quarta-feira, 2 de maio de 2012
encostei minha cabeça na janela aberta do carro em movimento, vendo a vida passar e sem saber se era eu quem ia em frente ou se era o mundo que ficava pra trás. fiz aquela velha dança com as mãos, sentindo o vento correr entre meus dedos longos e finos - "dedos de pianista", diria um antigo amor, "dedos que fazem sinfonias de risadas a partir de cócegas".
(...) conheci esse cara que queria transformar cotidiano em arte. pensei comigo mesma que essa tarefa já foi feita, que toda rotina é perfeita imitação que nunca se repete. conheci esse cara que disse que queria ser livre como eu, que vai cantarolando samba, que vai pintando a dor em aquarela que é pra ver se a dor dói menos, que queria ter mais coragem de ir e menos de voltar. ele disse que queria ter a minha coragem.
nunca gostei de desfazer malas, nunca gostei do retorno. a volta sempre me pareceu uma covardia, um abandono da estrada, da liberdade. sou amante dos ventos que acariciam meus cabelos, dos asfaltos que beijam meus pés, das paisagens que me deixam degluti-las, digeri-las todas. nunca gostei de ficar porque eu bem sei que todos os prazeres são efêmeros, e que todas as cicatrizes são eternas.
ele disse que queria ter a minha coragem e a minha certeza, sem saber que eu era a maior das covardes...
terça-feira, 1 de maio de 2012
ressaca moral
tomo coragem
tomo mais uma dose de whisky
tomo cuidado
só não tomo juízo:
e não existe engov pra ressaca moral
tomo decisão
só não tomo mais vinho...
terça-feira, 24 de abril de 2012
cheia de (não) me toques
quero um abraço
que desafie os físicos
que desafie os matemáticos
sendo dois e dois igual a um
com duas pessoas ocupando o mesmo espaço
quero um abraço
tão apertado quanto meu coração
tão demorado quanto um dia de trabalho
segunda-feira, 23 de abril de 2012
oração
vou escrever poema
vou fazer ciência
vou fazer parte
vou fazer drama
vou fazer arte
vou te enquadrar
te colocar nos meus versos
te fazer poesia
te fazer projeto
te fazer sujeito
te fazer objeto
vou te fazer presente
enquanto o resto do mundo vira pretérito...
vou fazer ciência
vou fazer parte
vou fazer drama
vou fazer arte
vou te enquadrar
te colocar nos meus versos
te fazer poesia
te fazer projeto
te fazer sujeito
te fazer objeto
vou te fazer presente
enquanto o resto do mundo vira pretérito...
domingo, 22 de abril de 2012
mar à vista
naveguei como barco à deriva na superfície dos teus abraços
no turbilhão dos teus beijos desesperados
sem sentir e nem sentido
perdidos
e o mar
me engole, me consome
põe em salmoura meu coração machucado
fazendo as feridas evidentes, fazendo das feridas cicatrizes
e eu me afundo
submerjo e (me) debato
tomo com sede minha dose de juízo
nem ir em frente nem voltar, meu bem: naufragar é preciso
no turbilhão dos teus beijos desesperados
sem sentir e nem sentido
perdidos
e o mar
me engole, me consome
põe em salmoura meu coração machucado
fazendo as feridas evidentes, fazendo das feridas cicatrizes
e eu me afundo
submerjo e (me) debato
tomo com sede minha dose de juízo
nem ir em frente nem voltar, meu bem: naufragar é preciso
domingo, 15 de abril de 2012
eu caí na água e me deixei afundar lentamente, ignorando que eu sabia nadar e que eu queria respirar. vez ou outra eu mesma me surpreendo, vez ou outra eu me pego sorrindo de canto e tomando outro gole. e finjo estar ciente de todas as consequencias, como se o real não fosse uma sucessão de imprevisibilidades e de surpresas. nem verdade e nem consequencia, só realidade. e eu me conformo e danço segundo a música que toca, mesmo que eu não goste das canções e das cantadas porque em uma eternidade de silêncios e solidão aprendida qualquer som parece uma sinfonia...
(...) e de tanto fingir que nao me importo, talvez um dia eu realmente nao me importe mais. quem sabe, titio, quem sabe...
(...) e de tanto fingir que nao me importo, talvez um dia eu realmente nao me importe mais. quem sabe, titio, quem sabe...
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