domingo, 10 de abril de 2016

absorta no samba e no suor naquele boteco, dançando de chinelo e o meu vestido de trabalho, duas doses de cachaça. como sempre eu não queria ter saído, tinha dormido pouco na noite anterior, o vôo pro rio tinha sido cansativo e o dia, longo. dentro de mim, os dilemas se multiplicavam. mas eu entrei na roda, e já que eu tinha entrado eu iria sambar.

existia algo de familiar na atmosfera. as mesas de madeira espalhadas, as instalações clandestinas, a luz quente, o balcão gasto. os ditos populares na parede, e as estatuas de vacas espalhadas. o cheiro de álcool. o samba. uma memoria distante da minha infância na baixada fluminense e as coisas que ninguém nunca viu de mim, mas que resistiam aos anos. minha herança, meu tesouro enterrado nas lembranças e do qual as pessoas ao meu redor hoje só conheciam um brilho distante, dourado. 

minha amiga anunciou a entrada dele e eu, sambando, o vi de relance às minhas costas. no balcão, com um monte de outros caras parecidos pedindo uma cerveja. aquele visual que eu conhecia e distinguia tão bem: bermuda, camisa social com as mangas dobradas, tenis e meias pretas. ah, o bom e velho gringo meets rio look. e eu não me impressionei, nada que você não veja na lapa 24*7. seus 1,90 e pouco, seu cabelo loiro caindo no rosto, desgrenhado, ou seus olhos azuis muito claros, cor de Fontana di Trevi. 

e então eu dancei, e dancei, e me convidaram pra dançar. mas eu estava satisfeita dançando comigo mesma, ainda que dançar com alguém também fosse bom. primeiro, um cara da minha altura que sabia dançar e me conduziu sem dificuldade. depois, um americano que falava portugues e dançava forró com a distância dos nossos paises de origem. agradeci a dança fazendo uma reverencia e me retirei pra sentar ao canto onde minha amiga falava com um professor alemão de literatura e psicanálise. quais eram as chances? 

do outro lado do salão, um cara que eu tinha achado bonito tirava uma menina pra dançar. e flutuando levemente me encantaram, e eu não conseguia desgrudar os olhos deles sorrindo e me perguntando se eu um dia poderia flutuar dessa maneira. no meu coração eu já flutuava. era bom voltar ao rio sem sentir o peso do meu ex-amor me levando para o fundo do mar. e eu sorri de novo pra mim mesma e, ao levantar meu olhar, me deparei com ele me olhando, com um sorriso sem mostrar os dentes. ele olhou pro cara do lado dele e entao pra mim, e o outro cara seguiu me olhando, cochichando algo. 

enquanto minha amiga me apresentava ao professor alemão, ele cruzou o salão, se postando com os amigos a uma curta distância de mim. e quando me virei pra procurar o caminho do banheiro, ele me estendeu a mão perguntando: quieres bailar? o que, francamente, me fez abrir numa gargalhada enquanto eu dizia si, seguro. e então ele elaborou um de onde eres e eu disse de aqui, y do you speak english?e ele riu, aliviado, com um sonoro yes, surpreso. e dançamos, meu rosto enfiado no seu peito suado, suando. rindo e conversando. olhei nos seus olhos e sorri com as coincidencias. 

fomos ao balcão e ele me perguntou o que eu queria, uma dose de cachaça, duas. brindamos e voltamos pro salão, o samba de volta. ele e eu rodopiamos, e de repente eu perdi o senso de orientação espacial. eu nao sabia mais pra que lado era a saida e continuava rodando nos seus braços. e eu muito absorta na minha felicidade de estar com os pés no chão, rodopiando, me contentava com seus braços ao meu redor. órbita. 

e pingando em mim, pouco a pouco, nao sei como, nos entrelaçamos em um beijo. eu na ponta dos pés, os olhos pro alto, e ele suavemente me derrubou com o mais leve toque no rosto. na ponta dos dedos. fechei os olhos, e continuamos dançando. até o calor nos expulsar do salão, até nossos suores virarem um só. 

