segunda-feira, 29 de setembro de 2008

'e a cidade me ama.'


as madrugadas incessantes, o desgaste emocional. ela estava cansada como nunca esteve, mesmo que há muito tempo não fizesse muita coisa além de observar calmamente a vida passar: e como ela passava rápido, parecia que a atropelava.


tudo que ela desejava era ter feito do talvez um não - ou quem sabe um sim. mas ela começava realmente a pensar que o seu crime seria ao mesmo tempo sua pena.

sobre prisões.

domingo, 28 de setembro de 2008

maníaca.

por algum motivo nada faz sentido: ela estava de luto.

ela semrpe acreditou que havia mais morte na vida que na própria morte: era preciso para ela ser uma assassina, era preciso matar cada dia para viver o próximo, era preciso.

agora ela já estava sozinha mesmo, já não tinha nem lembranças das quais se desfazer. talvez porque ela fosse maníaca e vivesse queimando memórias. agora ela precisava fazer novas memórias.

talvez dessa vez ela tenha ido longe demais: ela tinha matado a única coisa que ela conhecera nos últimos 4 anos. e nunca mais veria o seu rosto de novo. não havia sido uma única bala, havia sido um tiroteio. e ela se arrependera um ou dois dias, ams agora já nao havia mais sentido em se arrepender.

ele tinha ido embora.

sobre alguém que necessita repensar sua vida.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

S2

($$$$)

uma garota contava notas de dinheiro no mezanino. entregou para ele, que apenas dobrou as notas e guardou-as na carteira.

'nooooooooooossa!!!! voce tem 160 reais na sua carteira!!!! cen-to-e-ses-sen-taaaaaaaaa!!!!' ela olhava com uma expressão engraçada, levando as mãos até a boca e arregalando os olhos mal maquiados.

ele confirmou.

'nossa, nossa! voce é rico! vou me casar com voce!!!!' ela arquitetava, mais um de seus delírios juvenis.

(...) antes que ele pudesse falar ela retomou.

'olha, mas quando acabar o dinheiro eu peço o divóricio.' ela esclareceu de uma vez.

ele entao a olhou pela primeira vez:
'ahhh, então vou casar logo...!' e estendeu o braço para ela.

'tá bom então. mas quando acabar o dinheiro...'

é, quando acabar o dinheiro ainda vai haver o absurdo.

diálogos do tipo 'absurdos que ouço todo dia sem os quais não viveria...'

terça-feira, 16 de setembro de 2008

tempo

passatempo-tempopassa
notempoquepassae
nãovaiedespassa
otempoficae
eusempre
v(ô)ou
,
senãome
encantasacia
consomeenãosome
umacançãoemformade
tictactacticémeupassatempo

alguém que está obcecada pelo tempo.

redondamente enganada.


'eu costumava pensar que ele era uma pessoa ruim... os olhos, os gestos, as palavras - ou seria a falta delas? - sempre me levaram a pensar nisso.' ela disse calmamente.

'é, às vezes as pessoas se enganam.' alguém respondeu, ecoando...

'é, não é bom julgar as pessoas, nem sei porque insisto nisso! nem sei!' ela agora brigava consigo mesma.

'...'

(sim, ela estava falando demais de novo)

'eu estava redondamente enganada...!'

'porque redondamente?' o outro agora queria saber e ela tambem.

'hm, não sei, acho que porque o redondo fecha... nao sei, nunca pensei nisso,...'

e mudaram de assunto, mas ela nunca parou de pensar nisso: ela esteve muitas e muitas vezes redondamente enganada, mas ela sempre se sentiu como uma bolha de sabão: podia estar redondamente enganada, mas no momento em que a tocassem ela se desmancharia.

monólogos da bolha assassina.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008


e ela tomou uma dose de coragem e uma dose de amor. ao mesmo tempo. talvez porque a vida estivesse um porre.

semanas.

