sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

antes que o ano acabe...

primeiro, à deriva, pensei que o sinal luminoso no céu fosse um pedido de socorro, logo aprendi que fogos de artificio não precisam de extintor de incêndio. vamos queimar.

quem precisa de retrospectiva, quem precisa viver de velhas memórias quando temos uma eternidade de presentes pra fazer memoráveis? eu quero um futuro de presentes.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

irlanda

eu mostrei a minha cidade pelos caminhos que só eu fazia nos tempos em que eu estava perdida. eu aprendi a amar aqui, eu aprendi a amar a secura e o vermelho, a estiagem e a primavera dos ipês, a inconstância e as chuvas repentinas, eu aprendi a ser um pouco mais como a cidade. pequenos detalhes que tinham se perdido no cotidiano de concreto, minha mão em um trevo de três folhas, uma borboleta, um coração. e uma lágrima para cada metade dos corações partidos: o que começa em festa e borboletas nem sempre termina em estiagem.
eu mostrei a minha cidade pelos meus olhos castanhos que te emprestei, e eu vi uma infinidade de coisas inéditas no reflexo dos teus olhos verdes.
era a chuva de dezembro em brasília.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

meu exílio em L.C.

Qualquer homem fica interessante à meia luz, ao som de um jazz, mas só ele era tão excitante ao som de qualquer música. As mãos para o piano e para mim, de unhas bem feitas, cabelos ralos e desgrenhados, os olhos castanhos com cílios maiores que os meus - eu competia por tudo mesmo! O tal .................. era um sujeito interessante. Hmmmm, interessante? É, interessante. Algo na sua expressão facial me encantava, o formato do nariz combinando com a boca, a orelha desenhada, as pintas no pescoço, a cicatriz no braço. Com modos ingleses, frio como um inverno europeu, tradicional como a arquitetura barroca, mas algo ali, eu sabia no fundo, era muito mais contemporâneo do que ele podia imaginar. Eu não disse nada entretanto, sendo a primeira e única vez em que me calei em sua presença.
Passamos mais uma noite conversando aleatoriedades musicais, ele era cheio de teorias, seus sentimentos eram como música escrita nos pentagramas. E eu era música cifrada, tirada de ouvido. Eu era mais Rolling Stones e ele muito Beatles. Hey baby, don't let me be misunderstood. Mas eu sempre dava um jeito de ser mal entendida. É o que eu faço de melhor, faz parte do meu show, meu amor.
Ele me mostrou os livros na sua escrivaninha improvisada, eu olhei com a mesma atenção de sempre. Ele me deixou sentar na sua cama enquanto eu ficava olhando para ele, eu com a mesma cara de sempre, me perguntando bem lá no fundo pra que ele não ouvisse como é que alguém podia ser tão rotineiro e tão excitante ao mesmo tempo. Eu não entendia. Quase dois anos se passaram desde esse dia, em que eu quis ver bem mais de perto como é que se fazia isso que ele fazia tão bem, eu não conseguia entender, eu tinha só 18 anos.
Não consegui extrair mais uma palavra sobre L., me perguntei o que eu tinha feito com esses quase três anos de memória. Simples: eu tinha abrido um blog.

p.s.: you had me at the rolling stones.

Depois dos 20 a gente começa com umas manias de transformar qualquer amor do passado em poesia.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

albania

ontem eu sonhei com alguém que conheci amanhã durante uma noite em que eu fugia do tédio, seu nome é indrit e eu esqueço seu nome enquanto me entretenho com sua gargalhada franca, caindo em contradição a cada frase. primeiro ele boceja com seus olhos escuros quase fechados, depois diz que eu sou peculiar e alguns minutos depois dá a primeira gargalhada. eu sorrio pouco, me contradizendo outra vez. ele me pergunta do futuro, eu pergunto do presente. ele tem insônia, eu tomo prozac. ele me conta de sócrates, eu falo de foucault: ser excêntrico é complicado, tudo é normal. o tédio se desmancha em risadas, estamos em slow-
mo-
tion.

façamos planos, durmamos bem e bons sonhos pra você. e pra mim se você quiser dar o ar da graça.

