sábado, 28 de fevereiro de 2009

pai


'voce tá destruindo seu cabelo, sabia?' o pai falou enquanto passava a mão nos cabelos da filha.


'eu sei. mas quem se importa? todo mundo sempre disse que ele era feio mesmo...' ela arrumou a franja torta cortada por ela mesma.


o pai ficou quieto, lembrou das inumeras vezes que riu dos cabelos dela pela manhã, lembrou de como a mãe sonhava em alisar os cabelos da filha, lembrou do avô que dizia que não queria uma neta com cabelos tão negros. 'voce é uma garota esperta, minha filha, lembre-se disso. os cabelos vão e vem, mas a sua inteligencia eu espero que fique. não se destrua.'


'pai.' ela chamou antes de ele dar a partida no carro. 'me impeça, por favor.' ela pediu, sabia que seu pai atenderia toda e qualquer necessidade sua, até as mais idiotas.


desejo


o sol logo apareceria, o sono não. coloquei o velho cd do pink floyd para me despertar do sono que sequer dormi, que sequer bocejei. 'you are young and life is long and there is time to kill today; and then one day you find ten years have got behind you'

e um relogio qualquer da casa despertou também, fazendo com que eu recolhesse meu leito do chão e me colocasse na cama. vi o azul clarear devagarinho, se misturar com o amarelo. pensei 'Deus existe e é um impressionista!', senti vida pulsando nas veias que há tempos estavam vazias, nem lembrei que havia teto no meu quarto, nem lembrei que havia outras pessoas em minha casa, me permiti uma dança comigo mesma na minha cama às 6 da manhã. as guitarras pareciam mais harmoniosas que nunca, todo som fazia sentido, tudo estava em seu lugar, até eu.

eu realmente desejava que aquela noite fosse eterna, com o steven tyler cantando ao meu ouvido minha musica favorita, com o samba do avião e todas as bossas novas mais velhas que meu pai que sempre me emocionavam. eu realmente desejei, mas já era dia e não dava mais pra ver as estrelas cadentes...

fim

(do mês, que fique claro.)

e às vezes eu queria que tudo coubesse num pacote de jujubas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

desgovernado


'eu preciso de alguém pra colocar meu pé no chão, eu acho que estou indo rápido demais. e pra lugar nenhum... eu preciso de alguem pra me parar.'

'que tal voce mesma?'

'é sempre uma opção :)'

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

no outro lado

'i know, I know
It's good to have you back again
And I know that one day baby,
It's gonna really grow, yes it is
We gonna go walkin' through the park every day
What I say, every day, it's really growin'

It used to really, really good
You made me happy at the simple day
But now I have got to go away
Baby, baby, baby
That's when it's callin' me
Oh that's when it's callin' me back home' Babe I'm Gonna Leave You, Led Zeppelin

'... mas voce é só uma princesinha no alto do castelo que acha que pode descer sozinha. e te digo que voce vai quebrar a cara se tentar! eu te dei uma escada, sabe, eu não sou um principe, tambem nao ia arriscar minha vida pra tentar salvar a princesa cabeça-dura. e que cabeça-dura! (...) e digo que não é o mundo que é tao bonito, mas sim seus olhos. quando olho o mundo através deles percebo as cores que nunca vejo quando olho diretamente para esse mundo esquisito em que a gente vive. e isso me faz feliz nos dias mais rotineiros, naqueles com começo, meio e sem fim. te digo que isso me faz feliz. (...) quando voce escreve aquelas mensagens loucas no meio da noite perguntando se eu tambem nao consigo dormir, quando voce escreve no meio do dia dizendo que vai trocar de cor de cabelo, quando voce fica contemplando alguma coisa no vácuo. voce é tao previsivel quanto o nascer e o por do sol, a gente sabe que todo dia vai aparecer, mas nunca sabe quando pode chover ou com que cores novas a gente vai se deparar.

(...) e não desista de nada nessa vida. nem de sonhar, mesmo que voce nunca consiga pregar os olhos, princesa de cabelo tingido e all star.'

'entao é assim que termina?'

'é um ponto agora e mais dois depois.'
'pode ser. a gente se vê na outra vida?'

'pode ter certeza.'

férias...

360 graus


ela sentou naquelas cadeirinhas velhas conhecidas de outros tempos, esperando alguém que ela nem sabia que estava por ali. enquanto isso brincava com as pontas do cabelo de várias cores, de todos os tamanhos, pensou que já não era nem sombra da garota que tinha sido mas que não podia fazer nada - estava com uma preguiça colossal.

'ahhh, mas eu vou ter que...' ela parecia conversar com as mechas de cabelo.

'ei, eu conheço voce!' ele parou em frente a ela, segurava uma apostila na mão e na outra um jaleco. acumulou tudo em uma só e sentou na cadeira vizinha a ela.

ela se sentiu constrangida, afinal de contas, estava conversando com o cabelo. que patético (apesar de ter pensado que seria mais patetico se o cabelo tivesse respondido...). 'ahhn... sim, sim!'

'engraçado, a getne sempre se encontra. será que existe um universo paralelo em que só existe a gente?' ele riu derrubando os livros. 'voce cresceu, né?'

ela riu sem graça, ainda estava constrangida. lembrou da primeira vez que eles se viram, ela com os enormes cabelos castanho escuro, as roupas de menino, as frases desconexas, as bolhas de sabão, as jujubas. 'é...'

'bom, eu tô meio atrasado... mas não precisa marcar, a gente se vê mesmo assim!' ele acenou indo embora

'ei!' ela o chamou antes que ele entrasse na sala. ele se virou, rápido demais, deixando-a sem reação por segundos gigantescos. 'errrr... sabe, eu sempre achei que o mundo dava meias-voltas, mas voce me faz pensar que não!'

ele riu mais. '360 graus são pouco pra gente.' e entrou na sala.

'é o suficiente pra me deixar tonta...'

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

de cinzas


traz meu edredon e meu sono de volta, quero a maior ressaca do mundo. e que queimem todas as carnes, todos os desejos: é quarta-feira de cinzas. lá fora chove, aqui dentro é tudo sol. as escolas de samba já não fazem mais barulho, minha cama já não é mais tão dura, eu já não sou mais tão rígida. e não que isso seja bom, mas também que não seja ruim. eu só queria o maior porre do mundo acompanhado de garrafas dançantes que me convidam a me embriagar mais.

minha mãe me deu um remédio. acho que estou delirando... e não que isso seja ruim.


depois do fogo sempre vem as cinzas. e o meu aniversário!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

olhei naqueles velhos conhecidos olhos, eu devia estar quase dormindo, quase acordando ali. tentei falar e nenhuma palavra me socorreu. ele segurou meu rosto, senti que não ia cair, senti que nem estava por ali. senti uma coisa estranha que sequer sabia nomear.

'pode falar.' ele sorriu gentilmente, perto demais. nao que isso me incomodasse.

'obrigada pelas memorias, são todas tão bonitas e coloridas... quero fazer uma caixinha bem bonita para colocar todas elas juntinhas sem deixá-las escapar nunca! obrigada!' eu disse me sentindo entorpecida, estava voando, nada me tocava. 'eu me sitno estranha... eu nao quero ficar feliz, mas eu estou... e...' comecei a rir, sem conseguir falar mais nada. ele sorriu e se moveu, parecia estar mexendo nos meus cabelos. 'acho que eu cresci!'

e algo me despertou. eu estava sonhando, mas ainda estava feliz com as minhas memorias. e isso me dava medo.

febre

ele foi visitá-la, ambos estavam doentes. a parede do quarto dela com a pintura que ela mesma tinha feito - em azul bebê, com nuvens brancas para ser sempre verão. ela estava sentada na cama, o quarto mais bagunçado do que sempre, ela com os cabelos desgrenhados mas com um grande sorriso.