'que tempo insaciável' ela agora pensava. não havia mais tanta conversa, apenas ela e eles dois ali, sentados no lugar deserto, o dia indo embora e eles ficando, sempre. a lua cheia tentava iluminar aquela escuridão. o mais novo ensaiava um sono no banco ao lado, o outro insinuava um descanso e ela... ah, ela apenas cuidava daquilo tudo que a rodeava. insaciável como tempo.


os comentários eram de que eles estavam assim, juntos demais. pra ela era simples, pra eles mais ainda. era algo que não sabia nomear, algo inominável, mas certamente sentível. até demais. e enquanto acariciava o que estava a seu lado, guardava vigília silenciosa sob o sono do outro, que parecia realmente cansado. aquela semana tinha sido dura demais com eles dois. e o terceiro talvez se aproveitasse da boa vontade da primeira.


ela começava a ver pontos que nunca tinha visto antes, nuances diferentes, ângulos diferentes que somavam sempre 180°: entre dois extremos, o que antes era uma reta - a ligação entre dois pontos - agora se tornara um triângulo. fixo, rígido... mas sobretudo bonito.
'entao vamos tomar um drink, apagar as luzes e fazer um som.'
'vamos.'
revelações geométricas empíricas e teóricas.


sábado, 13 de setembro de 2008

pedras de gelo.

'olha, tem três coisas nessa vida que unem as pessoas.' ela disse enquanto olhava para a rua vazia.

'?' ele continuava a prestar atenção na rua.

'sexo, álcool e rock & roll.' ela completou filosoficamente.

ele riu.

'a intimidade é uma merda!' ele disse.

e ela concordou.

sexta à noite.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

photographs.


' e não sei como, parece um jogo estranho demais: sabe, quanto menos obrigaçoes tenho, menos me dedico a cada uma delas e menos me dedico a mim mesma. e fico em uma correria infindável... e entao me perguntei: oras, a que estou me dedicando? começo a acreditar que estou trabalhando arduamente na arte de me suicidar aos poucquinhos, começo a acreditar que viver é um suicídio, eu, pelo menos, me mato um pouco cada dia, cada dia. porque acredito que no instante em que se nasce, se começa a morrer.'
'lá vem voce falando essas coisas macabras...'
'se for assim, a verdade é macabra. essa é a unica coisa que sei desde que nasci: eu vou morrer. voce sabe algo alem disso?'
'...'
'eu vago pelo mundo, pela vida. e voce? por acaso sabe de onde veio e pra onde vai? e por onde vai? não, não sabe.'
metafisicamente falando de vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

...

e quando a última obrigação vier me visitar...

de alguém que quer férias!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

e quando a beleza acabar.


um brinde a juventude que é saúde e é doença


nos copos que se esbarram o líquido transparente


o aroma alcoólico que exala do viver.



nos olhos um ideal, nas mãos, chamas


no peito amor nenhum


e na boca um cigarro e a boca de uma estranha.



a beleza das faces, o olhar indiferente


o amor que não se sente


é o culto ao belo e inocente



construído e resconstruído na beleza de um olhar


na atração que os une


e no beijo que os separa



mas eu peço que os olhos já não sejam tão exigentes


pois no dia em que a beleza acabar


será o dia em que o amor dará a mão para o sempre.

vai.


'ow. tá tudo acabado.' ela escreveu. rápido, seco, ácido.


'porque? me desculpa!' ele agora era rápido.


'não dá mais, ...' ela agora vacilava. ele estava ali.


'não vamos terminar assim... vamos conversar?' ele tentava, jurava que sim.


e em minutos ele estava ali, a seu lado. e o silencio mais forte que nunca, mais a prova de cotidianos e relatos rotineiros que nunca.


eles estavam ali, sentados a beira do abismo. e ela sabia mais que nunca que ele não sabia voar.

agora ela tem uma arma,


e ela nunca mais será a mesma.


