sábado, 27 de maio de 2017

all that jazz

estou espremida no banco de trás de um civic, meio-dia de uma sexta-feira, o jazz parou por alguns instantes, e a cidade... que engarrafamento. tudo é engarrafamento, o carro espremido entre todos os outros carros, e eu espremida entre a porta, um estepe e um baixo. é isso, é meio-dia em nova iorque e a primavera decidiu fazer sua entrada triunfal com um calor inesperado naquela tarde depois de dias frios e cinzentos. eu que virei a noite entrei nesse evento diurno sem saber o código de vestimenta e passava calor de botas e vestido longo de veludo. matt também não estava vestido adequadamente pra chegada da primavera, e nem pra uma viagem de carro de algumas horas. se eu usava um vestido longo e decotado e vermelho de veludo molhado em plena luz de um dia quente, ele usava terno, gravata e sapatos. a gravata que eu escolhi cuidadosamente direto do seu saco de supermercado cheio de gravatas emboladas e com nós mal feitos. "essa aqui é muito séria...", "essa aqui não...", "ah, essa aqui marrom se voce quer parecer descolado mas não muito", "essa vermelha se voce quiser ousar". ele considerou tudo com parcimônia e optou pela marrom. meia hora depois, dentro do carro com ele na direção, eu derretia igual um quadro do salvador dali contra a porta olhando pros piers do chelsea ficando pelo caminho, o jazz rolando no toca-disco, conversas aéreas e significativas com matt enquanto ele pacientemente contemplava o engarrafamento. eu nao tinha ideia porque mas eu sentia que estava aonde deveria estar no momento em que deveria estar, sem maquiagem, nua nua, no meu lugar: um engarrafamento enorme e típico de uma das primeiras sextas ensolaradas em ny quando a primavera falhou miseravelmente por um mês. matt gentilmente tinha se oferecido pra me levar de volta, eu tinha suspeitas de que ele se atrasaria pro concerto que ele ia tocar em outro estado por fazer isso e aceitei mesmo assim. embora eu soubesse que o metrô seria mais rápido eu aceitei mesmo assim. existia algo especial na presença contemplativa e silenciosa do matt, um rosto triste e cansado mas sempre exultante. triunfante. cansado, mas vitorioso. o rosto do matt, e todo seu corpo, carregavam o peso de um baixo invisível o tempo todo, mas também a alegria das melodias possíveis. e eu senti quase que imediatamente admiração e respeito por aquela figura, aqueles sentimentos que não precisam de palavra alguma pra dizer tudo. o silencio entre nos era preenchido pelo jazz, e o calor, e o meu rosto sem maquiagem na luz daquele dia me davam mesmo os 22 anos que todo mundo pensava. mas eu tinha 27 e um monte de bagagens emocionais mais pesadas que o baixo do matt que me espremia contra a porta junto do estepe. me perguntei porque eu carregava tanto ressentimento, e enfim, a vida sempre nos surpreende mesmo, porque viver com tantos manuais de instrução como sobre se decepcionar? é, "que engarrafamento, não?", eu digo numa small talk, e todo mundo sabe que small talk é o recurso de defesa que a gente usa quando todo o resto falha. "it is what it is", matt diz, concentrado no trânsito parado. ah, a small talk falhou no seu propósito. ele tinha me acertado em cheio. a coisa é o que é. e nada além disso. mas também nada menos. eu repeti a frase, uhum, balançando a cabeça. não podíamos nos olhar nos olhos, olhei pra fora, olhei pra dentro. matt me contou ao passar por um dos piers que tinha saído dali pra um cruzeiro com sua mãe e o irmão pra comemorar o aniversário de 60 anos dela ano passado. ele tinha um irmão mais velho, assim como eu, e falamos das rivalidades e posições de cada filho. uhum uhum, matt respondia na direção, as vezes com alguma surpresa, as vezes sabendo exatamente do que eu falava. o transito melhorou um pouco quando chegamos na 34 pelo lado oeste, matt entrou com o carro rumo a leste, o rio hudson ficou pra trás com seus piers e partidas e histórias, passamos por baixo do highline, as obras, os turistas, os trabalhadores. e matt e eu tão perto mas longe de tudo isso. eu de férias a deriva em dois continentes, matt músico de profissão. iniciei os agradecimentos, gratidão pela(s) gentileza(s) espontâneas e gratuitas pela mera simpatia entre dois anjos que caíram de passeio na terra às vezes árida demais pra que a gente não vire pó de uma vez só. matt, como tinha feito nos últimos dois dias, abaixou a cabeça e a balançou dizendo que tinha sido um prazer, e o jeito como ele sacudia a cabeça e olhava para baixo me fazia sorrir embora eu quisesse conter o riso. existia algo muito especial naquele baixista de jazz de 26 anos, algo genuíno, mas tão genuíno e espontâneo, que me fazia questionar se a vida era mesmo um teatro. não era possível. mas bom, se fosse, devia ser um teatro de improviso e aquele menino do jazz sabia o que fazer o tempo todo, e só o sabia porque no fundo ele não esperava nada. e seguia pronto pra improvisar a qualquer tom.
it is what it is.
