
agora eles estavam sentados em uma das raízes daquela imensa árvore entre a concha acústica e a praça chico mendes. era sábado e nada mais do que isso. e ela sabia que eles não deveriam estar ali como estavam, estava tudo estranho. demais.
e então veio o silêncio que ela tanto odiava.
'me conta uma coisa.' ela ordenou.
'o quê?' ele agora levantava a cabeça, estava impotente, estava sem seu cigarro.
'qualquer coisa.' ela implorava.
'ah, sei lá...' e fingia não ter nada enquanto brincava com gravetos espalhados a seu redor.
e de novo veio o silêncio. ela admirou a beleza estranha do garoto por alguns instantes. o jeito como o vento soprava naquele momento, o não-fumar dele, os pequenos mosquitinhos que sobrevoavam sua cabeça: tudo parecia especial demais.
de repente ele levantou os olhos e a intimou com um olhar, levantando um dos indicadores e jogando o graveto ao longe.
'tá ouvindo isso? é a nossa música!' ele parecia surpreso, o que a musica deles estava fazendo ali, pairando no ar?
e ela se surpreendeu por ele ainda lembrar, por ainda saber que eles dividiam algo além de silêncios: eles também dividiam sons.
'é, eu tô reconhecendo sim...' e ela inclinou a cabeça para o lado e o admirou mais (ele era menos bonito que da primeira vez que o viu, mas ela o amava mais) e sorriu-lhe um daqueles seus sorrisos de menina que não sabe se arruma o cabelo ou continua brincando.
'if the sun refused to shine
i would still be loving you
when mountains crumble to the sea
there will be still you and me
kind woman
i give you my all
kind woman
nothing more...'* eles cantavam juntos. mas profundamente sabiam que dali em diante cantariam sozinhos.
porque ela sabia que a música tinha acabado e seria a útima vez que o veria.
sobre alguém que mesmo em silêncio 'still got the blues (for you)'.
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