na porta do boteco, sentados na calcada, conversamos sobre nossas teorias favoritas, nossas compreensões de sujeito. nos beijamos. pegamos um taxi pra humaitá, chegamos em copacabana. em silencio, nos enfiamos embaixo dos lençois nos beijando. sorrateiros. minha amiga dormindo na cama do lado. escapamos para o banheiro, contra a parede de marmore. voltamos pra cama, e o convidei pra dormir. dormimos, e sonhei com uma outra vida. acordei e o mundo era diferente. 

domingo, 27 de março de 2016

three rivers in rio

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
the margins
come tight
our rivers
flow
waves
in the oceans
you provoke me
undertows
you come
& i let go

  *
*  *

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
margins
come tight
oceans
take me high
i sail
you say
i drift
far and away
our rivers
flow
your waves
- provoke me -
undertows
you
come
& i go

  *
*  *

i was
riptide
until i saw
your sea
rip me
tide
margins
come tight
oceans
take me high
i sail
you say
i drift
far and away
your waves
- provoke me -
undertows
you
come
& i flow

domingo, 13 de março de 2016

26

é como se eu voltasse daquela viagem pro paraguay depois de seis anos, aterrisando num avião de volta que nunca tomei. a mochila mais pesada e meu rosto mais magro. mais velho porém menos cansado. meu analista me disse que é preciso sair da ilha pra poder vê-la. que estranho ver a ilha afinal. eu jurava que estava em um continente - mas não são todas as terras nesse planeta grandes ou pequenas ilhas? já não sei...

o fato é que eu entrei naquele avião pra lisboa, eu cruzei aquela linha vermelha no chão do aeroporto que dizia "no turning back after this line" ou algo assim. e sem muita ideia do que fazer, com um roteiro esquisito que levei um mes escolhendo sem me satisfazer nunca, eu coloquei uma mochila e me mandei pra europa com o que me sobrou na poupança depois de um início de crise política e financeira e social e sabe-se-lá mais o que (só o tempo vai dizer, assim como ele também me disse sobre minhas crises e quedas pessoais). me pareceu muito razoável gastar meu dinheiro todo em uma viagem em que eu não sabia nada. na verdade nao pareceu, mas eu senti que sim e fui. não sem resistencia, claro.

em novembro eu acordei com vontade de comer macarrão em roma e perambular pelas suas ruas amarelas. em dezembro eu estava tendo devaneios sobre amsterdam, o museu do van gogh. em janeiro eu pensei que já que eu ia atravessar o atlântico, devia também ir a paris e finalmente visitar o museu d'orsay. e no meu coração e nos meus pensamentos o mundo era um lugar muito pequeno. imenso, impossível de engolir de uma vez só, mas pequeno. uma sensação esquisita que se apoderava do meu corpo todo, de todos os meus sentidos e sentimentos. ao mesmo tempo que eu sabia que estava tudo a alguns voos de distância, também sabia que ele era enorme e impossível de agarrar com as mãos. o mundo. outras coisas também.

o fato é que, já com a passagem comprada e o dinheiro trocado, eu pouco podia fazer pra voltar atrás. com meu coração desejando tão intensamente algo que eu não sabia nomear e que estava a um longo vôo de distância no velho continente já não dava pra voltar atrás. no trabalho, uma paciente tinha me dito que ninguém ali estava ficando mais jovem. e eu fui em busca de sei lá o que. do tempo que eu ainda nem tinha perdido, mas que eu nao queria perder. eu achei que sabia aonde estava, que sabia o que queria, que sabia um monte de coisas. mas eu já não sentia mais nada. apenas um sentimento vago e estranho que eu nem sabia julgar se era bom ou não.

e entao eu embarquei e a mudança de fusos me atordoou. dormi em brasília, acordei em lisboa. almocei sobre a bélgica e fui jantar em amsterdam. um chuvisco leve pela cidade, tão frio, e eu com aquela mochila nas costas sem saber pra que lado ir. eu me senti perdida e pequena, senti que eu falava uma lingua que ninguem entendia, e eu tambem nao entendia a lingua de ninguem. eu me senti confusa. e entao eu me senti no meu lugar. eu nao sabia nada. eu tinha tanto a aprender. e eu queria aprender tanto. e tambem queria tanto aprender...