subimos pela 10th avenue, matt virou na 57th street em direção a 9th av. e, entre um sinal fechado e outro, fez uma manobra cortando toda a rua pra fazer uma volta pro lado oeste da cidade. alguma musica tocando, a cidade fervendo, o onibus vindo pra parar no ponto. saí do carro com um salto pulando no meio da rua, carros indo e vindo, matt saiu da direção e, segurando meu ombro, me beijou com a naturalidade de amantes mais antigos que os engarrafamentos da cidade e com a rapidez dos pedestres passando. se cuida, ele disse entrando no carro. acenei enquanto atravessava a rua correndo e desejei uma boa viagem e um bom concerto. ele sacudiu a cabeça afirmativamente aceitando minhas recomendações em forma de desejos. e o carro sumiu no turbilhão de milhões de carros rumo ao oeste, todo mundo indo embora de nova iorque, e a cidade ficando sem parar. não olhei pra trás. na calçada, já do outro lado, caminhando com meu vestido de festa no meio de uma multidão de roupa casual e veraneica, não me reconheci no reflexo de uma das vidraças a caminho do hostel. eu tinha um sorriso enorme estampado no rosto, e eu parecia tão jovem, um frescor e uma leveza que eu não via há anos. porque que eu tinha que complicar a vida toda quando it is what it is? não tem nada além disso, e muito satisfeita com o que era e não com o que poderia ser ou o que tinha sido, eu segui rumo ao sul pensando que a vida não podia ficar melhor que aquilo. "não fica melhor que isso, cara, não fica"... disse pra mim mesma como promessa e como esperança. tudo o que eu sabia do matt era o primeiro nome, sua paixão pela música, seus sentimentos do mundo. e eu precisava de mais o que?é o que é. entrei no hostel, algumas pessoas indo e vindo, tantas línguas e nenhuma como a minha. mandei mensagens pra amigas contando sobre a minha nova epifania de que a coisa é como é e nada mais, como quem descobriu a grande verdade universal, a resposta de todas as questões vivas e mortas. cara, a coisa é como é, eu ia usar isso pra tudo, cê pode crer. tomei outro banho cheia de planos, minhas últimas 36 horas na cidade adiante e muito mais que 36 desejos a realizar, mas a cidade de nova iorque infinita me afrontava com a mais deliciosa das impotências: a da escolha. renúncias premiadas, de tudo que eu deixaria pra trás, eu ganhava sei lá mais quantas coisas adiante. a cidade era muito generosa comigo. sempre foi. e enquanto a água levava os restos das minhas preocupações e eu pensava em nada, absolutamente nada, uma perfeita meditação, eu nem sabia mais se era eu ou a água escorrendo pelo ralo lentamente. eu ainda tinha uma mala pra fazer e um monte de coisas pra comprar pra levar pra casa, mas o sol daquela tarde, a promessa de um dia de primavera quase verão em abril ainda me seduziu e eu deixei tudo de lado. como nos meus 24 anos no mês de maio, o sol, os sorrisos e as esperanças dos que iam e dos que ficavam me envolveram. coloquei o vestido primaveril que comprei em londres porque era lindo e muito barato e tinha cara de sol, e eu sentia falta das flores e do calor, de sentir minha pele sendo beijada pela luz e refletindo tudo ao meu redor. uma alça estourou quando suspirei mais fundo. costurei a alça partida. a outra estourou. paciência, coloquei o vestido de volta na mochila prometendo a ele os verões de quatro estações de brasília e coloquei outro vestido,com cara de sol mas não muito. fui rumo ao oeste e, de repente, fui tomada pelo desejo de comer morangos coberto de chocolate que só vendiam na 5th av. caminhei até lá, não encontrei os morangos, comprei um bolinho vermelho cheio de creme no lugar, atravessei a rua procurando mais morangos sem sucesso. e de repente, estranho,a catedral surgiu na minha frente, enorme, magnífica. torres góticas brancas e cinzentas contra o céu azul do fim de abril, resistindo em meio aos arranhas ceu. eu parei no meio da calçada sem acreditar, a catedral st patrick sempre esteve ali e quantas vezes eu passei por ela, e quantas vezes eu entrei e sentei e rezei um pouco, acendi velas, enfim, quantas vezes. mas eu me surpreendi e algo me puxou até ela, e de repente eu percebo que resisto mas a lágrima cai mesmo assim, eu sou tomada de uma emoção inexplicável e que na verdade eu sei a explicação mas prefiro curtir o momento da emoção pura e original, sem filtros. dentro da igreja os vitrais, a luz inunda tudo de cores loucas que combinam entre si em um sinal pra me passar alguma mensagem, o mundo quer me dizer algo há tempos, a vida quer me dizer algo há tempos, e eu sigo ignorando todas as mensagens, desligo as notificações do meu telefone achando que isso vai me proteger do mundo e das suas mensagens loucas e necessárias que as vezes nao quero ouvir. em 2014, quando entrei nessa igreja pela primeira vez, ela estava toda em reforma. restore your heart, os cartazes diziam. e eu sabia, não pude ignorar naquele momento, que eu precisava restaurar o meu. e três anos depois eu caminho dentro de uma igreja restaurada, aventuras loucas e decepções, quedas e vôos, mortes e vidas depois, a igreja e meu coração restaurados. com a euforia de um coração pleno e a ansiedade pela possibilidade de novos danos. a manutenção nunca pára. fiz uma oração e saí caminhando rumo ao norte pela 5th av. e pensando que nao poderia ficar melhor que isso.
