segunda-feira, 26 de agosto de 2013

de repente me bateu uma tristeza por toda a vida que escorre pelas mãos das pessoas ao meu redor, aqueles que nunca experimentam a adrenalina do descontrole - que é coisa cotidiana, que é a vida, afinal. como eu fiquei triste. porque a vida é tao preciosa e tão pequena, tão frágil mas tão intensa. como as ondas que se formam no mar, que nos arrastam mesmo que a gente as parta ao meio com a nossa presença insistente, que não sai do lugar ainda que todo o mar se mova na direção oposta. a vida é isso se assim você a vê: algo a enfrentar e não algo que te leve. a vida é inevitável e vai na direção em que ela quiser. ou o destino, sei lá. e nós somos só pequenos grãos de areia revoltos no fundo do oceano... que ou sedimenta e vira pedra ou se deixa levar pela corrente. o mar sabe o que faz. e a vida também.

eu quero é nadar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ah, e todas as coisas que eu quero fazer contigo por causa disso que nao cabe em mim e transborda, transborda e atravessa o oceano atlantico e deságua no seine. eu me a-lago e transbordo e é isso, sem mais. e nosso a-mar desemboca no rio de janeiro, lindo lindo.

ahhh... eu, voce e la mar. 

sábado, 10 de agosto de 2013

que culpa tenho eu, no fim das contas, de prezar mais pelo desconhecido do que pelo que eu take for granted. que culpa tenho eu, me perguntei durante anos, sem perceber que nao havia brechas pra culpa, apenas espaços pras responsabilidades. "que culpa tenho eu?" ecoou na minha cabeça enquanto meu coração insistia em doer, em se fazer presente no meu peito, em sei lá. em bater.
que culpa tenho eu de prezar mais pelos meus desejos, ainda que desconhecidos, do que por todos os outros desejos ao meu redor? oras ,como posso eu agradar e satisfazer os desejos de alguem que nem sabe o que quer? no fim das contas, eu estou quites com todo mundo...
 mas que culpa tenho eu?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

é que eu amo a secura, os espaços vazios e a distância que transformam tudo ao meu redor em horizonte.

