quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

st nicholas & 125th

a luz vermelha tomava conta de tudo no rudy's, inclusive de mim. voltar ali era como visitar uma casa mal assombrada, mas eu estava caçando fantasmas de qualquer maneira... encostei no balcão molhado pra uma saideira, era quarta quase quinta-feira. a jack pumpkin ale, eu gritei da esquina do bar, sozinha. tem oito milhões de pessoas em nova iorque mas às vezes nenhuma delas parece te alcançar, só um bartender. de repente meu copo estava cheio de novo e o meu bolso um pouco mais vazio. dei um gole generoso olhando o vazio, à parte tudo, não havia distração alguma no rudy's. ele não fez cerimônias nem inventou assuntos desinteressantes, me acertou direto com um oi. nossa conversa engatou todas as marchas em poucos minutos e estávamos a cem. a porta à qual minha saideira havia me levado era só a passagem pra um outro mundo completamente inesperado e maluco onde de repente eu expunha minhas fragilidades e maluquices pra um desconhecido que, em meia hora, me conheceu melhor que boa parte das pessoas com quem tenho vivido há anos. 

reconheci o seu sotaque sem dizer nada, e respondi em italiano quando ele revelou sua nacionalidade. ele se surpreendeu, sorriu aquele riso largo, lindo, dizendo que eu mal podia esperar pra ver o quão italiano era quando eu soubesse seu nome. era bem italiano mesmo. não se sabe porque nem como, mas de repente minha saideira levou a outra e outra cerveja, e então a um pedaço grátis de pizza que o bartender insistiu em dividir com a gente lá pelas quase duas da manhã. continuamos brindando, nos olhando fundo nos olhos. tradição italiana. tudo que ele sabia era meu nome e minha nacionalidade, mas de repente estávamos conversando sobre as maiores besteiras que fizemos em nossas vidas. era difícil eleger, concluímos. escolhi a minha por ordem de acontecimento, apresentando a mais fresquinha de todas, a que ainda estava cheirando mal perto de mim. contei a ele que me propus a cruzar as américas pra ir atrás de um amor de primavera mas que dois dias antes de chegar as folhas do nosso amor caíram, ele tinha se envolvido com outra mulher enquanto eu atravessava o tempo. 

brindamos outra vez, ele riu e disse que não era por mal e que eu entenderia seu riso nervoso. ele tinha deixado roma com uma passagem só de ida para paris, onde iria viver com um amor de verão que conheceu na itália. mas um dia depois de chegar, ela anunciou que estava apaixonada por outro. ouch. brindamos de novo, agora discutindo qual das situações era pior. difícil escolher. nova iorque tem oito milhões de pessoas e às vezes você esbarra exatamente naquela que você precisava, em uma atração inevitável como se fôssemos ímãs que inevitavelmente se encontrariam em algum momento. depois de algumas horas em pé no balcão, o bar já havia esvaziado um pouco. resolvemos nos sentar em um dos booth vermelhos fita adesiva. nossa aproximação era inevitável e uma força nos atraía mutuamente de uma maneira estranha mas completamente natural. debatemos quais eram afinal os limites entre insistir, persistir e desistir. também discutimos quanto esforço era esforço demais por um relacionamento. era o cego guiando o cego, evidentemente nenhum de nós tinha a mínima ideia e nem teria aquela noite. de repente ele me beijou, primeiro suave, quase como quem desiste, e depois louco como quem quase insiste, como quem tenta demais. 

perdi o fôlego. ele me convidou pra viver todo o amor que houvesse no mundo em uma noite e eu, que nunca soube o limite entre insistir e desistir, aceitei sem titubear. deixamos o bar sem rumo, ele dizia que nossos desejos seriam nossa bússola e nosso mapa, e que eu nos guiaria pela cidade. you are a new yorker, i could tell, ele disse segurando minha mão. era uma noite quase-fria-demais-pra-ser-agradável de fim de verão, quase três da manhã, e fomos seguindo sem saber pra onde até sair na times square, o início e o fim de tudo, e também o meio. nos beijamos entre os letreiros coloridos, seus olhos azuis claros demais refletiam todas as coisas com a precisão de uma tela de alta definição. ele me tomou pela mão e me levou até o centro da times square, e como se houvesse se preparado pra isso a vida toda, me posicionou em cima de um bueiro de metrô pedindo pra que eu fechasse meus olhos, coisa que fiz imediatamente. can you feel it? eu podia sentir tudo. a música subia pelas grades do bueiro e atravessava todo meu corpo. ele, parado a minha frente, segurava minhas mãos, e ainda que de olhos fechados eu sentia que ele me fitava com a alegria de alguém que preparou uma surpresa por meses e agora via o destinatário abrir o presente em êxtase. 