entrei pela entrada sudeste do parque, e as crianças e os casais, os idosos, os locais e os turistas, misturados e juntos pela curtição do sol, e a luz está magnífica às 3 da tarde, eu tenho planos de atravessar a ponte do brooklyn caminhando antes que o sol se ponha, eu faço planos de espalhar minhas etiquetas de bagagem com poemas de walt whitman pela ponte, eu tenho planos, mas por um momento eu preciso ver o parque e comer meu bolinho tranquilamente, sentir minha pele queimar por alguns instantes, escrever os poemas nas etiquetas, pintar. enquanto procuro um lugar eu ouço mais jazz, não é possível, aonde estava todo esse jazz antes da noite em que entrei pela primeira vez no smalls? e agora é tao natural, como se tudo fosse jazz o tempo todo, tao obvio, e o jazz esteve comigo o tempo todo tambem desde aquelas tardes e noites loucas que antecederam a primeira das minhas muita partidas e que nunca terminaram. o jazz no computador do akira rolando enquanto a gente desmanchava em preguiça e medo do futuro naquela kitnet quente em que ele morava. o jazz enquanto eu escrevia meu anteprojeto pro doutorado, anos depois, naquele café ensolarado de brasília no meio de uma tarde de semana. o jazz do saxofone daquele cara do balcony, que tocava caminhando em volta do balcão. e então em nova iorque eu descubro que ele sempre esteve la mas eu nao. mas agora eu vejo, e eu ouço, e igual uma flauta mágica a música me atrai, eu nao hesito, eu sigo, eu mudo meu caminho pela musica, é o que eu procurei mas nao sabia. e quando vejo a guitarra quase amarela mas não muito, a guitarra amarelo terra, os buracos no lado, é uma guitarra oca! - eu digo pra mim mesma. e abraçado a ela, fazendo cosquinhas nas suas cordas, está esse cara com cabelo anelado e preto, nem longo nem curto, eu não vejo seu rosto mas seu jeito de tocar encurvado, introspectivo e dedicado a descoberta de novas velhas melodias, me traz lembranças de alguma coisa e por um momento eu penso que é o steve, mas quais as chances de esbarrar num guitarrista de jazz que eu conheci no smalls dois dias antes, e que eu encontrei no dia anterior na jam na casa do matt, e que eu encontrei a noite na jam do rue b? tem 8 milhoes de pessoas em nova iorque mas eu mesma já sabia que a gente sempre encontra as que precisa encontrar - ou faz o melhor com as que encontramos. eu me aproximei, sentei em um banco curtindo a música e esperando ele levantar o rosto, e sim, os olhos de quem tá sempre com sono, um sorriso triste, o nariz romano, é o steve com sua guitarra triste triste rasgando melodias felizes em notas tristes. eu sorrio pra mim mesma, 8 milhões de pessoas, cara, 8 milhões... e eu encontro o steve que me fez sentir um senso de compromisso em menos de 30 minutos no canto do smalls com uns papos muito técnicos mas que por baixo me diziam tanta coisa e me sussurravam segredos que o proprio steve nem sabia que tinha - e por isso me consideravam uma mulher louca, porque eu via formas e ouvia vozes que ninguém mais dizia ouvir me contando nas entrelinhas os segredos das pessoas, e no fim era isso mesmo.
mas eu tinha achado o steve, primeiro, muito novo, e depois, muito bonito. foi no dia em que nos conhecemos no smalls e ele me perguntou se eu estava gostando da musica e porque eu estava chorando - era a garganta inflamada. e então ele me elogiou e o rosto dele ficou vermelho de tal forma que eu pude perceber até na meia luz do clube de jazz. e quando steve se juntou a banda tocando e confuso, e olhando pra guitarra como quem pergunta o que tá acontecendo, desacreditado, nem com raiva e nem com medo, descrente, steve desiste de fazer parte do movimento e fica lá com a guitarra pendurada tirando uma nota aqui e outra ali e na verdade nao sei se mais pessoas repararm. eu reparo, e estou olhando pra ele e só pra ele, eu ignoro as estrelas do jazz que todos parecem conhecer menos eu, eu ignoro os outros musicos que foram improvisar, e meus olhos sao do steve naquele momento. ele olha pra mim como quem diz sinto muito e eu dou de ombros simpatica como quem diz que essas coisas acontecem uma hora ou outra, eu nao conheço ele, eu nao sei nada.
e ali está o steve no central park, e eu, e ele toca a música divina que me arrastou até aquele banco no sol, sem sombras por perto. até que ele me vê sentada ali e, descrente, mas dessa vez uma descrença feliz, com cara de quem teve uma surpresa estranha mas boa, ele chama meu nome: fernanda? o steve lembra meu nome difícil demais pra ele pronunciar mas o faz com aquele sotaque americano que me irrita mas que eu adoro. "você tá me seguindo?" e eu respondo assustada que não, do outro lado da calçada, e pergunto rindo se ele nao estaria me seguindo. ele ri e diz que não, claro que não, ele já estava ali há algumas horas. e ficamos nos entreolhando e sabendo o que acontece ali, mas sem saber nada, rindo risos de descrença feliz, a vida nos pregou uma peça. a realidade venceu a imaginação.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

