quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

rehab.


'descobri uma coisa hoje.' ela percorria as pequenas teclinhas do celular com seus dedinhos insones e incansaveis, fazia dias que ele havia se exilado, mas fazia dias que ele mentia pra si mesmo, continuava lá fora. 'eu te amo. e é pra sempre.' ela suspirou. 'me desculpa interromper seu exilio assim' ela escreveu ácida, sabia que ele andava dando suas escapadas. 'te vejo na outra vida' ela pontuou com a saudação que os dois já conheciam bem demais... significava vamos dar um tempo.
não esperava que ele respondesse, apenas que ele soubesse que embora ela fosse tão relapsa ás vezes, o amor não era algo que precisa ser trazido à tona de meia em meia hora: estaria pra sempre dentro dela.
ela se deitou na cama, aquela rotina incansável de se revirar nos lençóis e escutar músicas que falavam demais. o celular tocou, estremecendo seu corpo. já era um hábito se deitar com o celular ao lado de sua cabeça, esperando algo que nem ela sabia o que era.
'às vezes eu tenho impressão de que te faço MUITO mal, sei lá, como voce me disse uma vez e acredito que ainda pense isso. e sei que ainda me culpa. sorry, viagem mode: on'
ela leu. se deitou olhando para o teto. leu de novo. sentou-se na cama. leu de novo. quantas vezes seriam precisas ela ler para que entendesse? talvez infinitas. sentou-se, leu mais uma vez. e começou a chorar.
'obrigada. voce disse exatamente tudo aquilo que eu nunca consegui dizer. muito obrigada.' e desligou o telefone.
deitou-se como se sua consciencia estivesse limpa pela primeira vez em um ano e meio. estava serena como há muito tempo não ficava.
até perceber que talvez ele não voltasse mais.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sintomas.


mesmo que voce tivesse todo o dinheiro do mundo
meu bem, voce nao teria nada pra comprar uma noite de sono
e quando voce se contorcesse na sua cama
eu não estaria lá pra te socorrer
até que voce não seja mais um punhal
e que eu não seja mais uma suicida
enquanto isso me chame um padre
pra me livrar dos pecados
me apresentar a Deus
você é minha cura
ou você é o meu mal?
voce sabe que é veneno mas tem que sentir o gostinho.

meu bem, eu tô caindo fora




ela pensou muito sem chegar a conclusão alguma por mais de 10 dias. isso estava matando ela. decidiu que não ia mais pensar, a ordem era pensar em não pensar e foi o que ela fez (era assim que surgiam suas idéias mais geniais - as mais idiotas tambem...)


"olha, toda vez que olho nos seus olhos, tudo que vejo são meus enganos, um atrás do outro. parece que eles estão rindo da minha cara. eu posso não ser a garota mais linda do mundo, posso não estar nos padrões 'menina-graveto' de hoje, posso não ter um cabelo liso e um óculos de menina cult, mas eu nunca fui idiota. eu nunca fui burra. e voce sempre soube disso.


com isso, minha inteligencia se sente ofendida. ofendida pelo amor idiota que eu tenho por voce. eu sei no que isso vai dar, e nós dois sabemos que eu tenho duas escolhas."


ela hesitou. respirou fundo e recolheu a caneta para continuar escrevendo, rezando para que a caneta não a desobedecesse.


"outro dia eu pensei no seu futuro: 21 anos, terminando faculdade, emprego bacana. voce vai conhecer sua namorada na faculdade, acho que numa festa de relações internacionais - bem voce. e ela vai ser magrela, ter cabelinho alisado, usar um mega óculos escuro da moda e vai ser suuuuper in. tradicional, menina bacana de familia. ou de familia bacana. ou os dois. voce vai começar a falar menos comigo conforme for se envolvendo com ela (acho que voce tem uma superstição estranha sobre eu saber dos seus relacionamentos - voce acha que dá falta de sorte...) e então voce vai namorar com ela. vocês vão ser felizes, vão ter carros. e vão se formar e um tmepo deposi, vão se casar. 24 pra 25 anos. ela não vai querer ter 4 filhos, mas vai ter um ou dois porque voce é legal, sabe? é. e então um dia eu vou te encontrar no mercado, fazendo compras com ela e sabe o que eu vou fazer? eu vou mudar de caminho só pra não te encontrar. mas vou ficar feliz porque voce estava sorrindo e seus olhos estavam brilhando.


