segunda-feira, 27 de agosto de 2012

confissões

(...) parte de mim tem certeza, a outra não sabe nada. Sei que preciso ir e que ficar me faz extremamente mal. Sei que meu destino está em algum lugar além das fronteiras geográficas, mas acima de tudo além das minhas próprias fronteiras. sei que vou viajando sozinha, sei que o caminho é mais gratificante que o destino e é por isso que gosto de caminhar sem chegar a lugar nenhum e passando por todos os lugares.

domingo, 8 de julho de 2012

saudades

às vezes me batem saudades das coisas mais simples: de uma tarde de aula matada, de uma manhã em sala trocando bilhetes, das nossas primeiras descobertas de um mundo novo. dos almoços cozinhados mais ou menos, das noites passando frio em asuncion, dos dias infinitos na argentina, da brisa que passeava conosco pelas ruínas do peru. não que eu viva de passado, mas é que às vezes me batem saudades e eu vou à nocaute...

sábado, 23 de junho de 2012

passada

e as nuvens passaram
o azul do céu também
e eu amarrotada ainda
esperando você passar
na esperança de que tu não (me) passe
- pra trás -
no eterno vai e vem
em que nem eu e nem tu
ficamos passados
sigamos aos amassos
e fiquemos amarrotados

sexta-feira, 22 de junho de 2012

sei que não gosto de você

gosto é das risadas que me arranca
e dos sorrisos que me põe na boca

terça-feira, 5 de junho de 2012

cigarros


contando o nosso tempo em cigarros
me queima e me traga
me faz virar fumaça

me dobra em meio sorrisos
me tira as palavras
só não me faz virar fumaça...


domingo, 20 de maio de 2012

Manifesto do Feio

não quero ser pura ou bendita
não quero ser bela ou bonita
nem negar a realidade que se amontoa em forma de lixo

quero vida real, quero tudo legítimo


quero somente as belezas além da pele
além das formas, além da razão (áurea)
não quero ser bem bonitinha nem ordinária
não quero nenhuma beleza obrigada


quero a feiura sincera das pessoas de verdade
que vivem 365 dias por ano
sem rascunhos, sem photoshop
só arte final sem outros retoques

peles, carne, ossos, gordura, espinhas, cicatrizes, marcas, defeitos e qualidades
quero ser rio, quero ser margem
que o que é feio ocupa o mesmo espaço do belo
sem nenhuma bondade absoluta
pela pureza das putas 
traços tortos, desencontrados, sem harmonia
quero tudo que é parte da vida
quero o direito de ser alegre tanto quanto o de ser triste
quero o direito ao feio... se é que isso existe

terça-feira, 15 de maio de 2012


e o que eu mais queria trazer na mala não coube nem na mochila nem no coração. quando tu pingou em mim eu transbordei. e agora eu sou livre outra vez.

gracias.

terça-feira, 8 de maio de 2012

piscianas

piscianas,
de olhos grandes
bocas pequenas
e corações mais apertados ainda
que dão sem receber
pra que nada lhes toque
- é que elas não querem se desmanchar
só deixar marcas-
piscianas
se dissolvem em água
evaporam no calor
e congelam no frio
sublimando na primeira brisa
ah, piscianas
cheias de simpatias
se guiam por mapas (astrais)
navegam por cartas (de tarot)
vivem na noite, de cama em cama
que é pra ver se o sonho não acaba
que é pra ver se o sol não desmancha a ilusão
de mais um amor de meia-estação...


quinta-feira, 3 de maio de 2012

canetinhas

nada de extraordinário aconteceu
as manhãs continuaram cinzentas
os meio-dias com sol rachando
as tardes com céu rosado e fresco
a noite com lua enchendo
e eu me derramando em silêncios
e me enchendo de silêncios
mais angustiantes que qualquer fala
- talvez por isso a indiferença seja tão certeira e fatal-
nada de extraordinário aconteceu
só a vida toda que eu deixei pra trás...