nyc > orlando

nyc te dá tudo. cada bar uma escolha, cada esquina uma renúncia. atravessei o mar do caribe com a garganta inflamada, os olhos inchados, refluxo. me perguntei o que não estava dizendo. li uma vez que a angústia é a fala entupida. igual minha garganta. nada descia e nada subia, só o avião. me perguntei se meu corpo ia resistir a mais uma aventura mal planejada porém não tão espontânea. primeiro brasília - rio. então a imigração no rio. rio - atlanta depois de uma longa espera, dois ibuprofenos e um sal de frutas. chorei no meu assento já dentro do avião, meu corpo, a última fronteira, relutava contra meus impulsos de vida quase sempre mortais. 

consegui finalmente fazer uma refeição. caí no sono, acordei em atlanta. passei correndo pela imigração, mas nenhum sinal dele. embarquei pra nyc concordando com meu corpo. a angustia era a garganta entupida. e eu não sabia que diabo verde limparia o caminho, só sei que dormi até nyc. mais um ibuprofeno. no aeroporto, subindo as escadas com meu corpo todo leve, um torpor esquisito, paz de espírito comprada em pílulas, no fundo eu esperava que ele estivesse lá. mas não estava. nunca vi um inglês mais atrasado. subi as escadas do desembarque e, esbaforido, lá vinha ele descendo as escadas rolantes correndo. eu, apesar de conseguir planejar voltas ao mundo com a tranquilidade de quem vai fazer uma daytrip pra goiânia, me perguntava se meu coração aguentaria mais essa viagem. meu corpo apostou que não. 

nos abraçamos estranhamente. eu estava apática. levo um tempo pra aquecer os motores quando me deparo com situações novas e esquisitas. ele pegou minhas malas, e conversamos desde arte e filosofia grega até subjetividade em freud, lacan e foucault em uma viagem de meia hora de trem de newark a nyc. era quase hora de outro ibuprofeno e o prenúncio da medicação me dava esperanças. na grand central o movimento me deixou zonza, e nós corríamos entre os passageiros, a mochila nas costas, a poluição, a velocidade. mas o que pesava mesmo era tudo o que não dizíamos e o peso dos mal entendidos. preferia cruzar a cidade com minha mochila de 8 quilos nas costas, seria mais leve. 

subimos para o bronx, esperava que um banho fosse me renovar, que alguma mágica aconteceria. apesar de tudo, continuava entupida e me joguei na cama ao seu lado. conversamos sobre mais amenidades pesadas, fiquei em silêncio. sabia que estava me equivocando mas não quis aceitar mais um erro na minha vida. ele fez um carinho com as pontas dos dedos no meu braço, olhei pra ele sem virar a cabeça e sorri. me sentia alienada e distante - do meu corpo, da vida, da realidade - mas o prazer daquele toque que me levava pra terras mais distantes não me fez evitar entrar nesse barco. ele veio por cima de mim sem me tocar, aproximando o rosto do meu lentamente, criando uma tensão imensa que o torpor do meu corpo ignorou. esperei ele me beijar por longos minutos, sem reação mas com muita expectativa. 

ele parecia maluco de desejo e eu, entorpecida, no fundo sabia que também eu estava louca. 

nos dias que se seguiram coisas estranhas aconteceram e eu pouco lembro dos fatos. as sensações entretanto sobrevivem, agora não mais entupidas. as lágrimas sempre brotam quando conto essa história que espreme meu coração igual laranja madura. eu bebo dessas lágrimas. é melhor que ficar com a garganta entupida. são minha dor e minha cura. meu corpo ganhou a aposta. meu coração não aguentou mais aquela viagem. criei bolha nos pés porque fui longe demais, tive uma crise nervosa porque perdi a mim mesma como bagagem extraviada no caminho. ou talvez tenha me deixado pra trás. meus sentimentos, minhas emoções, a minha coragem impressionante de seguir todos os caminhos sozinha custe o preço que custar. nenhuma volta ao mundo é de graça. isso eu já sabia. 

fomos do bronx ao moma, a pé, e eu me sentia incomodada e com a necessidade de me reafirmar a cada quadra. a cada quadro. talvez porque sentia que não pertencia a você ou com você. nós éramos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes. passamos os dias seguintes visitando seminarios de psicanálise e galerias, museus e restaurantes. eu não podia beber e tive que suportar tudo de olhos abertos pela primeira vez. em alguns raros momentos eu senti que aterrizava no meu corpo de novo. meus olhos brilhavam com entusiasmo, eu me permitia não ser coisa alguma e suportava as consequencias de ser eu em um mundo ao qual eu não pertencia. ele permaneceu o tempo todo ao meu lado, às vezes me dando as costas, enquanto eu me desmanchava como castelo de areia na chuva. chuva de verão. como era difícil retornar ao fundo do mar, sozinha, mas com ele ao meu lado. 

na sociedade hispanica de arte me refugiei em uma sala de leitura com um dos mapas mais velhos da américa e vendo todos os caminhos chorei. chorei porque nenhum mapa poderia me guiar de volta pra minha paz de espírito. chorei porque navegava sozinha e às vezes o timão pesava. 

no chelsea conheci uma amiga dele, professora universitária e poeta - não necessariamente nessa ordem. assim que nos sentamos no terraço de sua casa em uma bela vizinhança, ela já sabendo que eu era brasileira, me perguntou se eu também era uma artista. olhei ao redor, no jardim suspenso, eu, ela e ele. não soube responder, eu estava tão distante de mim mesma que não saberia responder meu nome talvez. falei que eu era pesquisadora e ela disse, um pouco desapontada 'ah... em que?' ao que eu respondi 'psicologia do trabalho'. nada mais animador. ele me repreendeu dizendo que eu também pintava. sorri timidamente pensando que ele tinha razão, mas eu não me lembrava mais o caminho pro meu coração e pros meus olhos. eu não lembrava mais como era fazer arte. eu tinha uma lembrança distante. e aquele mundo não me aproximava de mim. ledo engano.

