domingo, 23 de junho de 2013

minha poesia se cala a tua ausencia presente, na tua presença ausente, como quem não pode calar o que fala mas sabe que sufoca sempre o que quer dizer. eu vejo teus olhos escuros, vazios, vácuo. como dois buracos negros que me fazem virar pó sempre que os olho diretamente. primeiro viro pedra, como se tu fosse medusa, e então eu viro pó, despedaçando em partículas tão pequenas que se perdem pelo ar. e os seus olhos, sempre os olhos. os olhos vazios como a ausência que você faz questao de fazer presente entre nós dois. o silêncio ecoa enquanto por uma fraçao de segundos ou por uma eternidade eu me pego imaginariamente circulando os teus olhos como quem anda ao redor de um poço muito fundo sem saber se tem água lá no fundo ou se é só um buraco mesmo onde a gente se enfia e tem muito problema pra conseguir retornar à superfície. me pergunto se já habitou algum dia neles alguma vida... sei que voce quis olhar fundo nos meus olhos, mas só porque no brilho deles você conseguia se ver, como narciso quando encontra o espelho pela primeira vez sei que voce encontrou essa imagem fantástica de você no brilho dos meus olhos castanhos quase negros que ja viram coisas que minha boca nao pode testemunhar. nao produzo provas contra mim.
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enquanto voce vinha em minha direção eu fingi que não o vi e desviei o olhar pra baixo como eu costumava fazer sempre que eu me sentia constrangida. sei que voce fez o mesmo. enquanto eu arrumava minhas coisas na pasta vi que voce fazia hora, e isso acalentou meu coração. o pensamento que isso disparou na minha cabeça era de que voce ainda me queria a despeito de tudo e de todos. fiz questao de desfazer esse auto-engano sustentado por provas muito questionaveis. voce disse tchau pra todos que ficaram, e eu nao conseguia dirigir meu olhar a voce, extremamente envergonhada dos meus desejos, e provavelmente mais ainda dos seus por mim. e de desejar que voce me desejasse de tal maneira.
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naquele dia voce me disse que se lembrava de mim comprando um violão, com um vestido longo e estampado, com os cabelos azuis. eu ri desconcertada porque apesar de a loja ser pequena não lembro de ter te visto lá. eu era péssima pra lembrar de rostos, e eu me sentia mal por não lembrar do seu, que eu julguei tão bonito enquanto você me contava isso. naquele momento não notei que você provavelmente era um par ou dois de anos mais novo que eu e que você ainda tinha espinhas nascendo aqui e ali, e que a barba mal crescia. apenas sorri desconcertada, nervosa. e desatei a falar, coisa que eu faço quando fico ansiosa demais. voce se despediu de longe, eu apenas acenei sorrindo sem mostrar os dentes.
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quando entrei na sala voce estava diferente, como se pela primeira vez seus olhos brilhassem tanto que pegavam fogo. um fogo que eu nunca tinha visto nos seus olhos sem vida, mortos, estáticos. seus olhos continuaram pegando fogo durante toda a aula, e eu tive medo que aquilo me consumisse. no fim da aula voce perguntou se eu queria um sorvete. como se soubesse que eu sou facilmente corrompível por doces. aceitei constrangida e enquanto dava as primeiras colheradas no sorvete corri até voce sorrindo e dizendo obrigada. naquela tarde, enquanto eu lia sentada em um sofá no patio senti que seus olhos estavam colados em mim tentnado decifrar o que eu pensava enquanto lia aquele volume tao bonito de luto e melancolia qeu eu tinha comprado na semana anterior. o que eu poderia estar pensando enquanto lia luto e melancolia do freud com um meio sorriso no rosto?
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enquanto eu caminhava pelo salão vi voce ali parado, como se esperasse algo acontecer, algo extraordinario. eu me senti ambivalente: queria que voce me visse mas queria me esconder de voce. escapei em todas as vezes. mais tarde, inevitavelmente, enqaunto eu dançava com meus amigos o seu amigo se aproximou de mim, e eu o fiz rir. ele naturalmente tocou meu ombro dizendo que eu era uma pessoa muito engraçada. voce tambem riu, mas discreto, e disse depois mais baixo, se curvando pra se aproximar do meu ouvido que voce tambem me achava muito engraçada. todos interagiam, e eu tentava me engajar naquilo mas sempre me vendo de longe, contando os passos, pensando que queria ficar do teu lado mas que não podia ficar perto demais. na primeira oportunidade me aproximei de voce mas mantive uma distancia de segurança. que voce nao respeitou, me tocando sempre que podia pra esclarecer algo que eu nao havia ouvido bem entre as batidas altas de musica. ali estavamos nos dois, parados no meio da pista de dança conversando como se estivessemos em um café ou em um corredor da universidade. durante mais de duas horas. volta e meia alguem questionava porque nao estavamos dançando, apenas franziamos os ombros como quem responde 'não sei mas nao me importo'. eu estava ali, sem me vigiar, sem contar os passos. eu e eu éramos uma de novo. e pouco antes de eu ir embora, me calei. quando aquele ex caso passou por mim e me cumprimentou como um velho conhecido, me abraçando e me beijando calorosamente na bochecha-quase-na-boca voce se silenciou. ele foi embora e o silencio ficou pairando no ar. olhei as horas no meu celular, liguei pra minha carona que disse que estava indo. mais silencio. voce entao se curvou em minha direção levemente e com um ar de menino travesso que vai aprontar alguma me confessa eu sei que nao deveria fazer isso, mas não consigo mais evitar, eu tô doido de vontade de ficar com voce. e enquanto eu reunia a força que me restava do embate que eu passava por dentro de ambivalencia voce me tomou sem moderação em um beijo que pra mim durou a  vida toda. um beijo que eu sinto até agora nos meus lábios. a sua mão nas minhas costas aproximando meu corpo do teu. me desvencilhei vagarosamente do teu abraço e disse que não podia, que eu era... e então voce me beijou outra vez, me calando. me fazendo engolir minhas palavras com a nossa saliva. seus labios eram macios e suas maos eram firmes. eu senti meus joelhos vacilarem. olhei voce e pedi pra que ao menos saíssemos da pista de dança. quis segurar tua mão mas nao podia. parei na sua frente assim que voce escolheu um ponto na varanda perto do lago. estática. voce logo continuou de onde paramos. eu nao sabia se era a fome, o remedio ou a falta de agua mas eu me senti flutuar por alguns instantes, voce se contendo, tenso, como se fizesse algum esforço pra não cruzar as linhas. meu telefone tocou anunciando minha saída, voce me acompanhou ate a porta e se despediu de mim com um abraço demorado dizendo no meu ouvido que tinha sido divertido. ha sido divertido me equivocaria otra vez, quisiera haver querido lo que no he sabido querer. eu disse o mesmo e fui embora sem olhar pra trás. naquela noite passei todo meu sono sonhando contigo. acordei sem saber o que tinha acabado de acontecer.
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voce logo parou de onde continuamos...