'bocê beeeio!!!' e ela fez mençao de abraçá-lo, mas se conteve para não contaminá-lo.

ele olhou para a reação dela e riu. 'sim, eu bim!' e a abraçou, ele tambem estava doente. 'carnaval, ne?'

'é...' ela fechou a cara. 'carnabal, sol e eu do-en-te!' ela jogou as cobertas pra cima, fazendo os cabelos ficarem mais bagunçados ainda.

'todo carnaval tem seu fim' ele falou olhando pra varanda dela, bem iluminada e quente.

'eu sei. por isso eu fico triste, eu nao quero que nosso berão tenha fim!' ela falou com as cobertas em cima da cabeça.

ele achou engraçado a fantasia de carnaval dela: doente, parecia mais vulnerável do que ja era pra ele. as bochechinhas rechonchudas pediam para ser apertadas. ele apertou as bochechas dela até ficar marcado. 'ei, a gente nunca bai ter fim! besta! e nem o berão, a gente tá em brasilia!'

ela riu e jogou o edredon nele. e lembrou que estava em brasilia. o carnaval que nunca começou nunca terminaria...

estamos indo...

de volta pra casa!
adentrei minha casa antes da meia-noite, estavam todos ali pela sala vendo televisão - ou fingindo ver televisão, o programa não era nada interessante. me senti uma antropóloga, visitando tribos distantes e de hábitos diferentes, o estranho e o familiar bem ali na minha frente.
'hey gente!' saudei os estranhos no sofá e me dirigi ao meu quarto jogando minha bolsa em cima de cama que eu deixei desarrumada antes de sair. fui até a cozinha, tomei um copo d'água, procurei algo para comer. nada. voltei pra sala, sentei-me no braço do sofá já ocupado. ninguém falou nada.
resolvi ficar ali, saber qual a magia de olhar praquela caixa de luz barulhenta e nonsense. acariciei os cabelos da mulher que estava do meu lado. era minha mãe. ela suspirou.
'bem-vinda de volta.' ela falou sem olhar pra mim.
'obrigada.' eu a abracei.
e percebi que não tinha graça nenhuma ver aquela programação da tv. mas tinha toda a graça do mundo ficar ali com aquelas pessoas estranhas que eu gostava tanto e chamava de família...

domingo, 22 de fevereiro de 2009


olhei pra ele ali do meu lado, no balanço. olhei pra cima e vi o céu mais bonito que já tinha visto nos últimos 18 meses. olhei em volta e senti toda a eternidade de um momento que pra mim seria infinito. olhei pra dentro e percebi que eu era mais eu ali do que em qualquer outro momento. talvez fosse a brisa quente, talvez fossem as nuvens branquinhas, talvez fosse a areia, talvez fosse ele, talvez fosse tudo isso junto. ou talvez fosse eu.

'ei! eu sou feliz.' e sorri apagando. e tudo iluminou.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

cebolas


... e vi que era sempre a mesma coisa, embora eu tentasse lutar contra aquilo que parecia indefeso por fora, inevitavelmente eu me machucaria. me relacionar era como cortar uma cebola, a cada camada que eu ia tirando mais eu concluía que o fim estava próximo e que logo logo eu estaria me desmanchando em lágrimas...

e por causa de uma coisa que nem era tão saborosa!

só agora

'tenho de encontrar um jeito, não posso esperar nem mais um dia
e nada vai mudar se ficarmos aqui
tenho de fazer o que for preciso, está tudo em nossas mãos
todos cometemos erros mas nunca é tarde demais
pra começar de novo
respire fundo e faça uma prece

(..) se a vida ficar muito dura, não importa
voce me tem do seu lado
qualquer hora que voce quiser nos subimos
no primeiro onibus rumo a um lugar melhor
não vamos deixar nada ou ninguem nos desanimar
talvez voce e eu pudessemos fazer as malas e voar.

voce já viu um ceu mais azul que esse?
voce pode ter uma vida melhor agora
abra seus olhos (...)

talvez voce e eu pudessemos fazer nossas malas e dizer adeus.'
Fly Away From Here, Aerosmith

olhei pra ele ali, tão perto de mim. devia ser o homem mais diferente que já amei, de uma beleza que não me cativava, de uns olhos daqueles que sempre se encontram, de uma moderação assim imprevisível. devia ser o homem mais diferente de mim que já amei e isso me assustava, eu não sabia nada.

não percebi que estava o encarando há um bom tempo até ele chamar meu nome bem baixinho, como se não quisesse que ninguém mais ali soubesse meu nome. 'vai ser assim pra sempre?' ele perguntou.

'eu não sei.' tentei formular mais alguma explicação longa e prolixa, mas não consegui. 'cara, eu não sei.'

parei de olhar pra ele, era incômodo até para mim. cruzei as pernas e levei as mãos ao meu queixo para dar apoio a minha cabeça que parecia pesada demais, cheinha de pensamentos de toda natureza:

'eu te odeio.' ainda sem olhar pra ele foi tudo o que eu sempre quis falar. ele não reagiu e eu continuei. 'te odeio, voce deve ser o homem mais cruel que já cruzou o meu caminho. voce só sabe falar a verdade, voce me trata bem quando eu te maltrato, voce segura minha mão quando eu não sei pra onde ir - embora eu esteja sempre indo pra algum lugar. eu te odeio porque voce é bom demais e isso faz com que eu me sinta pior do que já sou. eu te odeio porque eu sei que voce me quer tão bem mesmo sabendo como eu sou.' respirei. 'te odeio.'

ele permaneceu sem reação enquanto eu falava, mas era o habitual. e me abraçou quando eu terminei de falar, encostando o rosto no lado da minha cabeça. ouvi sua respiração calma, constante. 'eu te amo só agora.' e senti algo que era pra ser um beijo cair sobre meus cabelos. e também um sorriso.

esperava que ele se levantasse e fosse embora sem olhar pra trás, era o que eu estava tentando fazer há tempos sem sucesso algum, eu sabia que eu tinha um grande potencial para magoá-lo, sabia que eu era o tipo certo de mulher errada, daquelas que voce só encontra uma vez na vida e acaba sempre escolhendo ela. e não devia ser assim, pelo menos não com ele. eu amava demais aquele homem.

'pelo menos voce só me ama agora. semrpe existe depois.' eu falei, eu não era tão caridosa a ponto de deixá-lo e nem era tão forte pra aguentar a culpa.

'voce nunca percebeu que sempre é agora?' e ele me abraçou mais forte.

sempre seria agora, mesmo o depois seria agora. e eu estava gostando disso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

salvação

'you gotta learn to crawl before you learn to walk
but i just couldn't listen to all that righteous talk
i was out on the streets just trying to survive
sketching to stay alive.' Aerosmith, Amazing

'voce me trocou, né?' ele brincou com ela, exibindo sua mais nova aquisição, o ciúme.

'pensei que eu estive bem acompanhada esse tempo que a gente passou separado. mas eu estava errada. esse tempo todo.' ela respondeu séria.

'sério? hm, such a pity. mas voce sempre vai ter voce mesma, e voce é uma otima companhia. minha garota auto-suficiente...' ele fez um carinho no cabelo dela desmanchando o penteado que ela demorara 20 minutos pra fazer. mas ela não se importou.

, such a pity.' ela lamentou se afundando mais naquele abrigo que ele fazia com um dos braços.

um silêncio pairou no ar, o vento balançou os cabelos deles, o trânsito permaneceu lá fora. mas era trânsito de brasília, era silencioso.

