se cala
na minha própria cama
antes de cair em sonhos
antes de cair no sono
antes de cair no fundo dos olhos
as palavras se juntaram certeiras
como numa oração:
meu menino, eu te amo. amém.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

lavoisier


em negro ela desfilou outra vez, deixando um rastro de seu perfume doce. antes que eu atingisse o chão ela me atingiu, me deixando naqueles velhos pedaços que evidentemente deviam reunir-se outra vez. as palavras nessas horas sempre ficam grandes demais para dividir espaço com o nó na garganta e as lágrimas sempre se solidificam antes de romper a barreira do som. as promessas são fáceis nas bocas, mas os olhares sempre se denunciam, ela pensou consigo enquanto escolhia seu melhor vestido e escrevia seu melhor poema. a vida é como uma mulher mal vestida e a morte sedutora demais. o amor era como os cubos de gelo no fundo do seu copo vazio, prevendo o fim da festa ou só o começo: frio, instável e suscetível ao calor. ela preferiu não dizer, (...). tudo isso apenas para comprovar mais uma vez que nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

corpo


em tempos minhas têmporas conheceram seus ombros. a boca, a barba em que meus dedos adoravam se perder, a língua afiada e doce, o primeiro nariz pelo qual me apaixonei e não era torto. as mãos macias, a expressão áspera que me encantava. as sobrancelhas marcadas, o cabelo bagunçado. minha boca seguia o contorno do seu braço como desculpa esfarrapada pra guardar seu cheiro em mim, em algum lugar. estava quente. you're just too good to be true, can't take my eyes off you.
antes de tudo pedi a mim mesma que não enfiasse os pés pelas mãos, mas naquele dia eu me deixei em seus braços e consegui me arrumar no reflexo dos seus olhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

se e sim


porque entre um sorriso e outro às vezes duas letras tem muito mais certeza que três. ela pensou na beleza e na dureza dos diamantes enquanto se via refletida nos olhos dele: os riscos, as marcas, as cicatrizes. ele disse que a machucou, mas sem pedir desculpas, disse que ela era preciosa demais. ela se riu:

ei, voce já percebeu que os diamantes só são riscados por outros diamantes?

ele pensou que a vida era frágil, ela só deu certeza.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

passado

é que às vezes eu penso no passado. e eu sei que algumas coisas ficam mais presentes que nunca...

domingo, 11 de outubro de 2009

química


'que foi?', ele perguntou. 'nada', ela escondeu o rosto pequeno entre os dedos. é que os olhos etéreos se condensaram ao esbarrar nele.

era tudo básico agora - e isso silenciou suas palavras ácidas. mas as cores continuavam vivas...

sábado, 10 de outubro de 2009

i believe


uma onda de amor invadiu a cidade. as flores rosas espalhadas pelo chão, pelos galhos, pelos vasos. os ipês amarelos e as chuvas torrenciais. os telefones calados aprendiam a falar e mesmo os dedos já falavam a essa altura: toda forma de expressão era pouca pra demonstrar desejo. as músicas perdiam seu sentido quando tocadas a todo volume - don't call me rock steady, call me cold heartbreaker breaking just for fun, yeah! - era tudo fantasia de carnaval. os cabelos rosa dele me lembraram que mesmo os durões às vezes têm de acreditar nessa coisa chamada amor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

sangue


sempre gostei de flores, principalmente a da pele, aquela na qual tudo me permito sentir. gosto de comer bolo quente, de sentir o café quente marcar meus lábios, de me colocar em letras: prefiro o sabor de verdade do que o de conseqüência.

creio na melancolia como forma de arte, nas cores como forma de sublimação, nas notas musicais como forma de libertação, no culto ao ridículo como forma de amar, no cinza como cor, no sangue como libertação - a guerra mais tranquilizante que a paz que precede a tragédia, em uma dimensão congruente dos ocorridos impossíveis mais esperados e onde todo amor é permitido e recomendado.

e da vida é quase nada: toda futilidade é poesia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

textos velhos 1


'a insônia adormece às vezes', ela disse entre o gole de café e o de whisky. olhou dentro dos livros velhos para ver se encontrava um pouco de si nas páginas: nada. 'não sou uma pessoa interessante, só gosto de enxergar o mundo pelo meu caledoscópio cheio de palavras,' ela continuou. ele tragou enquanto seus olhos se perdiam 'as palavras são conseqüências do viver. não vou te chamar de meu bem antes que o sol se ponha, é tudo vão. mas eu vou fitar teus gestos e teu ser, e tudo vai ser memória. mais valioso que poesia. ou não?', e sorriu sarcasticamente com seus dentes amarelados.


