sábado, 31 de janeiro de 2009

ler ou não ler - entender é a questão...

'(...) i'm really a cat, you see
and it's not my last life at all

so don't bother, i won't die of deception
i promise you'll never see me cry
don't feel sorry
and don't bother, i'll be fine
but she's waiting...
don't bother, be unkind.' Don't Bother, Shakira.

mesmo sabendo que ela não estava realmente ressentida, ela quis a dor do ressentimento e a angustia só pra saber que estava viva outra vez. pelo menos naquela madrugada. as coisas não desmoronariam e ela sabia, mas se houvesse rachaduras ela sabia melhor ainda que o perdão era uma plantinha que crescia nesses lugares escuros e úmidos...



sobre um cara bonzinho demais.

cabelo.

'nossa, seu cabelo tá tão... diferente.' ele olhou tentando decifrar o que ela tinha feito dessa vez com o cabelo que já provara quase tudo.


'ah, ok...' ela não sabia se era um elogio ou uma crítica. e nem ele.


'voce fica aí fazendo essas coisas no cabelo pra parecer mauzona. eu sei, mas voce nao me engana.' ele retrucou.


'hm, meu cabelo sempre me denuncia, né?' ela quis saber.


'sim. era rosa quando voce estava feliz, loiro quando voce estava tranquila, curto quando voce perdeu um pedaço de si, laranja quando voce sabia que as coisas iam acontecer, vermelho quando voce estava em chamas. e agora azul.' ele fez um trocadilho.


'é roxo.' ela olhou um fio que estava caído sobre seu ombro.


'deve ser porque voce se sente sufocada...'


"mas eu sei...

que o amor é uma coisa boa." (Belchior, Como nossos pais)

ela falou bem baixinho mas com uma convicção avassaladora, como sempre fazia quando não tinha muita certeza do que estava falando:

'eu acredito que o amor passe pela vida de todas as pessoas como um bloco de carnaval. em algumas vidas ele passa acenando pra todos, em outra, é como caminhão de lixo. em algumas vidas ele passa despercebido, em outros, até parece que passa pulando pelado e brincando com todo mundo...' ela riu sacudindo a cabeça pros dois lados, rindo da imaginação. 'na minha, ele deve ter passado correndo, com medo de ser assaltado. acho que minha vida é uma dessas ruelas escuras e sórdidas onde ficam as prostitutas mais baratas...'


'não que isso seja ruim. ainda há a beleza cafetinada.'

315 norte.

a little help from my friends


de novo a resposta me acordou no meio da noite. e pela manhã não lembrei de nada. era isso que acontecia todas as noites, como tomar uma anestesia e acordar sem saber se foi operado ou não - ainda havia dor, mas seria a mesma? voltei a dormir e dessa vez quem me acordou foi a dor. mal eram 9 da manhã, e eu tinha ido dormir às 3... ou 4, já desisti do relógio. me contorci na cama por alguns instantes na esperança de espantar a dor com essa minha dança esquisita sem sucesso.
'hnf,' bufei antes de levantar. 'mããããããããããããããããããããããe, eu quero um remédio!' e eu lembrei que antigamente a dor não era mais suportável, mas pelo menos mais tolerável. eu estava me tornando uma pessoa fraca, dessas que toma analgésicos a cada hematoma e eu não me condenava. levantei com dificuldade, minha mãe não me deu um consolo e nem um remédio - tudo bem, vamos aceitar as diferenças - e eu tomei meu comprimido.
cancelei meus compromissos de negócios, eles não eram minha doença - eu constatei com o vazio que eles deixaram - e me deitei de novo. percebi que eu não hesitava mais em pedir ajuda - nem que fosse pra um bom e velho buscopan composto. e isso me fez feliz pelo menos aquela manhã.
sobre alguém que encontrou a solução em um comprimidinho branco.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

longe,


ela olhou os grandes olhos castanhos dele ali, sem piscar um momento. percebeu que ele olhava para algum lugar onde ela nunca poderia ir ou estar, e pela primeira vez ela foi grande de verdade. ela pensou em tudo que ela aprendera, em tudo que ela vira, em tudo que ela sabia de cor e salteado, era a sua vida ali o tempo todo, e mais nada...
'ei, voce me faz tão bem' ela falou silenciosamente pra si. e sentiu paz de espírito. e de olhar.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

dá um abraço?



ela andou algumas quadras, tomou um chocolate quente, comeu bombons enquanto admirava a chuva. e quando passou a chuva andou mais algumas quadras, sentou-se entre árvores e viu crianças saltitantes brincando nos parquinhos. sentiu saudade de saltitar também, rindo e comendo chicletes.


'ei menininho, voce nem deve saber falar, né? mas voce deve saber melhor que eu... o que eu faço pra melhorar?' ela olhou pro menino que mal sabia andar e cambeleava ao seu lado admirado com seu cabelo, provavelmente.


o menininho ficou olhando para ela como se ela fosse de outro mundo, e ela era mesmo. esticou-lhe os bracinhos e sacudiu-os. ela sorriu para ele e acariciou-lhe os cabelos loiros. 'dá, dá'


ela ficou pensando na resposta do menininho. já estava a km dali quando a babá explicou-lhe que o menino queria lhe dar um abraço. 'aaaaahn...' e ela abraçou-o de forma displicente, mas percebeu que o menino tinha dado uma ótima resposta.


e ela foi embora pensando que precisava de milhões de abraços, ou pelo menos de um daqueles bem duradouros, ela quis atravessar a vida em abraço(s). mas ficou com vergonha de abrir os braços e pedir.


sobre a sabedoria infantil, muito mais perspicaz que toda minha inteligencia!

doce, doce, doce

'ei, vi.' ela olhou pro velho amigo, tão amargurado. tinha 2 anos a mais que ela que pareciam muito mais. 'o que voce tem?'

'a vida é amarga.' ele olhou ao longe com seus olhos de poeta.

'não é não, vi!' ela sorriu, tinha 14 anos.

'a vida é doce.' e ela sorriu tanto que seus olhos quase sumiram na sua face se maquiagem.

'então eu sou diabético...' ele respondeu esperando que ela soubesse. ela não sabia.
sobre alguém que precisava de adoçante pra viver. ou entao se intoxicaria...