enquanto eu me lamentava na praça tomando vinho barato e comendo aperitivos de supermercado tambem sentia o vento frio, e o banco molhado sob mim. tambem sentia que aquilo, aquele pouco, era todo meu e so meu. e isso era otimo. voltei andando perdida pelos canais sem encontrar uma viva alma, me sentindo ora fantasma ora tão velha que estava mesmo prestes a me tornar um fantasma. entrei no hostel e fui ao bar tomar uma dose antes de dormir. conheci umas pessoas da minha idade e um pouco mais velhas. bebemos umas cervejas, conversamos sobre os estados unidos e o canadá. todo mundo achava que eu tinha 30 anos, eu mal tinha começado o doutorado e ele já estava me envelhecendo cinco anos? "que horror", eu pensava, enquanto assistia os novos semi conhecidos fumar. o americano chef de cozinha que só trabalhava 4 meses por ano ao redor do mundo flertava comigo, a canadense sumiu com o staff da recepção e um carinha mais novo procurava a erva que tinha acabado de perder. dei boa noite pra todo mundo quando o bar fechou as 4 e fui dormir ignorando as propostas do americano com suas cantadas americanas que eu ja conhecia tao bem.

acordei com uma ressaca estranha misturada com jet lag. senti o peso dos 30 anos que me atribuiram. me arrastei pela cama, rolei, enrolei. nao tinha mais ninguem no dormitorio. tomei meu tempo e me arrumei pra alugar uma bicicleta. eu me perdia até pra ir na esquina. com a bicicleta tudo isso só se amplificou. quanto maior a distancia que eu percorria, mais eu me perdia. mas tambem chegava à conclusao que nao tinha como se perder se você nem sabe pra onde quer ir ou o que quer fazer exatamente. parei num trailer na rua e almocei uma sopa de ervilhas. parei numa padaria e comi uma torta de maçã. tirei umas fotos das coisas que achei bonita. parei nas calçadas pra tomar banho de sol apesar do inverno.

me perdi, já nao sabia aonde estava indo e tambem nao me importava. me vi paralisada em uma esquina sem saber se podia cruzar ou não a rua, de quem era a preferencia. desisti por uns 10 segundos de entender tudo aquilo e respirei fundo parada na bicicleta. desci e fiquei olhando pros lados. um cara de muletas tambem parado na calçada disse alguma coisa e eu tambem ja nao sabia se ele estava falando comigo ou ao telefone ou sozinho. ele disse algo me olhando em holandes e eu respondi com um 'excuse me?' confuso. ele entao repetiu em ingles: finalmente alguem que para nesse caos pra aproveitar o sol no inverno em amsterdam. e eu sorri sem graça dizendo qeu na verdade eu so nao sabia mesmo se podia atravessar a rua. ele entao apertou o fio do seu fone de ouvido e disse em ingles que precisava desligar porque tinha uma turista perdida na esquina. ele me explicou o transito de amsterdam, e eu continuei sem entender muito. o mais importante, ele me disse, era fazer contato visual com os motoristas e pedestres e outros ciclistas. e ir com confiança. alguns minutos de conversa e ele me convidou pra tomar um café ali na esquina mesmo.

eu ria pensando que isso devia ou ser muito comum ou extremamente surreal. é, eu estava tomando café com o cara que eu achei que tava falando comigo mas só estava mesmo ao telefone. o senso de humor holandes me deixava confusa mas me fazia rir com uns segundos de atraso, e eu nunca sabia se ele estava falando serio ou nao, e experimentei um pouco do que as pessoas dizem sentir comigo. ele me convidou pra jantar depois que disse que tinha ido a europa comer e beber. eu topei, e ele me disse que cozinharia pra mim. na sua casa. a noite. tomei um gole do cappuccino, concordei. disse a ele que meus rins eram bons mas meu figado estava um pouco desgastado da noite anterior caso ele tivesse a intenção de na verdade roubar meus órgãos. ele achou graça e me deu o endereço dele e dicas do que fazer enquanto ele ia pra fisioterapia e comprava os ingredientes do jantar.