'e o que voce vai fazer agora?' ele perguntou enquanto ainda olhava a rua passando em sua frente.

'desaparecer.' ela respondeu confortável, parecia que sabia desaparecer como ninguém, talvez porque fosse invisível.

sobre alguem que vai ser uma pessoa pior. sempre.

soneto de ponta cabeça

porque é assim que voce me faz sentir. e é assim que tudo faz mais sentido.



que todas as músicas sejam iguais
que todos os filmes sejam repetidos
que todo dia seja impregnado de rotina


que todo dia seja cinza
que não haja mais verão e nem luz do dia
que me abandone até a melancolia



mas que fique voce depois das chuvas de verão
com seus sorrisos e ironias
que fique voce mesmo depois da festa
aprendendo o que a gente já sabia


mas que fique você e todos os seus abraços
e a sua mão que sempre me guia
que fique você depois de tanto acaso
nas insônias de noites sem dias

domingo, 15 de fevereiro de 2009

'amanhã vai ser um dia feliz.' ela disse.

'pra nós dois.' ele completou.

'ei.' ela o chamou.

'oi.'

'eu te amo.' ela disse num sorriso enorme, o maior que ele já tinha visto até entao.

'eu te amo desse tanto \_______o________/' ele mostrou com os braços. e aí sim ele viu o maior sorriso que já tinha visto.

'i could die right now, i'm exactly where i wanted to be. i'm... just... happy.'

epitáfio




vislumbrei meu passado - coisa que tinha feito bastante ultimamente e que francamente achava um pé no saco - e notei de novo a decadência de ser eu, uma garota inteligente e preguiçosa digna de inevja e compaixão ao mesmo tempo. mas eu só tinha 15 anos. e um cabelo muito esquisito.

naquele fim de tarde eu notei o quanto a decadência me atraía - os bares mais sujos, as bebidas mais fortes, as pessoas mais loucas. e tudo acontecia sempre tão rápido, meu encontro com cada um era como uma explosão: de repente, o boom; depois a luz que causa cegueira momentânea; por fim, a avaliação do estrago. e então não havia mais ninguém, a luz da explosão sempre me deixava com a impressão de que apenas uma imagem era real, e era a última que eu tinha visto antes de tudo.

cada pessoa que esbarrou em mim no caminho, ou pulou nas minhas costas ou segurou a minha mão e me levou pra algum lugar, cada uma delas eu amei com a intensidade de quem ama pela primeira vez - aquele amor ingênuo, esperançoso. não me decepcionei por amar, apenas pela forma como eu amei: como se fosse a primeira e a ultima vez, cada olhar, cada palavra, cada beijo pra mim eram sempre os primeiros e últimos - e isso sempre me causou desespero. 'garota, voce beija como se nunca mais fôssemos nos encontrar e como se fosse a primeira vez' ele disse. e era.

vislumbrei meu presente: notei como eu estaria destinada a andar sempre me equilibrando no meio-fio, ora caindo na sarjeta, ora caindo na calçada. mas sempre caindo. me prendendo a qualquer motivo torpe que me fizesse aguentar mais uma semana ou uma noite, que fosse o último gole de um drink, que fosse um projeto gigantesco. e então a vida ia mudando de rumo a cada passo, como em uma caminhada trôpega.

e por fim vislumbrei meu futuro. e ele era agora.

borboletas


ela olhou para o grande espelho colocado a um canto de seu quarto, parecia que estava de mudança. jogou-se na cama, ligou o som com o controle remoto e apagou a luz, deixando por pistas somente as notas musicais. brincou com seus longos cabelos lisos por algo que ela julgou serem minutos mas na verdade eram horas - ah, ela era tão vaidosa...

sentou-se à beira da cama e concluiu que estava na verdade à beira do abismo: colocar o pé no chão era dar um salto gigantesco, ela ia se machucar tanto! mas se ela fosse ainda pequenina, estaria tudo bem, ela adorava vestir sua fantasia de borboletinha amarela.
'mamãe, eu sou uma artista, sabia?' lembrou-se de dizer pra mãe quando não tinha mais que 7 anos.
'ah, minha filha. a arte vem do sentir, e sentir dói demais...' a mãe respondeu.
foi aí que ela concluiu que a dor era bonita. quase tão bela quanto uma borboleta amarela...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

sonho de uma noite de verão


... não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu nem quero saber!' Memórias, Pitty.
elas me atingiram de novo como um meteoro, inflamando um céu negro com as cores de fogo. corri para o computador, vasculhei meus arquivos e concluí que nada havia sobrado daqueles dias com ele, não havia evidências físicas palpáveis. as que existiam eram comestíveis e já tinham sido liquidadas.

afundei na cadeira, não tinha nada. pelo menos nada que provasse aqueles nossos dias loucos, aquelas noites inconsequentes. nada, nada, nada. me senti atormentada: e se tudo isso tivesse sido fruto da minha imaginação tão selvagem? só podia. tentei reviver cada instante, cada música, cada ansiedade e falhei. e me senti miserável, não tinha sequer uma lembrança.

mas não havia volta. levantei e fui arrumar meu quarto, a eterna bagunça que semrpe parecia mais em ordem do que eu. constatei que não encontrava uma das minhas luvas de renda que eu mesma havia costurado. tentei lembrar onde havia a deixado e o que sobrou de mim foi atingido outra vez por uma lembrança:

ele acariciava minhas mãos sobre seu peito, tentava tirar minhas luvas. 'eu que costurei, sabia?' eu disse orgulhosa. 'voce é uma mentirosa' ele respondeu sorrindo. 'serio, olha o acabamento...' eu mostrei não tao orgulhosa. 'hm, é verdade.' ele aceitou enquanto retirava uma de minhas luvas e analisava, terminando por guardá-la num bolso. olhei nos olhos dele, algo havia mudado profundamente, nossos destinos estavam se separando e sabíamos disso. passei a mão levemente na face dele, fechando os olhos dele e sacudindo os dedos numa dança engraçada. 'o que foi?' perguntei ao ver a expressão sorridente dele. 'voce vê filmes demais...' ele respondeu acusando. 'voce tem ciumes de mim?' ele perguntou. 'tenho.' respondi cabisbaixa. ele não disse mais nada, apenas continuou me beijando e me encharcando com cerveja enquanto o som tocava alto ao redor. era quase hora de ir embora 'ei, me devolve minha luva!' eu reclamei fazendo um biquinho. 'não, é minha garantia.' e ele escondeu mais fundo a luva.

e a memória se dissipou como uma neblina. o sentimento tinha ido embora e a única evidência de que um dia estivemos no mesmo mundo era a ausência de uma evidência - pelo menos pra mim.
a falta era a maior prova de que um dia estivemos presentes.

sobre uma mão que sentia mais falta da luva do que a luva da mão.

um brinde


como quase tudo na vida deles, foi uma daquelas conversas noturnas cheias de saudades e frases memoráveis.

'esquece freud, ...' ele disse, decepcionado.

ela riu como não fazia há algum tempo, escorregando na cadeira, se desmanchando em alegria. 'ah, o que sou eu sem voce?? morri de saudade, serio mesmo!' ela falou ainda entre as numerosas e escandalosas gargalhadas.

'e aí, o que andou fazendo?' ele perguntou.

'ah, eu dormi! acredita? é bom demais. de resto trabalhei, saí...' ela deu ênfase nas reticências.

'hm... sabe, eu acho que não é o momento ainda.' ele falou após um período de silêncio. 'talvez depois, mas o momento não era agora, ou melhor, antes.' ele pareceu sério demais, isso a assustou.

ela permaneceu imóvel, nenhum sorriso pendeu em sua face. 'o momento é nunca, meu bem.' e deu um daqueles sorrisos amargos que ele tanto odiava, um sorriso que agonizava. 'mas essa é a vida que eu escolhi e nós sabemos.'