domingo, 16 de junho de 2013

tudo parece pequeno no meio do deserto, do tamanho de um grão de areia solto na vastidão do universo árido. e o céu vai te engolindo, e você já não sabe se é o chão que cede ou o céu que passa. e você fica. você permanece com a areia do deserto, em constante movimento. o vento paciente do deserto move montanhas, e nada é o que foi há um segundo atrás. no deserto tudo é contradição. tudo é pequeno, se perde nas vistas. e tudo é gigante. é imenso. você, uma das poucas formas de vida em quilometros. sua vida é absoluta no deserto. e voce tambem, e tudo o que voce sente. mas entao aí está a grande contradição: os problemas simplesmente se reduzem a pó, é tudo poeira, é tudo pedra, é tudo matéria. tudo é gigante no meio do deserto, até mesmo o início e o fim...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

eu estava ali, contemplando o olho do furacão, de longe. prestes a me jogar no meio da tempestade.
porque era tão dificil dizer que eu não estava bem? talvez porque nem eu quisesse me dar conta de que eu estava em pedaços, que eu ainda estava desmanchando na chuva como se fosse feita de açúcar. minha única vontade era voltar a deitar na cama e esperar o sono me abater, o amor me bater e a vida ter. eu tinha ido a nocaute outra vez, depois dos seguidos combates que travei comigo mesma. e eu não tinha mais dinheiro ou coragem suficientes pra viajar, pra fugir. eu estava encurralada. encurralada pelos meus não-desejos.
na verdade não sei precisar quando isso começou e nem porque, não sei precisar o que causou esse mal-estar com o qual constantemente me deparo ao viver uma vida ordinária. talvez tenha sido gradual, ou talvez eu tenha acordado um dia me sentindo péssima e tenha ignorado o fato. minha memória tao boa me trai nesse momento. talvez eu tivesse 16 anos ou 18. talvez eu tivesse os dois. com 18 anos eu vagava como o fantasma de alguém que não percebeu que morreu pelos corredores da universidade, trocando o dia pela noite, tendo sonhos vívidos demais - ou vivendo uma realidade surreal demais. eu tomava meus primeiros porres, frequentava aquela sinuca no subsolo de uma rua escura até de dia na 13, sentia um horror à vida quando o relógio marcava as seis da tarde. nas tardes em que eu não conseguia sair do campus eu caminhava até a biblioteca, e entre as estantes cheias de romances de literatura estrangeira eu sentava, folheando os livros mais velhos que eu, me inebriando com aquele pó que resistia à vida na universidade como ninguém nunca resistiu. e então eu escolhia uma sombra qualquer no gramado pra me deitar, e lia, e mudava de lugar de acordo com a sombra, e lia, e cochilava. ninguém percebia minha presença ali, e eu me questionava se por acaso eu realmente já não teria morrido e tinha me tornado invisível. uma as-sombra-ção que só podia ser vista sob a luz do sol. e eu insistia em me refugiar nas sombras.
perdi a conta dos romances que comecei a ler naqueles gramados. entre goethe e marques de sade, simone de beauvoir, leituras obrigatórias pra uma das 5 matérias que eu fazia na época. ninguem pode dizer que eu nao lutei, que eu nao levei as coisas até suas últimas consequencias. que eu não tentei me encaixar no resto do mundo pra ver se minha existencia passava despercebida por mim, engrenagem dessa engenhoca moderna todo que insistimos em chamar de vida. comecei a tomar café pra nao ceder ao cansaço da insônia, a comer chocolate amargo. eram os unicos sabores que nao me lembravam que um dia eu já soube provar o doce.
