segunda-feira, 4 de julho de 2016

nyc > orlando

nyc te dá tudo. cada bar uma escolha, cada esquina uma renúncia. atravessei o mar do caribe com a garganta inflamada, os olhos inchados, refluxo. me perguntei o que não estava dizendo. li uma vez que a angústia é a fala entupida. igual minha garganta. nada descia e nada subia, só o avião. me perguntei se meu corpo ia resistir a mais uma aventura mal planejada porém não tão espontânea. primeiro brasília - rio. então a imigração no rio. rio - atlanta depois de uma longa espera, dois ibuprofenos e um sal de frutas. chorei no meu assento já dentro do avião, meu corpo, a última fronteira, relutava contra meus impulsos de vida quase sempre mortais. 

consegui finalmente fazer uma refeição. caí no sono, acordei em atlanta. passei correndo pela imigração, mas nenhum sinal dele. embarquei pra nyc concordando com meu corpo. a angustia era a garganta entupida. e eu não sabia que diabo verde limparia o caminho, só sei que dormi até nyc. mais um ibuprofeno. no aeroporto, subindo as escadas com meu corpo todo leve, um torpor esquisito, paz de espírito comprada em pílulas, no fundo eu esperava que ele estivesse lá. mas não estava. nunca vi um inglês mais atrasado. subi as escadas do desembarque e, esbaforido, lá vinha ele descendo as escadas rolantes correndo. eu, apesar de conseguir planejar voltas ao mundo com a tranquilidade de quem vai fazer uma daytrip pra goiânia, me perguntava se meu coração aguentaria mais essa viagem. meu corpo apostou que não. 

nos abraçamos estranhamente. eu estava apática. levo um tempo pra aquecer os motores quando me deparo com situações novas e esquisitas. ele pegou minhas malas, e conversamos desde arte e filosofia grega até subjetividade em freud, lacan e foucault em uma viagem de meia hora de trem de newark a nyc. era quase hora de outro ibuprofeno e o prenúncio da medicação me dava esperanças. na grand central o movimento me deixou zonza, e nós corríamos entre os passageiros, a mochila nas costas, a poluição, a velocidade. mas o que pesava mesmo era tudo o que não dizíamos e o peso dos mal entendidos. preferia cruzar a cidade com minha mochila de 8 quilos nas costas, seria mais leve. 

subimos para o bronx, esperava que um banho fosse me renovar, que alguma mágica aconteceria. apesar de tudo, continuava entupida e me joguei na cama ao seu lado. conversamos sobre mais amenidades pesadas, fiquei em silêncio. sabia que estava me equivocando mas não quis aceitar mais um erro na minha vida. ele fez um carinho com as pontas dos dedos no meu braço, olhei pra ele sem virar a cabeça e sorri. me sentia alienada e distante - do meu corpo, da vida, da realidade - mas o prazer daquele toque que me levava pra terras mais distantes não me fez evitar entrar nesse barco. ele veio por cima de mim sem me tocar, aproximando o rosto do meu lentamente, criando uma tensão imensa que o torpor do meu corpo ignorou. esperei ele me beijar por longos minutos, sem reação mas com muita expectativa. 

ele parecia maluco de desejo e eu, entorpecida, no fundo sabia que também eu estava louca. 

nos dias que se seguiram coisas estranhas aconteceram e eu pouco lembro dos fatos. as sensações entretanto sobrevivem, agora não mais entupidas. as lágrimas sempre brotam quando conto essa história que espreme meu coração igual laranja madura. eu bebo dessas lágrimas. é melhor que ficar com a garganta entupida. são minha dor e minha cura. meu corpo ganhou a aposta. meu coração não aguentou mais aquela viagem. criei bolha nos pés porque fui longe demais, tive uma crise nervosa porque perdi a mim mesma como bagagem extraviada no caminho. ou talvez tenha me deixado pra trás. meus sentimentos, minhas emoções, a minha coragem impressionante de seguir todos os caminhos sozinha custe o preço que custar. nenhuma volta ao mundo é de graça. isso eu já sabia. 

fomos do bronx ao moma, a pé, e eu me sentia incomodada e com a necessidade de me reafirmar a cada quadra. a cada quadro. talvez porque sentia que não pertencia a você ou com você. nós éramos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes. passamos os dias seguintes visitando seminarios de psicanálise e galerias, museus e restaurantes. eu não podia beber e tive que suportar tudo de olhos abertos pela primeira vez. em alguns raros momentos eu senti que aterrizava no meu corpo de novo. meus olhos brilhavam com entusiasmo, eu me permitia não ser coisa alguma e suportava as consequencias de ser eu em um mundo ao qual eu não pertencia. ele permaneceu o tempo todo ao meu lado, às vezes me dando as costas, enquanto eu me desmanchava como castelo de areia na chuva. chuva de verão. como era difícil retornar ao fundo do mar, sozinha, mas com ele ao meu lado. 

na sociedade hispanica de arte me refugiei em uma sala de leitura com um dos mapas mais velhos da américa e vendo todos os caminhos chorei. chorei porque nenhum mapa poderia me guiar de volta pra minha paz de espírito. chorei porque navegava sozinha e às vezes o timão pesava. 

