quarta-feira, 31 de julho de 2013



Outra noite, outra noite, outra noite. Todas iguais mas nunca as mesmas. Naquela noite quem atravessou meus olhos ao atravessar a porta foi uma mulher na casa dos 20 anos, lábios pequenos mas carnudos pintados em batom vermelho sangue-vivo-e-pulsante, um cabelo pretensiosamente desarrumado e crespo e... azul? Sabe-se lá, se à noite todos os gatos são pardos, os cabelos tem a cor que for, seja qual for. Não dá pra confiar na luz negra e rubra dos botecos de Paris. Eu apertei os olhos pra desfazer a recente ilusão de cabelos azuis que via naquela mulher mas não parei de tocar um instante sequer. 
Naquela noite eu estava sozinho ao piano, sem a presença quase-que-solar de Dominic pra me eclipsar ou pra eclipsar minha plateia. Lancei um sorriso discreto praquela mulher, que me olhava mas não me via. Ela atravessou a porta e também atravessou a minha alma - e que vestígios teria deixado? E aí eu já me interrogava, inutilmente: De que país seria? Quantos anos teria? Será que eu a veria de novo, será que ficaria muito, será que eu conseguiria abordá-la no intervalo? E todas essas perguntas devoravam meu tempo, mas ao longo dos anos quando você está atrás do piano voce simplesmente aprende que a sua plateia na verdade é quem faz o maior dos espetáculos da casa, e voce muitas vezes tem de se contentar em assistir, atônito, vendo tudo passar sem poder fazer nada, sem poder sequer pedir uma canção ou pedir pra que mudem o tom ou pra que troquem o ritmo. Você só toca, se toca. let it roll, babe. 
Ela não tirou o casaco, apenas sentou e fez um tour panorâmico com os grandes olhos castanhos escuros pela casa, e parecia gostar do que via. De novo seu olhar passou por mim tomando o devido cuidado de não me tocar, e eu me contentava em tocar meu piano ali - era ela quem dava as ordens. Estava acompanhada de uma mulher mais velha, provavelmente na faixa dos 40, com quem conversava longamente enquanto examinava tudo minuciosamente, piscando demais, parecendo estar num transe indistinguível: drogas ou puro entusiasmo juvenil? Não sei... Ela bateu palmas, séria, sentada no canto do bar, e deu um sorriso quase irreconhecível, e a outra mulher se levantou fazendo-a segui-la. Ela atravessou a porta, atravessou meu peito mas não tocou em nada. Nada parecia a tocar, talvez fosse parisiense mesmo. 
***
Naquela noite eu estava sozinho outra vez ao piano, improvisando números de hip hop com arranjos de piano clássico que faziam os caras do leste europeu irem à loucura, e um americano pular de seu lugar e começar uma dança estranha. E então ela, lábios vermelhos, cabelos desgrenhados, olhos amendoados e doces fez sua grande entrada enquanto eu fazia meu número cênico. Ela riu, aplaudindo enquanto ninguém mais aplaudia e enquanto a música ainda rolava, em uma mistura de surpresa, incentivo e admiração. Ela estava mais viva do que eu imaginava, e se movia em câmera lenta só para mim. 
Acenei para ela, que acenou de volta. Eu - ou seria o piano? ou seria a música? ou seria o álcool? - tinha a tocado. Elas continuaram pedindo drinks, e no intervalo me aproximei da mesa discretamente, tão discretamente que a assustei quando disse olá. Ela não largou sua taça para conversar comigo, e polidamente dava sorrisos enigmáticos que eu não sabia dizer se eram de simpatia, de etiqueta ou de interesse. Your hip hop classical piano arrangement is great, man. Ela disse com uma ginga nova-iorquina de quem frequenta os subterrâneos do jazz e do blues da big apple. Perguntei de onde eram, com um jeito esnobe de quem não ligava realmente, e ela jogou um sorrisinho malicioso junto com um guess it que me desconsertou. American? Ela riu simpaticamente, acenou negativamente com a cabeça dizendo Brasil com um sorriso tropical, que era maior que a linha do Equador, e me devolveu a pergunta. Eu disse que era francês, e ela parecendo surpresa perguntou de que região, ao que eu respondi que era de Paris mesmo, filho do quartier latin. Voltei ao piano prometendo que se ela voltasse eu tocaria uma música brasileira para ela, ela balançou a cabeça como se dissesse sim e gritou um deal enquanto eu me dirigia ao piano. Ela estava de saída, acenou pra mim e desapareceu com sua amiga na multidão de turistas deslumbrados que se apinhavam na sexta à noite, na rue de la huchette. E ela não me prometeu nada, não pareceu ser do tipo que fazia promessas. E muito menos do tipo que as cumpria.