'viver, sentir. falar se sobrar tempo', e ela que era palavras se converteu em silêncio.

domingo, 4 de outubro de 2009

le city

não te quero nas minhas mãos ou braços
eu te quero nas minhas ruas.

eu sou a cidade.

sábado, 3 de outubro de 2009

o grande circular


tem gente que respira fundo pra se acalmar
particularmente eu prefiro entrar num ônibus circular
ou contar até 1070. nada mais terapêutico.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

samantha jones' out of the game

a gente aprende algumas coisas na vida...


e me deixo ficar:



subentendida

se couber

e tiver cabimento

entre mãos

entre bocas

entre gestos

entre pratos

entre abraços

entre voce e eu

nas entrelinhas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

outro outubro


pra outubro eu peço
cordas novas de violão
cantos de cigarra,
flores nas árvores e no chão
borboletas no céu e no estômago
calor nas ruas e frio no umbigo
frases loucas e sem sentido

pra outubro ofereço
da minha boca, palavras e beijos
inícios e iniciativas
amor sem despedida
canções e cantos
estudos e escritos
como se fosse ano novo

tá suficiente pra fazer o mês 10?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

alguns se expressam melhor por palavras, outros por gestos. admito que nenhum dicionário ou fonema exprimiria um eu te amo melhor que teu sorriso.

I ♥ sep


eu acho que o fato de ver as flores no meio da estiagem quase inabitável me traz lembranças do teu jeito, de como a gente era: cheios de estações. se voce quiser, a gente se encontra e o ano pode ser feito todo de setembros.
as flores podem cair, mas a árvore nunca seca enquanto estiver com as raízes em brasília.

medo de escuro


quando o futuro é grande demais o presente é vivido no escuro, sob a sombra de tudo que pode vir a ser. é por isso que eu ainda prefiro viver de olhos fechados, onde todo futuro é promessa de grandeza.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

unhas


ela tinha unhas vermelhas com pintinhas amarelas e sua pele cheirava a morangos. sentiu a barba dele arranhar suas mãos em cosquinhas quase torturantes. correu os dedos longos pela boca dele, desejou ver aquele sorriso que a deixava fraca. emoldurou o rosto do rapaz com suas unhas de morango: 'let me take you down 'cause i'm going to strawberry fields...' e fechou os olhos para que viver fosse mais fácil, que nem os beatles disseram.

des-reencarnação


'algumas pessoas morrem antes de sair da casca', ele disse. não consegui evitar o pensamento de se haveria vida antes da morte.

domingo, 27 de setembro de 2009

sininho


ouvi dizer que havia uma menina perdida em algum lugar entre o vestibular e o diploma, estagnada no transito de brasilia - limpo, mas estressante. longe de casa onde os espaços só permitem um sentimento de cada vez, que nem nos copos de bebida: misturar é permitido, mas dá uma ressaca dos infernos.

alguns diriam que a vida só pode ser levada com óculos escuros pelas noites de festa anteriores, outros diriam que é por causa da insônia tediosa do cerrado que marca com olheiras. ouvi dizer que há uma menina que me lê melhor que eu mesma, numa sensibilidade arrebatadora e fulgaz, infantil - e isso me alivia a alma.

milton

quando a gente começa a usar amaciante pra lavar as roupas
quando as letras dos stones fazem sentido
quando voce começa a ouvir beatles e mpb
quando voce aprecia o silêncio sem moderação e gosta
quando voce debate política na madrugada com seu pai
quando voce faz o almoço sabático pra família
quando voce escolhe que doces comer e descarta os outros
quando voce aprecia música desconhecida e calma
quando voce nao usa mais roupas tão extravagantes
quando voce não acredita mais em maniqueísmo
(e sabe o que maniqueísmo quer dizer)
quando alguém segura tua mão pra atravessar a rua
e não é tua mãe...
michael jackson, reitero, esta morto
faustão magro
gugu fora do sbt
barrichelo perto do título mundial
e xuxa já é uma memória de infancia distante
e decadente...
Deus, a vida é como é.