era agosto, havia séculos que eles não se viam: passaram-se amores, ilusões, vidas. e eles se passaram pra trás acima de tudo. apesar do grande esforço era assim que ela tentava exterminá-lo, ela queria vê-lo de longe para ter certeza de que vislumbraria apenas um fantasma.
e lá estava ela, bem-vestida como nunca, arrumada como nunca, os cabelos arrumados descuidadamente, as roupas descontraídas, as milhares de cores que ela carregava em seu sorriso também estavam lá. e do outro lado do ringue estava ele: estranho, não era mais bonito, não era mais agradável olhá-lo, não era mais nada.
e se cruzaram. round 1. mas nada, nenhum golpe atingiu ninguém. cada um seguiu para seu caminho.
e ela o via, e não falava nada... round 2. era a luta dela contra ela mesma, sempre.
round 3. lá estavam eles, no corredor tumultuado, escuro, barulhento que ela tanto conheceu e agora já não mais lhe era familiar. e ele a viu ali, parada em frente a sua sala. e eis que estendeu a mão em sua direção, como se almejasse tocá-la.
ela desviou. olhou nos olhos e dedicou-lhe um levantar de sombrancelhas. ele sorriu sem graça: nunca a vira tão bonita, talvez fosse a meia-luz que a tornasse uma gata parda, talvez fosse o tempo que havia se passado, talvez fossem os ares diferentes... ou talvez fosse a ausência dele que fizera tão bem pra ela. ela realmente está linda, ele certamente pensou.
e conversaram como se nucna tivessem sido íntimos, conversaram como se não se conhecessem (e não se conheciam, pelo menos pessoalmente) e estavam ali, parados um em fretne ao outro, esperando o destino vir.
mas ela se despediu. ela estava indo e ele ficando ali, olhando, se perguntando pra onde ela teria ido, por onde ela teria andado naqueles dias, a quem ela teria dedicado amor senão a ele. e se perguntava ainda mais quem era aquela garota.
'ela foi minha melhor amiga, sabia?' ele retrucou para o amigo.
'hm,... entendo.' o outro parecia entender.
'mas ela foi embora... eu nao entendo porque as pessoas sempre vão embora da minha vida. eu pensei que ela nunca iria.' ele continuava divagando.
'mas ela foi, não foi? e porque foi? ela não te amava?' o outro parecia realmente interessado.
'ela me amava. mas eu não sei... começo a pensar que o problema está em mim' e ele agora fazia algum progresso.
'talvez... qual foi a ultima vez que voce falou com ela?' o outro insistia.
'faz tempo, eu estava namorando a ______... eu já não falava com ela fazia tempo, estava saindo muito e ela longe demais, acho que ela estava estudando. era fim de ano, ela ia embora...' ele explicava contemplando as memórias, aquilo de alguma maneira lhe doía. 'ela sempre me escrevia cartas...'
'e voce respondia?' o outro interrogou-o.
'não, nucna respondi.' ele afirmou.
'por acaso alguma vez voce disse a ela que a amava?' o outro agora entendia bem porque a garota havia ido. mesmo que o amasse.
'não... deveria?' ele perguntavac ingenuamente.
'...' o outro agora entendia demais.
e ao voltar para casa mostrou ao outro a última vez que tivera notícia dela:
'mesmo que faça tempo demais, dedico a voce todas as partes de mim que já morreram e aquelas de que nunca mais tive noticias. como um velho eletrodoméstico abandonado, como uma tevê velha desligada a controle remoto, eu permaneço em standby. mesmo que eu esteja longe demais, ainda estarei ao seu lado. porque é o que se sente, é o que se é. mas espero que voce faça. se ainda assim não fizer, ainda terei meus velhos obituários pra registrar todas minhas mortes, porque em cada separação reside uma morte - e te pergunto 'não haverá mais morte na vida que na própria morte se assim for?' - e se assim for, ainda assim eu amarei.
te vejo na outra vida.'
e ele ao ler começava a entender, as palavras se ligavam: agora estavam nascendo outra vez. mas ela sabia que a morte chegaria, ela sempre chegava. mas dessa vez ela saberia a hora e o local:
ela nunca mais seria uma vítima.
morte e vida amorosa.

domingo, 7 de setembro de 2008

out.

o amor me parece uma tendência de moda: vai e volta. às vezes a moda é estar em preto e branco, às vezes, é o carmim. eu já nem sei, nunca me ative a tendências de moda, eu sempre fiz minha própria tendência. hoje eu resolvi que me cansei de muita coisa.

***

'olha, eu não posso com isso... vai e vem, inda e vinda... acontece tudo rápido demais, é instável demais, descontrolado. e isso me assusta, voce sabe que assusta.' ela agora estava ali, exposta.

'voce quer que eu mude? pode falar, qualquer coisa. eu mudo!' ele respondia, mudar pra ele era banal mas impossível.

'não quero. eu gosto de voce assim: volátil, volúvel, imprevisível. rápido demais, intenso demais. como tomar uma garrafa de café sem açúcar de uma única vez' ela agora se desfazia.

'hm, ok.' ele pareceu concordar.

'sabia que eu passei mal porque tomei café demais?' ela comentou parecendo não ter nexo.

'eu gosto de café.' ele disse,.

'eu tambem...'

***
mas era platônico o desenrolar da situação, era surreal, era irreal: dias sim, dias não. amor sim, amor não. prazer e dor andavam tão entrelaçados que ela começava a ver o rosto de um em outro e já entendia porque precisava ir sem olhar pra trás. nada mudaria. nada.

sábado.