***
Naquela noite Dominic estava sentada na cauda do piano, a casa cheia de gente de todos os lugares do mundo. E então aquela alma sem corpo atravessou a porta outra vez, ainda batom vermelho e cabelos azuis. Eu sorri menos tímido dessa vez, sabendo que se eu falhasse em conseguir sua atenção estava protegido na sombra de Dominic. Ela sorriu abaixando o rosto, e em seguida se virou pra amiga que a acompanhava cochichando alguma coisa. A amiga, cabelos negros, lisos e longos pousou o olhar em mim, sabendo o que queria sempre, e devolveu o cochicho para ela, sem desviar os olhos de mim. Sorri também para ela, era de graça. Não sabia quanto tempo aquilo ia durar - e quando é que a gente sabe? - mas ao ver que pediam drinks entendi que talvez um pouco mais que da última vez. Pediram kir, a cereja descansando no fundo da taça, e ela bebericava elegantemente, parecendo dar beijinhos no copo. Delicada e súbita. Ao fim do drink quem estava embriagado era eu. 
Terminei a canção e disse a Dominic que acabara de entrar na casa uma mulher de cabelo azul brasileira e... antes que eu terminasse minha frase feita de palavras soltas, Dominic sorriu entendendo o que eu queria. This one is for our brazilian friends right there, hello there, girls! E eu acenei para aquela mulher que eu nem sabia o nome, cumprimentando-a como uma velha conhecida, que pareceu estremecer ao som da frase, escondendo o rosto por trás de um pedaço de cabelo solto. Mas que nada, (...) você não vai querer que eu chegue no final
Pediram mais um kir, e eu continuei tocando, dessa vez com algum sucesso. Ela cantarolava comigo e Dominic como se dublasse as canções, e eu a assistia fazendo isso lá do piano e achava graça. Uma graça.  Perguntei o que ela estava achando da noite, em inglês, e ela respondeu em um inglês de sotaque também indecifrável que adorava as músicas que eu acabara de tocar. Perguntei se havia algum pedido musical e ela sorriu dizendo que o que quer que eu tocasse estaria bom. Ainda assim voltei para o piano sem decifrá-la - mas com muito mais vontade de devorá-la. Dominic foi embora me dando uns tapinhas nas costas e me desejando boa sorte, seja lá o que no fim das contas isso significasse.
 Não consegui mais tirar os olhos dela e eu improvisava arranjos longos que não demandavam minha atenção na partitura só pra não ter de desviar o olhar do dela. Ela parou de tomar drinks, mas a amiga continuou e a noite ia longe. Ela ia se apagando conforme a noite, e eu sem saber o que fazer, com a única certeza de que tocar era preciso. Tocar, tocar e tocar. E ela cantava, se encantava e era isso, a noite inteira. Terminei o trabalho e sentei ao bar. T(r)ocamos olhares, ela acenou com a cabeça para mim e eu acenei de volta. Talvez não valesse a pena abordá-la outra vez, talvez fosse  mais digno terminar a noite sozinho do que na companhia de uma frustração. Esperei que ela se denunciasse mais, mas ela não produzia provas contra si mesma. A amiga voltou do banheiro e elas se levantaram. Sabe-se lá se eu a veria de novo. Era sábado-quase-domingo, ainda que ela voltasse eu só a veria na terça feira, que era quando eu tocaria outra vez no piano bar. 
Toda noite no piano bar era igual: sempre a mesma mas nunca igual. E minha única certeza sobre ela é que ela realmente tinha os cabelos azuis. 
