"esperou que não passasse da meia-noite, onde seu sono desbanca mundo afora e só volta no meio da madrugada, bêbado e trôpego, incerto, indecente. alguém lhe disse que o céu lhe cabia nos olhos, e que ela sempre seria água ao invés de alcool para o bem de seus remédios e suas curas, que ia mudar de rota e de rotina mas que no fim das contas retornaria sempre ao mesmo lugar - o ciclo completo. a primavera e o verão se encontraram finalmente, ela tentou abraçar o céu outra vez, lhe escapou como o vento. no outro cômodo da casa as mesmas teclinhas que batiam no seu quarto, lá tintilavam, provavelmente codificando alguma mensagem realmente importante. ela esperou que não passasse da meia-noite: ela nunca conseguiria ser a menor distancia entre dois pontos. ela hesitou com o lápis na mão entre um rabisco e uma letra. escolheu o rabisco, pousou o lápis na esquina da boca para que lhe segurasse um sorriso. deitou-se na cama onde o edredon lhe confortou em mais um embarque para sonhos que lhe confundiam, o silêncio pairou mórbido e irredutível, na avenida mais próxima um carro ou outro passava rápido. as putas já batiam outra coisa que nao o ponto. o porteiro já cochilava. e ela jazia na cama:
aqui jaz um pacote de jujubas de todas as cores - na escala de cinzas.
sem graça, desinteressante. mas muito rara. ainda assim ela soube que não escreveria outra vez.'
quarta-feira, 12 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
(...) talvez eu nunca toque o céu outra vez. e eu não sei mais se é revolta ou se é comodismo, mas a vida segue de um jeito imperceptivelmente falho. e meu peito arde e se revira procurando algo que eu estava salvando bem no fundo pra esses dias livres. e eu percebo que das duas partes que eu sou, só uma pode ficar.
e eu sei qual é. é exatamente a mais covarde.
e eu sei qual é. é exatamente a mais covarde.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
bad time
quando o sangue escorre pelas pernas
e eu ouço tua voz muda em sussurros que saem dos teus olhos de vidro
enquanto tua boca bem desenhada permanece estática
o calor que corre em minhas veias redesenha meus batimentos cardíacos
responde a todos os questionamentos metafísicos
com o impulso de um toque ou dois teus e é assim
é assim que eu sei que há mais vida em todos os meus suspiros
do que na morte.
e eu ouço tua voz muda em sussurros que saem dos teus olhos de vidro
enquanto tua boca bem desenhada permanece estática
o calor que corre em minhas veias redesenha meus batimentos cardíacos
responde a todos os questionamentos metafísicos
com o impulso de um toque ou dois teus e é assim
é assim que eu sei que há mais vida em todos os meus suspiros
do que na morte.
terça-feira, 27 de abril de 2010
hotel
ela disse sem palavras o que lhe afligia mais e o que mais amava: deixou-a escolher por uma hora entre as peças de prata a que mais lhe agradasse, aguardou pacientemente. ela reservou duas, um anel envelhecido com um brilhante e uma pulseira com cinco estrelas pendendo. a mais velha lhe sorriu, fez sinal para que esticasse o braço e abotoou a pulseira no braço da outra. ela que sempre foi de um afeto silencioso deixou escapar em algumas palavras:
é porque você é uma garota 5 estrelas...
é porque você é uma garota 5 estrelas...
re(volta)
Gostar mais de voltar que de ir não é delito, a terra tem tremido em todo o lugar e desabado, desandado. Hoje eu gosto mais de imagens e de cores feitas com os olhos que com a boca, talvez por falta de firmeza e excesso de tremor nas mãos, suores, etc. O outono voltou sem nem ir na minha vida, é coisa que eu gosto, é das quedas e da melancolia, das folhas secas e das cores mudando. O pôr-do-sol em Brasília. E contudo eu insisto em me apaixonar outra vez todos os dias, nem que seja pela mesma pessoa. Alguns hábitos a gente dificilmente muda.
Meu primeiro bom dia já não vem mais em comprimidos, a receita venceu. Quero dizer, a preguiça venceu. Hmmm. Certamente ainda encontrarei nas palavras muito do que preciso, nas suas, nas minhas, nas nossas. Achados e perdidos. Com certeza nas imagens eu ainda vou me estampar muito, me expor muito, me achar demais.
As certezas são vãs, as vaidades são justas e a minha maior verdade é que meu silêncio é que me condena.
DEAL WITH THAT, SIR! I'M BACK!
Meu primeiro bom dia já não vem mais em comprimidos, a receita venceu. Quero dizer, a preguiça venceu. Hmmm. Certamente ainda encontrarei nas palavras muito do que preciso, nas suas, nas minhas, nas nossas. Achados e perdidos. Com certeza nas imagens eu ainda vou me estampar muito, me expor muito, me achar demais.
As certezas são vãs, as vaidades são justas e a minha maior verdade é que meu silêncio é que me condena.
DEAL WITH THAT, SIR! I'M BACK!
sábado, 27 de março de 2010
carta a quem comover
http://oneoceanaway.blogspot.com


"sei que meu amor se consome na velocidade do vento, a alguns nós, como um veleiro à deriva. mas sem porto pra se atracar, amor auto-sustentável, na época em que os poetas todos fazem o maior minuto de silêncio da humanidade em honra a toda aquele que ainda vive, que aos mortos, logicamente, já basta uma eternidade de não sons. há quem diga que a tecnologia fez mágica com o passar do tempo, que já não é regular e se move em constante aceleração. besteira, syd barret said so 40 anos atrás.
nem violão nem caderno de cartografia são capazes de aprisionar os traços de mim, que vão mudando e mudando, como se ser fosse não mais uma gravura e sim uma animação. ainda hoje lembro a primeira vez que me deixei escapar por entre os dedos que, feliz ou infelizmente, seguravam uma caneta bic em uma aula qualquer. lacan explica. e ainda hoje eu vivo na sombra das minhas palavras, um conforto inefável e um descontrole necessário que nem modernidade nem tecnologia me proporcionaram.
não peço afeição ou compreensão, mas deixa ficar minhas palavras por um instante: que vida existe após a morte se não todas? quem já morreu que entenda o que eu digo. sabedoria barata adquirida entre um sóbrio gole e outro de suco de limão, já não posso nem com café ou chocolates que meu sorriso já se amarelou com tanto cotidiano sabor café, mas que agora, pasme, não é mais passado sequer em filtros de papel: a vida agora é instantânea, em pó, pronta para consumir na primeira dissolução. e ironicamente já não há mais nem borras, é tudo tão momentâneo e trivial que quem precisa das marcas do pó molhado do café no fundo da xícara para cantar o futuro?
e assim, o homem se supera, apagando o passado e vivendo em um hiato insustentável entre o passado e o futuro, sem presente - e eu comungando de tudo pra não morrer de fome: o futuro é agora, meu bem.
e de todas as coisas por dizer o melhor de mim e com certeza de vários outros escritores frustrados é tudo aquilo que ele já não pode dizer. estamos ilhados, estamos à deriva e enquanto fernando pessoa diria que navegar é preciso, um escritor qualquer em algum canto do cyberespaço diz que cada um tem o wilson que merece. quem assistiu o náufrago sabe bem que ele tem razão..."
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