terça-feira, 5 de maio de 2009

adiós, mi amigos.


dessa vida miserável e louca, amarga e pouca, nada quero de herança, nem presente nem lembrança. deixo a vida em espera e sem beijo de despedida, me derramo em palavras antes que me derrame em lágrimas - que são o último fragmento daquele meu brilho débil e torpe, primaveril.


da vez primeira era mar, inundando as insônias, entrando em estiagem ao vislumbrar o primeiro tentáculo de sol - ou sua mais barata imitação. da vez seguinte era o pôr-do-sol, anunciando o início de uma outra revolução, à beira do abismo, à beira do horizonte. da vez última era coragem em franca evolução, desmanchando o equilíbrio em queda livre, diante do seu ponto cego a salvação, ao alcance das mãos entorpecidas um mundo todo - e todas as pessoas do mundo.


naqueles pares de olhos e de mãos queimou-me a inocência, o desejo de ficar e não de ir incinerou minha juventude, cremou minha beleza. devorou-me com a angustia da última refeição antes da condenação, fiquei sendo o que sobrou de mim: só e só, no último dia de verão. e nos trilhos que seguiu a vida, desgovernada sempre, antes que a luz de fim de túnel me cegasse sem me dar chances de enxergar o Novo Mundo, esbarrei nos seus abraços firmes, no seu gosto de rotina, em suas mãos quentes que depois do nós tornaram-se gestos frios. nos cinco minutos finais que reservei para respirar, correr atrás das cores que faltavam em minha vida me tiraram o fôlego, ao perseguir uma ilusão de ótica - o arco-íris, sem pote de ouro no fim. e assim se foram mais mortes que vida, de fato, morrendo a cada esquina de boca, machuquei-me demais de tanto cair de amores.


e, ainda que eu seja só vazio, ainda assim deixo a vocês, meus amigos, as últimas curvas de meus lábios, a lembrança dos meus melhores dias. e vocês deixam em mim as primeiras linhas de expressão que jamais se apagarão. deixo a vida, miserável e louca, amarga e pouca. mas com gosto de quero mais a cada fim de dia.

despedida primeira


ao último retrato que habita meus devaneios diurnos, à ultima curva que faz na estrada dos meus lábios. me despeço do amor que eu verei passar cada dia e então pro resto dessa pequena existência presente. voce, sempre tão trágica, tão comica, tão dramática. faz parte do meu show, meu amor. se eu fecho a cortina é porque não quero mais público.
hope you blow away.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

um

nem viu o pôr-do-sol que seria o último, nem deu o beijo de despedida. hesitou, mas era definitivo mesmo que durasse um minuto ou dois.

(vida, louca vida miserável brincando nos dedos da menina que tem o dom de estragar tudo ao alcance de seu toque. essa vida é miserável demais para que seja vivida dia após dia, deixa que eu vivo o sempre em um único instante: aquele em que eu fechar os olhos eternamente.)

domingo, 3 de maio de 2009

mil palavras

cem imagens.

"(...) e aquela foi a primeira vez que te vi. seus olhos eram turvos como as águas de mar com ressaca: nervosas, sombrias, graves. e sempre gostei dos teus olhos, sinceros. contrastantes, mas sinceros sempre. disso eu lembro sempre, mesmo que minha memória já não me seja tão fiel. (...) mas não consigo lembrar a última vez que te vi, ainda que teu cheiro e teu jeito ainda brinquem nas minhas lembranças não-datadas, atemporais. do teu riso fácil, do teu gosto de cinza, de coisa triste. talvez por isso eu te lembre tão bem, me vejo em alguns movimentos teus, em algumas angustias tuas - e não te conheço. mas encontro beleza nessas cotidianices nossas, nessa minha desnecessidade de sordidez, de álcool, coisa de gente que gosta de gente mesmo. coisa que eu não fazia há tempos, falando nisso.

(...) hoje gosto mais do silêncio compartilhado que dos solitários. ou das conversas que não dizem nada. é, coisa de gente que gosta de gente mesmo. te escrevo logo antes que morram minhas palavras, antes que morra aquela partezinha de mim que ainda sente -sente muito, sente. te escrevo pra ver se te aprisiono no tempo, pra ver se eu não deixo tudo que é sentimento, tudo que é leveza, planar na primeira brisa que anunciar a tempestade. cansei de cansar das coisas, eu não sou uma pessoa boa - não que eu nunca tenha sido, eu acho. mas lembro dos teus olhos de mar com ressaca, olhos de primeiro de janeiro, revoltos, mas esperançosos, com sede de mudança. e isso me faz ser uma pessoa melhor, eu acho (...)

(...), porque eu, eu não consigo dizer do que vou gostar daqui a um ano ou daqui a um minuto, mas agora, bem agora, eu gosto de você.

sinceramente,
de uma pessoa que vive de agoras."

sobre-viver

(...)e depois que a luz se acende, é engraçado como eu não desejo mais brilhar. eu estou aqui, com os cabelos bagunçados, as mãos firmes, nenhuma lágrima. nenhuma. engraçado mesmo é como eu me tornei uma pessoa sem coração, mas é só porque eu dei pedaços dele pra todos que passaram por mim - como se valesse muita coisa.

e então jogou-se as palavras ao vento, quando concluiu-se que era solidão e só: ei, quando a noite não for longa o suficiente para que eu me sinta melhor, quando o whisky não for suficiente pra me entorpecer de mim, quando a vida não for mais o suficiente, o que eu faço então?

sobrevive, meu bem, sobrevive que as manhãs de segunda-feira são sempre maiores que uma vida toda. sobrevive que a vida é maior que todos nós pra ser tão bem-vivida.

sábado, 2 de maio de 2009

da primeira chuva


ela se encontrou nos olhos cor de tempestade dele, com aquela expressão de deixa chover. ela estava pronta pra chover.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

poema do confessionário


"que me perdoem as cordas abandonadas do violão,
me perdoem os amigos poetas relegados à estante empoeirada
me perdoem as luas - novas, velhas, cheias ou vazias como eu
que me perdoem a insônia que já não inunda minhas noites
e os sonhos que já não sei alimentar.

que me perdoem as obrigações que já não me enfraquecem
me perdoem os amigos que já não visito mais
que me perdoem os papéis em que já não me imprimo
que me perdoem a incredulidade na sorte e no destino
que eu me perdoe por não saber amar mais que um.

(não que eu soubesse)"