***
Oito e meia da noite, terça-feira. E nada, e nada. Agora eu já me perguntava o que eu teria feito de errado, ou se eu jamais a veria outra vez. E também me perguntava se era era realmente era brasileira, se ela realmente estava ali a trabalho, se ela realmente... se ela era real? Continuei tocando, Dominic fazendo todo o show, eu, coadjuvante, me concentrava em dividir o trabalho com o Joe - responsável por abrir a porta para que os clientes entrassem e saíssem - de observar todos que entravam. E eu nem sabia o nome dela. Tentei me concentrar nas teclas, pretas, brancas e vermelhas. Vermelhas como a boca da mulher que acabara de entrar. Era ela de novo, indecifrável. Ela não me via, só via o whisky na prateleira e que ela pedia sempre em doses duplas. hit the road, jack. e eu não conseguia sair do lugar. 
Dominic pediu que eu tocasse Girl From Ipanema, e assim o fiz, e aquela mulher, do outro lado do bar sorria de olhos fechados sussurrando a letra da música para ninguém e para todos ao mesmo tempo como se estivesse hipnotizada, continuei. Enquanto a música ia abaixando até terminar, Dominic continuava ao microfone pra que toda a casa ouvisse "oh and when she passes I smile, but she doesn't see, she doesn't see" ainda que já não fizesse mais parte da música. Eu sorri e acompanhei-a com um "why doesn't she even look at me, Dominic?" ela sorriu ainda cantando sobre os improvisos do meu piano "she just doesn't see, Jean, she must be with her eyes closed. Or maybe she's just sipping one more whisky glass before she can actually see, who knows..." e eu a atingi aquela mulher, do outro lado do bar, com um olhar em cheio. Ela paralisou. Eu tinha acertado em cheio. 
Ela continuou cantando todas as músicas conosco, e em uma das pausas Dominic me perguntou o que estava acontecendo. Aparentemente o número do oferecer uma música não funciona mais, é isso, Jim Fizz? Eu ri nervoso, ela estava certa. Não sei, não consigo ler essa mulher, olha pra ela e me diga se você pode. Dominic  a fitou de longe, e quando percebeu que a mulher viu que ela a olhava acenou. Realmente eu não sei, Jean. Talvez não haja nada pra ler, não? Ou talvez esteja escrito em outra língua, realmente não sei. Você está ficando velho, monsieur R.? Traga seus óculos no próximo show. E deu um meio sorriso, anunciando a saída pra fumar um cigarro enquanto eu me recompunha pro resto do nosso número. Estava tenso pra uma terça-feira. Dominic sabia das coisas, só não sabia como dizê-las, só como canta´-las. 
Cinco minutos D. voltou e lancei as notas de Can't take my eyes off you, e ela sorriu maliciosamente da cauda do piano, assentindo com a cabeça e sabendo o que se seguiria. Oh Jean, você sempre canta quem quer tocar. Dessa vez permaneci de boca calada e falava apenas com os dedos, minhas frases eram melodias escritas em linhas de partitura. Dominic desceu de um pulo da cauda do piano, fazendo aquelas caras burlescas que ela fazia como ninguém, os grandes olhos azuis, os lábios com um batom cor de estou-sem-batom, o cabelo loiro alisado, e foi seguindo pelo bar, cantando frases pra diferentes clientes como se estivesse se declarando, até chegar àquela mulher de quem eu realmente não podia tirar os olhos e trocar as letras pra que todos soubessem que a música era pra ela. You're just too good to be true, can't take off my eyes of your hair and it's blue! -  ela cantava com espanto, constatando isso, e voltou à cauda do piano encerrando a canção dramaticamente: and let him love you, babe, let him love you... e a mulher sorriu pra mim com um sorriso infantil, e pela primeira vez eu pensei que talvez realmente não houvesse enigmas, apenas um livro aberto esperando ser devidamente folheado. Fiquei extasiado com aquilo, o que aquele sorriso me contava - na verdade indagava... quantos anos aquela mulher teria, que vida viveria no Brasil, o que a levara a Paris e o que a arrastava de volta pra casa? 
