segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

meu bem, eu tô caindo fora




ela pensou muito sem chegar a conclusão alguma por mais de 10 dias. isso estava matando ela. decidiu que não ia mais pensar, a ordem era pensar em não pensar e foi o que ela fez (era assim que surgiam suas idéias mais geniais - as mais idiotas tambem...)


"olha, toda vez que olho nos seus olhos, tudo que vejo são meus enganos, um atrás do outro. parece que eles estão rindo da minha cara. eu posso não ser a garota mais linda do mundo, posso não estar nos padrões 'menina-graveto' de hoje, posso não ter um cabelo liso e um óculos de menina cult, mas eu nunca fui idiota. eu nunca fui burra. e voce sempre soube disso.


com isso, minha inteligencia se sente ofendida. ofendida pelo amor idiota que eu tenho por voce. eu sei no que isso vai dar, e nós dois sabemos que eu tenho duas escolhas."


ela hesitou. respirou fundo e recolheu a caneta para continuar escrevendo, rezando para que a caneta não a desobedecesse.


"outro dia eu pensei no seu futuro: 21 anos, terminando faculdade, emprego bacana. voce vai conhecer sua namorada na faculdade, acho que numa festa de relações internacionais - bem voce. e ela vai ser magrela, ter cabelinho alisado, usar um mega óculos escuro da moda e vai ser suuuuper in. tradicional, menina bacana de familia. ou de familia bacana. ou os dois. voce vai começar a falar menos comigo conforme for se envolvendo com ela (acho que voce tem uma superstição estranha sobre eu saber dos seus relacionamentos - voce acha que dá falta de sorte...) e então voce vai namorar com ela. vocês vão ser felizes, vão ter carros. e vão se formar e um tmepo deposi, vão se casar. 24 pra 25 anos. ela não vai querer ter 4 filhos, mas vai ter um ou dois porque voce é legal, sabe? é. e então um dia eu vou te encontrar no mercado, fazendo compras com ela e sabe o que eu vou fazer? eu vou mudar de caminho só pra não te encontrar. mas vou ficar feliz porque voce estava sorrindo e seus olhos estavam brilhando.


e sabe como eu vejo meu futuro? 25 anos, solteira, mestrado completo e doutorado a caminho, solteira, com um bom emprego e um salário fenomenal, e solteira. um apê legal, amigos legais, happy hours na noite e ... madrugadas insones e solitárias. estudando enquanto toca um bom jazz ou um blues, aprendendo meu 4º idioma e criando projetos megalomaniacamente bem sucedidos. os gestores dirão que eu sou em gênio, os acadêmicos vão me respeitar apesar da pouca idade, as mulheres da minha idade vão me invejar e falar que sou encalhada pelas minhas costas. e minhas amigas vão ter pena de mim, vão me apresentar homens esquisitos dizendo que ele pode ser o amor da minha vida. patético. tão eu. e um dia eu vou te encontrar no mercado mas vou desviar de caminho, no meu carrinho que antes tinha um pão integral e um queijo branco haverá uma pizza de frango (sem catupiry, com requeijão, né, que engorda médio, gordo mesmo é calabresa... ), um pote de nutella e um pote de sorvete de qualquer sabor, contanto que haja açúcar o suficiente pra não deixar a tristeza me abater. nesse dia eu vou chegar em casa, vou me olhar no espelho e vou concordar com quintana:


Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:

A gente continua morando na velha casa em que nasceu...


isso seria minha opção 1, continuar com você. me responsabilizar pela sua dor.


mas essa seria minha opção 2:


seu futuro? o mesmo. talvez sem a namorada.


o meu? 19 anos, solteira. talvez sim, talvez não. "voce é tão inteligente!", "aposto que ela não tem namorado", "ss só pode ser de sem sexo". fazendo uma dieta talvez, cuidando da pele talvez, com cabelo curto talvez. a vida vai poder ser diferente. nada mais de preocupações estúpidas, dedicação exclusiva a mim, logo, aos meus grandes amigos. com 21 anos formada. com 23, mestre. 28, doutora. emprego legal, apê legal. um dia eu vou te encontrar no mercado, voce vai me ver e pensar "ela tá bonita, tá bem de vida... carrão. o namorado dela é bonito. isso se for o namorado dela, pode ser que seja só um caso." eu vou estar bem, voce tambem.


e eu me pergunto porque eu deveria me sacrificar por voce? sacrificios não são humanos, eu cansei de ser uma heroína, a sua mais especificamente. já reparou que clark kent não é feliz? não pega ninguém, fica só salvando o mundo. e o homem-aranha? e o batman? eu não quero usar uma capa ou uma fantasia coladinha, eu cansei de salvar voce. eu não posso mais.


mas voce... voce me salvou. voce me salvou de mim mesma. e eu te amo por isso. mas eu nao posso ficar."


ela pontuou e colocou o papel dobrado dentro de um velho envelope pardo. colocou o embrulho dentro de sua bolsa e saiu de casa sem pensar. andou suas 2 quadras tão conhecidas, viu o ponto de onibus onde eles se encontravam, viu o bar, viu o supermercado. atravessou a rua sem pensar, quase foi atropelada - nada que a assustasse, ela sempre fazia isso. viu a lavanderia, a padaria, o salão de beleza onde fazia seu cabelo. tudo já tinha mudado, menos ela. andou por baixo do prédio onde uma velha conhecida, amiga de outrora, morava. olhou o coreto no meio da quadra e lembrou das aulas matadas e das tristezas de ensino médio. tudo havia mudado. chegou ao estacionamento do predio dele: até mesmo seu carro havia mudado, nada mais de carro popular. e porque ela nao tinha mudado da vida popular pra uma mais sofisticada? olhou pra janela dele, igual.


sentou-se ao meio fio do estacionamento, tirou a carta do bolso. releu. olhou pra janela dele, ele estava em casa com certeza. "porque ele me pediu socorro? eu sou só uma garota de aparência mediana, intelecto mediano e vida mediana. eu sou só uma pessoa com muita criatividade, só uma garota que nem sabe o que está fazendo da vida. mas eu sou só uma garota." e fez a expressão de preocupação que ela fazia quando tinha milhares de tarefas atrasadas e nao sabia por onde começar. coçou sua cabeça, despenteou os cabelos já desarrumados. levantou-se e ao parar na frente do porteiro, percebeu que estava ali há alguns segundos sem falar nada.


"oi?" o jovem porteiro falou.


"ah...errr... oi!" ela tentou sorrir. "é, eu..." ela pensou em tudo de uma vez. "esquece." e deu as costas para o homem que ficou sem entender nada.


seguiu em frente e na primeira lixeira, depositou cuidadosamente a sua carta. "não importa que a tenham demolido, mas eu não devo satisfações a mais ninguem."


ela estava quites. e aquela foi a primeira de suas infinitas noites sem insônia.

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