eu ia cada dia mais preenchendo os vazios da minha grade horária com matérias obrigatórias, horas de laboratório, horas na empresa. menos horas pra mim e pra minha miséria, sem perceber que era ela que preenchia praticamente todos os horários. nesse tempo meus melhores amigos eram um menino deprimido e um brilhante escritor pra sua idade de 16 anos, um cara melancolico da psicologia de 22 anos que ja tinha desistido de outros dois cursos e um cara engraçado da psicologia de 23 anos que estava quase formando. e nenhum deles sabia o que queria (da vida), assim como eu. a vida era um porre de whisky sem gelo, de jack daniels, que tinha um gosto amargo e que descia quente pela garganta, lembrando que tudo que temos por dentro é vivo, é ferida aberta.
e quando eu me embriagava aquele cara de 22 anos me oferecia o ombro pra recostar minha cabeça pesada e tonta, e dizia que as coisas estavam bem. e aquele cara de 23 anos me levava pra casa enquanto me fazia comer meia dúzia de balas de menta pra que ninguém notasse que eu era puro álcool. e eles cuidavam de mim, e me faziam rir pra que tudo aquilo não se tornasse tragédia. e eles viam um brilho meu que eu não conseguia enxergar e alimentavam esse fogo, com medo de que isso se extinguisse, com medo de que eu me apagasse e virasse cinza, como praticamente todo o resto que nos rodeava. eu só tinha 18 anos, eles diziam, e uma vida toda pela frente. e isso me assustava.
esse brilho que eu nunca consegui ver, esse fogo com o qual eu queimava todo o ar ao meu redor, pra mim eram queimaduras, era a intoxicação da fumaça. de dentro da chama a gente só vê o escuro que nos cerca. só vê as sombras daquilo que iluminamos. qual a vantagem de ser brilhante se tudo que vai estar ao seu redor é a sombra ou então a cegueira de olhar direto pra luz? e cada dia eu lia menos, cada dia eu desenhava menos e cada dia eu me tornava mais silencio de mim. cada dia eu fazia menos daquilo que nós só podemos fazer quando estamos vivos e fazia mais e mais aquilo que os mortos fazem: nada.
e então eu tinha 19 anos, e aquela vida toda que eu via pela frente me parecia ameaçadora vindo em minha direção rápido demais, como se fosse me atropelar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

(...) gostaria de voltar a desenhar. rabiscando entre as aulas, entre as linhas. suspiro. porque nao consigo mais desenhar? porque o vazio que sempre se abre em mim insiste em me sugar, em me consumir pra dentro de mim mesma? como se, não podendo caber em mim, eu fosse obrigada a escapar, a me esvair de mim. me consumo quando consumo um pedaço a mais de doce, um pedaço a mais de pizza, um pedaço a mais de obrigação. suspiro. e a vida cotidiana me massacra, vai passando por mim sem pedir licença, esbarrando nos meus desejos, derrubando minhas vontades, meus deveres. e aí me vejo prostrada na cama. a vida cotidiana vai me atropelando, passa como se apostasse corrida enquanto eu só quero mesmo é passar como bloco de rua, carnaval sem fim. e a vida cotidiana transborda, inunda o mundo como um oceano de pequenas obrigações, pequenas repetições inéditas. suspiro. e eu, peneira, vejo a felicidade passar como pequenos grãos de areia perdidos na correnteza louca, sem conseguir reter nada além da efêmera, fugaz sensação de ser atravessada por essas partículas tão pequenas da existência chamadas alegrias. e o resto fica em mim, com o peso das rochas que levam vidas pra se desfazer em poeira. suspiro. gostaria de voltar a desenhar, mas ao invés disso só consigo permanecer sentada assistindo o desenho dos rastros que a vida cotidiana deixa quando passa por mim. suspiro.sobreviver é fácil, difícil mesmo é quando a gente tem que viver a vida sem preposições, só verbos...  sus(piro)

terça-feira, 4 de junho de 2013