Dominic foi embora, de novo desejando-me sorte. Seja lá o que isso fosse. Fiz algumas versões novas e me apressei pra terminar o show antes que ela fosse embora. Ela já tinha tomado 3 doses de whisky e eu achei que ela não duraria muito mais. Ela agora só sorria, de olhos fechados, sussurrando as letras das músicas comigo, balançando o corpo levemente. E aplaudia, ainda de olhos fechados. Anunciei a saideira, ela já não tomava mais nada, então me aproximei e ela disse descontraída hey man, congrats for the show, you rock!  Eu agradeci e ofereci um drink, sem jeito. Ela agradeceu já levando o canudo à boca, dando grandes goladas. "Hmmm, I like this, I really like this, thank you, man. But this tequila sunrise is tasting a little different than the usual, have it here" e dirigiu o copo para mim, sorrindo e eu dei uma golada dizendo que aquilo era um Sex on the beach, ao que ela pareceu paralisar "that one drink with... vodka?" e parou subitamente de beber, continuando seu monólogo em um tom cômico para mim, trágico para ela: "oh no, not again... oh why vodka, oh why! Vodka gives me amnesia." E eu ri, tirando o copo da mão dela, ela riu e agradeceu de novo, perguntando meu nome. Jean-Marie, enchanté. Ela fez uma reverência real, dobrando um pouco o joelho e fazendo um gesto com o braço como se me desse passagem. Ela era bem-humorada ou estava nervosa demais pra levar a vida a sério. 
Terminamos o drink e sua amiga retornou, falando da estada em NY no fim do ano passado e revelando que era professora dela na universidade e que a levara a Paris como companhia para as visitas técnicas acadêmicas. Nessa hora olhei de novo para ela e vi que apesar do porre aparente agora ela se recompunha assentindo com a cabeça, imaginei que tipo de pessoas achariam natural uma relação tão íntima e fraternal entre duas mulheres de idades tão diferentes e sem parenteseco, de status tão diferentes. Definitivamente ou o Brasil não era a França ou aquela mulher simplesmente era fascinante demais para seus colegas de vinte-e-poucos anos. Ou os dois? 
O piano bar anunciava sua fechada, e ela anunciava o fim da sua temporada na Europa: I'll be flying back home in 18 hours, can you believe it? E eu sugeri que fossemos tomar mais uns drinks, mesmo sabendo que ela não beberia mais nada. Sua amiga-professora agilizou os trâmites e iniciou o movimento no piano bar, recolhendo os casacos e cachecóis de todos e criando enquetes pra descobrir o que faríamos em seguida e aonde faríamos. Ela, já recomposta, me sugeriu que tomassemos um vinho na casa de alguém, na delas ou na minha. Ofereci minha casa, não fazia ideia de onde elas estavam e não tinha certeza se ela havia entendido que a minha confraternização pretendia ser só com ela. Ela concordou e comunicou à amiga, que foi andando na frente ainda que estivesse seguindo o rumo da minha casa, a qual ela nunca tinha ido. As duas faziam uma dupla improvável e cômica, fazendo piadas em português entre si e rindo risos sinceros que eu invejei. Ela virava, traduzia as piadas que não faziam muito sentido em inglês e dava de ombros "I assure you it's fucking funny in portuguese, i promise" e mudava de assunto me perguntando coisas aleatórias. Entramos num mercado, duas da manhã, ela ficou examinando doces enquanto a amiga interagia com os outros clientes do mercado e eu escolhi um vinho doce, de sobremesa e saímos rumo ao meu studio, atravessando a rua do Pantheon. "Wooooooow John Mary, you live in such a nice parisian spot" eu ri agradecendo o elogio, e quando chegamos ao meu studio ela continuava com seus comentarios aparentemente nonsense que faziam a amiga rir em gargalhadas altas que acordariam todo o quartier latin. Deixei-as no apartamento com a desculpa de buscar um saca-rolhas quando na verdade fui buscar algumas camisinhas. Voltei correndo, mas ainda sem pensar o que fazer com a amiga. Quando cheguei brindamos o meu aniversário que acabara de começar, elas cantaram parabéns em inglês, espanhol, francês e português como se fôssemos velhos amigos celebrando a minha existência que tanto as consolava há anos. A amiga disse que seu vôo sairia mais cedo que o da outra mulher e se despediu de mim, pedindo que a dirigisse até o portão do prédio e mostrasse a direção da Rue de Écoles. Levei-a, e no caminho ela agradeceu o vinho e os bons momentos no piano bar, e ao invés de me desejar boa sorte, como a Dominic fizera nas noites anteriores, ela apenas constatou: "you're a lucky man". E se despediu, acenando longe. E eu ainda não sabia os seus nomes. 