em outros tempos eu teria dito que sim, teria rido e feito piadas sobre mim mesma mas não tem ibuprofeno pras inflamações da alma. 

acordei no dia seguinte, e como quase todas as manhãs, compartilhamos nossos sonhos. me recusei a interpretar os dele. foi assim que comecei as minhas renúncias que nunca cessaram. ele me abraçou ainda na cama e eu beijei seus braços criando estradas invisíveis que me levavam até seu coração. ah, impenetrável. os ingleses são mestres na arte dos castelos de pedra. eu nos de areia, como toda criança carioca que cresceu pelas praias. entretanto, me recusei a cair. resisti, não caí de amores, não caí doente, fiquei naquele balançar que nem uma coisa nem outra. uma tortura pra gente como eu que é dada a exageros e contrastes. oito ou oitentas. 36 é muito difícil pra mim. tive minhas razões íntimas - e desconhecidas até a mim mesma, pra permanecer assim. meu corpo, no fim, era o único detentor de toda a sabedoria milenar das angustias e falas entupidas todas. salve salve. 

parei de tomar ibuprofenos e comecei a ser eu mesma de novo, pouco a pouco. ao invés de um almoço em um restaurante com cardapio organico e alternativo, sugeri comer frango assado no mercado. e um monte de doces depois. ao inves de um filme cult, um jogo de baseball. ao inves de ingressos antecipados, tentar a sorte na porta do estadio. ao inves de comentarios tecnicos e explicações, suposições malucas sobre os espectadores e o jogo. cerveja e cachorro quente. ao inves de um show hipster, uma boate no harlem com musica nigeriana. dançar ate o chão, beber um monte de whisky. ao inves de silencio e distancia no metro, beijos. ao inves de uma manhã tranquila, ressaca e 'quero comer... hmmm, deixa eu consultar meu coração, daqui a pouco te falo'. ver meus amigos, comer comida cubana. 

mas o estrago já estava feito mesmo. ele beijou minha mão no restaurante, beijou a minha testa. no restaurante tocava uma música que dizia i know that good bye means nothing at all come back and let me catch her everytime she falls. eu sabia que ele ia antecipar o adeus como quem antecipa um voo no aeroporto porque chegou cedo demais. eu devia ter ido embora ali e nunca mais olhado pra trás. me equivoquei por motivos já velhos conhecidos. aquilo tudo era só um lembrete, um ponto de referência em mar aberto pra que eu não me perdesse da minha deriva outra vez. as estrelas são sempre pontos fieis, mas no mar tambem tem dias nublados. ou as vezes as nuvens pousam em nossos olhos e corações. eu estava no harlem e precisava encontrar meu caminho de volta pra casa. eu, que conhecia o metro de nyc como poucos turistas, que sempre me orientei bem espacialmente, me perguntava se eu poderia achar o caminho de volta. pra ele, nunca. pra mim, eu ainda tinha minhas dúvidas. 

nos beijamos na lexington avenue aonde eu já sorri tanto. aonde minha amiga elaine e eu nos divertimos tanto entre blocos de neve e ressacas morais, em silencio absoluto. só os sussurros gritados da cidade em midtown. ele beijou minha testa e resistiu a me soltar. continuamos abraçados na rua. me perguntei o que eu acharia se nos visse na rua assim, nesse vai-não-deixa-ir. ele me disse pra me apressar pra não chegar atrasada, e me disse pra take care. ah, conselho atrasado, o estrago já estava feito. 

chorei de midtown até o bronx, e então pelo queens, pelo brooklyn até o aeroporto jfk. chorei de nyc até a north carolina. e então chorei de guarulhos até minas gerais, onde adormeci e só acordei em brasília. meus pés e minha garganta ainda doíam, mas meu coração estava tão partido que essas inflamações eram só cócegas. tirei os curativos que tinha feito em nyc, coloquei os pés descalços no chão da minha casa em brasília. saí e vi minhas amigas, que sem me ouvir dizer uma palavra, entenderam que minha bagagem tinha voltado extraviada dessa viagem. tive minhas razões íntimas - e desconhecidas até a mim mesma, pra permanecer assim. meu corpo, no fim, era o único detentor de toda a sabedoria milenar das angustias e falas entupidas todas. salve salve. 



roma-amor

eu que sempre tive um hábito incomum, desde a infância, de ler revistas e romances de trás pra frente. começando nos classificados, passando pelo horóscopo e passatempos e então as manchetes. acho que na minha infinita sabedoria infantil já sabia que certas notícias só descem depois de esquentar os motores do coração.

decidi ir a roma, amor de trás pra frente.

amarela, bela, velha, infinita. a cidade eterna - foi o que me disseram por lá. pouco me importavam as ruínas, a História com H grande. eu fiquei mesmo preocupada é com a quantidade de luas de mel que foram passadas ali, quantas promessas de eternidade sem perceber que tudo sempre vira ruínas - não menos bonito, mas...

eu tinha um encontro marcado em roma, aquelas coisas que você faz entre um misto de esperança, confusão e culpa. no hostel, esperei meu encontro chegar. tudo sempre vira ruínas. do lado de fora do coliseu tomando um café enquanto meu encontro ia ao banheiro, observei as ruínas das construções e as nossas, dei um sorriso amarelo igual roma. nem eu nem a cidade estávamos ficando mais jovens. mas o que eu podia esperar? era o amor de trás pra frente.