não quis abrir os olhos, eu não sabia mais distinguir o sonho de realidade mas eu certamente não queria que aquilo, fosse o que fosse, terminasse antes do amanhecer. beijei-o em cima do bueiro, e enchendo seu rosto de beijos agradeci a música que agora fazia parte de mim. we will always have times square. de mãos dadas e olhos bem abertos fomos correndo entre as ruelas ao redor da times square e a essa hora, no meio de uma semana qualquer na cidade, não havia mais turistas pelas ruas. era tudo nosso e só nosso, e ao mesmo tempo do mundo todo. sacramentamos todas as esquinas com beijos de cinema, e nos escondemos na marquise de um prédio entre amassos adolescentes. fugíamos rindo dos seguranças que não sabiam o que dizer, também eles sabiam que a cidade era toda nossa naquele momento. subimos a sexta avenida parando em todas as esquinas trocando juras de uma noite só e beijos de uma vida toda. fomos até a quinta avenida, também vazia. a cidade que nunca dormia era linda enquanto cochilava na madrugada. 

chegamos ao encontro da quinta avenida com a 59, na esquina sudeste do central park. pedi um tempo. deitei no colo dele na praça da apple. adormeci entre carinhos e beijos desajeitados e acordei tremendo de frio. ele me beijou carinhosamente, sorrindo. buongiorno. encontramos um café 24 horas na 58, vazio, e pedimos um chá, um café e um biscoito que compartilhamos. ele era um músico italiano alternativo em uma escala de uma semana em nova iorque e não tinha muito dinheiro. mas não me importava contanto que nós dividíssemos mais que cookies. sentamos no balcão, quase cinco da manhã, a cidade ainda semi adormecida, sonâmbula,e ele me beijando entre um gole de café e outro, conversando as coisas mais banais e as mais importantes ao mesmo tempo, com a naturalidade de quem não tem nada a esconder. contudo, conforme a claridade tomava conta das ruas, ele ia se revelando menos e se tornando mais silencioso como se fosse brilhante demais pra ser visto durante o dia. ele era uma estrela. 

ele ria das minhas opiniões ingênuas e ao mesmo tempo muito cínicas da vida e acariciava meus cabelos, me beijando a testa, a bochecha, o nariz, e segurando minhas mãos com o desespero de quem não sabe quando a persistência se torna insistência. nos agarrávamos um ao outro primeiro pra evitar a solidão primordial que é a vida humana, e depois porque simplesmente era delicioso nos agarrarmos sem saber se ao final iríamos afundar juntos ou conseguir salvar um ao outro daquele afogamento em emoções. eu falava mas fazia um esforço pra não dizer muita coisa. quando a manhã já ia alto, ele ainda não havia me decifrado. e por isso ele me devorou. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

three rivers

eu sei apontar no relógio o momento exato em que minha vida mudou. a hora em que minha torrada com geleia caiu de minha mão, em câmera lenta rumo ao chão, virando no ar... enfim, seu destino estava traçado e só me restava torcer pra que a geleia ficasse pra cima.

eu lembro como se fosse ontem, vi você se levantar do balcão, alto, lindo, ruivo. usando um boné do seu time favorito, todo em tons de cinza. seus olhos - eu nunca sei se - eram verdes ou azuis. a barba por fazer também ruiva. eu nunca tinha beijado um homem ruivo na vida. voce foi ao banheiro, e enquanto eu via você se afastar eu me sentia livre, vivendo a aventura da minha vida no interior dos estados unidos, quem diria? ali onde eu nao era ninguem e nem precisava ser eu me senti livre e te deixei partir diversas vezes sabendo que voce nunca tinha saido dali. dei um gole comprido na minha cerveja olhando o vazio. o cara do meu lado interrompeu meu delírio de liberdade: "ei, eu nunca vi ele assim com uma garota". eu ri. em um momento de distração aquele cara esbarrou em mim e poft. derrubei a torrada e agora só me restava assistir sua trajetória até o chão. nao adianta chorar pelo leite derramado e nem pelas torradas derrubadas. e nem pelos corações partidos. 

voce voltou, ainda lindo, ainda ruivo, ainda alto, ainda tudo aquilo que eu sonhei um dia pra mim. sentou ao meu lado no bar, se aproximou e me deu um beijo na boca. acariciei sua barba. todo mundo sabia que a gente era um casal. improvável mas casal. ninguém diria que aquele era o nosso segundo encontro e que nós nos conhecemos na semana anterior no rudy's, em nova iorque, enquanto eu afogava as mágoas em doses de whisky e você varava uma noite acordado esperando o jogo de baseball do dia seguinte. quem diria que daquela noite bêbada pelas ruas de manhattan sairia um segundo encontro em pittsburgh? você me beijou no bar e seu amigo e o resto do bar disseram que não ligavam pra public displays of affection. as coisas mudaram ali, seu rosto colado no meu, minhas mãos entre as suas, nossos sorrisos largos e nossos copos sempre cheios. quem diria que aquele era só nosso segundo encontro?