Voltei apressadamente ao studio para encontrar aquele corpo de formas arredondadas abraçando meu violão e fazendo-o gemer. Senti um tesão indescritível, não pelos lábios dela ainda vermelhos que ela mordia enquanto tentava alcançar uma nota mais longe, não pela coxa que se desnudava pelo modo como ela se sentava, não pelos seios que se espremiam contra o violão. Senti tesão pelo movimento das mãos dela, delicados de um lado, intensos do outro. Aos poucos reconheci a música, era Stairway to Heaven e eu permanecia parado, estático, acompanhando o movimento dos dedos dela. Me aproximei lentamente dela e pedi pra que ela me ensinasse a tocar a música. Ela riu enquanto eu a abraçava por trás, tentando me conter, e levou minha mão direita até as cordas do violão junto a sua, e depois, segurando minha mão esquerda, apontou as cordas que faziam o primeiro acorde, compenetrada. Eu não ouvia nada, só acompanhava os lábios dela e meus olhos iam descendo pelo pescoço e indo até o colo onde eu podia ver o soutien preto dela por baixo da blusa semi-transparente. Soltei a mão direita da dela e a repousei sobre sua coxa, fazendo com que ela se virasse para mim em busca de outro tipo de atenção. Repentinamente ela explodiu numa risada gostosa, ingênua, constatando "hahahaha oh Jean" - e pronunciou meu nome em francês perfeito - "you're a just 31 years old professional musician and I am a 22 years old woman who haven't been playing much guitar lately", se dando conta das minhas intenções, e continuou rindo ainda com as mãos no violão, evitando olhar pra mim. Escondeu o rosto com as duas mãos, deixando o violão livre. "You want me... you want me?". Ela parou de rir e virou o rosto para me ver atrás dela. Eu a apertei contra mim, suas costas no meu peito, seu pescoço na minha boca que subia lentamente até sua boca úmida e nervosa com gosto de álcool. E ela se desmanchou como se fosse feita de açúcar nos meus braços, se espalhando até a minha cama. Ela era um doce que eu finalmente devoraria, e eu o instrumento que ela tocaria a noite inteira.
*** 

terça-feira, 30 de julho de 2013

o ano era 2009 e eu definitivamente tinha meu próprio Dean Moriarty, com quem eu começava a enlouquecer um pouco também, um dia de cada vez. M. A. simpatizou com meu jeito ingênuo, desbocado e sentimental demais de vi-ver o mundo ainda em 2008 quando eu tinha 18 anos e - oh my! oh my! - uma vida pela frente. Essa vida que me acreditavam promessa mas que para mim parecia o prenúncio de uma colisão entre ela e eu. Ao ouvir essa máxima de vida pela frente a imagem que invadia meus olhos e inudava meu corpo era de um trem vindo em minha direção, implacável, irrefreável e com vários vagões pra passar por cima de mim, entre mim, sobre mim. E um entorpecimento me abatia subitamente quando eu pensava nisso. E os anos que já tinham passado? Os anos que ficavam atrás de mim iam sendo enterrados e virando promessas, mas promessas de arqueologia. Fósseis que talvez um dia fossem resgatados.