pela janela do café um cara da minha idade sorriu pra mim e seguiu seu caminho. ele voltou e me convidou pra ir com ele, disse que a gente tinha uma aventura marcada com a cidade. perguntei de onde ele era sabendo que nossa aventura também tinha hora pra acabar. ele disse 'dos seus sonhos' e dissipou com a brisa da tarde de roma. nunca mais o vi, mas passei o resto do dia sonhando.

não encontrei o amor em roma, mas aprendi que o que nunca vira ruína - isso eu aprendi com os italianos - é a beleza.

domingo, 10 de abril de 2016

absorta no samba e no suor naquele boteco, dançando de chinelo e o meu vestido de trabalho, duas doses de cachaça. como sempre eu não queria ter saído, tinha dormido pouco na noite anterior, o vôo pro rio tinha sido cansativo e o dia, longo. dentro de mim, os dilemas se multiplicavam. mas eu entrei na roda, e já que eu tinha entrado eu iria sambar. 

existia algo de familiar na atmosfera. as mesas de madeira espalhadas, as instalações clandestinas, a luz quente, o balcão gasto. os ditos populares na parede, e as estatuas de vacas espalhadas. o cheiro de álcool. o samba. uma memoria distante da minha infância na baixada fluminense e as coisas que ninguém nunca viu de mim, mas que resistiam aos anos. minha herança, meu tesouro enterrado nas lembranças e do qual as pessoas ao meu redor hoje só conheciam um brilho distante, dourado. 

minha amiga anunciou a entrada dele e eu, sambando, o vi de relance às minhas costas. no balcão, com um monte de outros caras parecidos pedindo uma cerveja. aquele visual que eu conhecia e distinguia tão bem: bermuda, camisa social com as mangas dobradas, tenis e meias pretas. ah, o bom e velho gringo meets rio look. e eu não me impressionei, nada que você não veja na lapa 24*7. seus 1,90 e pouco, seu cabelo loiro caindo no rosto, desgrenhado, ou seus olhos azuis muito claros, cor de Fontana di Trevi. 

e então eu dancei, e dancei, e me convidaram pra dançar. mas eu estava satisfeita dançando comigo mesma, ainda que dançar com alguém também fosse bom. primeiro, um cara da minha altura que sabia dançar e me conduziu sem dificuldade. depois, um americano que falava portugues e dançava forró com a distância dos nossos paises de origem. agradeci a dança fazendo uma reverencia e me retirei pra sentar ao canto onde minha amiga falava com um professor alemão de literatura e psicanálise. quais eram as chances? 

do outro lado do salão, um cara que eu tinha achado bonito tirava uma menina pra dançar. e flutuando levemente me encantaram, e eu não conseguia desgrudar os olhos deles sorrindo e me perguntando se eu um dia poderia flutuar dessa maneira. no meu coração eu já flutuava. era bom voltar ao rio sem sentir o peso do meu ex-amor me levando para o fundo do mar. e eu sorri de novo pra mim mesma e, ao levantar meu olhar, me deparei com ele me olhando, com um sorriso sem mostrar os dentes. ele olhou pro cara do lado dele e entao pra mim, e o outro cara seguiu me olhando, cochichando algo. 

enquanto minha amiga me apresentava ao professor alemão, ele cruzou o salão, se postando com os amigos a uma curta distância de mim. e quando me virei pra procurar o caminho do banheiro, ele me estendeu a mão perguntando: quieres bailar? o que, francamente, me fez abrir numa gargalhada enquanto eu dizia si, seguro. e então ele elaborou um de onde eres e eu disse de aqui, y do you speak english?e ele riu, aliviado, com um sonoro yes, surpreso. e dançamos, meu rosto enfiado no seu peito suado, suando. rindo e conversando. olhei nos seus olhos e sorri com as coincidencias. 

fomos ao balcão e ele me perguntou o que eu queria, uma dose de cachaça, duas. brindamos e voltamos pro salão, o samba de volta. ele e eu rodopiamos, e de repente eu perdi o senso de orientação espacial. eu nao sabia mais pra que lado era a saida e continuava rodando nos seus braços. e eu muito absorta na minha felicidade de estar com os pés no chão, rodopiando, me contentava com seus braços ao meu redor. órbita. 

e pingando em mim, pouco a pouco, nao sei como, nos entrelaçamos em um beijo. eu na ponta dos pés, os olhos pro alto, e ele suavemente me derrubou com o mais leve toque no rosto. na ponta dos dedos. fechei os olhos, e continuamos dançando. até o calor nos expulsar do salão, até nossos suores virarem um só. 

na porta do boteco, sentados na calcada, conversamos sobre nossas teorias favoritas, nossas compreensões de sujeito. nos beijamos. pegamos um taxi pra humaitá, chegamos em copacabana. em silencio, nos enfiamos embaixo dos lençois nos beijando. sorrateiros. minha amiga dormindo na cama do lado. escapamos para o banheiro, contra a parede de marmore. voltamos pra cama, e o convidei pra dormir. dormimos, e sonhei com uma outra vida. acordei e o mundo era diferente. 

domingo, 27 de março de 2016

three rivers in rio

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
the margins
come tight
our rivers
flow
waves
in the oceans
you provoke me
undertows
you come
& i let go

  *
*  *

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
margins
come tight
oceans
take me high
i sail
you say
i drift
far and away
our rivers
flow
your waves
- provoke me -
undertows
you
come
& i go