senhoras e senhores, estou oficialmente velha. e eu gosto disso.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


posso então pisar descalça no teu olhar cor-de-terra
dançando no ritmo da tua respiração
matando tempo nas esquinas da tua boca
me equilibrando nas tuas cordas vocais
desamarrando o nó na garganta
a chuva de setembro trouxe teu calor
eu que era sólido, sublimei - e te deixei me condensar

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

meio de semestre


'gostaria de declarar antes de tudo que (...)' - e ela caiu no sono em cima da cadeira da sala de aula.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

209


o primeiro dia de primaveira. o silêncio precedia o que todo mundo já sabia mas não esperava - dom da premonição se tornou uma coisa banal, fato. a noite foi caindo, outras coisas subindo. reiterou-se que era o fim de uma era, ela sorriu timidamente. ele colocou a mecha de cabelo colorido dela atrás da orelha, ela desviou o olhar:


ei, eu gosto muito de você.


enquanto isso ela percebeu que a vida era agora. mas que haveria amanhãs e amanhãs... e não que isso fosse ruim.


eu gosto de você.

domingo, 20 de setembro de 2009

moonwalk



michael jackson estava morto, patrick swayze também. o cloridrato de venlafaxina estava no lixo, os papéis velhos também. eu tinha largado o emprego, algumas amizades não tão saudáveis também. comecei a usar vestidos - e chinelos também. era o fim de uma era: faustão estava ficando magro. pensei que talvez fosse sentir saudade de tudo isso, o fim de uma era. refleti que isso só anunciava uma outra.

e então caiu a primeira chuva de setembro. e eu me deixei molhar.

sábado, 19 de setembro de 2009

juliette




ela tinha 17 anos, o mundo nos olhos e magia nas mãos. ele tinha 19 e a passagem pro outro lado no céu da sua boca. era o mês de agosto mas a primavera já tinha chegado, ela não sabia o próprio nome e ele a batizou juliette - que ele levava na lembrança como uma mancha de batom rosa-choque.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

genial

não dá pra ser genial todos os dias. quando chega o fim da semana as palavras já não se conectam por nenhum lirismo e só um cachorro quente salva a ânsia de procastinar tarefas intermináveis.


avalanche de textos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

surviving swine flu in style


era um daqueles dias que começavam às 13, clássico portenho. acordar falando inglês, almoço de milanesa com papas fritas, passeio pela florida, jantar no mc donalds, festa no clan e um after que era assunto do dia inteiro seguinte. é buenos aires, meu bem.

lembrei de como antes de colocar o pé no mundo todas as circunstâncias nos afastavam daquela cidade, o protótipo de europa latino com pitadinhas de ny city, assim, em inglês mesmo. e como depois de estar na estrada todos os caminhos nos levaram para lá. e em como a cidade chorou no dia em que saímos de lá, um tanto fugidas. aquele estilo de vida tava matando a gente. a tal pandemia de gripe porcina era tudo uma falácia, voltei mais saudável que quando fui. e vim ficar doente em casa.

a história de uma dúzia de pessoas passou diante dos nossos olhos, frações de férias, de abandonos de casa, de cursos de espanhol, de sabática, de realização de algum sonho bizarro. de alguma forma todos os dias estávamos indo embora, mas acabávamos sempre permanecendo: festa, festa, festa, gente, gente, gente.

a cidade dorme, ao contrário de são paulo... só que depois das 9 da manhã.

um dos caras que conheci por lá anunciou a volta: i'm back in buenos aires, bitch! e isso me trouxe lembranças de que eu preciso voltar a brasília mesmo já estando aqui.



e que nem eu me aguento mais falando de lá.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

cores

deixa tudo misturar
deixa tudo ser um só
amanhecer é bom
entardecer é melhor ainda
anoitecer é demais
o laranja vira rosa
o rosa, vermelho
o vermelho, vinho
o vinho, embriaguez
e eu continuo aqui
misturando tudo
porque a vida não se separa em sí-la-bas

(voce se lembra da noite de 21 de setembro? diga que se lembra, dançando em setembro, não havia um dia sequer nublado... - september, earth wind and fire)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

bibelot


existem relações que são belas, detalhadas, delicadas, impressionantes. mas que de tão bonitas causam receio de desagastá-las - e então deixa-se tudo na mesa, à exposição, mas inútil. não quero que a gente seja um bibelô, eu quero colocar a gente no jogo.
todos nós!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

depois daquela carta


desespero então ao perceber que talvez meu rio de palavras tenha congelado pelo advento do inverno, junto com meu coraçãozinho que se derretia facinho. tudo assim, no diminutivo mesmo. labilidade afetiva, maldita seja. entorpecimento afetivo, mais maldito ainda seja.