Ah, eu sempre me perdendo em devaneios aparentemente desconexos. M. A. era um cara interessante, tão monótono que era interessante. Angustiado, tão agitadamente angustiado que frequentemente se via paralisado pelos seus dilemas, entre as tradições de conveniencia e seus desejos súbitos e espontâneos, sem planejamento. Ainda lembro a primeira vez que tive algum tipo de contato mais duradouro com ele. Eu ali, 17 anos, caloura na universidade, rabiscando as últimas folhas do meu caderno com pequenas caricaturas. Ele e alguns amigos, todos quase no final do curso, batendo papo no centro acadêmico de psicologia. M. A. tinha longos cabelos lisos, negros como as nossas visões de futuro seriam em alguns anos. Seus olhos eram puxados, bem japonês, todo caricato. Nessa época eu costumava iniciar interações sem contextos específicos, sem parágrafos, sem introduções. "Olha, seu amigo, ele é bem desenhável, tá vendo? Ele é uma caricatura..." e continuei rabiscando. Alguém sugeriu que eu desenhasse ele, oras. Rabisquei aqui e ali, uma dúzia de traços e finalizei o pequeno rascunho de M.A., pra quem eu timidamente entreguei o pedacinho de papel irregularmente rasgado apontando o que tinha feito. "Uaaaau, cara! Olha só que doido... sou eu, olha, olha!" e quando terminou a pequena exibição aos amigos guardou o pedaço de papel na carteira, prometendo grudar na parede de sua casa que eu sequer imaginava onde podia ser. Ele parecia ser tudo que eu queria ser: viva, espontânea e com uma grande pitada de i dont know and i dont care que os longos cabelos negros dele exalavam quando ele passava por mim, sem notar na minha presença inesperadamente discreta. Ele realmente não se importava com nada e nem podia se importar: estava tão ocupado com a monotonia de uma vida desregrada que não podia prestar atenção a nada. e eu de novo me equivocava: ele não era a vida que escorria dos atos espontaneos dele que me comoviam, mas toda a tensão que ele criava entre esse impulso de vida louco e maravilhoso que germinava no interior dele e o impulso de matar essa parte dele que queria viver demais, de calar essa parte dele que queria falar demais, de cegar essa parte dele que via demais, que fervia demais. e isso o tornava uma contradição ambulante das maiores que eu já tinha visto, e eu sentia a fragilidade do ser humano sempre que nos aproximávamos nos nossos íntimos contatos distantes... tanto a fragilidade da humanidade dele quanto da minha, e isso me fazia sentir mais humana, mais viva. mas também cada vez mais ávida pela morte, cada vez mais impulsiva e auto-destrutiva. O que é viver se não um exercício constante de morte? Quanto mais oxigênio o fogo respira, mais intenso ele queima e mais rápido consome tudo ao seu redor até que ele mesmo, vítima da própria tragédia, algoz de si mesmo, se extingue no vácuo que só ele poderia criar. Ahhhh, era uma cilada.
M.A. nasceu no mesmo ano que o irmão mais velho que eu nunca tive. E não foi o irmão mais velho que eu não tive e nem o que tive. Ele simplesmente não foi - e nem ficou. Nunca saberei dizer se me apaixonei por M.A., só posso afirmar que o amei, amei, amei com todos os motivos e sem razão nenhuma. Eu realmente tinha o meu próprio Dean, e lembro como se fosse hoje daqueles dias em que eu naufraguei. Eu estava à deriva mas eu sabia que navegar era preciso - pra onde quer que fosse. Quem poderia condenar meus rodeios quando eu só estava mesmo perdida, sem rumo, sem bússola que me apontasse o norte da vida? Até mesmo o mundo dá voltas - porque eu haveria de fazer diferente?

sábado, 27 de julho de 2013

uma hora e meia.
enquanto eu não podia ir à estrada, resolvi deixar a estrada vir até a mim. sentada em um balcão com formato de lataria de kombi eu viajava sem sair do lugar. entre check ins e check outs eu me via mais só que todos os viajantes que passavam por mim. tudo passava, rápido ou devagar, mas passava por mim deixando rastros infinitos de memórias. e apesar de eu ser presença enquanto passavam, depois eu apagava como se nunca tivesse existido. todos os homens que viajam sozinhos me parecem incrivelmente solitários. ao mesmo tempo que me parecem incrédulos, me parecem crentes demais em toda a humanidade, ou como se quisessem muito acreditar em algo ou em alguém. todo mundo na estrada parece livre demais.