e sabe como eu vejo meu futuro? 25 anos, solteira, mestrado completo e doutorado a caminho, solteira, com um bom emprego e um salário fenomenal, e solteira. um apê legal, amigos legais, happy hours na noite e ... madrugadas insones e solitárias. estudando enquanto toca um bom jazz ou um blues, aprendendo meu 4º idioma e criando projetos megalomaniacamente bem sucedidos. os gestores dirão que eu sou em gênio, os acadêmicos vão me respeitar apesar da pouca idade, as mulheres da minha idade vão me invejar e falar que sou encalhada pelas minhas costas. e minhas amigas vão ter pena de mim, vão me apresentar homens esquisitos dizendo que ele pode ser o amor da minha vida. patético. tão eu. e um dia eu vou te encontrar no mercado mas vou desviar de caminho, no meu carrinho que antes tinha um pão integral e um queijo branco haverá uma pizza de frango (sem catupiry, com requeijão, né, que engorda médio, gordo mesmo é calabresa... ), um pote de nutella e um pote de sorvete de qualquer sabor, contanto que haja açúcar o suficiente pra não deixar a tristeza me abater. nesse dia eu vou chegar em casa, vou me olhar no espelho e vou concordar com quintana:


Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:

A gente continua morando na velha casa em que nasceu...


isso seria minha opção 1, continuar com você. me responsabilizar pela sua dor.


mas essa seria minha opção 2:


seu futuro? o mesmo. talvez sem a namorada.


o meu? 19 anos, solteira. talvez sim, talvez não. "voce é tão inteligente!", "aposto que ela não tem namorado", "ss só pode ser de sem sexo". fazendo uma dieta talvez, cuidando da pele talvez, com cabelo curto talvez. a vida vai poder ser diferente. nada mais de preocupações estúpidas, dedicação exclusiva a mim, logo, aos meus grandes amigos. com 21 anos formada. com 23, mestre. 28, doutora. emprego legal, apê legal. um dia eu vou te encontrar no mercado, voce vai me ver e pensar "ela tá bonita, tá bem de vida... carrão. o namorado dela é bonito. isso se for o namorado dela, pode ser que seja só um caso." eu vou estar bem, voce tambem.


e eu me pergunto porque eu deveria me sacrificar por voce? sacrificios não são humanos, eu cansei de ser uma heroína, a sua mais especificamente. já reparou que clark kent não é feliz? não pega ninguém, fica só salvando o mundo. e o homem-aranha? e o batman? eu não quero usar uma capa ou uma fantasia coladinha, eu cansei de salvar voce. eu não posso mais.


mas voce... voce me salvou. voce me salvou de mim mesma. e eu te amo por isso. mas eu nao posso ficar."


ela pontuou e colocou o papel dobrado dentro de um velho envelope pardo. colocou o embrulho dentro de sua bolsa e saiu de casa sem pensar. andou suas 2 quadras tão conhecidas, viu o ponto de onibus onde eles se encontravam, viu o bar, viu o supermercado. atravessou a rua sem pensar, quase foi atropelada - nada que a assustasse, ela sempre fazia isso. viu a lavanderia, a padaria, o salão de beleza onde fazia seu cabelo. tudo já tinha mudado, menos ela. andou por baixo do prédio onde uma velha conhecida, amiga de outrora, morava. olhou o coreto no meio da quadra e lembrou das aulas matadas e das tristezas de ensino médio. tudo havia mudado. chegou ao estacionamento do predio dele: até mesmo seu carro havia mudado, nada mais de carro popular. e porque ela nao tinha mudado da vida popular pra uma mais sofisticada? olhou pra janela dele, igual.


sentou-se ao meio fio do estacionamento, tirou a carta do bolso. releu. olhou pra janela dele, ele estava em casa com certeza. "porque ele me pediu socorro? eu sou só uma garota de aparência mediana, intelecto mediano e vida mediana. eu sou só uma pessoa com muita criatividade, só uma garota que nem sabe o que está fazendo da vida. mas eu sou só uma garota." e fez a expressão de preocupação que ela fazia quando tinha milhares de tarefas atrasadas e nao sabia por onde começar. coçou sua cabeça, despenteou os cabelos já desarrumados. levantou-se e ao parar na frente do porteiro, percebeu que estava ali há alguns segundos sem falar nada.


"oi?" o jovem porteiro falou.


