sexta-feira, 7 de junho de 2013

(...) gostaria de voltar a desenhar. rabiscando entre as aulas, entre as linhas. suspiro. porque nao consigo mais desenhar? porque o vazio que sempre se abre em mim insiste em me sugar, em me consumir pra dentro de mim mesma? como se, não podendo caber em mim, eu fosse obrigada a escapar, a me esvair de mim. me consumo quando consumo um pedaço a mais de doce, um pedaço a mais de pizza, um pedaço a mais de obrigação. suspiro. e a vida cotidiana me massacra, vai passando por mim sem pedir licença, esbarrando nos meus desejos, derrubando minhas vontades, meus deveres. e aí me vejo prostrada na cama. a vida cotidiana vai me atropelando, passa como se apostasse corrida enquanto eu só quero mesmo é passar como bloco de rua, carnaval sem fim. e a vida cotidiana transborda, inunda o mundo como um oceano de pequenas obrigações, pequenas repetições inéditas. suspiro. e eu, peneira, vejo a felicidade passar como pequenos grãos de areia perdidos na correnteza louca, sem conseguir reter nada além da efêmera, fugaz sensação de ser atravessada por essas partículas tão pequenas da existência chamadas alegrias. e o resto fica em mim, com o peso das rochas que levam vidas pra se desfazer em poeira. suspiro. gostaria de voltar a desenhar, mas ao invés disso só consigo permanecer sentada assistindo o desenho dos rastros que a vida cotidiana deixa quando passa por mim. suspiro.sobreviver é fácil, difícil mesmo é quando a gente tem que viver a vida sem preposições, só verbos...  sus(piro)

terça-feira, 4 de junho de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

me põe na linha das tuas canções
nas cordas bambas das nossas guitarras
rápido, mas sem derrapar
nas curvas dos nossos sorrisos
na batida em que nos embalamos
nos perdemos sem perder o ritmo
me toca, me tira de ouvido
me canta, dança comigo
solo em mi sustenido
(tu me traz insônia com esse acorde impossivel)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

leve

me toma
me engole
como veneno
como remédio
me leva contigo, leve
me leve à loucura
só não me leve a sério

sábado, 25 de maio de 2013

quando eu pinto nao tenho de perguntar quem eu sou, porque eu sou, eu só sou, sou. sou aquilo que pinta, aquilo que fica entre a tinta e tela, ou o que fica entre o lapis e a folha. aquilo que fica - sem ficar, só indo - no ar. o movimento, a fluidez. como se numa poesia eu fosse aquilo que fica entre as palavras, entre as linhas. aquilo que não se pode escrever, aquilo que não se pode pintar nem desenhar. eu sou aquilo que escreve, aquilo que pinta, aquilo que desenha. e aí eu vou me descobrindo aos poucos - prazer em conhecer! - quando vejo o que já fiz. não é que eu me imprima nos papeis, mas eles são a mais pura impressão de mim.

sexta-feira, 22 de março de 2013


meu avô nunca foi um cara bacana, nem um cara rico. meu avô colocou algumas vigas em brasília, foi operário na construção da cidade. trabalhou de caminhoneiro muitos anos pelo brasil e nos arredores, indo até onde o chão pudesse alcançar. ele cruzou mais fronteiras do que se possa imaginar. (...) meu avô era um cara semi analfabeto que passou fome e sede no meio do ceará. pobre, preto. mas que ensinou ao meu pai o gosto pelas letras. hoje meu avô morreu. e dele eu herdei fortunas que nunca foram testamentadas: meu pai, a cor da minha pele, a capacidade de me reinventar e a vontade de ganhar o mundo.

que seu espirito esteja em paz.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

gosto de pássaros
de desertos
do cerrado
do sertão
das matas
de ver o mar
de olhar as nuvens
gosto de dias ensolarados
gosto de noites estreladas
e de dias de vento frio, mas ensolarados tambem
tenho um fascínio por torres
por construções humildes
por construções suntuosas
gosto de ruínas
e de tudo aquilo que brota em meio a aridez
desafiando a secura
me fazendo lembrar que algo lindo
talvez, um dia, quem sabe?
possa florescer tambem no meu coração cerrado
gosto de livros
de poesia
gosto da melancolia dos poetas incompreendidos
e também do delírio desses
gosto de flores
de folhas
de plantas
do pé, de folha e de prédios também
de paisagens da natureza
de rios
de lagoas
de praias
de mares
de ares
de bares
gosto de vida em forma de animal
bois, cavalos, jegues
insetos
animais domésticos
animais selvagens
flamingos, gaivotas, garças
pardais, vagalumes

ah, gosto de cactus!

gosto das luzes
gosto do fogo
e dos de artifício tambem
gosto de gatos
de expressões espontâneas
gosto de rostos humanos
do corpo frágil
do corpo forte
do corpo nu
de mãos, braços, narizes
olhos e sobrancelhas
gosto de cabelos
gosto de bocas
e tenho uma tara por papel
gosto de cores que se misturam
de auroras boreais e de arco iris
de crepusculos e nascer do sol
gosto de luas cheias
gosto de outono e de primavera
gosto do verão e do inverno
gosto de cores que nao sei definir ao certo quais sao
gosto de paisagens urbanas
de arquiteturas planejadas
e arquiteturas espontaneas
gosto de calçadas
de estradas
gosto de mapas
de tarot e dos astrais
gosto da rua
de árvores
gosto de detalhes banais
daquilo que não é
mas acaba sendo pelo meu olhar

gosto de fazer retratos das coisas
e de pintar paisagem de gente