naqueles dias eu sentia um sono descomunal, que me tragava pro bréu dos devaneios que eu não podia controlar, entre sonhos e pequenos delírios noturnos. e a fome que me consumia, e o meu recente ódio pela minha própria figura gorda, que até alguns dias não tinha nada de mais. os quilos que mais pesavam eram aqueles da minha imaginação...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

senti medo pela primeira vez em tempos, como naquele dia em buenos aires. eu não era ninguém e naquele instante eu me dava conta disso. sem direção eu seguia desnorteada, perdida em um lugar em que eu não era ninguém ou nada. só um número em um passaporte estrangeiro, uma mulher latina jovem e de cabelos azul royal que ninguém tinha notado naquela estação de trem onde eu tinha desembarcado.
saí pela porta da frente, seguindo reto, sem um mapa em mãos. o queixo sempre erguido, os olhos semi cerrados. primeiro desci à esquerda passando pelos motoristas de taxi mal encarados que faziam ofertas em francês, e as quais eu recusava com um 'non merci' baixinho pra que ninguém notasse meu sotaque. e fui seguindo, as ruas cada vez mais desertas, a cidade cada vez mais cinza e silenciosa. o horário de almoço era cruel, mais frio que o normal, eu não tinha comida e não sabia pedir comida em francês. ao chegar em um beco vazio resolvi dar uma meia volta buscando pela torre da estação de trem com os olhos, era o meu norte naquele momento. e voltei caminhando tranquilamente como se fosse dali, chegando a uma rua que dava em uma pequena praça comercial de onde se podia ver a estação de frente. ufa. parei por um instante com as mãos nos bolsos do sobretudo fingindo olhar a vitrine quando na verdade só estava absorta em meus pensamentos leves, sonolentos. eram fotos de casamento expostas, uma loja de fotografia. e quando tomava um fôlego, respirando fundo, um homem me abordou em francês. olhei em volta, não havia ninguém na rua além de nós dois. me perguntei se era comigo e ele repetiu o que disse anteriormente. balancei a cabeça negativamente e juntei um 'je ne parlais pas français' dando de ombros e me virando de volta pra vitrine.
ele não era feio. mas naquele momento pensei que poderia ser um batedor de carteira, um estuprador, um sequestrador. um traficante de órgãos. ou de pessoas? ele tentou então em espanhol. hablas? e eu arranhei algumas palavras fingindo não falar espanhol, e ele tentou então o inglês. eu sorri amarelo, examinei as mãos dele e ele carregava um copo de café daqueles de máquina. segurei forte as alças da minha mochila e pensei em correr, mas vi a subida até a estação de aproximadamente um quilometro. ele era maior, mais magro, mais forte e não carregava uma mochila com 7 kg de roupas e outras coisas. descartei essa possibilidade rapidamente. seria o meu fim? ele obviamente estava me cantando, e eu fingia não entender. ele disse ser egípcio e perguntou o que eu fazia em limoges em fevereiro sozinha. respirei fundo, não dava pra correr mas dava pra andar em círculos, e isso eu fazia muito bem. eu então disse que eu não podia conversar muito porque tinha de voltar a estação de trem pra esperar meu namorado que estava chegando pra me buscar. ele se propos a me acompanhar já me acompanhando. a subida parecia mais íngrime do que era, e eu escapava das investidas verbais dele. ele insistia. ao ver a porta da estação cada vez mais perto eu sentia alívio, e já não prestava mais atenção no que ele dizia. e pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança?
eu voltava a mim, no sentido mais literal: voltava ao meu estado em mim mesmado de sempre, isolada do mundo exterior, vivendo de devaneio em devaneio. sentei numa mesa, ele sentou do meu lado. ele me perguntou se podia me ver em paris já que ele também estaria lá em alguns dias. eu disse que não, que meu namorado não gostaria. ele concordou e se despediu em inglês. eu acenei com a cabeça, com um sorriso francês. eu o vi se afastar e senti a paz retornando a mim com as doses de alívio. suspiro. eu não tinha pra quem pedir socorro ali, e notei que ainda que estivesse em outro contexto, outro tempo ,outra situação, eu nunca tinha a quem pedir socorro. ninguém estava ouvindo. suspiro. só os meus próprios devaneios, e as minhas mentiras... como o namorado que acabara de inventar. uma mentira que me salvou a vida.
pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança? a vida começara ali, numa estação de trem no interior da frança...