"ah...errr... oi!" ela tentou sorrir. "é, eu..." ela pensou em tudo de uma vez. "esquece." e deu as costas para o homem que ficou sem entender nada.


seguiu em frente e na primeira lixeira, depositou cuidadosamente a sua carta. "não importa que a tenham demolido, mas eu não devo satisfações a mais ninguem."


ela estava quites. e aquela foi a primeira de suas infinitas noites sem insônia.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

'e eu pulei do penhasco...

mais alto que eu já conheci. sem saber se haveria um rio lá embaixo - e se houvesse uma avenida movimentada? e se fosse um prédio e não um penhasco? mas eu saltei de roupa de banho e tudo. porque o amor deve ser assim: arriscado, ridículo, idiota e doloroso. independentemente de haver rio ou avenida.' eram os dias mais estranhos da vida dela, não os mais negros, talvez os mais solitários, mas não mais negros que os do ano anterior. ela sabia que o fim estava chegando, ela sabia. mas não queria confiar em sim mesma. ela olhou para as ultimas palavras dele, ali, piscando.
'voce sabe o que eu vou fazer, não sabe?' ele perguntou.
'eu sei. e tenho mais certeza do que em qualquer outra vez.' ela respondeu com uma certeza que não lhe atingia há tempos. 'não que eu não me importe com voce, muito pelo contrário. mas eu não posso passar nossas vidas toda tentando te convencer de algo que voce quer com tanta força que se compara a uma tempestade. depois de lutar tanto contra o vento cortante, eu desisti. eu só quero ser levada pela correnteza.'
'é, se eu quero...' ele arguiu. e isso a irritava profundamente.
'só quero que voce saiba que eu sou responsável por cada angustia sua, por cada ato seu, por cada arranhado inflingido a voce desde a primeira vez qeu eu te vi. só quero que voce saiba que qualquer que seja sua decisão,vai afetar quem eu sou profundamente.' ela falava daquele jeito que fazia com que ela parecesse que soubesse a verdade universal. ele gostava disso às vezes, a garota não parecia ser tão genial quando estava calada...
ele ficou em silencio, sabia que era verdade. mas ela só tinha 18 anos e era tão maternal, ele não tinha pedido nada daquilo. 'voce nunca desiste, não é?'
'não está entre as minhas opções, eu acho.' ela abaixou a cabeça. não queria derramar nenhuma lágrima.
'voce é sempre tão forte. tão adulta. desde que tinha 14 anos.' ele lembrou.
'é... ' ela tentou rir. se ela chorasse ele não veria. 'é brega e eu nunca pensei que diria isso mas eu não consigo imaginar o que seria minha vida se eu tivesse ignorado a sua presença naquele dia.'
'eu tambem nao consigo. eu nao sei aonde estaria. voce salvou a minha vida.' ele hesitou. 'muitas vezes.'
e voce me matou... varias vezes. ela pensou. e passaram um tempo mudando de assunto, até a hora de dizer adeus.
ele a abraçou, não tao forte quanto da vez passada. seria muito mais duro deixá-la agora. pela primeira vez ela nao disse nada.
'a gente se ve em breve.' ele murmurou no ouvido dela. ela sentiu um calafrio.
e assim que ele dobrou a esquina, vieram suas velhas companheiras. ela não era tao forte, era apenas uma garota de vidro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

'ei, eu não sou um conceito...'


'i'm just a fucked up girl who is looking for my own piece of mind.' Clementine Crucszinsky, Eternal Sunshine of The Spotless Mind.
algumas pessoas pensam que eu vou salvá-las, que eu vou entrar na vida delas e iluminá-las. e eu não posso fazer isso. não posso. (mas às vezes penso que queria - e muito). e é tudo que tem ocupado miinha cabeça nos últimos dias.

sábado, 3 de janeiro de 2009

os 11 mandamentos do amor ♥

quando o amor é em preto e branco e a distância, a cidade é silenciosa e fatal e todos estão em viagem de férias, é muito fácil falar de sempre.

ele nunca entendera o que era aquilo: um buraco negro no peito quando ela ia embora, as mãos tremendo enquanto a esperava, a urgência de fazê-la pensar nele o tempo inteiro, a vontade de que ela não tivesse tantos amigos, como se impressionava todos os dias com as idéias dela. ele nunca entendera. mas tinha necessidades que ele conhecia como ninguem.

naqueles dias, sentia como se já estivesse morto e nada lhe socorria, era mais de 2 da manhã.

'ei garoto, saudades. amor, N.' uma mensagem cheia de substantivos e inesperada, bem a cara dela. às 2:17.

'eu acho que não vou voltar.' ele respondeu, os dedos ainda tremendo.

'oi? do que voce tá falando?' ela sentiu as pupilas dilatarem mais ainda, mesmo que já estivesse no escuro. ela sentia culpa talvez. culpa por questionar o amor por ele, culpa por deixá-lo ir. mas muito mais que culpa, ela sentiu medo. medo de que aquele tivesse sido seu ultimo abraço.

'me ajuda, voce é meu unico motivo agora.'