vi na rua teu fantasma, conclui que já não sou mais a mesma poetinha cretina de uns tempos atrás, talvez porque todas minhas cartas fossem pra você. doentio e ridículo. vi na janela um monstro, de olhos baixos e pele grossa, e ele me disse olá. e meu pulso acelerou outra vez. não quero viver de passado, guri.

lembrei da última noite, a alvorada virou a página que há tempos a gente insistia em deixar em branco. lembrei do último dia, o pôr-do-dol refletido em teus olhos anunciou o fim das nossas 7 vidas, que nós juramos que seriam eternas. mas a gente só tinha 18 anos e a eternidade era agora. (...)

classificados


vende-se coração com muita vida, pouca experiência entretanto. trilíngue - e pode ser muito mais, tem potencial. quilometragem baixa, obedece aos sinais na maioria das vezes. às vezes não, mas posso trocar o freio para a venda. único dono, ignição elétrica, travas automáticas. é versátil, cabe no peito mas tem espaço pra família e amigos. esportivo, ideal pra aventuras.

também aceito trocar por uns neurônios, um pedaço de fígado e uma passagem pra europa - pode ser pro méxico ou pra américa latina mesmo, não sou muito exigente. sou A+, só pra constar.

domingo, 13 de setembro de 2009

arquiva



encontrei as fotos, os diários. fui assombrada de novo pelo espírito dos anos passados, das relações passadas. semanalmente - da maneira como programei - minhas lembranças são arquivadas aqui. é pouco tempo, ou tempo demais. a maioria das pessoas que conheço estão passando por aquela parte da vida de fechar um capítulo, um livro. em meio a todos esses fins de semana, de época, não posso evitar me questionar: será que é uma onda de falta de pontuação correta, será desígnio do céu ou será que somos jovens demais pra sermos bem-resolvidos?

nos princípios de arquivologia certa vez eu li que há períodos dependendo do conteúdo do arquivo e que aqueles que fossem úteis ao nosso contexto deveriam permanecer em uma locação próxima a nós. arquivo corrente. e que as cópias virtuais deveriam sempre ter um backup. os arquivos velhos demais deveriam ser incinerados para que dessem espaço para coisas mais funcionais.

fiquei pensando naquelas manias que as pessoas tem de guardar minúcias de relações mortas e não enterradas, detalhes vãos como papéis de balas, recados em uma página virtual. aquelas memórias que insistem em passar na cabeça durante uma aula chata - coisas de ponto final que acaba virando reticências. ou de vírgula mal colocada.

a vida seria bem mais funcional se seguisse os princípios da arquivologia. até eu seria mais funcional se seguisse os princípios da arquivologia, mas com certeza eu seria bem menos artística. quando o assunto eram lembranças, eu ainda não conseguia saber quanto tempo era necessário para se incinerar um arquivo - ou realocá-lo junto com os papéis de rascunho.
será mesmo que somos jovens demais pra sermos bem-resolvidos?

sábado, 12 de setembro de 2009

crescer


dois líquidos não habitam o mesmo copo sem se misturar de alguma forma e não deixar nenhum sabor legível pelas papilas gustativas. ainda há a água e o óleo, mas excesso de gordura não está em questão agora.
alguém tinha me dito que crescer dói, eu respondi que eventualmente a gente tem que deixar algumas coisas que não fazem mais sentido pra trás. disseram pra eu ter paciência e calma, pensar nas consequências. eu disse que tinha 19 anos. o silêncio caiu como bomba atômica. se eu não fizer isso agora, então quando? ela inclinou um pouco a cabeça para o lado provavelmente pensando que já teve minha idade. pensei sobre. na verdade a necessidade de descuido adolescente, mais uma vez, é só uma mazela da sociedade ocidental contemporânea, fato.
definitivamente, crescer e irresponsabilidade não se misturariam nunca. nem eu e você.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


procurei minha alma em
bocas
camas
estradas
onibus
embaixo da minha cama

talvez esteja no paquistao
talvez esteja na frança
talvez esteja nos reflexos
e reflexões perdidas
talvez esteja na esquina
numa rua sem saída
talvez não esteja
ou esteja no fundo da minha mochila
na ponta do lápis
no fim da linha

pode estar na ponta da minha língua
ou desenhada nas minhas pupilas
pode ser no japão, pode ser na china
escondida nas lentes objetivas

procurei então minha alma
nos arcos da lapa e
nas estradas pra campinas
no fim-de-mundesco piauí
no paraguay e na argentina
procurei minha alma
e ganhei uma passagem de ônibus