nos despedimos na calçada com dois beijos no rosto e ele disse, enquanto eu hesitava no terceiro, que na holanda eram sempre dois e que as vezes isso podia causar beijos acidentais. mas que ele nunca se esquivava desses acidentes felizes. segui meu caminho sem entender o que tinha acabado de acontecer, mas muito consciente do tempo que nunca voltaria. o sol batendo nos olhos verde claro dele, o sorriso maluco, as risadas fora de tempo, a maneira como ele disse seu nome e me beijou duas vezes. fui buscar o moinho que ele me recomendou e, obviamente me perdi. de novo. incontavel vez. parei em um bar, tomei uma cerveja antes de seguir pra casa dele na minha bicicleta preta de aluguel.

caspar morava em cima de um coffeeshop muito tradicional em uma rua mais tradicional ainda de amsterdam. quando cheguei lá, muito atrasada e sem poder me comunicar, me dei conta que já nao estava mesmo mais em brasilia. meu celular era so um relogio e um navegador de mapas. olhando em volta vi uma banca de frutas e comprei umas bananas. o cara do coffee shop me chamou e eu, com estranheza, me aproximei. ele perguntou se eu estava ali pra visitar o caspar. balancei a cabeça afirmativamente, e ele me disse que caspar havia dito que uma garota de cabelos crespos castanho acobreado com uns pedaços azuis ia aparecer lá pelas sete. eu ri e confirmei que era eu mesma, apontando o cabelo. ele me mostrou a entrada e subi. caspar estava cozinhando e me recebeu como se fossemos velhos amigos que nao se viam ha tempos. me acomodei enquanto assistia ele terminar os preparativos, animado, falante, alegre. orgulhoso de sua comida tipica holandesa vegetariana. abriu um vinho pra gente enquanto comíamos sentados no chão da sua sala sem mesa. colocou uma musica ambiente e ligou umas luzes indiretas. depois do jantar, me ofereceu um chocolate artesanal de sobremesa e uma massagem.

enquanto caspar desfazia os nós de tensão de dois vôos, varias esperas, muita bicicleta e stresses demais trazidos de brasilia, contei pra ele dos meus dilemas e insights, das meus medos e dos meus sonhos, das minhas paixões e das minhas decepções. contei pra ele das minhas inseguranças e esperanças titubeantes. caspar falou sobre o papel da autoridade nas relaçoes cotidianas, sobre compromisso e confiança. enquanto me abraçava me disse que era dificil de entender, mas eu era muito espontanea. e era isso. de repente eu recuperei minha espontaneidade no apartamento tipicamente amsterdammer de um holandes com cara de maluco. ele falou ao pé do meu ouvido que eu so precisava confiar mais em mim mesma, nao nos outros. muito menos nele.

e assim nos entrelaçamos de uma maneira estranha, indecifrável, lenta e infinita pelo espaço que esse tempo durou. acordamos de manhã com uma amsterdam totalmente diferente. chuvosa, temperamental. fria. mas eu já confiava em mim mesma de novo. com ou sem caspar.

domingo, 26 de julho de 2015

como se a folha que paira no ar deixasse de ser folha só porque o resto do mundo não lhe faz margem. com ose a falta de contato com a árvore fizesse da folha coisa menor. Talvez uma folha sem vida mas ainda assim menos folha?
como se o vácuo já não importasse e apesar da falta dos limites alheios que esbarram em mim me fazendo contrair e sentir minha presença eu agora pudesse ser mesmo que no vacuo. ah, livremente. e aí eu vejo meus proprios limites, por mim, e noa pelos limites alheios. e eu gozo com isso. eu estou satisfeita.


ali estava eu entre a 49 e a avenida das americas chorando palavras no meu diario de viagem que seattle já era. de volta a new york passei dois dias sem sair do apartamento, tentando me livrar de um jet lag que não era só físico como também emocional. eu tinha um péssimo timing. enfiei meu diario e meus lamentos na bolsa e fui andando pela 49 em direção ao oeste, sempre o oeste, talvez com esperanças de voltar pra lá, talvez sentindo que tinha deixado meu coração lá, não sei. fui interrompida por uma das minhas distrações, entretanto, umas pinturas bonitas expostas na calçada. cara, eu amava a primavera nas ruas de new york, a primavera dos sentidos onde tudo parece poder florescer de novo, assim como a minha vida naquele momento. o pintor me chamou pra olhar mais de perto e, desconfiada, aos poucos, fui me aproximando e a gente trocando uma ideia. contei que pintava aquarelas e depois de uns cinco minutos ele me convidava pra conhecer o estudio dele no queens onde ele queria me pintar. desconversei, mas acabei dando o meu email certo. eu tinha uma dificuldade terrível em expor minhas fragilidades como essa de dizer não.