'e nós sabemos.' ele repetiu como se fizesse um brinde ao estilo de vida dela.

mas nenhum dos dois ali sabia de nada, o melhor ainda estava por vir.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

3 meias-noites

1 insônia.

ela sempre se sentia ridícula quando passava da meia-noite e ela estava tão sóbria...

hard rock life style.


era quase meia-noite, adentrei minha casa me sentindo meio-a-meio, acendi o forno para assar um consolo em forma de pizza que não durou meia hora. um filme qualquer me acompanhou por mais uns instantes no sofá, mas na cama quem me esperava era a velha conhecida insônia... com um par de fones de ouvido que cantarolavam aquelas canções de madrugada, love songs. isso me irritou como o diabo, pelo menos aquela noite!


coloquei um velho cd para tocar e fui pega de surpresa por lembranças que eu já tinha enterrado: um velho retrato, nossos rostos novos e bêbados de excitação, a camisa preferida dele. meus cabelos ainda pretos, o olho carregado de maquiagem, a boca pintada com um batom rosa choque, uma corrente prateada no pescoço. ele com meus óculos escuros, uma barba esquisita, os cabelos bagunçados que eu insistia em tentar arrumar irremediavelmente. ambos fazendo um biquinho que dava a impressão de que o retrato havia sido tirado nos anos 80.


levantei depressa da cama, tropeçando nos meus sapatos espalhados pelo quarto, tropeçando nas memórias. percebi que eram quase 3 e meia, eu havia repetido a música por mais de 2 horas, singing along. acordei sem nem mesmo dormir e isso me deixou acordada por mais de 24 horas...


e que viesse mais 24. mas eu não queria nunca mais 17 ou 80.

vestido mágico


cansei de mim sempre na 3ª pessoa, sempre em singulares letras minúsculas, sem bons adjetivos ou verbos, apenas um pronome perdido. cansei de mim como um soneto de vinicius, romanticamente deslocado em meio a seus contemporâneos loucos.


era quase meia-noite, o vestido rodado todo amassado de tanto vai-e-vem, a maquiagem caindo aos pedaços, o batom quase inexistente. ela olhou aquele cabelo engraçado, penteado. ouviu seu reflexo responder uma pergunta qualquer: não reconheceu sua voz, estava tão aguda... tão feminina! talvez fosse um vestido mágico, pensou. até olhar para os próprios pés, que estavam enfiados em uma espécie de coturno preto e sujo, os cadarços tortos.

irremediavelmente concluiu que embora tentasse se colocar por trás de qualquer disfarce, mesmo que fosse um vestido mágico, ainda assim seus pés - ou qualquer outra parte - a denunciariam... era só uma garotinha.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

recados que não precisam ser anotados...


naquela noite nada me abalou: as idéias inundadas por um bom led zeppelin, o corpo morno embaixo das cobertas, a lua cheia invandindo minha varanda. o telefone ficaria mudo de tanto se esgoelar, mas -ah! - naquela noite nada mais me importava.



o mundo podia acabar. pra mim já tinha.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

bitter is the new sweet *_*


sempre gostei dos sabores mais doces por medo dos venenos, na maioria das vezes amargos.

até perceber que eu havia me tornado amarga. e isso incomodava os outros. descobri que nem tudo que é amargo é ruim e que a maioria dos meus amigos não sabia apreciar um bom café.

ah, e que os venenos mais perigosos são doces, docinhos...
about a poisoned jelly :)

a-deus


só me senti abrigada em algumas notas musicais,
em algumas linhas mal escritas,
me senti abrigada nos braços da minha mãe.
e então o conforto me veio em uma chuva de verão
na minha voz desafinada traçando uma nova canção
em uma dúzia de tarefas não-obrigatórias mas acumuladas.


aprendi a ser insaciável
só esqueci de aprender a me saciar...
então aprendi a me contentar com uma casinha bonita
vazia-vazia, mas cheia de mim e de poesias.


só me senti abrigada em uma dúzia de canções
em rabiscos sem sentido, em palavras e palavrões
só me senti abrigada na rua, só me senti confortável
seguindo pela contramão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

propostas

'a paciência é uma virtude.' ele disse, corrigindo o comportamento desregrado dela. 'paciencia...'


ela parecia alienada, ajeitou os cabelos, fez um biquinho em sinal de despreocupação. 'a paciencia é uma virtude, eu sei. mas é uma virtude para aqueles que esperam. e se voce me conhecesse, saberia que eu não espero nada.' ela fez um som engraçado ao tentar conter a risada que ele lhe provocara.


'voce não espera nem o amor?' ele perguntou, desafiou.


'não, se ele quiser me ver que marque hora. e ainda assim periga dele vir e eu estar fechada pra balanço.'


sobre alguém que tá fechado pra balanço desde a inauguração. e tá lucrando, pelo visto.


desabafos.


as nuvens esconderam a lua cheia. talvez nem a lua quisesse me ver aquele dia, acordei como se tivesse levantado de uma lixeira e quando chegou o fim do dia - ah, o fim - me vi esparramada no chão do quarto outra vez cantando as velhas canções do aerosmith que falavam sempre da mesma coisa: mulheres e casos mal-resolvidos. ah, meu sonho era passar um dia todo cantando isso com alguém, qualquer alguém que não dissesse nada além das palavras prescritas pelas canções.


senti uma daquelas tristezinhas gostosas com sabor de vida bem-vivida, apesar de não passarem de casos estranhos e mal-resolvidos embalados por milhares de notas loucas e na pentatônica. se eu pudesse mudar o mundo como num conto de fadas, eu beberia o amor do seu calice sagrado. descobri que eu estava presa à tristeza, ball and chain. e fiquei feliz, eu estava tão viva, sentindo tudo tão à flor da pele. e eu queria tudo, e de preferência de uma única vez.


senti saudade do que ainda tinha, amei quem ainda estava comigo, gritei com quem já tinha ido embora. e me senti viva demais, ah, viva demais. triste demais. real demais. difícil demais. essa noite eu só queria um sonho - se eu dormisse, claro - em que eu pudesse dizer 'ah cara, mas eu te odeio, seu cretininho infeliiiiiiiiiz.' e ri dessa minha ânsia boba. estava louca pra comprar uma briga, mas ninguém queria me vender.


e continuei cantando, alucinada, lúcida: (deuces are wild, aerosmith)


estava triste de novo. estava viva. e quis pedir desculpas por julgar coerente que todos estivessem acordados às 2 e meia da manhã todos os dias e prontos para o diálogo mais empolgantes de suas vidas, quis pedir desculpas por ligar só pra ouvir a voz de algum amigo querido, quis pedir desculpas por ser tão inconsequente, quis pedir desculpas por não amar ninguém especificamente, quis pedir desculpas por amar todo mundo (como mandar carta em mala direta), quis pedir desculpas por esperar tanta sensibilidade das pessoas, por esperar tanto lirismo, quis pedir desculpas por pedir tantas desculpas.
e fiquei caladinha lá, jogada no chão do quarto como mais uma roupa suja qualquer. morrendo de fome, sem sono. de novo. só que agora eu estava bem por não ter ninguém ou nada que me fizesse cantar que eu o amava por sermos tão parecidos. e ainda estava triste, mas estava bem como nunca.

secou o poço.

e eu não tô no fundo dele.


esperei a inspiração vir, as palavras bonitas, as feias, as meias-palavras. tentei esboçar umas entrelinhas e falhei miseravelmente: eu estava curada.

constatei que ele era uma estrela naquela escuridão esquisita em que eu estava e que logo amanheceria e eu não o veria mais, senti nostalgia. e senti medo, talvez fosse um crepúsculo e não um amanhecer

'olhe nos meus olhos e diga que não há renúncias aqui. voce sabe do que eu estou falando como ninguém jamais soube: estamos quebrados num acostamento de uma estrada louca chamada vida e sabemos que a carona não vai chegar. entao eu te pergunto porque voce não quer caminhar comigo.' eu mal conseguia articular minhas idéias, uma fúria animal me possuiu da cabeça aos pés, os olhos loucos, as mãos trêmulas. 'eu tô te oferencendo uma chance de enlouquecer, uma chance de ver coisas que ninguém jamais viu. é só segurar minha mão.' e a mão pairou no ar, estendida.