  *
*  *

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
margins
come tight
oceans
take me high
i sail
you say
i drift
far and away
your waves
- provoke me -
undertows
you
come
& i flow

domingo, 13 de março de 2016

26

é como se eu voltasse daquela viagem pro paraguay depois de seis anos, aterrisando num avião de volta que nunca tomei. a mochila mais pesada e meu rosto mais magro. mais velho porém menos cansado. meu analista me disse que é preciso sair da ilha pra poder vê-la. que estranho ver a ilha afinal. eu jurava que estava em um continente - mas não são todas as terras nesse planeta grandes ou pequenas ilhas? já não sei...

o fato é que eu entrei naquele avião pra lisboa, eu cruzei aquela linha vermelha no chão do aeroporto que dizia "no turning back after this line" ou algo assim. e sem muita ideia do que fazer, com um roteiro esquisito que levei um mes escolhendo sem me satisfazer nunca, eu coloquei uma mochila e me mandei pra europa com o que me sobrou na poupança depois de um início de crise política e financeira e social e sabe-se-lá mais o que (só o tempo vai dizer, assim como ele também me disse sobre minhas crises e quedas pessoais). me pareceu muito razoável gastar meu dinheiro todo em uma viagem em que eu não sabia nada. na verdade nao pareceu, mas eu senti que sim e fui. não sem resistencia, claro.

em novembro eu acordei com vontade de comer macarrão em roma e perambular pelas suas ruas amarelas. em dezembro eu estava tendo devaneios sobre amsterdam, o museu do van gogh. em janeiro eu pensei que já que eu ia atravessar o atlântico, devia também ir a paris e finalmente visitar o museu d'orsay. e no meu coração e nos meus pensamentos o mundo era um lugar muito pequeno. imenso, impossível de engolir de uma vez só, mas pequeno. uma sensação esquisita que se apoderava do meu corpo todo, de todos os meus sentidos e sentimentos. ao mesmo tempo que eu sabia que estava tudo a alguns voos de distância, também sabia que ele era enorme e impossível de agarrar com as mãos. o mundo. outras coisas também.

o fato é que, já com a passagem comprada e o dinheiro trocado, eu pouco podia fazer pra voltar atrás. com meu coração desejando tão intensamente algo que eu não sabia nomear e que estava a um longo vôo de distância no velho continente já não dava pra voltar atrás. no trabalho, uma paciente tinha me dito que ninguém ali estava ficando mais jovem. e eu fui em busca de sei lá o que. do tempo que eu ainda nem tinha perdido, mas que eu nao queria perder. eu achei que sabia aonde estava, que sabia o que queria, que sabia um monte de coisas. mas eu já não sentia mais nada. apenas um sentimento vago e estranho que eu nem sabia julgar se era bom ou não.

e entao eu embarquei e a mudança de fusos me atordoou. dormi em brasília, acordei em lisboa. almocei sobre a bélgica e fui jantar em amsterdam. um chuvisco leve pela cidade, tão frio, e eu com aquela mochila nas costas sem saber pra que lado ir. eu me senti perdida e pequena, senti que eu falava uma lingua que ninguem entendia, e eu tambem nao entendia a lingua de ninguem. eu me senti confusa. e entao eu me senti no meu lugar. eu nao sabia nada. eu tinha tanto a aprender. e eu queria aprender tanto. e tambem queria tanto aprender...

enquanto eu me lamentava na praça tomando vinho barato e comendo aperitivos de supermercado tambem sentia o vento frio, e o banco molhado sob mim. tambem sentia que aquilo, aquele pouco, era todo meu e so meu. e isso era otimo. voltei andando perdida pelos canais sem encontrar uma viva alma, me sentindo ora fantasma ora tão velha que estava mesmo prestes a me tornar um fantasma. entrei no hostel e fui ao bar tomar uma dose antes de dormir. conheci umas pessoas da minha idade e um pouco mais velhas. bebemos umas cervejas, conversamos sobre os estados unidos e o canadá. todo mundo achava que eu tinha 30 anos, eu mal tinha começado o doutorado e ele já estava me envelhecendo cinco anos? "que horror", eu pensava, enquanto assistia os novos semi conhecidos fumar. o americano chef de cozinha que só trabalhava 4 meses por ano ao redor do mundo flertava comigo, a canadense sumiu com o staff da recepção e um carinha mais novo procurava a erva que tinha acabado de perder. dei boa noite pra todo mundo quando o bar fechou as 4 e fui dormir ignorando as propostas do americano com suas cantadas americanas que eu ja conhecia tao bem.

acordei com uma ressaca estranha misturada com jet lag. senti o peso dos 30 anos que me atribuiram. me arrastei pela cama, rolei, enrolei. nao tinha mais ninguem no dormitorio. tomei meu tempo e me arrumei pra alugar uma bicicleta. eu me perdia até pra ir na esquina. com a bicicleta tudo isso só se amplificou. quanto maior a distancia que eu percorria, mais eu me perdia. mas tambem chegava à conclusao que nao tinha como se perder se você nem sabe pra onde quer ir ou o que quer fazer exatamente. parei num trailer na rua e almocei uma sopa de ervilhas. parei numa padaria e comi uma torta de maçã. tirei umas fotos das coisas que achei bonita. parei nas calçadas pra tomar banho de sol apesar do inverno.