sábado, 3 de agosto de 2013

and all that jazz

- as small talks, eu num frenesi raro de mim, como se estivesse de novo no auge de mim, sendo aquilo que eu queria e coisa e tal e de repente, assim, pof, eu caio em mim. aquele tédio assustador e ao mesmo tempo consolo, aquela sensação de estar na inércia, pairando no ar como uma folha que perdeu o chão mas continua no eterno movimento da vida. eu caí em mim. eu que até algumas semanas atrás era anestesia senti o calor do entusiasmo pela vida ser injetado lentamente em minhas veias, comprando livros sem parar, todos eles, e todas as tintas que eu precisava, lápis, borrachas, pinceis, papeis, tudo tudo tudo que sempre esteve ali na minha frente e ao meu alcance e o que me faltava era a força pra ir buscar, to come and get it. sentindo pela primeira vez que a vida se ofertava, se dava como eu me dava nas camas, de pernas e ventre aberto, fértil e esperando ser fecundada. Uma vida fértil como eu sonhava anos antes, em que eu mergulharia nos livros e desenhos e pinturas. E de repente eu caí em mim com o mesmo entusiasmo que eu pairava - ironicamente - e... junto com o desejo voraz de não só existir mas de viver me vem a sensação devastadora de que há tanta vida em todo lugar para experimentar e que uma só de mim e uma só vida não são suficientes pra desfrutar de todos os prazeres e dores do mundo devidamente, com o paladar aguçado, sem deixar um gosto camuflar o outro, sem engolir tudo às pressas. - e será que por isso eu era tantas e não era nenhuma, e será que por isso eu insistia em (me) matar e (me) morrer tudo que encostasse só pra que pudesse viver novas vidas?
E então eu tinha 23 e eu sentia o peso vazio dos primeiros sulcos que se abriam na minha face, as erosões do tempo no meu rosto, fruto dos meus excessos de choros e risos e da enxurrada sentimental na qual eu sempre me deixava carregar e na qual eu  insistia em ser carregada, sem nunca de fato segurar nos resgates que me ofereciam. Porque eu sou peixe, e talvez sereia, me sentindo confortável por um lado e extremamente sufocada pelo outro fosse na terra ou fosse no mar pelo simples fato de não conseguir ser nem plenamente mulher nem plenamente peixe, coisas dessa minha indecisão que sempre pesa escolhas, escolhas, escolhas demais. 
ah, e as small talks que pra mim poderiam dizer tudo, que eu queria que dissessem tudo aquilo que a gente não podia falar. Eu sinto tua falta, porra! E que crime há em amar assim, instantânea como café solúvel em água quente, forte e evaporando mas sem deixar tua sede na mãe, de uma vez, sem tempo de duvidar nem de ter certeza? Que crime cometo eu - que merece tais punições de mim mesma - quando tendo te visto uma meia dúzia de vezes, sem muitas palavras, e sinto que te amo assim, estranho, desconhecido, improvável e cheio de possibilidades livres das minhas pirações de insegurança, culpa e ciúme que insistem em fugir de qualquer tipo de compromisso? Que crime tenho eu, pesando tudo a minha volta, em querer viver de amores leves como as nuvens disformes que pairam sobre as nossas cabeças sem nunca despencarem quando nós queremos? Deixo que se precipite sobre mim, porque pra mim o único amor é o precipitado, que vem de repente, verão ou inverno, e que nos pega desprevenidos. que nos molha e que às vezes é celebração mas que às vezes é fastio, é excesso, e que me dá umas ânsias de vômito porque é demais - demais, demais pra mim! E eu não posso dizer nada disso se não exprimir em pequenas palavras, em small talks o que eu sinto, o que quero e às vezes nem quero dizer mas sinto que devo dizer e espalhar pelo mundo como coisa contagiosa - espalhar minha loucura e confusão pelo mundo como coisa contagiosa, que na verdade é apenas meu desejo de denunciar a loucura e confusão do mundo que nós criamos e criamos todos os dias. E então se eu posso dizer, sem saber já sabendo o que sinto, então não encontro palavras que se encaixem logicamente. e então eu me deixo escrever em palavras sem graça e... com toda minha ânsia de correr o mundo - eu quero ser uma garota independente -  e lá vou eu saltitando de destino em destino, plic plic plic, pingando no mapa mundi como chuva também, me precipitando sobre a vida como eu quero que o amor se precipite sobre mim, como eu quero que você se precipite sobre mim no verão, mas com um medo dos diabos de que tua chuva seja tempestade e que me leve pra longe de mim e que eu não consiga voltar se tua correnteza me abandonar à deriva de qualquer outra onda. 
e aí eu caio na estrada, caio em mim, caio caio caio, porque andar sobre dois pés às vezes me parece presunção demais da humanidade que quer sempre estar em um patamar que julgam acima da animalidade bestial e selvagem que eu tanto adoro. lutando contra as forças de toda natureza sempre... um tédio, uma luta que todo mundo já sabe bem o final. assim eu me explico pra quem queira entender porque me entrego - como quem sabe que tem culpa no cartório e fora dele - e estou sempre entregue, sempre entregue a essas torrentes de selvagerias emocionais... é a minha natureza. 