quarta-feira, 2 de maio de 2012


encostei minha cabeça na janela aberta do carro em movimento, vendo a vida passar e sem saber se era eu quem ia em frente ou se era o mundo que ficava pra trás. fiz aquela velha dança com as mãos, sentindo o vento correr entre meus dedos longos e finos - "dedos de pianista", diria um antigo amor, "dedos que fazem sinfonias de risadas a partir de cócegas".
(...) conheci esse cara que queria transformar cotidiano em arte. pensei comigo mesma que essa tarefa já foi feita, que toda rotina é perfeita imitação que nunca se repete. conheci esse cara que disse que queria ser livre como eu, que vai cantarolando samba, que vai pintando a dor em aquarela que é pra ver se a dor dói menos, que queria ter mais coragem de ir e menos de voltar. ele disse que queria ter a minha coragem.
nunca gostei de desfazer malas, nunca gostei do retorno. a volta sempre me pareceu uma covardia, um abandono da estrada, da liberdade. sou amante dos ventos que acariciam meus cabelos, dos asfaltos que beijam meus pés, das paisagens que me deixam degluti-las, digeri-las todas. nunca gostei de ficar porque eu bem sei que todos os prazeres são efêmeros, e que todas as cicatrizes são eternas. 
ele disse que queria ter a minha coragem e a minha certeza, sem saber que eu era a maior das covardes... 

terça-feira, 1 de maio de 2012

ressaca moral



tomo coragem
tomo mais uma dose de whisky
tomo cuidado
só não tomo juízo:
e não existe engov pra ressaca moral
tomo decisão
só não tomo mais vinho...





terça-feira, 24 de abril de 2012

cheia de (não) me toques


quero um abraço
que desafie os físicos
que desafie os matemáticos
sendo dois e dois igual a um
com duas pessoas ocupando o mesmo espaço

quero um abraço
tão apertado quanto meu coração
tão demorado quanto um dia de trabalho


quero o calor do mar
o frio distante do sol
a luz do escuro luar
quero a contradição das estrelas
pesadíssimas
mas flutuando no ar

segunda-feira, 23 de abril de 2012

oração

vou escrever poema
vou fazer ciência
vou fazer parte
vou fazer drama
vou fazer arte
vou te enquadrar
te colocar nos meus versos
te fazer poesia
te fazer projeto
te fazer sujeito
te fazer objeto

vou te fazer presente
enquanto o resto do mundo vira pretérito...

domingo, 22 de abril de 2012

mar à vista

naveguei como barco à deriva na superfície dos teus abraços
no turbilhão dos teus beijos desesperados
sem sentir e nem sentido
perdidos

e o mar
me engole, me consome
põe em salmoura meu coração machucado
fazendo as feridas evidentes, fazendo das feridas cicatrizes

e eu me afundo
submerjo e (me) debato
tomo com sede minha dose de juízo
nem ir em frente nem voltar, meu bem: naufragar é preciso

domingo, 15 de abril de 2012

eu caí na água e me deixei afundar lentamente, ignorando que eu sabia nadar e que eu queria respirar. vez ou outra eu mesma me surpreendo, vez ou outra eu me pego sorrindo de canto e tomando outro gole. e finjo estar ciente de todas as consequencias, como se o real não fosse uma sucessão de imprevisibilidades e de surpresas. nem verdade e nem consequencia, só realidade. e eu me conformo e danço segundo a música que toca, mesmo que eu não goste das canções e das cantadas porque em uma eternidade de silêncios e solidão aprendida qualquer som parece uma sinfonia...

(...) e de tanto fingir que nao me importo, talvez um dia eu realmente nao me importe mais. quem sabe, titio, quem sabe...

quarta-feira, 28 de março de 2012

faz parte do seu show

não notei suas mãos nem seu nariz, nem o tênis que calçava ou qualquer outra trivialidade na qual sempre procuro manter o foco pra não me deixar tocar, pra eu não me tocar. não consegui distinguir o que era isso ou aquilo, e eu soube então que o todo, definitivamente, não era meeeeesmo igual a soma das partes...

