terça-feira, 24 de novembro de 2009

é preciso...

quando a noite cai, às vezes a gente tem que fazer um esforço pra não deixar ela se espatifar no chão. é preciso ombros fortes.

é preciso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

crônico

a vida quando cabe numa garrafa de bebida e o futuro no fundo de um copo ou no último pedaço de doce tem sentido pros outros e é sentida por quem a vive. etica e moralmente questionável, mas ótima companhia. os esmaltes, as tintas, os cremes hidratantes... ah, não há amaciante que amoleça coração endurecido. e nem maquiagem suficiente pra colorir uma vida assim.

o esforço é inútil: nas palavras não cabem a angustia, a solidão, a sensação iminente de morte simbólica - eu sempre fui uma boa assassina. ele certamente me recriminaria, por convenção social, mas depois gargalharia deliciosamente: a vida tem dessas coisas, mas você tem muito mais. eu só quero que tu seja feliz, guria.

crônico, ele anunciou. as resoluções desesperadas são assim na maioria das vezes, pensei. o ônibus já ia longe, a hora já ia longe, a maioria das coisas já ia longe demais. existia um mundo inteiro ao redor, mas a velha história da redoma de vidro ao redor da vela fazia mais sentido que nunca: na falta de oxigênio a gente sempre pode incentivar a combustão com álcool.

e mesmo o relógio andou mais devagar, contemplando que ela atravessara o tempo ao sair dos limites do plano piloto outra vez. sufoquei o sentimento outra vez, dessa vez sem promover morte alguma. o que não mata, certamente fortalece. e foi o que aconteceu quando o relógio marcou meia-noite outra vez. de novo e de novo. e eu permaneci contida, sufocando a chama pela falta de oxigênio.

a contradição da permanência me contemplou: ficar é impossível, partir inevitável. e se calar é preciso na maioria das vezes pra que o mundo seja um lugar melhor. o amor deixou de ser um sentimento universal pra ser no máximo intracidade, intraclasse, intraqualquercoisa. alguém perguntou porque calar e eu pensei que o motor do ônibus nunca cessa na presença dos passageiros. e nem as folhas deixam de cair porque os bons tempos chegaram. no fim é tudo questão de tempo.

domingo, 22 de novembro de 2009

dois meses

é incondicional ou trivial
mas é minha sugestão:
quando eu me sentir abatida
ou insegura
se eu me expor demais e te disser talvez
me faça sorrir em um caixa 24 horas
em uma sexta à noite.

sábado, 21 de novembro de 2009

essencialmente

trago palavras como quem traga um cigarro, na ânsia de viver um dia mais tomando um gole de veneno. viver no agora entre pintar as unhas ou trocar as cores do cabelo como medida paleativa para toda forma de desespero ou solidão enquanto as soluções definitivas são só utopia: é meta, filosofia, método e estilo de vida. opção.

deixam-me à beira e à flor, como quem não encontra mais lugar algum para descartar o que me tornei. é só um bandaid na queimadura de 3º grau, é só mais uma maneira de sobreviver. opção. os anos passam. outras coisas não, irremediáveis.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

81: uma péssima idéia

o lirismo falhava como se da caneta acabasse a tinta. o sono bateu forte na sua cara, pesou nos seus ombros - infalível. o peso pesou em seus ombros como reflexo de todas suas últimas falhas com gostinho de batatas fritas. ela leu e percorreu a linha, como se visse o seu fim, iminente:

é que cada um bem sabe das dores e das delícias de ser quem se é. coisa da cultura ocidental contemporânea... sigmund freud, analyse this.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

one in a million


e se não fosse amor, que seria então? que seria dos fins de noite, dos toques de celular, dos outros toques que o tato bem conhece? antes de tudo a expressão de homem com a fragilidade de um menino que já bem vi, as mãos firmes, o cheirinho dele. às vezes as coisas acontecem bem ao contrário, mas a gente sabe que vez ou outra o passado é uma montanha de lixo.

o fato é que quando uma estrela cadente passa, mesmo quem não é supersticioso acaba fazendo um desejo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sábados

o relógio anunciou as 8
o fim da aula anunciou o meio-dia
mesmo que ainda fosse 9
a carona tomou o lugar do ônibus
o sanduíche o lugar do almoço
as roupas novas me abraçaram
e eu abracei minha carteira
a diferença ficou de lado
e da sexta fez-se um novo tipo de sábado.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ready or not, here we go

o som da guitarra se fez sofrível ao toque das 11 da noite, sem nenhuma das tarefas do dia seguinte completas - ainda. o livro ficou aberto no chão, a cabeça no espaço, as mãos no ar gesticulando. conclui que nunca estaria pronta pra nada, mas que fazer era a melhor maneira de se preparar.

os protocolos se estenderam na mochila, estruturas desconhecidas são melhores que estrutura nenhuma.

domingo, 8 de novembro de 2009

sobre meninos e jujubas

"i've lied tonight just wishing you were by my side"



hoje não canto o medo
nem meu talento pra gerenciar melancolia
nas curvas mais perigosas em que minha língua já correu
mora meu sorriso favorito


tuas portas quando abrem pela manhã
tem cheiro de ontem com gostinho de futuro
os teus braços quando saem do balanço e reabrem
tem sabor de hortelã, ahh (refrescante)


trago papéis e canetas
minha angustia não cabe em mim
mas meu corpo cabe direitinho nos teus braços
e meu amor em teus beijos.