e então me vejo ali, naquelas palavras que devem dizer tudo mas que pra mim já não dizem nada. minha loucura assusta como a loucura do amor dos outros por mim me horroriza e me espanta, como se eu fosse pega desprevenida sempre pelas admirações que não busquei. trabalhar, NYC e cair na estrada até LA passando por Frisco, Seatlle, ou aonde a estrada e minha carne me levar - porque também o coração é feito de carne, e então coisas maçantes da vida e aí paris, paris, paris! minha cura e minha doença, meu veneno e meu remédio... mais veneno, porque para ser remédio é preciso que seja tomado com a disciplina das doses homeopáticas, e a disciplina nunca foi virtude minha. E aí Paris e aí o que? Longas caminhadas pelo Musee d'Orsay, e pintar os amantes promissores na ponte dos cadeados em frente ao Louvre, e ficar marginal, ali em volta do Seine na madrugada quente-demais-pra-Paris bebendo vinho barato e divagando sobre toda a poesia que eu jamais vou escrever e toda a música que tu jamais vai tocar- ah que tristeza que a vida moderna é - e bebendo teus beijos em doses vertiginosas que me fazem rodar mais que a roda gigante da Place de Concorde. e depois teu peito nu e quente, lacrimejando gotas de suor, chorando o calor ao qual eu estou tão acostumada e que eu amo sem moderações. e depois teus tintilos improvisados pelo piano, teus dedos passeando rápido demais pelas teclas fazendo aquelas coisas que me fazem estremecer como se cada nota que você tocasse na verdade fosse um toque em uma diferente parte do meu corpo desconexo. aqui, sol, lá. mi mi mi mi. sem dó de mi, nenhum. fa fa fa fa. si si si si. tudo si, nada de não e essas coisas, no balanço das cordas que eu não sei tocar. e aquela minha expressão facial ingênua que eu não aprendi a disfarçar - e nem quero, sei lá, e depois a minha expressão forçada de quem não quer parecer presa fácil, de quem não quer parecer indefesa como sabe que realmente é. Dó. E tocar umas músicas bestas que eu escrevi em Montmartre, e pintar as gentes que passam sem cobrar nada, só em troca do precioso tempo delas, em troca de todas as outras preciosas possibilidades que eles deixam escapar enquanto se entretem comigo, só pelo preço e pagamento de ser escolhida entre tantas maravilhosas e brilhantes possibilidades, só pelo preço de ser a escolha. e depois é culpa que cai sobre mim, eu que nunca devia ser escolhida e que nunca devia desafiar ou desbancar minhas amigas, as possibilidades infinitas da vida, porque entre tudo que vive nesse mundo e tudo que já morreu é isso que eu também sou: possibilidade. e que pode vir a nunca ser escolhida. é a vida, e ainda assim eu sou possibilidade, independente de escolhas... 
e aí voce talvez me acharia excitante, e viva, e me trataria não como um bibelô que você carrega pelo braço enquanto desce a St. Michel, mas como vida, como movimento, como música - que só é música porque se move, que te contagia mesmo que você não a toque, ela sempre vem e toca você, que sorri como uma criança. (...) e ahhh, eu olharia outra vez pro teu rosto só pra ver se eu realmente entendi o que vi naquele dia quando você não conseguiu me atravessar com um olhar e ficou preso aqui dentro em algum lugar de mim, como uma flecha que estanca a ferida que ela abriu, e sem a qual eu sei que irei definhar e definhar... até que eu seja só sangue que escorre sem pulsar. eu em mi e você, sol. aquela felicidade dos teus olhos que eu não esqueço, aquele brilho repentino e infantil quando tu me viu cruzar os umbrais do bar fingindo não te ver, e depois você na conserva do whisky pra me conversar, o olhar torpe de quem já tinha entrado numa estrada sem volta, o olhar embriagado de quem queria me derrubar - na cama - numa queda de (a)braços. e eu obviamente caio na tua, na verdade tu não me derruba porque - é... - eu já tinha caído há tempos. Ne me quite pas e essas coisas bonitas em notas improvisadas, because maybe you're gonna be the one that saves me and after all you're my wonderwall. e aí eu vivo nesse eterno suspense, que é o que me mantém de pé, o que me mantém suspensa no ar e vivendo, de te querer perto de mim e continuar te afastando, pra que a tensão continue no ar, pra que eu ainda alce vôo sem paradas planejadas e sem destino, mas com todos os destinos do mundo. e como eu não gosto de brincar com o coração dos outros, e nem de brincar com os outros em si e fazer leviandades e sabe-se lá, atacar a seriedade de tudo aquilo que ninguém mais leva a sério além de mim e uma outra dúzia de loucos eu vou brincando com as palavras, e com as cores e as notas das poesias que eu nunca te escrevi, dos quadros que nunca te pintei e das músicas que nunca te cantei. 