domingo, 19 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

tarot

minhas mãos caminharam pelos traços do rosto que eu mal conhecia, o lápis sem borrachas, as maçãs sem rostos, os espinhos sem rosa. as cartas diriam que havia um viajante em meu caminho, eu não saberia dizer se era eu, você ou nós dois ao mesmo tempo. Norte e sul são só questão de referencial e a sorte também.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

confessions on a dancefloor


ela sentou e sentiu o mundo cair em pedaços no seu devido lugar, a cabeça pesou depois da dose de whisky e sequer notou a presença dos casacos nas pessoas ao redor - estava frio, muito frio. ela sorriu pela enésima vez sem motivo aparente enquanto ajeitava as mechas de cabelo que saíam do coque arranjado no meio da pista de dança. ele riu da cara boba que ela fazia enquanto arrumava os cabelos, ela mordia os lábios e ainda conseguia continuar sorrindo, tudo ao mesmo tempo.
ela levantou os braços de repente anunciando a música que tocava: 'at first I was afraid, I was petrified - but I will survive!' e deu um largo sorriso pra ele enquanto comentava para si mesma que amava aquela música. Ele a convidou pra dançar dizendo que amava aquela música, ela sorriu mais ainda: era bom demais pra ser hetero.
ela recusou, fazendo menção de tomar mais uma dose. ele a segurou pelo braço, ela virou o rosto para encará-lo. Ele a convidou pra dançar, ela sorriu mais ainda: a noite inteira...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

don't go away mad

just go away - motley crue.
 
"nós poderíamos cruzar os mares
ou pegar um trem desgovernado
ou entrar num foguete pra chegar no espaço
nada mais a se fazer
coisas demais foram ditas
para fazer com que se sentisse
como nos sentimos ontem

as estações devem passar
estradas diferentes, caminhos diferentes
se tivermos de culpar alguma coisa
vamos culpar a chuva

eu sempre soube
que eu teria de escrever essa música
jovem demais pra me apaixonar
acho que sempre soubemos disso

está certo, está tudo bem
nós estávamos atravessando a juventude
sorrindo nos momentos de dor
está certo, está tudo bem
vamos virar a página"

sábado, 11 de dezembro de 2010

e a chuva cai sobre os vivos e mortos, sobre os justos e os injustos, de uma vez só, porque somos tudo isso de uma vez só. às vezes esqueço da tua presença sem fazer questão, entretanto você insiste em surgir nos corredores vez em quando. quando você quis nos matar minha única inquietação foi porque você não me deixou em paz.

e a chuva cai sobre mim e sobre você, porque sabemos que vivos ou mortos, ainda habitamos o mesmo lugar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

bolo de coração

o problema não é partir o coração, o problema é o que você vai fazer com os pedacinhos. i must admit you broke my heart. 

você vai entender se clicar.

eu resolvi fazer um mosaico.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

o que aprendi com m.a.m.

ei,
hoje vi uma propaganda daquele filme que a gente assistiu junto, fazendo as piadas mais nonsense. lembrei de você, especificamente você, com seu jeito engraçado de parecer sério, com o seu jeito menino de querer ser homem, sabendo que em termos de whisky só eu colocava o pau na mesa. dos porres com hora marcada, da guitarra tocada à noite, das fugas de uma noite só, dos rabiscos que deixei na tua parede e no teu âmago do ser, dos prêmios jamal. do medo de crescer e do medo de estagnar. das caronas e das maioneses caprichadas. carne à vontade e música alta. rock the casbah. das pequenas coisas, do lirismo prático. dos supermercados e das árvores de natal. dos park days. nada científicos.
lembrei de você, deixei escapar um sorriso daqueles que eu não dava fazia tempos. tentei lembrar quando eu tinha ficado tão amarga... não lembrei de você. tentei lembrar quando você me fez temer por mim mesma, concluí que foi na hora em que olhei pra você e pras suas angustias e vi meu futuro.
lembrei de você, mais do que um dos homens da minha vida, você é grande parte do homem em mim.

uma dose de whisky pra você, uma dose pra mim. sem gelo, por favor.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

8 vezes você

o champagne voou em câmera lenta em direção ao solo. 5, 4, 3, 2, 1. Uma parte de mim ia junto, sabendo que eu não podia me entorpecer de álcool, só de fármacos. piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii - estamos perdendo ela, estamos perdendo. perden... do.