no chelsea conheci uma amiga dele, professora universitária e poeta - não necessariamente nessa ordem. assim que nos sentamos no terraço de sua casa em uma bela vizinhança, ela já sabendo que eu era brasileira, me perguntou se eu também era uma artista. olhei ao redor, no jardim suspenso, eu, ela e ele. não soube responder, eu estava tão distante de mim mesma que não saberia responder meu nome talvez. falei que eu era pesquisadora e ela disse, um pouco desapontada 'ah... em que?' ao que eu respondi 'psicologia do trabalho'. nada mais animador. ele me repreendeu dizendo que eu também pintava. sorri timidamente pensando que ele tinha razão, mas eu não me lembrava mais o caminho pro meu coração e pros meus olhos. eu não lembrava mais como era fazer arte. eu tinha uma lembrança distante. e aquele mundo não me aproximava de mim. ledo engano.

em outros tempos eu teria dito que sim, teria rido e feito piadas sobre mim mesma mas não tem ibuprofeno pras inflamações da alma. 

acordei no dia seguinte, e como quase todas as manhãs, compartilhamos nossos sonhos. me recusei a interpretar os dele. foi assim que comecei as minhas renúncias que nunca cessaram. ele me abraçou ainda na cama e eu beijei seus braços criando estradas invisíveis que me levavam até seu coração. ah, impenetrável. os ingleses são mestres na arte dos castelos de pedra. eu nos de areia, como toda criança carioca que cresceu pelas praias. entretanto, me recusei a cair. resisti, não caí de amores, não caí doente, fiquei naquele balançar que nem uma coisa nem outra. uma tortura pra gente como eu que é dada a exageros e contrastes. oito ou oitentas. 36 é muito difícil pra mim. tive minhas razões íntimas - e desconhecidas até a mim mesma, pra permanecer assim. meu corpo, no fim, era o único detentor de toda a sabedoria milenar das angustias e falas entupidas todas. salve salve. 

parei de tomar ibuprofenos e comecei a ser eu mesma de novo, pouco a pouco. ao invés de um almoço em um restaurante com cardapio organico e alternativo, sugeri comer frango assado no mercado. e um monte de doces depois. ao inves de um filme cult, um jogo de baseball. ao inves de ingressos antecipados, tentar a sorte na porta do estadio. ao inves de comentarios tecnicos e explicações, suposições malucas sobre os espectadores e o jogo. cerveja e cachorro quente. ao inves de um show hipster, uma boate no harlem com musica nigeriana. dançar ate o chão, beber um monte de whisky. ao inves de silencio e distancia no metro, beijos. ao inves de uma manhã tranquila, ressaca e 'quero comer... hmmm, deixa eu consultar meu coração, daqui a pouco te falo'. ver meus amigos, comer comida cubana. 

mas o estrago já estava feito mesmo. ele beijou minha mão no restaurante, beijou a minha testa. no restaurante tocava uma música que dizia i know that good bye means nothing at all come back and let me catch her everytime she falls. eu sabia que ele ia antecipar o adeus como quem antecipa um voo no aeroporto porque chegou cedo demais. eu devia ter ido embora ali e nunca mais olhado pra trás. me equivoquei por motivos já velhos conhecidos. aquilo tudo era só um lembrete, um ponto de referência em mar aberto pra que eu não me perdesse da minha deriva outra vez. as estrelas são sempre pontos fieis, mas no mar tambem tem dias nublados. ou as vezes as nuvens pousam em nossos olhos e corações. eu estava no harlem e precisava encontrar meu caminho de volta pra casa. eu, que conhecia o metro de nyc como poucos turistas, que sempre me orientei bem espacialmente, me perguntava se eu poderia achar o caminho de volta. pra ele, nunca. pra mim, eu ainda tinha minhas dúvidas. 

nos beijamos na lexington avenue aonde eu já sorri tanto. aonde minha amiga elaine e eu nos divertimos tanto entre blocos de neve e ressacas morais, em silencio absoluto. só os sussurros gritados da cidade em midtown. ele beijou minha testa e resistiu a me soltar. continuamos abraçados na rua. me perguntei o que eu acharia se nos visse na rua assim, nesse vai-não-deixa-ir. ele me disse pra me apressar pra não chegar atrasada, e me disse pra take care. ah, conselho atrasado, o estrago já estava feito. 

chorei de midtown até o bronx, e então pelo queens, pelo brooklyn até o aeroporto jfk. chorei de nyc até a north carolina. e então chorei de guarulhos até minas gerais, onde adormeci e só acordei em brasília. meus pés e minha garganta ainda doíam, mas meu coração estava tão partido que essas inflamações eram só cócegas. tirei os curativos que tinha feito em nyc, coloquei os pés descalços no chão da minha casa em brasília. saí e vi minhas amigas, que sem me ouvir dizer uma palavra, entenderam que minha bagagem tinha voltado extraviada dessa viagem. tive minhas razões íntimas - e desconhecidas até a mim mesma, pra permanecer assim. meu corpo, no fim, era o único detentor de toda a sabedoria milenar das angustias e falas entupidas todas. salve salve.