segui meu caminho, atrasada como sempre. não era minha culpa, era new york, o paraíso das distrações, a cidade de todos os caminhos e nenhum destino. keep walking, keep walking. e enquanto eu não chegava a lugar nenhum, decidi entrar naquela galeria que eu sempre passava em frente mas nunca entrava. dessa vez foi diferente. pedi um catálogo ao rapaz que ficava no balcão da galeria e enquanto ele buscava algo no subsolo fiquei admirando os trabalhos na parede. era coisa de louco, literalmente. uma galeria dedicada a expor o trabalho de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais. uma loucura. o rapaz voltou sem catálogo e enquanto eu tentava explicar o que eu queria, desisti. agradeci e fui dar uma última volta. tirei algumas fotos e fiz algumas notas pensando em Seattle e no que eu tinha deixado lá. Deixei lá porque nunca foi meu, verdade seja dita, mas enfim, deixei. fui embora sem me agarrar a nada, abandonei o barco sem deixar nele marcas de unha.

enquanto me dirigia à porta esse cara alto e branco com um cabelo esquisito se precipita a minha frente e eu tomo um susto. ele abre a porta cavalheiramente, com estilo, século XV. agradeço quase com uma reverência engraçada no meio da 9th avenida. thank you. ele me olha nos olhos e eu paraliso, "excuse me but do you know where's chelsea?". estranhamente eu sei, e inclusive adoro caminhar até lá, e estive lá dois dias antes. respondo que sim apontando o dedo pro sul. as perguntas continuam e a preocupação dele é saber se é muito longe e essas coisas, e então começa a me explicar que é um arquiteto francês visitando a cidade pra uma feira de arte e pra ver umas galerias, me conta que pretende abrir uma galeria quando voltar a paris e em duas ruas, me convida pra ir até o chelsea com ele. olho pro céu, cinza e pesado, ameaçando chuva, olho pra ele, uns olhos verde com mel, aquele cabelo desgrenhado até que tem lá seu charme, o sotaque francês me faz sorrir e afinal, eu penso, é new york e a gente não se conhece mas todos os amantes um dia foram desconhecidos.

o fato é que, por um momento, ainda que brevíssimo, considero que ele pode ser sei lá, um estuprador, um batedor de carteiras, um maníaco. ou então só um francês perdido em new york afim de uma companhia feminina nem que seja por uns quarteirões. ah e pros diabos, afinal, uma vez que estava vivendo como sempre estive, pensei que se a morte me atingisse talvez tivesse sido mesmo a minha hora e meu momento e meus amigos poderiam suspirar ao pé de minha lápide pensando: "essa fernanda, morreu como viveu". convido ele para ir ao apartamento e assim deixo alguma garantia, apresento ele a minha amiga e conversamos todos por alguns minutos antes de partirmos em direção ao chelsea via highline.

bem, eu não sei como, se era o seu charme ou minha habilidade-fraqueza de fazer perguntas demais, mas de arquitetura moderna passamos a falar de fotógrafos alternativos pra então você me perguntar se meu namorado já teria me levado a algum lugar estranho pra fotografar. "olha, eu não tenho namorado", eu digo, e você se espanta e começa com uma conversa desengonçada sobre como talvez seja melhor mesmo estar solteira antes dos 25 uma vez que eu ainda posso ser eu, já que não me misturei muito com a pessoa. quantos anos você tinha mesmo? acho que uns 28... enfim, explico que já fazia muitos anos e que acabei me acostumando e que por diversas circunstâncias bastante intrincadas eu ia ficando sozinha mesmo e era isso. você me olha com uma cara de tom jobim como se pensasse que "é impossível ser feliz sozinho" e eu suspiro, dou de ombros e continuamos subindo as escadas conversando já sobre alguma outra coisa relacionada a formação de personalidade. pra uma psicóloga, eu entendia muito de arquitetura, e pra um arquiteto, você até que entendia muito de psicologia.