ela brincou de roleta russa buscando uma montanha de mesma nacionalidade, mas cheia de emoções. eu já sabia de tudo: eu estava morta. enquanto isso ele me fazia companhia, acreditando na vida até o último momento: me ama que eu sei que você é feita de amor. e eu amava o pouco que eu podia, um dia de cada vez. ele sorria amarelo, comia minha comida, dobrava papéis comigo. aprendendo francês.

o cabelo azul ficava verde que ficava branco que ficava roxo. as mãos ficavam paradas que ficavam trêmulas que ficavam fechadas. então em uma janela, em outra faixa, você me dava um sorriso de graça. assim, por nada. e eu aceitava presente de estranhos. ele fez música, eu fiz amor com os olhos - lisérgico, a pós modernidade dá conta de tudo. e ele fez o que eu fazia de melhor, na minha frente. faz parte do meu show...

o outono veio e foi, com as cores se misturando no ceu, com os gostos se misturando na boca, com os gostares se misturando no peito. nada a fazer nada a fazer nada a fazer e milhares de coisas a serem feitas. eu definitivamente tinha sorte no jogo. com 315 reais no bolso, um empréstimo de 420 reais e um outro de 300 fiz as malas pro peru. elas me fizeram companhia, acreditando na vida até o último momento. eu fazia o que eu sabia fazer de melhor: ser uma estrela cadente, atravessando uma noite inteira num brilho meteórico e sumindo pela manhã, pela tangente do horizonte, viajando o resto do universo enquanto acreditavam que eu tinha me apagado. nos encontramos em outro planeta, em outra vida - como eu sempre mencionei. se what comes around goes around então meu amor foi um modelo.

você me deu um sorriso de graça,  eu te fiz um desenho. bariloche, buenos aires. meu quarto e uma pilha de papéis. florida e santa fé. sorriso e corações de jujubas em todo o lugar. antes que o ano terminasse você estourou os fogos de artifício: feliz vida nova! a primavera veio, minha vida nova também. você ficou. do outro lado do canal. mas eu lembrei de você com amor, com desejos de todos os sorrisos que você me deu. what comes around goes around, baby. i assume you deserve the best, and so does the karma.

sábado, 4 de dezembro de 2010

retrospectiva

ao meu melhor amigo,
que permanece ao meu lado nos dias cinzas e nublados
nos quentes e molhados
na ciência e na arte
na lógica analítica e na lógica minha

ao meu melhor amigo,
que permanece comigo nos dias em que eu não falo
planejando uma viagem pra índia
um retiro no templo budista
pro próximo semestre estudar metafísica



ao meu melhor amigo,
um gênio de palavras lidas e escritas,
que sabe como ninguém lidar com meus caprichos
e sismas de apagar tudo que escrevo
sem apagar tudo o que fomos e queremos ser.

ao meu melhor amigo,
que burla o calendário tradicional
e conta anos em loucuras realizadas
que muitas folhas se virem
e nós continuemos líricos, leves e soltos.

(que nós sabemos que o que a internet uniu nem a internet separa)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

os sintomas foram me preenchendo aos poucos, o coração batia descompassado, os olhos ficavam mais úmidos que o normal, a respiração ficava ofegante, um tremor subia das pernas para os braços passando pelo peito. senti que ia desfalecer, aos poucos, vendo tudo ao meu redor se desmanchar em câmera lenta do mesmo jeito que vi minhas certezas se despedaçarem um tempo atrás. as formigas escalavam meus braços, minhas pernas, meu rosto e adentravam meu corpo, fazendo meu estômago formigar. meu corpo se encolhia em medo, mas por dentro eu continuava de queixo erguido: o que eu sentia não tinha nenhuma razão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

uma carta pra você

um alívio pra mim.

"gosto do teu sorriso ainda, atemporal, sem destino
do teu andar de chuva, pingando aqui e acolá
gosto ainda, sem estações
dos gestos ingênuos e das utopias
das aulas chatas e da filosofia
da boa música em todo lugar:
beatles, rolling stones, musica popular.
gosto do teu sorriso ainda, das coisas etéreas
da lógica fraca que sigo
de implicar com seus amigos
gosto de você ainda, meu amor é hermético
gosto do teu sorriso ainda
meu amor se explica no materialismo dialético."