'i want you so bad, baby.' foram as últimas palavras que ouvi dele. e acordei.

acordei sabendo que ele também sonhou comigo.

percebi que o céu mudou de cor rápido, era mais de 4 da manhã. a estrela tinha sumido, mas o sol já ia se anunciando: damn, eu estou curada.
quando o amor acaba.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

incorregével.

e de saco cheio.

olhei a noite lá fora, na tela do computador piscou uma mensagem. nova e velha. o mesmo de sempre, só que eu a de nunca. vi a barrinha piscando, indicando que estava pronta pro que desse e viesse, era só eu escrever.


'meu bem, não me tome mal, voce vai acabar de ressaca. onde voce ve um ponto, eu vejo três e eles indicam continuidade, só que no próximo capítulo. e me perdoe se voce não está no epílogo. com amor, F.'


achei a mensagem literária demais. lasquei logo um bom e velho português de relação.


'é o seguinte, tô caindo fora. nunca compartilhei dessas idéias, desses anseios, dessas necessidades. eu tento me fazer sempre só e voce não quer perceber. ah, e quero ressaltar que voce screwed up umas coisas da minha vida com umas coisas que eu falei pra voce nao fazer. o-bri-ga-da. agora dá o fora.'


achei nenhum lirismo ali, achei grosseria, pra falar a verdade. tentei uma nova linguagem que estava usando:


'ok, depois a gente se fala.'


lembrei que gostava de advérbios.

sala de espera

certo dia um rapaz alto - não muito bonito, mas bastante charmoso - adentrou a sala pequena, não parecia um paciente. sentou-se e percebeu uma secretária engraçadinha por ali, que estava boquiaberta perseguindo alguma coisa no ar com os olhos e brincando com uma caneta na mão.


paf. 'uuuuh, achei que era uma mosca, sabe? era só um fiapo voador. da minha roupa eu acho. oi, voce!' ela notou a presença do homem tímido e com cara de menino e abriu um sorriso mostrando seus dentes um pouco amarelados, talvez fosse o contraste com o batom vermelho.


ele pareceu sem graça. abaixou a cabeça, coçou o queixo e respondeu a saudação. ele não a achou exatamente bonita, mas era atraente, era amável por algo que ele não sabia o que era. mesmo com aqueles grandes olhos mal maquiados, aquele batom extravagante e toda a indumentária estranhamente colorida, não sabia o que chamava mais atenção no conjunto.

o relógio marcava um dia de abril, devia ser umas 10 da manhã. ele já havia visto a secretária ali, ele já estivera por aquela sala de espera milhares de vezes. mas dessa vez ela falou com ele, que não gostou e não desgostou. mas a partir desse dia percebeu uma tentativa engraçada a cada dia da secretaria para se aproximar dele de alguma forma. 'ei voce quer um café?' ela um dia lançou-lhe com uma xícara cheia já bem na sua frente.

e nisso o relógio mostrava: 12 horas do mês de setembro. quando deu por si já estava tendo longas divagações com a secretária, que era cheia de humor infantil e tinha uma risadinha contida. quando o relógio indicou a tarde de um dia de dezembro, percebeu que já estava até contando seus segredos para a menina-secretária. era assim que ele já estava a chamando: menina.

certo dia percebeu a secretarinha triste, distante. ofereceu-se para pagar a ela uma cerveja, mas ela não podia demorar muito. fugiram rapidinho para um mercadinho ali perto. já era janeiro. ela bebeu como se fosse água e se disse satisfeita. ele ainda degustava a sua, achou que ela bebera rápido demais, devia ser daquelas que gostava de bebidas mais fortes. ele a viu do seu lado, evitando olhar para ele. ele se aproximou pouco a pouco e ela não percebera que já estava tomando o lugar da cerveja, estava nos braços dele. e não podia respirar, logo, nem ele.

'ei, eu não posso. eu estou esperando pela doutora. e não quero te magoar.' ele a soltou no ar.

'ok.' ela se recompôs rápido.

ele se surpreendeu, esperava lágrimas. 'tudo bem?'

'eu já tô acostumada. pacientes vêm e vão na minha salinha, sabe? mas só passam, nunca ficam. sempre atrás da doutora. e ela nunca aparece. voce agora tomou sua decisão - apesar de ela ter gosto de cerveja misturada com batom de frutas vermelhas - e vai atrás da doutora na casa dela. pronto, voce está curado. a medicação que voce precisava, já tomou: decisão. e tomou uma das grandes pelo visto, tá com cara de quem se engasgou.' ela falou enquanto ainda retocava sua maquiagem.

ele ficou pasmo. ela tinha sangue frio, se é que tinha sangue correndo em suas veias. 'mas... eu não...'

'não me venha explicar uma espera, eu estou naquela sala de espera desde sempre, esperando o paciente que vai me tirar dela e perceber as coisas. e voce me tirou de lá e ousa querer me botar lá de novo. não me toque. ' ela agora parecia brava com ele, a quem afastou com a mão cheia de unhas roídas e mal pintadas.

ele hesitou. 'eu sempre esperei pela doutora, eu nao tive intenção de te fazer acreditar em nada.'

'ok, vai. e quando estiver lá no pronto socorro, vai perceber que a doutora sempre fui eu.'

tic tac

domingo, 8 de fevereiro de 2009

auto-idéia.

pensei em escrever mais um texto, a idéia me atingiu como um relâmpago, estremecendo meu corpo, dilatando minhas pupilas, acelerando meu pulso. parei e analisei essa minha epifania, conclui que estava me tornando quase um sydney magal erudito.

e desisti.

hi5


ela sentou nas velhas conhecidas escadas. 'as coisas sempre são complicadas.'
'porque voce as faz assim, e a gente sabe bem. voce é complicada e quer que tudo seja também. mas as pessoas são simples como somar 1 e 1. e voce quer física quântica, e a gente sabe que ninguém vai chegar nesse nível.' ele respondeu, já estava ficando cansado dela.
'eu sei. também sei que é facil mudar, deixar as coisas acontecerem mas...' ela hesitou, eles sabiam onde iam chegar.

'é-seu-estilo-de-vida. sei. voce sente tudo demais, voce sente muito por tudo. e eu gosto disso em voce, voce sofre por opção, garota corajosa.' ele olhou pra ela ali, parecia tão forte. mas era boba, frágil. e isso provocava vontade de rir nele. 'eu gosto de voce.' e deu um semiabraço nela.

ela acariciou a mão dele. 'obrigada, eu nunca vou esquecer isso.' ela compilou em sua memória os caras que nunca sairiam da sua lembrança, suas eternas inspirações. concluiu que era neurótica, queria sempre algo que por opção não podia alcançar. e ficou calada.

'lembrou dele? já faz 1 ano, né?' ele sabia que ela lembrara, lera nos olhos dela. 'esquece'
'é.' ela pareceu calada demais.