e ah... 

o teu riso nervoso com um copo de whisky na mão e o piano, o mundo e o meu coração na outra - e você nem sabendo que tinha que equilibrar tudo isso, e aí me faz cair, pof. e a gente brinda a distância à distância, mas é assim mesmo porque a gente sabe que meu sentimento é grave, mas não são as leis da física, coisas da ciência, que dizem que dois corpos exercem atração um sobre o outro? e a gravidade dos nossos sentimentos, assim ferimentos fatais como tudo que vive e está marcado pra morrer, nos atrai, irremediavelmente, até que a gente se canse de colidir e exploda, você dentro de mim. boom. e eu já nao sei me explicar. 

meu sentimento é improviso. i love you (-) and all that jazz


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

E nós (en)rolamos pelos lençois, agridoces, ela puro mel e eu suor. Ela palavras e - ahhhhhhs - eu suor, chovendo nela, inverno quase primavera. E aquele sorriso que derretia e que evaporava, condensando ao encontrar meu peito gelado, me encharcando por dentro e por fora. E eu suor. Say you'll remember me in the morning - eu disse a ela, pingando, me derramando, inundando a casa com o nosso perfume, eu e ela uma coisa só. E seus olhos grandes na noite como duas luminárias, a boca entreaberta, promessas de uma boa memória na qual eu não queria confiar. Quantos homens teriam visitado aquele templo, aquele lugar que pra mim era sagrado mas que eu tinha certeza que pra muitos era parque de diversões daqueles que se entra com bilhete único - one night stand? E quantos teriam ido não só de passagem, quantos teriam bilhete só de ida, quantos teriam ficado ali - quem sabe? - pra sempre? E eu ali me derramando, e me entornando nela de um prazer duplo, de ida e volta, de vai-e-vem, vem vem vem. E embora ela não se desse bem com muita gente - assim ela me dissera brevemente em sua introdução - ele se deu toda a mim no espaço de  meia noite, na largura de uma cama de solteiro, na altura dos seus modos reais, na profundidade de uma garrafa de whisky.
E ali eu tinha acabado com ela e comigo, acabado com eu e você enquanto matava tempo. E destruindo qualquer possibilidade de que pudéssemos seguir caminhos distintos separados - ainda que diferentes nossos caminhos agora estavam irremediavelmente ligados pelo nosso encontro, no ponto. Eu queria ser marca naqueles lábios, não cicatriz, mas marca sem dor não é marca permanente, e assim a nossa separação anunciada prenunciava a duração do vestígio que sua passagem não-programada e displicente por mim deixaria - permanente. E assim ao fim ela permaneceu estática na cama, como se estivesse realmente morta, e aos poucos enquanto retornava de sei-lá-onde que ela estava, fui para o banho. O que eu faria com aquele corpo que jazia na minha cama, o ventre em canela que eu maculara com leite, as coxas macias, os seios se espalhando por todo lugar, os cabelos desenhando coisas inimagináveis no meu colchão... o que eu faria agora que eu tinha acabado, que ela tinha acabado? E a água que agora escorria por mim, não mais suor, a água quente, e a neblina ao me redor que me confundia cada vez mais e meus pensamentos esfumaçando junto e... toc toc toc na porta do meu box?  E ao abrir a porta, a neblina foge levando meus pensamentos com ela, minhas duvidas, divagações, loucurinhas de estimação e "may I come in, sir?" ela me diz doce, nua, sem duvidas e sem certezas, a ingenuidade me batendo à porta da maneira mais improvável, em forma de mulher nua, minha mulher aquela noite, e eu inevitavelmente rio convidando-a para entrar. E ela se ensaboa calmamente, natural, íntima, virando bolha de sabão em todo lugar. E ela vem, sabão e sabonete, espuma em mim, leve, me levando no balanço dela, beijos destros e canhotos, molhados, pingando. Tudo vai se encadeando naturalmente, ela e eu numa coreografia perfeita, e nós (en)rolamos na toalha, deixando rastros molhados pelo apartamento denunciando a direção da cama onde ela se precipita como chuva de verão, sem anuncio, ainda nua, como veio ao mundo e como parou