sábado, 24 de março de 2012

blues dos meus 18

por favor, uma dose
de whisky sem gelo
um pouco de blues
e alguns conselhos
a garrafa cheia me chama
baby, eu sei que é só ela quem me ama

uma bebida quente
pra uma boca tão gelada
minha única companhia
é minha guitarra
um dia escuro pede sempre
uma noite em claro
em qualquer lugar
menos no frio do meu quarto

frases vazias e incompletas
que me dão certeza
você é um idiota
mas me paga uma cerveja
ou uma bebida amarga
que lembra voce
gelada e barata e
qualquer uma pode ter

você diz que eu olho e não vejo
eu não entendo em palavras
por favor,
então me explica em beijos
mas aí eu percebo
que só quem tem minha boca
é uma garrafa de vodka
que me deixa louca

e pra nenhuma solidão existe o homem certo
porque pra mim o amor está no bar mais perto
eles falam de amor, se acham tão espertos
mas pra que falar de amor se a gente tem boteco?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

alegorias (platônicas ou não) de carnaval

e eu não te deixo queimar
não te deixo colocar máscara
enquanto tu não me canta
também não me coloco em marcha
te deixo ver além das minhas fantasias
é que o nosso carnaval começa
só na quarta-feira de cinzas

sábado, 28 de janeiro de 2012

homem ao mar

ele tentou encontrar os olhos por trás do vapor que evanescia da xícara de chá que eu usava de pretexto para manter minhas mãos ocupadas. e eu permanecia enigmática, estática, sem fluir com a fumaça com aroma de frutas cítricas, eu permanecia. sem palavras, e sem silêncios, sem me deixar encontrar - perdida de tudo.
(...)
seus olhos eram quase verde, quase castanhos, quase mel. quase. uma doçura de quem parece estar rezando para que não lhe descubram os inevitáveis medos que eu bem conhecia. sem maiores incêndios apesar de toda a fumaça entre nós, não encontrei o fogo. mas sabia que algo queimava em algum lugar, bem no fundo. (...)

eu evitei olhar demais dentro daqueles olhos. eu ainda não estava pronta pra naufragar. nem pra me deixar molhar...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

é o silêncio, toca mais que qualquer música. o som das notícias me acompanha pelas ruas, por onde quer que eu vá, como um batimento cardíaco que escapou e me fez perder o ritmo da corrida louca dessa vida moderna. não quero mais. eu quero sempre menos: menos absurdo, menos tragédia, menos violência.
(...)
saber morrer é um exercício diário, e ai de mim que fui por tanto tempo sedentária, ai de mim que não posso carregar o peso de uma terra inteira. ai de mim que ignoro o peso de mim... ai de mim. ai de mim, mas não vou mais me deixar doer. só por hoje.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

devaneios pós-meia noite

eu gosto das coisas simples. nada preenche o vazio deixado pelos pores do sol que não vejo, pelas meias noites que não completo, pelos fogos sem ano novo, pelos versos que não escrevo e pelos rostos que não desenho.

talvez por isso eu seja uma pessoa tão difícil de agradar. não tem fins de tarde no parque à venda nas padarias. só sonhos de creme. e eu quero sonhos de noites de verão.

domingo, 22 de janeiro de 2012

fórmula de fernanda

coração em pedaços
dividido em números reais
por amores imaginários
mais difícil que cálculo 1

+
pra preencher os vazios, pra preencher as lacunas
pra fechar o balanço, pra abrir meus sorrisos
eu espalho pedaços de mim pelo quarto

esse espaço
entre 4 paredes e uma casa
onde eu nao me contenho mas sou contida
questao matematica mesmo, conjunto
+
eu encho o cômodo de tralhas
na esperança de me sentir menos vazia
e quando tudo se vai
o que sobra é evidencia, é bobagem
é espaço em branco
é a angustia materializada em organização
em solidão, em sozinhez
evidente na matéria, latente na carne
/

a gente tem que deixar tudo ir
pra acertar as contas:
daquelas coisas que não cabem na prova real
o que sobra é resto
______________________________________
o que dói mesmo nem é o que vai
mas o que fica guardado lá dentro do peito...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

feliz aniversario

Se eu te digo que lembro como se fosse ontem
Os detalhes de um tu e eu que eu fiz questão de esquecer
Entre burocracias cotidianas de todo relacionamento
términos inacabados
E as datas importantes
É que eu quero dizer que faço questão de lembrar sempre
dos teus olhos de menino,
com os maiores cílios que eu já vi
do teu cheiro que me queima a lembrança
do abraço que nunca sai de mim
dos traços que tu fez no meu rascunho existencial
no meu projeto de mulher bem-resolvida
faço questão sempre de rever
a tua expressão boba
de quem sempre vencia no amor e na guerra
quando me fazia cócegas
quando me fazia sorrir
e quando me deixava chorar.

Parabéns, amor
tu ganhou outra vez.