'voce tá pensando 'eu sempre dou um jeito de estragar tudo', não é?' ele estava falando por ela.

'uhum.' ela continuou calada, o que ela falasse poderia e seria usado contra ela. 'sou a pedra filosofal ao avesso. se eu encostar numa pedra de ouro ela vira merda.'

'não é verdade.' ele respondeu baixinho.

'é sim, fala sério.'

'falo serio, voce transforma qualquer futilidade em algo relevante, voce faz um pôr-do-sol parecer a melhor coisa do universo, voce faz as pessoas se sentirem especiais. voce fez de mim um cara melhor.' ele apontou.

'...' ela balançou a cabeça num sinal de tanto-faz. 'eu tô bem.' e ela abriu um sorriso do jeito que ele gostava, fazendo as maçãs do seu rosto ficarem ainda maiores.

ele a abraçou mais forte. 'eu sei.'

carnavais

I Remember You, Skid Row.



'hey sugar, sábado à noite e eu em casa. e voce na rua, haha. lembrei de voce... nós vamos dominar o mundo!!!! ataque das jujubas psicóticas! :D' depois da saudação ela não leu mais nada. era assim que ele a chamava, sugar. ela insistiu em ficar ali parada, relendo os recados que ele um dia escrevera para ela.


'será que ele ainda lembra dessas coisas?' ela refletiu coçando o queixo. 'acho que não. nem eu devia. mas eu lembro eventualmente, a bênção e a maldição de uma boa memória.' ela fechou a página e descobriu que ainda tinha uma foto dos dois, a foto que o fizera achar que ela não gostava dele. ela analisou cada minúcia daquela imagem, suas expressões, a cor do próprio cabelo, a roupa que usava aquele dia, a blusa preferida dele que guardava sempre um pouco do cheiro dela. detalhes.


pensou em quantos segredos estava mantendo, em quanta coisa desnecessária mantinha guardada. talvez se ela colocasse pra fora ela estaria livre. ou talvez presa para sempre. lembrou daquela festa estranha com gente esquisita. 'ei, voce tem uma marca na unha! ah, mentiroso!!' ela acusou, apontando para a marca branca na unha roída dele. 'ou entao eu vou ganhar um presente, não? acho que vou ganhar um amor...' ele falou olhando para a unha e depois para ela. ela não entendeu, mas ele estava certo.


ela sentiu uma pressão no peito, o ar pesando, algo caindo sobre seus ombros quando a lembrança se desfez na sua cabeça inundando-a de nostalgia. sentiu urgência de dizer algo que ela não sabia o que era. lembrou que nunca disse a ele que gostava dele. nem a ele e nem a ninguém. e pensou que talvez gostasse dele, mas agora era tarde demais. milhares de lembranças a bombardearam em segundos abrindo um grande buraco em seu coração miudo, escondidinho.


'eu gosto de você.' ela deixou escapar e sentiu alívio. mas agora já era tarde demais. a festa já tinha acabado há 1 ano.

fogo

'você é tão acostumada
a sempre ter razão
você é tão articulada
quando fala não pede atenção' Fogo, Capital Inicial.
ela estava entre amigos. 'uma vez meu pai me disse que não era pra botar a mão no fogo por ninguém, especialmente pelos homens. entao eu não confio em ninguém.'

'e voce vai viver sua vida toda assim? voce prefere arriscar ou passar sua vida com seus livros num quarto?' um de seus amigos desafiou-a.

'quarto com livros. sem dúvida.' ela respondeu sem hesitar.

'eu ainda ponho minha mão no fogo. acho que vale a pena, uma hora...' o outro amigo comentou esperançoso. ela deve ter achado uma opção. uma opção boba mas ainda uma opção.

ela pensou naquilo. colocar a mão no fogo, arriscar. ela pensou que tinha pouco demais pra arriscar o pouco que tinha com alguém que ela não conhecia. mas pensou também que adorava brincar com fogo. e concluiu que seu problema não era a queimadura, mas a cicatriz.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

thank you

'se o sol se recusasse a brilhar
eu ainda amaria você (...)

caro homem, eu te dou meu tudo
caro homem, nada mais' Thank you, Led Zeppelin.

ela fechou os olhos na esperança de que ele desaparecesse, naquela noite era sua brincadeira preferida. mas concluiu que ele ainda estava lá, permanecendo. ela tomou um fôlego e o viu também fechar os olhos. nem quis tocá-lo, não queria acordá-lo.

ela olhou para ele ali do seu lado, de novo. sentiu que lhe faltou chão, lhe faltou claridade, lhe faltou ar, lhe faltou ritmo no coração por 2 longos segundos. e constatou que tudo lhe faltou outra vez por mais pelo menos 2 segundos quando percebeu os grandes e velhos conhecidos olhos castanhos conectados aos seus olhos miúdos e sem maquiagem por um olhar furtivo. ela queria dizer milhares de coisas de uma vez só, com mais urgência que costumeiramente, só que dessa vez sem encontrar palavra alguma de sua autoria.
ele ainda a penetrava no olhar, os quatro estavam a dois no meio de uma multidão e de uma neblina tóxica que a deixava tonta, mas ela não estava certa se era a neblina ou ele que ela respirava e a fazia falhar na tentativa de permanecer sóbria de si. a garota tentou em vão libertar seus olhos, o corpo o ignorava mas os olhos ficavam estáticos, amarrados pelo olhar dele. ela pensou que cometia um grande erro. mas ainda sentiu esperança.

'yes there are two paths you can go by but in the long road there's still time to change the road you're on' ela deixou escapar entre os lábios entreabertos e trêmulos uma de suas frases favoritas, ainda sentiu esperança.

ele respondeu com um grande sorriso que a fazia lembrar de quando eles eram novos e inconscientes de quanta vulnerabilidade havia ali, eles estavam envelhecendo séculos em dias. e ele a abraçou por um momento que para ela deve ter sido longo como um desses séculos, mas na verdade curto como um segundo. ela o viu se afastar, mas não sabia se era ela ou ele quem estava de fato se movendo.

'voce sempre vai ser uma inspiração.' ela murmurou tão baixinho que sentiu as palavras ricochetearem no céu de sua boca. e isso a fez abrir um sorriso.


livin', lovin', he's just a boy.

deixa rolar...

ela colocou as cartas na mesa. ele abriu duas. 'ah, quase!' ela pensou.

'mas parece sempre que essa combinação não é possível!' ela concluiu triste, ilogicamente.

'a chance é a mesma...' ele respondeu.

'não, não é.' ela pensou, ela devia estar é trapaceando contra si mesma, devia ter tirado aquelas cartas que nunca saiam antes de começar o jogo. 'não dá.'

'voce não está sendo lógica.' ele falou, ela nunca era mesmo.

'e não é pra ser, eu não to falando de cartas.'

'tudo bem, em cartas pode ser que a possibilidade não seja igual. conforme voce joga, elas vão saindo. e voce perde as chances.' ele continuou, deve ter ignorado a indireta da garota.

'então porque eu não posso jogar dados???' ela quis saber. mas nunca saberia até olhar fundo num espelho. 'queria que minha vida fosse como um jogo de dados, onde eu poderia deixar rolar sempre sem medo de perder uma única possibilidade sequer. porque eu não posso jogar dados?'



'porque voce escolheu as cartas. e Deus não joga dados.' ele não queria discutir muito, ela ficava tão prolixa quando melancolica.