caímos pra outro bar, eu nos seus braços, agarrada em sua cintura, fotografando minúcias que eu não poderia lembrar e que não gostaria de esquecer. teu sorriso bêbado, teus cabelos ruivos, teus olhos que mudavam de cor, tua barba crescente, tuas sardas amarelo ferrugem, tuas sobrancelhas quase inexistentes. voce era o homem mais lindo que eu ja tinha visto de perto, tão de perto, e aquele sentimento me contagiava e se alastrava por todo meu corpo, um torpor misto com excitação, esperança misturada com incredulidade. voce me perguntou se eu poderia voltar a pittsburgh depois que já estivesse no brasil. eu ri outra vez, expliquei o processo de visto. voce nao tinha sequer um passaporte. nos agarramos um ao outro como se fôssemos afundar. nossas vidas só haviam se cruzado havia duas semanas. era tudo uma loucura mas afinal o que sou eu se não louca?

no outro bar comemos um pouco, recobramos um pouco a sobriedade mas já era tarde demais. eu já tinha saltado. na volta pra casa, a sua, subimos o mount washington no seu carro, voce segurando a minha mão enquanto dirigia com uma só mão ao volante. eu com o seu boné, torto e desajeitado, um sorriso de gratidão pelos instantes de plenitude e um amargor no peito por saber que em menos de oito horas eu partiria pra uma costa dos estados unidos e voce pra outra e era isso. voce reduziu, olhamos para a cidade lá embaixo, linda. it's no new york but i think you'll love it. voce estava certo. fitei a paisagem com olhos famintos, devorei-a com minha vontade de viver, minha fome de vida. seguimos até sua casa.

seu amigo já estava na sala vendo um filme no sofá quando nós chegamos. voce sentou numa poltrona e me convidou pra dividi-la com voce, o que fiz com um sorriso imenso. no seu colo eu senti pela primeira vez em tempos que ali era meu lugar. espalhei minhas sementes por todo lado esperando criar raizes. voce me abraçava e, sorrindo, nao conseguia dizer mais nada. sua gata se reuniu a nós formando o quadro de um momento sublime pra mim. home is where your heart is. te dei um beijo tímido e fiz um carinho nas suas sardas.

"you know, right now you've got everything most people look for their entire life" seu amigo disse apontando para nós dois em estado de êxtase. eu sorri e perguntei o que as pessoas buscavam. "you know, now you are in this amazing american house with a cute boyfriend, a cute pet and a new best friend, what else could you ask for?" eu disse que nao poderia pedir por mais nada e ele adicionou que "i am worried about you, i don't want you to be 75 and look back in regret and say oh i should have moved in with those pittsburgh guys". aquelas palavras me acertaram em cheio. eu não queria perder nada na vida. abracei voce mais forte.

no caminho pro quarto seu amigo me abraçou em despedida e ainda me tendo contra o peito sussurrou em meu ouvido "you don't have to prove anything to anyone, think about it, i know you're a wise woman" e me soltando, disse seu adeus como um até logo. aquelas palavras aumentaram o buraco que as anteriores tinham abrido em mim. comecei a me esvair ali mesmo do seu lado, enquanto abraçados a gente ia pro seu quarto. sentei na sua cama te olhando se despir, peça a peça. te abracei, sorri triste. voce acariciou meus cabelos. beijei seu peito. caímos na cama sem nunca cair na real.

o despertador foi cruel e não nos perdoou as horas. antes das seis já estávamos de partida. você me preparou um café americano, aguado e quente demais. e eu tive vergonha de dizer que não tomava café. bebi dois goles antes de nos beijarmos como se fôssemos nos ver no fim do dia. você desceu o mount washington dirigindo com uma mão só, só pra segurar a minha mão com a outra. a cada sinal fechado nossos olhares se entrelaçavam longamente, sem nenhuma palavra a ser dita. no fundo nós sabíamos que a única palavra que nos faltava e que ninguém teria coragem de dizer era goodbye. minhas 36 horas de pittsburgh chegavam ao fim.

você saiu do carro e me abraçou. nos beijamos de leve sem dizer uma palavra, nos entrelaçamos num beijo que dizia até logo e não adeus. deixei meu coração no encontro de três rios. ponto de confluência. ponto de conflito. ponto de renovação. coloquei a mochila nas costas, apertei os olhos pra tentar gravar na retina aquela imagem tua, lindo, alto, ruivo embaixo do viaduto, o som da água caindo nos espelhos d'água do lado. "see you soon" voce me disse.  e eu acreditei.