me perdi, já nao sabia aonde estava indo e tambem nao me importava. me vi paralisada em uma esquina sem saber se podia cruzar ou não a rua, de quem era a preferencia. desisti por uns 10 segundos de entender tudo aquilo e respirei fundo parada na bicicleta. desci e fiquei olhando pros lados. um cara de muletas tambem parado na calçada disse alguma coisa e eu tambem ja nao sabia se ele estava falando comigo ou ao telefone ou sozinho. ele disse algo me olhando em holandes e eu respondi com um 'excuse me?' confuso. ele entao repetiu em ingles: finalmente alguem que para nesse caos pra aproveitar o sol no inverno em amsterdam. e eu sorri sem graça dizendo qeu na verdade eu so nao sabia mesmo se podia atravessar a rua. ele entao apertou o fio do seu fone de ouvido e disse em ingles que precisava desligar porque tinha uma turista perdida na esquina. ele me explicou o transito de amsterdam, e eu continuei sem entender muito. o mais importante, ele me disse, era fazer contato visual com os motoristas e pedestres e outros ciclistas. e ir com confiança. alguns minutos de conversa e ele me convidou pra tomar um café ali na esquina mesmo.

eu ria pensando que isso devia ou ser muito comum ou extremamente surreal. é, eu estava tomando café com o cara que eu achei que tava falando comigo mas só estava mesmo ao telefone. o senso de humor holandes me deixava confusa mas me fazia rir com uns segundos de atraso, e eu nunca sabia se ele estava falando serio ou nao, e experimentei um pouco do que as pessoas dizem sentir comigo. ele me convidou pra jantar depois que disse que tinha ido a europa comer e beber. eu topei, e ele me disse que cozinharia pra mim. na sua casa. a noite. tomei um gole do cappuccino, concordei. disse a ele que meus rins eram bons mas meu figado estava um pouco desgastado da noite anterior caso ele tivesse a intenção de na verdade roubar meus órgãos. ele achou graça e me deu o endereço dele e dicas do que fazer enquanto ele ia pra fisioterapia e comprava os ingredientes do jantar.

nos despedimos na calçada com dois beijos no rosto e ele disse, enquanto eu hesitava no terceiro, que na holanda eram sempre dois e que as vezes isso podia causar beijos acidentais. mas que ele nunca se esquivava desses acidentes felizes. segui meu caminho sem entender o que tinha acabado de acontecer, mas muito consciente do tempo que nunca voltaria. o sol batendo nos olhos verde claro dele, o sorriso maluco, as risadas fora de tempo, a maneira como ele disse seu nome e me beijou duas vezes. fui buscar o moinho que ele me recomendou e, obviamente me perdi. de novo. incontavel vez. parei em um bar, tomei uma cerveja antes de seguir pra casa dele na minha bicicleta preta de aluguel.

caspar morava em cima de um coffeeshop muito tradicional em uma rua mais tradicional ainda de amsterdam. quando cheguei lá, muito atrasada e sem poder me comunicar, me dei conta que já nao estava mesmo mais em brasilia. meu celular era so um relogio e um navegador de mapas. olhando em volta vi uma banca de frutas e comprei umas bananas. o cara do coffee shop me chamou e eu, com estranheza, me aproximei. ele perguntou se eu estava ali pra visitar o caspar. balancei a cabeça afirmativamente, e ele me disse que caspar havia dito que uma garota de cabelos crespos castanho acobreado com uns pedaços azuis ia aparecer lá pelas sete. eu ri e confirmei que era eu mesma, apontando o cabelo. ele me mostrou a entrada e subi. caspar estava cozinhando e me recebeu como se fossemos velhos amigos que nao se viam ha tempos. me acomodei enquanto assistia ele terminar os preparativos, animado, falante, alegre. orgulhoso de sua comida tipica holandesa vegetariana. abriu um vinho pra gente enquanto comíamos sentados no chão da sua sala sem mesa. colocou uma musica ambiente e ligou umas luzes indiretas. depois do jantar, me ofereceu um chocolate artesanal de sobremesa e uma massagem.

enquanto caspar desfazia os nós de tensão de dois vôos, varias esperas, muita bicicleta e stresses demais trazidos de brasilia, contei pra ele dos meus dilemas e insights, das meus medos e dos meus sonhos, das minhas paixões e das minhas decepções. contei pra ele das minhas inseguranças e esperanças titubeantes. caspar falou sobre o papel da autoridade nas relaçoes cotidianas, sobre compromisso e confiança. enquanto me abraçava me disse que era dificil de entender, mas eu era muito espontanea. e era isso. de repente eu recuperei minha espontaneidade no apartamento tipicamente amsterdammer de um holandes com cara de maluco. ele falou ao pé do meu ouvido que eu so precisava confiar mais em mim mesma, nao nos outros. muito menos nele.

e assim nos entrelaçamos de uma maneira estranha, indecifrável, lenta e infinita pelo espaço que esse tempo durou. acordamos de manhã com uma amsterdam totalmente diferente. chuvosa, temperamental. fria. mas eu já confiava em mim mesma de novo. com ou sem caspar.

domingo, 26 de julho de 2015

como se a folha que paira no ar deixasse de ser folha só porque o resto do mundo não lhe faz margem. com ose a falta de contato com a árvore fizesse da folha coisa menor. Talvez uma folha sem vida mas ainda assim menos folha?
como se o vácuo já não importasse e apesar da falta dos limites alheios que esbarram em mim me fazendo contrair e sentir minha presença eu agora pudesse ser mesmo que no vacuo. ah, livremente. e aí eu vejo meus proprios limites, por mim, e noa pelos limites alheios. e eu gozo com isso. eu estou satisfeita.