'então o dobro ou nada.' e sem receber a resposta, ela levantou e foi embora. era nada.

falling in love (is so hard on the knees)


de repente vi minha chance ali no meio da rua, e ela estava de mãos dadas com outra pessoa. pensei se seria possível me perder mais do que já estava perdida. e concluí que sempre. senti minha boca tremer, o coração acelerando, não quis olhar-lhe nos olhos.


e pensei que se eu estava brincando nos trilhos, devia considerar sempre o risco de ser atropelada.


deja vu em preto e branco

de repente tudo caiu sobre mim aquela noite: a fome - que eu nao sentia havia tempos, a dor fisica - que tambem já não sentia há tempos, o êxtase, a liberdade. e mais rápido ainda despencou sobre mim o frio, a solidão, o silêncio, a dor não-física. era o momento em que tudo sempre esfriava, a noite, a vida. e eu parecia nunca estar preparada para as nuvens repentinas, pro sol repentino.
de repente eram 3 e meia da manhã e eu achava que ainda era cedo demais. mas pra mim tudo era cedo demais, concluí ao pensar que só tinha 18 anos, minha máxima nos últimos meses antes dos 19. me joguei na cama, os cabelos emanando o aroma do cigarro (que pela primeira vez não trouxe lembranças dele), meu pé banhado em cerveja (que trouxe lembranças de outro alguém), meu corpo ainda estranhamente quente e zunindo. e não pensei nele. nem no corpo e nem nele.
me vi lá de cima, eu estava fora de mim. percebi minhas formas distorcidas, uns 10 quilos a mais que a faculdade me deu de presente - presentinhjo de grego, convenhamos. olhei meu rosto cansadinho mas feliz, mas no fundo dos olhos um brilho de melancolia. e não hesitei em dizer: ah, mas voce é uma poetinha muito da cretina, que lambe o veneno só pra sentir o gosto, só pra passar mal. você, senhorita f., é uma cretina. e meu sorriso se abriu com o soar dessas palavras. 'sempre quis'.
e tive sonhos estranhos, lembranças que me visitavam constantemente nos últimos dias, senti um frio na barriga quando acordei: se acontecer tudo isso de novo, eu morro. se não acontecer, também. eu estava outra vez entre morrer e morrer.
e esse era meu estilo de vida favorito.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

vagas




ela se sentiu inevitavelmente envolvida naquela dança perigosa, sem poder tirar os olhos de seu objeto de desejo por um instante sequer: ela respirou fundo e sentiu uma vida deliciosamente nova preencher-lhe os pulmões, ela encontrou uma razão para abrir os olhos. uma razão para viver.

estava flertando com sua oportunidade de ser alguem novo, e sentiu medo. medo de perder, medo de não tentar. medo de ter medo. mas tambem sentiu uma doce vontade de lutar, de quebrar a cara de qualquer um que o tirasse dela, de mostrar do que era capaz. antes de tê-lo já nem queria largá-lo. descobriu ali que precisava dele como precisava do ar. e isso não doeu como costumava.

ela percebeu que estava dançando um tango, em que cada passo era perigoso e ao mesmo tempo sensual, que apesar de todo o receio, o ganhava a cada pé não pisado, a cada respiração na hora certa, a cada olhar estratégico, a cada roupa adequada. o seu cabelo bem amarrado, a maquiagem suave, os acessórios discretos: tudo parte do jogo. um jogo que ela estava jogando pra ganhar.

e ela concluiu inevitavelmente que estava pela primeira vez apaixonada por algo tangível. e que era correspondida.
amor à primeira vista, comofas?

vento no litoral

'agora está tão longe e ver a linha do horizonte me distrai
dos nossos planos é que tenho mais saudade
quando olhávamos juntos na mesma direção
aonde está voce agora além de aqui, dentro de mim

agimos certo sem querer, foi só o tempo quem errou
vai ser difícil sem voce, porque voce está comigo o tempo todo
e quando vejo o mar, existe algo que diz
que a vida continua e se entregar é uma bobagem
já que voce não está aqui o que posso fazer é cuidar de mim
quero ser feliz ao menos
lembra que o plano era ficarmos bem?' Vento no Litoral, Legiao Urbana


ela era uma criança brincando na praia, era assim que se sentia. e ele insistia em segurar sua mão, mas ela já não sabia se era ele ou ela que insistia. mas alguém não queria largar, talvez os dois. ela olhou para o mar em preto e branco, o dia cinza a abrigava e ela sentiu o vento mas não sentiu nem calor e nem frio. sentiu só o vento. e se recusou a olhar para ele mais uma vez.


mais uma vez, ela pensou. quantas vezes não tinha se flagrado olhando pros olhos grandes e brilhantes, cheios de preocupações por vezes sérias demais para a pouca idade dele? incontáveis. e lembrou-se de como costumava se sentir ao fazer isso, que ela descobrira a pouco ser uma de suas atividades favoritas - olhar para ele, o garoto indefeso dentro do vidro que o separava do mundo.

'ei, me deixa ir.' ela falou com uma gravidade irreconhecível, sem sombras da garota que era, os cabelos quase negros lhe cobriam partes do rosto, os olhos vazios e mais negros que nunca, a boca pequena e trêmula. seus joelhos hesitando, as mãos fraquejando. frias. mas nunca o olhando nos olhos.


ele olhou para ela, tão frágil, tão pequena, tão vulnerável. mas tão convicta. porém ele não reagiu por alguns segundos, até perceber que a mão da garota estava escorregando da sua. ele quis pedir pra ela ficar, mas sabia que isso provavelmente a mataria. ela não reconheceria um beijo na face, era perigoso quando as linhas eram tão paralelas: ela, que sempre via de longe, acharia que as linhas se cruzariam em algum lugar no tempo-espaço sem perceber que era apenas uma ilusão de óptica. mas ainda assim ele não soltou a mão dela, mesmo sem saber porque.


'me deixa ir.' ela agora tinha um brilho diferente no olhar. um desespero que fazia sua voz subir quase 1 oitava.


ele viu que era um tipo de desepero líquido, era uma lagriminha que resistia em cair. e ele amparou a gotinha com seu dedo indicador antes que ela despencasse do abismo, antes que ela atravessasse o limite secreto que separava a garota forte da garota vulnerável. ele a encararia se ela levantasse o rosto, então segurou o rosto pequeno entre suas mãos e forçou-a a olhar nos olhos. ela se recusou outra vez então ele a abraçou, brincando com seus cabelos.


'me deixa ir.' agora ela falava com uma voz trêmula, soluçante. 'eu não aguento mais.' ela colocou as mãos no rosto para não senti-lo de forma alguma, mas sem forças pra sair da bolha que ele formara ao seu redor.


ele a soltou de uma vez só, fazendo-a cambalear. 'então vai.' ele falou com uma seriedade e força que a fizeram congelar.


e ela foi, pulando as ondas que se formavam, sem tirar o tênis e sem olhar pra trás. livre pra se afogar, livre pra mergulhar no mar que era ela mesma.


ali parado ele percebeu que ela voltaria, e isso o aliviou. mas sentiu algo se partir no seu peito quando pensou que talvez ela voltasse boiando nas ondas do mar...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

devagar

'pega leve, sua criança louca.' era o que a música dizia aquela noite. e ela pensou que era o que precisava mesmo, pegar leve em tudo na vida. e sentiu sono, fome, sede. sentiu-se humana outra vez. sentiu que era diferente demais, talvez por isso estivesse em outra velocidade, em outro mundo...
mas pelo menos se sentiu no lugar certo outra vez.

nove vidas.