'e então? foi bom pra voce?'
'foi...'
'é, foi bom pra mim.'
sempre era. e naqueles dias já fazia 4 anos. e eles comemoravam em silêncio.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

quiromancia


era tarde, eles já estavam juntos há tempos. e ela continuava falando, mesmo que baixinho e bem próxima a ele, para não atrapalhar os outros que estavam na sala.

'olha, vou te ensinar uma coisa... muito útil.'

'?' ele olhou para ela, que olhava para as suas mãos. ela sempre gostou de mãos, eram partes do corpo que lhe despertavam curiosidade... o formato engraçado, os dedos que queriam ser independentes, as unhas, os anéis... achava tudo muito fantástico.

'me dá sua mão aqui' e apontava para as mãos dele, que apenas obedecia. 'nossa, voce tem mãos de gente nova...' ela agora falava mais baixinho, segurando a mão direita dele.

ele continuava sem entender. eles ali, olhando pra mãos.

enquanto isso ela realizava uma delicada operação de unir as duas mãos, colocando a dele lado a lado com a dela até que as linhas se juntassem, uma dando continuidade a outra.

'tá vendo isso?' e passava levemente o dedo indicador apontando a junção das duas linhas que, mesmo sendo de mãos de pessoas totalmente diferentes se uniam e davam continuidade uma a outra.

'uhum.' ele olhou atentamente a junção...

'isso prova que as nossas vidas se completam' e ela continuava percorrendo o caminho feito pelas linhas.

'é mesmo...' ele agora parecia instigado... não é que ela tinha razão? e como sempre, coçava a barba em busca de uma razão para isso.

ela parecia satisfeita, era um fato muito curioso.

'mas...essa nem é a linha da vida...' ele agora começava a encontrar uma resposta.

'droga... mas pra quem não conhece quiromancia é uma boa cantada...'

'é mesmo...!' ele concordava com ela.

um silêncio agora os separava, mas as mãos permaneciam unidas.

'hm...' ela articulava algo. 'pra que servem as linhas das mãos?' ela devia perguntar a si mesma, mas acabou pensando alto.

'oras, pra ler o futuro!' e ele respondeu simplesmente, sem imaginar que aquilo era a maior verdade que ela já ouvira: de um jeito ou de outro, o futuro estava em suas mãos...

diálogos entre pessoas entediadas em local de trabalho .

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

'nunca fui freud e muito menos sua mãe...


'não posso te mudar e muito menos te amadurecer.' Belinda, Ni Freud ni tu mamá.

eles discutiam agora, com uma frieza e uma intensidade que lembrava uma chuva de verão. ela o queria perto, o queria quieto, o queria homem. mas ele era um menino ainda. e sabia que por mais que ela tentasse ele não amadureceria, e se isso acontecesse ele cairia rápido demais.


'___________, porque? eu entendo, eu estou aqui com voce. e não, eu não vou embora.' ela falava com uma calma que irritava.

'voce não entende. e porque voce quer entender?' ele a agredia sempre.

'é porque eu gosto de voce.' ela agora abaixava o tom de voz mais ainda, parecia discreta, parecia um anti-ela.

'porque?' ele perguntava incisivo, decidido.

'porque eu gosto de voce.' ela não se abatia, ela permanecia firme.

'que droga! porque voce insiste com isso? eu não gosto de voce!' ele agora apunhalava mais fundo.

'nunca pedi pra que voce gostasse de mim, nunca pedi sua atenção. só estou pedindo pra me deixar cuidar de voce. só.' ela era definitivamente decidida, e isso o irritava: ela era como um trem que não pararia por nada.

ele não entendia isso, não entendia como ela se contentava com as migalhas de sua atenção. ele a maltratava dia após dia na esperança de afastá-la, de extingui-la. era mais forte que ele: ele precisava de atenção, precisava dos desenhos, precisava das palavras, precisava da compreensão, precisava dos conselhos, precisava das explicações matemáticas e musicais, precisava de fé. e ela acreditava nele piamente e demosntrava isso.

e ele que nunca amara ninguém não sabia nomear aquilo que a garota de rosto sem mais profundos traços despertava nele. ela não era bonita, mas era engraçada e inteligente. e compreensiva. ele gostava daquilo nela, confiava nela mais que em qualquer outro ser que conhecera. e no cuidado que ela despendia a ele, ele se sentia protegido. e isso o irritava: ela não era bonita.

'voce não é minha mãe.' ele agorava respondia algo que ela sequer tinha perguntado, ele agora recorria a negação.