a verdade é que lá no meio do highline já estávamos falando sobre suicídio, depressão, sensualidade francesa e sabe-se mais lá que assunto polêmico. eu me perguntava o que diabos estava acontecendo mas não tentava evitar nada e depois de umas 20 ruas eu desisti dessa fixação por entender aquilo e me abandonei ao presente. você se ofereceu pra tirar minha foto, com a minha câmera, e pensei: bem, ainda bem que estou de sapatilhas porque assim ainda dá pra correr atrás dele caso ele fuja com a minha máquina. voce se afastou com a camera na mao, devagar, e disse que aquela seria uma linda foto e que esse negocio de viajar sozinha as vezes podia ser inconveniente por causa da dificuldade em tirar fotos.

continuamos caminhando pelo highline, voce nao roubou minha camera - ufa! - e as coisas entre nos fluiam em um ritmo estranho, como o das nuvens da cidade voando baixinho, tão perto de nós, que entendi porque sentia que estava nas nuvens. voce me ofereceu um sorvete e eu aceitei, mas estava com frio, confesso. mas bem, sentamos em uns bancos-divã enquanto olhávamos pra jersey pensativos. alguns quarteirões atrás voce tinha feito planos pro nosso fim de semana, muitas aspas para nosso. voce me disse que gostaria de me levar a um picnic no central park na altura do guggenheim antes de entrarmos lá e explorarmos aquelas maravilhas da arte contemporânea. deixei você continuar com seus planos como um delírio em associação livre. voltei a mim tomando meu sorvete e me sujando, o vento soprando forte e voce me pergunta enquanto limpa o sorvete do meu rosto com a ponta dos seus dedos: what do you love the most about nyc? ao que eu respondo apontando as nuvens "i love the way everything is always moving in nyc" especialmente porque eu tinha ido a ny pra move on. voce balança a cabeça concordando, e faz mais alguns planos pro nosso fim de semana. e eu sorrio, encabulada, e odeio te interromper enquanto voce faz planos que soam como música para meus ouvidos, mas tenho que te interromper e dizer que estou indo pra san francisco em 36 horas. seu sorriso se desmancha, seus olhos ficam opacos e voce deixa sua colher cair de volta no pote de sorvete. well so we have 36 hours to make it all happen, voce diz. Mas eu sei que it's all happening. 

levantamos e me encolho com frio, o sol está se pondo em algum lugar, e estamos quase no fim do highline quando voce suavemente encosta sua mão no meio das minhas costas. nem alto demais pra parecer um toque de consolo e nem baixo demais que pareça um assédio assustador de um desconhecido na cidade. voce me olha nos olhos como se pedisse permissao pra me tocar. descemos as escadas rumo ao meatpacking district e entramos na ny antiga onde as ruas começam a se deslocar em angulos malucos e com seus nomes proprios. eu nao faço ideia de onde estou e buscando uma direção quase sou atropelada. quase. voce me puxa pelo braço de volta pra calçada e eu tomo um susto. voce me abraça e segura a minha mao pra me acalmar, mas isso me deixa mais nervosa com a constatação de que eu começo a me sentir atraída demais por voce. e eu nao tenho pra onde ir. e nem quero ir a lugar algum.