'olha, não faz nada. volta. pra mim. por mim. que, pelo menos por agora, eu seja seu motivo suficiente. volta.' ela sentiu mais medo. apertou forte o travesseiro e doía. ela concluiu que o amor doía.

'eu sempre vou te amar, sempre. eu te amo tanto, eu te amo.' ele parecia desesperado. até demais. e ela o conhecia como ninguem, ele sabia que ela entenderia.

'volta vivo, foi o que eu quis dizer. deixa eu te abraçar mais uma vez, olhar nos seus olhos. eu nao quero que voce vá. prometa pra mim.' ela não deixou espaço para ele.

'ok, o que voce quiser. obrigada por existir, eu te amo.' ele se sentiu abrigado, acolhido. ela sabia fazer isso como ninguem.

ela descansou na cama, a tensão nas suas costas se desfez. 'sabe, aproveitando a oportunidade... sinto muito por aquele dia no carnaval. eu...' ela não lembrava como dizer aquilo em portugues 'i didn't mean that. desculpa por te magoar.'

era a primeira vez que eles admitiam que ela havia o magoado. 'tá tudo bem, beijos podem significar muitas coisas. eu to ficando com uma menina legal por aqui'

ela sentiu um pouco de vingança talvez. mas o que sentiu mais mesmo foi que ela era uma boba.

'legal :) volta logo. te amo.' ela escreveu um pouco sucinta demais. tão anti-ela.

'só se voce prometer que as coisas vão mudar, que voce nao me deixa mais sozinho. e que voce vai me amar de verdade, como antigamente'

ela hesitou. o que era o amor? até ali ela tinha concluído em seu pequeno dicionario da vida:

1- o amor dói.
2- amar é como alugar uma casa: um abrigo, mas voce sempre pode ser despejado...
3- o amor não é como um pano que se voce tentar cobrir varias coisas ele rasga. muito pelo contrario, quanto mais se ama, maior a qualidade do tecido. e sempre dá pra fazer um remendo. paninho esquisito o amor...
4- amor não é divisível, só mutiplicável (oras, eu amo todos os homens do mundo, i can't help it!)
5- amor não-correspondido ainda é amor. que droga.

6- ah, e não se escolhe quem se ama. p.s.: que droga!
7- não dá pra conceituar o amor.
8- amor não é paixão.
9- amor não é amar.
10- e por ultimo, mas nao mais importante: amar dói! p.s.3: DROGA!

quase quatro da manhã. 'e agora? porque ele sempre tem que fazer as coisas tao mais dificeis? como antigamente? antigamente doía bem mais pra mim e bem menos pra ele. ah, que maravilha. como se eu ainda tivesse 14 anos! cut it out!' ela pensou mais. 'droga.'

'prometo amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saude e na doença. como se eu ainda tivesse 14 anos. mas sinta-se casado.' ela respondeu impaciente, as coisas tinham ficado dificeis agora.

e ao enviar a mensagem, adicionou ainda em seu caderninho:

11- amar é fazer uma mentira se tornar realidade. mesmo que essa seja uma realidade filha da puta que vai te fazer ficar mal umas noites aí, só pra fazer a pessoa que voce AMA feliz. p.s.4: DROOOOOOOOGA.

chuva de verão.


era um dia quente, fazia sol. era duas da tarde quando ela acordou. de pijama ainda ligou o radio bem alto ao ouvir os rolling stones cantando brown sugar e começou a correr dançando pela casa, como sempre fazia quando tinha a sonhada casa vazia.

correu pela casa por horas, até perceber que o dia havia escurecido pela metade. tomou assento na varanda e percebeu que, dividindo o céu ao meio com uma linha exata, havia uma grande nuvem cinza que varria a limpeza do dia de verão. ela esperou um pouco e acompanhou com o olhar a trajetoria da nuvem, que dominava o céu antes claro.

'hm... não dá pra ver mais nada. fora o inverno e o tempo ruim, eu não sei o que espera por mim, sábio matanza...'

e sentiu o vento forte tentnando despi-la. contemplou mais o silencio da cidade em feriado, a chuva que se precipitava. chuva de verão. ela adorava chuvas de verão, eram como um alívio. mas odiava dias nublados e cinzas, eram tão entediantes e previsiveis! as chuvas de verão eram como festas surpresa.

e a primeira gota de chuva caiu bem no seu nariz. pling. 'nossa! eu tô viva.' ela concluiu, mas nao tristemente. mais gotas cairam, começando a encharcá-la. 'eu sobrevivi!!!' e riu.

riu como se tivesse passado por uma longa estiagem. e realmente, tinha.