'e eu nunca disse que era. e muito menos quero ser.' ela agora começava a entender onde ele enevtualmente chegaria. 'tudo bem, vai ser assim:'

'?' ele não entendia.

e ela caminhou sem olhar pra trás e muito menos sem pensar nisso. assim ele queria voltar atrás, queria segurar sua mão outra vez, queria desenhos, queria conselhos, queria explicações, queria intentos de beijos, queria aquilo que ele não sabia nomear ainda e de novo. e se lamentava todos os dias ao passar pelos velhos corredores agora vazios e ao sentar em frente ao lugar em que costumavam brigar. ele a conhecia suficientemente para saber que era orgulhosa demais para voltar e ele sabia que era ignorante na arte de pedir desculpas.

ele sabia que ela o conhecia, que sentia saudades dela, que confiava nela, que precisava dela e que ela nunca precisara dele.

assim pela primeira vez ele soube nomear o que ele sentia por ela:

amor. assim, em letras minúsculas e tímidas mesmo.

porque ele é um poeta e não aprendeu a amar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

...




estranhamente naquele dia ela não o vira por mais de 10 minutos. e sentia sua falta. mas sabia fatalmente que a falta não lhe era permitida, ela sabia que agora deveria ser mais forte que nunca, ela sabia.


, e ele mesmo não querendo a fazia rir como criança. ela o conhecia, sabia dos seus trejeitos, às vezes se flagrava tão desajeitada como ele, procurando coisas no ar que somente eles dois viam.


e assim ela sempre procurava se aproximar dele, ele a fazia sentir a garota mais forte do universo e do anti-universo exatamente porque com ele ela podia ser fraca, ela podia ser somente uma garota.


'eu sou onipotente, onipresente e onisciente, hahahahahaha' ela falava com um falar psicótico, olhava para os lados e ria imitando algo que ele nunca tinha visto.


'o que?' ele se virou para olhar se a fala realmente saira da menininha de cabelos arrumados de maneira a parecerem sempre desajeitados.


'é, eu sou onipotente! onisciente e onipresente. pronto, falei!' ela falava agora olhando para ele, que parecia nunca entender de onde ela tirava aquelas idéias... 'mas não conta pra ninguém.' e ela colocava agora seu longo dedo indicador feito para o piano na frente dos lábios crispados.


'sabe o que você é?' ele a olhava com a expressão de quem queria sorrir mas estava se contendo.


'?' ela inclinou a cabeça para o lado direito como sempre fazia quando queria prestar atenção e demostrar interesse.


'uma garotinha com muita imaginação.'
é, talvez até demais.
e, acreditando que podia voar, ela sempre acabava caindo de cara no chão.
exatamente como o v2 dizia.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

encontre seu caminho.

'e se não achar meu caminho, basta-me crer procurá-lo de coração.'


Honestino Guimarães.



(era setembro, assim como agora, mas não do jeito que é agora. o clima estava seco, as folhas, secas, os espaços começavam a se preencher e no chão do corredor do Instituto Central de Ciências estavam as palavras que mudariam sua vida para sempre: encontre seu caminho.)

, descobriu entao que romances não eram eternos, que beijos não eram doces, que mãos não eram amor e que finais felizes não existiam: simplesmente não havia fim algum. e nenhum fundamento.

naquela tarde ela vagava e divagava nos grandes gramados em tom de amarelo e não se espantou ao se deparar com um deja-vu, parecia tudo tão semelhante, tão previsível e tão predicado sem sujeito algum. era ali seu primeiro beijo em outras bocas, era ali pessoas que eram ela mas estranhamente e , naturalmente, ela já não se reconhecia mais nos velhos olhos de grandes cílios, lá estavam refletidos outros traços, outras histórias, outra palavra: sim.

não havia arrependimento, ela era difícil mesmo. e como se voltasse meses no tempo, como se fosse a rainha do calendário ainda podia ver as cenas passando-lhe:

'e então... o que voce acha?' ele perguntava insistindo em olhá-la direto nos olhos, ele não tiha mais medo de ser congelado.

'ah... não sei, sei lá. eu sou muito nova, sabe? mas as coisas que devem ser simplesmente são...' e ela respondeu evitando olhá-lo nos olhos, evitando congelá-lo. ela queria ser inocente.