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

de A a A

já dá bastante assunto...



a cidade fica pra trás, embaixo das nuvens
as ruas se encharcam de suor
que vem do esforço de florescer
as frente únicas nas xerox voam
o tempo voa mais rápido ainda
na velocidade da luz ou mais

meninas que gostam de meninos
e meninas que não gostam de ninguém
dançam sob a mesma canção
envolvidos pela mesma música
não há nada que legitime o amor
mas os metais legitimam as mentiras

noites em claro glorificam dias escuros
amores de verão santificam o inverno
pecados de carnaval a gente perdoa
com ovos de páscoa ou whatever
mas entre uma página e outra
ele sempre coloca uma jujuba na boca


(e depois de mais uma lendária e inesquecível festa vem a ressaca daquela sua parte que vai te fazer falta eventualmente. a gente tem sempre opções demais. então a gente coloca a mochila nas costas - mais pesada agora pelas boas memórias - e pega o primeiro ônibus de volta à vida real. mas ninguém avisa que as próximas 24 horas de trânsito serão conturbadas... a gente sempre tem opções demais, mas eu não me arrependo de ter estado ao teu lado do início ao fim)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

desculpas


"(...)

Percebo que andar em cima do muro não significa equilíbrio e finalmente pendi pra um dos lados, o do que não posso permanecer (...). Gosto do poder que essas palavras me dão, de sentir que otudo acontece agora. Mas sei que não posso tomar parte nisso.
(...)"


e então lembrei de voce antes de dormir e queria que voce estivesse comigo
uma parte de mim quer ficar enquanto a outra sabe que vive numa mentira

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

loja de cosméticos


ela disse até mais, ele acrescentou uma observação. você tem cara de normal, tão normal. parece de desenho animado - ela riu colocando a mão direita sobre a boca, como sempre fazia quando ficava sem graça - tão simples e normal, sem mais profundos traços... ele falou no seu eterno e imutável tom de voz.

como de costume ela lhe perguntou se ele não a iludiria um pouco. mas só um pouco. voce tá longe de ser feia, mas é tão... normal. como os personagens do meu jogo favorito.

ela ouviu um clic. mais uma memória se perdera. as últimas cores que viu foram aquelas dos esmaltes que comprara antes de dizer adeus.

sábado, 5 de setembro de 2009

nem que seja pro paraguay


voce nao poderá encontrar paz na minha companhia
mas com certeza vai encontrar na estrada







sexta-feira, 4 de setembro de 2009

chuvas de setembro em brasília


há quem chore se debulhando em lágrimas
aqueles que se desmancham em soluços
e os outros que choram calados
há ainda quem chore sem água
quem chore sozinho e quem chore acompanhado
tem também aqueles que choram felicidade
os que choram amor e os que choram saudade
mas há ainda um outro tipo
que se derrama em palavras na falta daquele ombro amigo.
e sim, mais uma longa e insône noite em casa. obrigada, brasília.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

por minha conta



amigos e amores -do passado e do futuro
e principalmente aqueles que estão do meu lado
embalados em fitas, os presentes
quero que sentem e sintam
tudo à vontade e por minha conta
em uma dose de tequila praqueles que bebem
e em uma garrafa inteira praqueles que se embriagam
pros que não bebem levanto um sorriso
uma gargalhada, algo do tipo
uma dança louca no meio da pista
e meu prometido grito de liberdade.

"Que você siga num caminho cheio de boas novidades!", ela disse. e entao lembrei da velha música do michael jackson tocando na pista, aquela que ela me disse pra seguir, aquela que abriu as estradas.

agradeço a todos, aqueles pertos e aqueles distantes, que me suportaram - e não só isso, me compreenderam e alguns mesmo me amaram - durante esses 18 meses de ausência, insônias, olheiras, perdas totais e ironias excessivas. eu amo todos vocês. (principalmente minhas garotas, a boa e velha gang e, claro, o pequeno pseudo encruado.)