na minha cama. E se acomoda a um canto, mostrando respeito ao pedaço que me cabia daquilo tudo que eu mesmo criei, e me deitando ao lado dela vi que tinha os olhos de uma garota e a voracidade de uma mulher que sempre quer mais e eu assustado sem saber se eu era ou se era mais . ou se não era nada de mais. E o olhar sereno, embriagado mas não bêbado, os beijos pela minha face, de amor e não de amante, coisa assim sobrenatural, e ela se confessava, olhos fechados e mão na minha face, como se pedisse perdão pelo que ela nunca podia falar - não porque não quisesse, mas porque ainda não sabia. "o que tem aqui no seu cordão?" e olhando os pequenos pingentes do seu cordão de prata, percorrendo seu pequeno pescoço com olhos, indo até a sua boca procurando pela resposta. "i always carry with me this rosario my mom gave me though i'm not a catholic person at all, and these other two were gifts from friends" e ouvindo aquela última palavra eu estremecia e sabia que o que eu queria perguntar não era o que eu tinha perguntado, e vendo aquele anel como seu pingente eu me indagava se toda aquela gratuidade e doçura era perversão ou ingenuidade. E então ela começa a contar toda aquela história sobre os amigos que encontrou na viagem, a gondola e o mapa da Itália que ganhou do amigo italiano com quem aprendeu a falar italiano, e o anel do amigo que trabalhava na metalurgia, um inglês ou coisa assim, os dias que passou na campagne e como tudo era diferente do Brasil. E assim, ainda assim, ficava em mim a dúvida e a certeza de que eu queria que ela lembrasse de mim no Brasil. E ela desinibida e sem malícias, só desejo, coisa direta nas curvas do seu corpo pequeno e frio contra o meu, nada lembrava a outra brasileira com quem eu havia transado algum tempo antes. Estando com essa mulher era como se fosse sua primeira e última vez - primeira pela ingenuidade de seus olhos, doces e pesados, acusativos; última pela certeza com que guiava seu corpo em direção ao prazer, como se tivesse tanta experiência que sua boca já não pudesse falar, e o que a boca cala o corpo fala. Perguntei se ela queria dormir ali ou voltar pro seu studio onde a amiga certamente a esperava, e ela se acomodando em meu peito disse que ficaria, pedindo permissão depois inutilmente, já acampada no berço do meu braço. De repente ela me pergunta coisas, e confessa seus antecedentes 'i saw you there the first time i got in to the piano bar and i thought what a fantastic musician he is, i was so impressed by your talent, but i couldn't see a man, only a very talented musician, something that goes beyond ordinary humanity, then you looked at me and i wondered how odd it would be if you were to be into me but i just laughed at myself and walked away with the image of you in my mind... then i came back some other day and there you were, and you looked straight at me and gave me a wave that shaked me forever. then i wanted you to want me and i wanted you, know what i mean?' e toda aquela conversa surreal que eu já não sei dizer se foi ensaio dos meus sonhos ou as realidades malucas daquela mulher dos cabelos azuis e boca vermelha. "then you walked to me and said hello and i was really shy, actually I AM a shy person... i didn't know what to answer and i probably looked stupid, so when the show was over i left in shame. Then the other night when I walked in you waved again and I knew that if looked stupid the other night at least you didn't care about that. But then you didn't make any move later and I left and wondered if you really wanted me and to be honest I only was sure about that when you kissed me, and either way I, sometimes, won't be sure you wanted me. Because you know, we can never be sure for certainty is a serious risk for our fragile selves." e então ali estava aquela mulher, corpo, alma e outras coisas mais espalhada pela minha cama, desmontada, como um quebra-cabeça que está montado seja lá qual for a disposição das peças, linda e louca - não necessariamente nessa ordem, e eu assim me sinto convidado - porque nao intimado? - a também me confessar "i saw you that friday and i knew i wanted you, you looked so fine, and every night after that i was waiting for you to walk into the piano bar, which you did every night after. I tried to get your attention in every way but you were just SO cool to pay this kind of attention in a show. And knowing I had let you go saturday I waited impatiently for you at the piano and when you came I felt something burning in my face and I guess it was my mouth melting into a smile. As I didn't want any doubts or insecurities to distract me from getting to know you better I had a few sips of whisky, and when I saw you were also having whisky glasses no doubts came to my mind anymore." E ela sorriu gentilmente, recebendo minha confissão sem julgar nem me dar penitências, só liberdades de falar, e ela me abraçou suave e longamente beijando minha testa e meus olhos, sem dizer uma palavra. "I had to finish the show earlier because I thought you were leaving and I knew you would be flying back home the day after. But you stayed." "i stayed" ela disse me abraçando ainda, e quando se desfez do abraço eu podia ver aquele riso gentil repousando no seu rosto macio, delicado como a cabeça de uma boneca de porcelana montada sobre o corpo de pano. "You are so cute... I can't believe how cute you are. You are so cute" eu repetia incrédulo, acariciando o rosto dela e cobrindo-a com o cobertor enquanto ela agradecia, tímida, e retribuia em elogios murmurados em ingles e portugues. E assim ela adormeceu, ainda falando, se encolhendo na cama ora com calor ora com frio.
Na manhã ela ainda era a mesma, doce, pequena, louca. E deixei-a na cama enquanto ia tomar meu banho, e ela levantando devagar, bocejando em câmera lenta e etc. Esperei que dessa vez ela não pedisse permissão mas que entrasse sem cerimônia no chuveiro mas ela não apareceu. Ainda assim eu cantei sob a chuva de água quente "I don't take coffee I take tea my dear"  e sabia que pra ela o que era importante mesmo era "be yourself no matter who you are"  e que no fim isso era mesmo cançao pra ela dançar. Assim saí do banho vestido pra trabalhar, e ela terminando de se vestir pra sair de uma maneira tão inesperada, silenciosa e tranquila. Meu beijo a surpreendeu, e ela sorriu ainda com a minha boca na dela, desgrenhando meus cabelos com carinhos - penteados de amantes. Notei que ela parecia mais jovem à luz do dia, sem o batom vermelho, sob a claridade de um dia de inverno comum e não sob a luz vermelha de um boteco parisiense. You are SO cute, did you know that? e ela ria tímida dizendo que não e mudando de assunto rapidamente, ainda mais cute e era isso, a manhã havia chegado e o sol que não se mostrava, covarde atrás das nuvens, anunciava nossa separação. Saímos do meu apartamento, ela carregando uma bolsa de livros que eu não havia notado na noite anterior, meu aniversário de 31, eu cruzando a praça com aquela mulata nos meus braços, como se a desposasse, e ninguém ousava questionar a legitimidade de nossa união mais que provável - esperada, anunciada - e nossa pátria. As ruas não tinham nada a dizer, como se fossemos também parte do cotidiano parisiense, nós, estrelas escritas nos mapas da cidade de Paris, quartier latin. E caminhando até a estação de metrô onde eu seguiria pra minha rotina de dias e noites na corriqueira Paris e ela pro Charles de Gaulle de volta ao Brasil notei que nós éramos cotidiano mas nem por isso permanentes marcas nas ruas da cidade. Sabendo que o destino final chegava perguntei se ela reconhecia aquela rua, ao que ela afirmou com surpresa que sim, apontando para a estação Cardinal Lemoine. Ela fez as honras, e eu a beijei como se fossemos nos ver ao fim do expediente - que ninguém sabia quanto duraria e se um dia chegaria a acabar. Assim ela seguiu descendo a Rue du Monge, e eu sumi na multidão francesa e apressada demais pra desviar uns dos outros rumo ao cotidiano, sem esquecer que beijos de adeus eram cotidianos em Paris, mas nem por isso permanentes...