sábado, 7 de novembro de 2009

A.

na tênue linha entre o vício e a virtude é muito mais fácil tombar pro esquerdo.

a risada esteve rígida por pelo menos 15 minutos, as mãos amarradas mas não mais que a cara, os olhos que eu conhecia tão bem. além de qualquer compreensão, pensei que entendimento não traria conforto mais que simpatia, empatia, sei lá. um passo em falso e a gente cai da escada, eu pensei em dizer a ela pra que assim talvez ela se mantesse mais firme que antes, mas comecei a questionar se firmeza era tão positivo. maleabilidade era coisa de fernanda, era defeito e qualidade de fernanda. suspirei. resolvi não dizer nada. provavelmente eu falaria demais na intenção de que ela não entendesse, só pra vida ser mais vida mesmo... pensei nos lados também: não julgaria por bom ou ruim, mas como se todas as coisas fossem poliedros, cheias de lados - talvez infinitos. desafiei o silêncio outra vez com as mãos, colocando as palavras que nunca seriam faladas num papel.

apesar da distância, eu certamente me senti conectada a ela de alguma forma: ninguém sabe dos deleites e das dores de ser dessa forma.

tentei me desfazer mais em risos que qualquer outra coisa. falhei miseravelmente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

sessão da tarde

quando os corredores estão parados e os sofás vazios. chove lá fora, molha aqui dentro - sem guarda-chuva ou sombrero, andale!

e ela abriu a porta. sorri.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

último trem do teu não-riso

antes que o sol viajasse pro outro lado do mundo e só lhes restasse o escuro ele colocou em suas mãos os livros dela e suas músicas prediletas, tirando das mãozinhas de menina as correntes amarradas ás responsabilidades de cultivar vidas alheias: vai que tu pode ir longe, guria. certamente ele sustentava a crença de que se ela usasse seu talento de pintar vidas consigo mesma ela estaria a salvo. os dedos pesariam mais se ele tirasse a própria vida, ela pensou antes de dizer mais alguma coisa ou apagar mais um número de telefone. as conversas correram soltas junto com o vento seco da noite, algo entre setembro e outubro mas ainda indefinido, a única certeza de que estavam ainda e então estagnados no trânsito de brasília. viajantes e nada mais.

ele se colocou em uma redoma dessa vez, afastando-se do toque dela, os olhos mortos e pesando também. mais que o silêncio até. bonito vestido, eu gosto. ela se surpreendeu: eu também. as palavras saíam difícil por entre os dentes e garganta vazia, como se ela perdesse o dom de destruir os pedacinhos de silêncio. ele achou que ela talvez tivesse perdido o dom da mentira que ele sempre achou bonito como um vestido lilás em uma garota não tão-bonita. os carros eram as coisas de sempre, as filas as de sempre, os produtos os de sempre, os assuntos também, mas eles eram mercadoria nova na lista de consumo do mundo inteiro: hmm, interessante... naquela noite os risos foram todos milimetricamente calculados e metódicos, ele lembrou que ela era cética, controladora e descontrolada... e deu a ela de presente as promessas mais falaciosas, do jeito que ela sempre gostou.

ela pontuou o período em que ele estava entrelinhado antes que precisasse usar óculos pela vista cansada de procurar o que nunca esteve escrito. ironicamente naquela noite de despedida eles caíram na gargalhada e pela segunda vez ele lhe mostrou os dentes: não agradaram a ela, mas eram novos.

os sinais se abriram e (se) tocaram. próxima parada: (insira sua esperança aqui).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

nem choro nem vela


"e então por não encontrar nenhuma maneira digna de viver, decidi procurar toda e qualquer maneira de morte", ela esboçou seu último sorriso entre os dentes separados.

ela se situou dentro do cômodo 2x2, em pé na cama enquanto ela ainda não era convidativa outra vez, olhando pela janelinha. a rua estava domingo, vazia. um pé na cama e o outro de volta à realidade, ela pensou.

ele a abraçou por trás. ei, não é engraçado como às vezes a gente tem que olhar pra fora pra ver a realidade? ela disse ainda olhando o lado de fora. porque? ele perguntou de volta. porque voce é bom demais pra ser verdade, ela respondeu ainda olhando pra fora. inevitavelmente domingo. eu sou real, ele disse.


e eles caíram na cama depois de cair na real.

domingo, 1 de novembro de 2009

dormir ou não dormir



correu entre os dedos os cabelos, a pele, mas principalmente as palavras. deixou-se correr entre as veias as lembranças de algum tempo distante em que o corujão era definitivamente inédito e divertido, e o café ainda era doce. não há mágica alguma no poder de escrever as dores mais banais nas linhas de expressão dos rostos cansados, mas definitivamente deve haver alguma na força das mãos que se desmancham em versos e prosas; alguém deixou escapar por entre os lábios. particularmente não acredito em mágica, mas definitivamente acredito no poder das obrigações de tirarem nosso sono.