'In a daze
In the throws of emotion
You see God in the Devil´s eyes
Then you fall so far from grace
You wouldn´t know a kiss
If it was on your face
you can tell it to the jury
But you ain´t got no case' Ain't that a bitch, Aerosmith.

era tarde, o sol forte. ele a viu andando pelo corredor, como sempre distraída, admirando as sombras que se desenhavam pelo prédio. ele sempre teve certeza de que ela estava no curso errado, devia estar estudando arquitetura ou desenho industrial, junto com os outros desenhistas talentosos e cheios de glamour como ela. ela não tinha nascido pra psicologia, mas fazia aquilo parecer sua vocação desde que nasceu.
'a gente podia ter sido feliz' ele murmurou quando ela passou na sua frente.
ela parou. um grito não a teria parado, mas o soar da palavra feliz a fez sentir um arrepio na espinha.

ele prosseguiu. 'voce era o que eu estava esperando, sabia? era tudo preto e branco, e voce era colorida. a gente teria sido feliz.'

'voce não é feliz?' ela fez uma cara de preocupação engraçada, daquelas de mãe.

'sou.'

'entao corta essa. tá tudo legal.' ela voltou a sua posição, brincando com o casaco amarrado em sua cintura.

'entao deixa eu reformular: voce teria sido feliz.' ele ainda não tinha a olhado nos olhos.

'já disse pra cortar essa. voce teria pirado. e eu sei que não é meu cabelo, meu batom vermelho e nem meus quilinhos a mais. até a shakira acha que tem quilinhos a mais.'

'entao é o que?' ele queria saber, nem ele sabia.

'eu sou tipo o caminho dificil. voce ia ver muita coisa que voce nao gostaria até chegar no lugar bonito de destino, e voce nao aguentaria. não sou eu, é meu estilo de vida.' ela completou didaticamente, cheia de metaforas.

'uh, seu estilo de vida' ele parecia revoltado. 'voce não bebia uma gota de alcool, voce era só uma menininha arrogante com doces na bolsa, voce só tinha 17 anos.' ele concluiu cheio de uma lógica esquisita.

'ok, o alcool me tornou adulta. me poupe, voce não me conhece e eu enjoaria de voce tão rapido quanto da rotina de dois dias. agora corta essa, a gente tá bem.' ela terminou.

'a gente teria sido feliz.' ele repetiu, parecia que tinha arranhado o disco. ou não queria passar a música.

'a gente é feliz. só que separados.' e ela seguiu seu caminho saltitando pelo corredor vazio, feliz.

sobre alguém que é feliz porque pode saltitar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

os dias de verão.

já era a segunda vez na semana que seu contato com ele produzia algo bom, algo novo. e isso a acalmava de uma maneira inexplicável. a companhia dele, caladinho quando ela estava longe, cantando quando ela o tocava, gritando se ela o batia, acompanhando-a em suas cantorias bobas. às vezes ele desafinava, ela demorava pra perceber, mas quando percebia... dava uns apertinhos nele e ele logo estava na linha. ele era bom, com certeza. e estava com ela há... 4 anos? por aí.


naquela tarde eles ficaram deitados no chão do quarto dela por horas, inventando uma música nova, o corpo dele sobre o dela imóvel, os dedos da mão esquerda dela deslizando devagarinho pelo seu braço rígido fazendo aquele som que ela tanto gostava, os da mão direita fazendo cosquinhas no corpo dele - e ele rindo musicalmente em algo que lembrava a nota mi. eles estavam em harmonia, afinadamente apaixonados.


'me dá um blues, meu bem.' ela sussurrou na esperança de que nem ela mesmo ouvisse.


e ela fechou os olhos, ainda deitada sob ele, quietinha. ela não sabia o que fazer naquelas horas, nunca sabia. deixou a música levá-los pra um lugar qualquer onde toda angustia virava uma canção bonita. e no fim da tarde, exausta, ela sorriu ao perceber que havia escrito mais uma música.

ah, o bom e velho violão nunca a abandonava. nunca.


sobre uma menina e um violão numa tarde solitária em casa.

can(sei)

ela fez as malas, sentou-se ali no velho conhecido banquinho-em-frente-ao-seu-prédio e esperou ele.

'não deixa eu me arrepender.' ela pediu encarecidamente para ele enquanto o abraçava.

'eu não vou.' ele respondeu simples e sério.


sobre alguem que nao vai se arrepender.

vivendo perigosamente



constatei perigosamente que a cidade estava cinza. as férias escolares haviam acabado e tudo que restava era o silêncio, doce silêncio da cidade de brasília. ele dava um beijinho em sua namorada pela manhã e eu dormia deliciosamente pela segunda noite seguida inabalável. acho que eu estava feliz - ou pelo menos não mais maníaca.


constatei também que meu pai havia levado o Guia de Recolhimento da União para pagar, o que significava que eu estava prestes a arranjar um emprego de 8 horas diárias e o que significava que eu abandonaria a faculdade logo logo. e com isso constatei perigosamente que um grande sorriso se abriu no meu rosto.


constatei pela terceira vez no dia, que nada mais me comovia. meu pai tinha uma enorme cicatriz no peito, meu irmão acabara de ser operado e minha mãe me ligou para dar notícias. e eu nada, inabalável como um monumento de concreto no maior vendaval que a cidade já viu. constatei entao perigosamente que minha família tinha criado um monstrinho que não conhecia. e senti pena deles...


olhei pro céu pela terceira vez naquela manhã. e constatei perigosamente que estava sóbria.


drummond me entenderia. só não sei se apoiaria muito minhas idéias tortas.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

'it's gonna be gone soon'

'then what do we do?'

'enjoy it.'

'(...)
outro dia eu te vi com uns caras num bar, rindo como sempre, falando besteira. bebendo. pensei que não bebesse. e voce parecia exausta, mas estava rindo mesmo assim, como sempre inabalável. isso me irritava, nada te atingia... por alguns momentos eu pensei que voce gostava de mim, voce demonstrava sentimentos. mas eu nao entendi de inicio, depois eu percebi que voce era assim com todo mundo o tempo todo, de tanto amar todo mundo voce nao amava ninguem. a verdade é que eu acho que todos preferem uma pessoa fácil, simples de entender. acho que as pessoas gostam mais daqueles filmes da sessão da tarde do que dos complexos em matéria de amor. e voce parece mais um filme conceitual, desses que ninguem entende e que no fim nao quer dizer muita coisa.
(...)
hoje eu sou feliz, tenho uma pessoa que me ama de uma forma simples. uma garota inteligente, bonita, que gosta das mesmas coisas que eu. ela é tão transparente, tão facil de ler. eu a amo de verdade, como nunca amei ninguem.'

'e?' ela lançou um de seus olhares pretensiosos, loucos.

'e voce é incorrigível.' ele completou decepcionadamente nervoso.

'talvez porque eu tenho estado certa esse tempo todo.'

talvez.

curto mesmo

ela constatou que estava se afogando. e desejou o ar como nunca desejou mais nada ou ninguém. ela emergiu e respirou tanto que doeu, concluindo que a vida doía mas valia a pena.

ela respirou com vontade pela segunda vez seguida, talvez porque sua vida estivesse cheirando a girassóis aqueles dias.

sobre alguem que aprendeu o valor de se afogar e se mantem o maximo de tempo embaixo d'água só pra respirar melhor...

bom dia? dia e olhe lá

acordei naquela manhã de domingo, devo ter dormido mais de 12 horas e não havia nem vestígio de sonhos estranhos. me espreguicei ainda na cama:

aaaaaaaah (estalar de ossos, tensao ainda sobre os ombros) bom dia sol, bom dia nuvens, bom dia vento, bom dia... bagunça do meu quarto (ergh!), e ...

'acordou? que bom, pode ir limpar a casa. hoje é dia de ir pra missa' minha mãe gritou de algum lugar da casa, ecoando a palavra missa.

é, bom dia mediocridade.