quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Esfinge

e então ela percebe que os olhos dele são verdes, castanhos e mel, embriaguez constante da natureza etérea e etílica dela e do resto do mundo. São olhos de mel, mas ela já não se deixa sentir o doce. As fotografias que ela tira por trás de seus olhos castanhos vão se sobrepondo, sem nunca se permitir ficar, e ela já não lembra mais do rosto dele. Mas ficam as sensações de alguém que agora enxerga com as pontas dos dedos e as palmas das mãos, de alguém que se esconde por trás do tato na esperança de que não se deixe iludir por ilusões de ópticas, (a)pegando-se ao concreto. 
A mão dele repousa sobre sua coxa, e ela protegida pelo espaço de um tecido, acreditando que assim ele não pode tocá-la. Mas ela sabe que ele pode - e vai. Com os olhos embriagados e torpes, ainda assim fixos nos dela, ele se aproxima, passo a passo mas sem sair do lugar, e ela há milhas de distância de si, um medo dos diabos de cair em contradição. Sempre com armas engatilhadas, disfarces constantes. Ela sabe que ele a intimida, que ela saiu da zona de conforto da deriva, e agora tem de pegar no timão. E os olhos continuam verdes e mel, a barba se espalha pela sua mão - cinismo puro, ela sabe que vai de encontro a tudo isso que se oferece de bandeja para ela.
Por vezes ele apenas a encara, e ela permanece enigmática. Ele prova as maçãs do rosto dela, cometendo o pecado fundamental, e ela sorri porque sente cócegas por dentro, sem dizer nada pra que ele não saiba que pra decifrá-la não é preciso que a devore.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

navegar é preciso

sei que você me procura em outros cabelos, outros corpos, outros olhos, outras peles, outras artes, outros discursos. sei que você está à deriva nos gostares, de onda em onda querendo ver passar todos os mares. e você sabe que em toda essa tormenta teu barco sempre esteve preso a terra não-tão-firme, porto inseguro, pelo nó(s) que ninguém nunca teve coragem de desatar...