de repente, ah, de repente um lugar nao conhecido mas muito familiar. estamos no white horse tavern onde todos os grandes escritores americanos boemios já beberam e escreveram linhas de seus romances mais fantásticos. isso merece um brinde e nós entramos, sentamos no balcão e pedimos uma dose de jameson pra mim e uma de jack daniels pra voce. sem gelo. dividimos um hamburger. voce me desenha em um porta-copos de papelão. conversamos sobre tudo, sobre seus quadrinhos favoritos, sobre salvador e rio, sobre como eu pareço uma das personagens de um quadrinho que voce le, falamos de tarot e de como o destino não passa de uma serie de coincidencias romantizadas. il n'y a pas de hasard, il n'y a que de rendez-vous. voce me olha, minha mao na sua, seus dedos caminhando pela minha linha do coração, eu estremeço com os olhos baixos e a guarda também. voce toca meu rosto desenhando por cima do sinal da minha bochecha e levanta meu rosto pra poder olhar no fundo dos meus olhos como se me pedisse permissão. entao voce leva minha mao ate seu rosto e me faz encostar no sinal que fica logo abaixo do seu nariz, eu sorrio dizendo que nós temos sinais iguais mas em lugares diferentes. estamos tao perto que nossos perfumes se tornam um só e em um transe esquisito que silencia o mundo inteiro ao nosso redor e faz o tempo parar com uma freada brusca mas que ninguém percebeu porque a inécia dos nossos corpos mantém o movimento acontecendo nós encostamos nossos rostos, uma atração magnética que faz nossos rostos orbitarem ao redor um do outro sem que nossas bocas se encostem. e entao acontece, voce me beija, doce apesar do whisky. e de repente eu, que nunca sei o que fazer, simplesmente sei.

25

tive a sorte de viver muitos romances desde que deixei seu amor pra trás. aos 25, eu já colecionava dezenas de histórias catalogadas em meus pequenos diários de viagem. eu estava sempre em trânsito mesmo em casa. meu coração ainda doía pelo acúmulo de quilômetros rodados e tantas batidas. eu tratava a vida como se fosse a diretora de um filme e sua roteirista, como uma atriz de improviso, e fazia dela meu rascunho, meu eterno rascunho onde eu nunca podia voltar pra fazer retoques. a vida-que-eu-não-escolhi andava me assombrando como um fantasma assim como o peso vazio dos desejos que não eram meus. o que teria acontecido se eu tivesse pegado o primeiro vôo pra LA assim que tivesse pisado em NY? o que teria acontecido então com o angustiante mês de julho, com as duas batidas de carro que tive em dois meses, com as amizades que estreitei porque o abismo que se abria em mim estava prestes a me consumir? o que teria acontecido com aquela viagem em setembro onde eu encontrei uma amiga que só conhecia pela internet e me hospedei com outra que ainda não era assim tão íntima? o que teria acontecido com toda a decepção de voltar pra casa de mãos abanando? o que teria acontecido com o albanês que conheci em um bar e que ainda hoje me manda músicas que nunca ouvi mas que amo? o que teria acontecido comigo? mas não aconteceu. nada disso, nem isso. só a vida.

o que teria acontecido se você e eu não tivéssemos partido meu coração eu não sei, mas eu acho que ele precisava urgentemente de uma reforma. obrigada.

sexta-feira, 13 de março de 2015

o espaço branco me encara como se me interrogasse. poderia ter acontecido com qualquer pessoa que tenta se agarrar à vida com o que julga ser suas últimas forças. poderia ter acontecido com qualquer um que achasse que aquela era sua última chance e tivesse na conta bancária uns trocados e na cabeça pouco ou quase nenhum juízo. poderia ter acontecido com qualquer um, mas aconteceu comigo.
no meu aniversário de 19 anos eu não tinha perspectivas, e eu passei a semana trabalhando em algo tedioso e que pagava uns 10 reais a hora. eu nem sabia o que fazer com aquele dinheiro que, para mim, que sempre tive pouco, era demais. 
naquela sexta-feira eu acordei muito cedo e não consegui mais dormir. vi o sol nascendo pela varanda do apartamento que era virado para a nascente. eu me sentia como um zumbi e fazia dias, semanas ou meses, eu já nem sei contar os dias, que eu mal dormia e que dormia mal. um sono atormentado, que me cansava, que me deixava com bolsas cada vez maiores embaixo dos olhos. mas eu já nem ligava. assim eu completei 19 anos depois de uma noite insone, descolorindo meu cabelo antes do sol nascer, sozinha - embora eu morasse com minha familia. pintei meu cabelo de laranja porque não havia nada melhor a se fazer naquele dia. minha vida nunca mais foi a mesma. eu nunca mais seria capaz de ser a mesma.

poderia ter acontecido com qualquer um, mas eu deixei e fiz acontecer comigo.