'sei...' e ele desistiu.

ainda que se sentisse vítima, ela atacava sempre. ela nunca deixava que soubessem que ela era vulnerável, que ela era nova demais, fraca. ela nunca deixava que percebessem que ela era apenas uma garota. e assim sua maior fortaleza se tornava uma fraqueza, daquelas mais fatais.

e ele fingia, mas sabia profundamente que naquele livro havia um pouco dela, que naquelas gramas havia um pouco dela, que em pequenas músicas havia um pouco dela, que naquelas luvas havia um pouco dela, que naquele tempo havia um pouco dela. sabia profundamente que nele havia muito dela. tudo que lhe restara fora um não, uma luva e lembranças. lembranças muito doces porque ele sabia que assim como a cerveja era amarga, o álcool entorpecedor, assim ela era doce. e talvez por isso ele insistisse tanto em repetir tudo com uma precisão compulsiva: ele queria invocar o tempo para invocá-la junto. mas ela nunca mais ouviria uma única palavra proferida por aqueles lábios.

e ela sentindo que havia ido em outra direção, ela percebendo que tinha seguido um caminho paralelo e concorrente ao dele começava a entender que se nunca de fato encontrasse seu caminho, bastava-lhe saber que havia procurado de coração, e sabia nesse instante que o caminho era mais valioso que qualquer destino.

'... e eram caminhos paralelos, sempre foram. voce tem de entender que se um dia acreditamos que nossos grandes caminhos se cruzariam foi porque estávamos tão longe de agora que tudo foi apenas uma ilusão de óptica: os caminhos eram e sempre serão paralelos. e sempre serão.'

caminhos paralelos se cruzam no horizonte se voce prestar atenção. mas será apenas ilusão.

eu fui seu amor.

'mensurando os dias de verão
apenas concluo que tudo se desfez em cinzas
...
e agora milhares de anos entre nós.

pensando em como as coisas costumavam ser
será que ele ainda lembra daqueles tempos?
e pensa em nós de novo?

eu penso.'

Tangerine, Led Zeppelin.






'me chamavam de menina tangerina' ela soltou ao vento o comentário que foi rapidamente capturado por ele.



'porque?' ele quis saber.



'eu gosto de led zeppelin... eu sei tocar algumas deles no violão...' ela disse, olhando o pontinho já conhecido no vazio.



'hm... quais?' ele perguntou, provavelmente tambem tocava.



'ah, duas ou três. mas o que importa é que eu sei tangerine.' ela respondeu reflexiva.



'é uma boa música.' ele arrematou.



'é, é a que toca no fim de quase famosos, é linda aquela cena. eu já gostava da musica antes do filme... mas acho que encaixou.' ela comentou.



'measuring the summer days...' ele cantarolou.



ela sorriu. ele realmente sabia agradá-la.



(eu pensei que era tangerina porque voce é cheia de 'cascas', então a gente vai bem aos poucos te desarmando... às vezes voce resiste, agride a gente pra ver se a gente desiste, mas eu sei que é só uma proteção natural. e quando a gente chega no que realmente é degustável, percebe que tudo valeu a pena: voce é doce.)

'... a living reflection from a dream...' ela terminou.

ele realmente a agradava.



sobre uma jujuba sabor tangerina.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

(deusa da fertilidade?)

'na Hungria, acredita-se que a semente do girassol cura infertilidade, e sementes colocadas na beira da janela, em uma casa aonde exista uma mulher grávida, o filho será homem.'




não lhe agradavam as rosas porque lhe pareciam perfeitas demais, não lhe agradavam os amores-perfeitos porque não eram tão perfeitos, não lhe agradavam as flores em geral, ela era mais de jujubas mesmo.







e lhe agradavam os girassóis, ela entendia como eles se sentiam: eles eram tão obstinados que beiravam a obsessão, sempre gravitando algo que nunca poderiam alcançar - seriam os girassóis histéricos? talvez, assim como ela.



e era triste. ela tentava fingir que sua vida não era mais que os velhos livros de psicologia, não era mais que as xerox, não era mais que pesquisas experimentais, não era nada além da velha obra que construía seu conhecimento tijolo a tijolo, não era mais. ela fingia de maneira tola, adiando toda e qualquer obrigação imediata, trocando-as por sonos vespertinos e palavras ao vento, por programas triviais de televisão e conversa jogada fora. a bola de neve estava crescendo e agora ela corria o mais rápido que podia para não ser enterrada por ela...



mas mesmo assim ela ainda gostava dos girassóis...

de uma menininha que nunca ganhou flores, muito menos girassóis.