quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

nove vidas.

'In a daze
In the throws of emotion
You see God in the Devil´s eyes
Then you fall so far from grace
You wouldn´t know a kiss
If it was on your face
you can tell it to the jury
But you ain´t got no case' Ain't that a bitch, Aerosmith.

era tarde, o sol forte. ele a viu andando pelo corredor, como sempre distraída, admirando as sombras que se desenhavam pelo prédio. ele sempre teve certeza de que ela estava no curso errado, devia estar estudando arquitetura ou desenho industrial, junto com os outros desenhistas talentosos e cheios de glamour como ela. ela não tinha nascido pra psicologia, mas fazia aquilo parecer sua vocação desde que nasceu.
'a gente podia ter sido feliz' ele murmurou quando ela passou na sua frente.
ela parou. um grito não a teria parado, mas o soar da palavra feliz a fez sentir um arrepio na espinha.

ele prosseguiu. 'voce era o que eu estava esperando, sabia? era tudo preto e branco, e voce era colorida. a gente teria sido feliz.'

'voce não é feliz?' ela fez uma cara de preocupação engraçada, daquelas de mãe.

'sou.'

'entao corta essa. tá tudo legal.' ela voltou a sua posição, brincando com o casaco amarrado em sua cintura.

'entao deixa eu reformular: voce teria sido feliz.' ele ainda não tinha a olhado nos olhos.

'já disse pra cortar essa. voce teria pirado. e eu sei que não é meu cabelo, meu batom vermelho e nem meus quilinhos a mais. até a shakira acha que tem quilinhos a mais.'

'entao é o que?' ele queria saber, nem ele sabia.

'eu sou tipo o caminho dificil. voce ia ver muita coisa que voce nao gostaria até chegar no lugar bonito de destino, e voce nao aguentaria. não sou eu, é meu estilo de vida.' ela completou didaticamente, cheia de metaforas.

'uh, seu estilo de vida' ele parecia revoltado. 'voce não bebia uma gota de alcool, voce era só uma menininha arrogante com doces na bolsa, voce só tinha 17 anos.' ele concluiu cheio de uma lógica esquisita.

'ok, o alcool me tornou adulta. me poupe, voce não me conhece e eu enjoaria de voce tão rapido quanto da rotina de dois dias. agora corta essa, a gente tá bem.' ela terminou.

'a gente teria sido feliz.' ele repetiu, parecia que tinha arranhado o disco. ou não queria passar a música.

'a gente é feliz. só que separados.' e ela seguiu seu caminho saltitando pelo corredor vazio, feliz.

sobre alguém que é feliz porque pode saltitar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

os dias de verão.

já era a segunda vez na semana que seu contato com ele produzia algo bom, algo novo. e isso a acalmava de uma maneira inexplicável. a companhia dele, caladinho quando ela estava longe, cantando quando ela o tocava, gritando se ela o batia, acompanhando-a em suas cantorias bobas. às vezes ele desafinava, ela demorava pra perceber, mas quando percebia... dava uns apertinhos nele e ele logo estava na linha. ele era bom, com certeza. e estava com ela há... 4 anos? por aí.


naquela tarde eles ficaram deitados no chão do quarto dela por horas, inventando uma música nova, o corpo dele sobre o dela imóvel, os dedos da mão esquerda dela deslizando devagarinho pelo seu braço rígido fazendo aquele som que ela tanto gostava, os da mão direita fazendo cosquinhas no corpo dele - e ele rindo musicalmente em algo que lembrava a nota mi. eles estavam em harmonia, afinadamente apaixonados.


'me dá um blues, meu bem.' ela sussurrou na esperança de que nem ela mesmo ouvisse.


e ela fechou os olhos, ainda deitada sob ele, quietinha. ela não sabia o que fazer naquelas horas, nunca sabia. deixou a música levá-los pra um lugar qualquer onde toda angustia virava uma canção bonita. e no fim da tarde, exausta, ela sorriu ao perceber que havia escrito mais uma música.

ah, o bom e velho violão nunca a abandonava. nunca.


sobre uma menina e um violão numa tarde solitária em casa.

can(sei)

ela fez as malas, sentou-se ali no velho conhecido banquinho-em-frente-ao-seu-prédio e esperou ele.

'não deixa eu me arrepender.' ela pediu encarecidamente para ele enquanto o abraçava.

'eu não vou.' ele respondeu simples e sério.


sobre alguem que nao vai se arrepender.

vivendo perigosamente



constatei perigosamente que a cidade estava cinza. as férias escolares haviam acabado e tudo que restava era o silêncio, doce silêncio da cidade de brasília. ele dava um beijinho em sua namorada pela manhã e eu dormia deliciosamente pela segunda noite seguida inabalável. acho que eu estava feliz - ou pelo menos não mais maníaca.


constatei também que meu pai havia levado o Guia de Recolhimento da União para pagar, o que significava que eu estava prestes a arranjar um emprego de 8 horas diárias e o que significava que eu abandonaria a faculdade logo logo. e com isso constatei perigosamente que um grande sorriso se abriu no meu rosto.


constatei pela terceira vez no dia, que nada mais me comovia. meu pai tinha uma enorme cicatriz no peito, meu irmão acabara de ser operado e minha mãe me ligou para dar notícias. e eu nada, inabalável como um monumento de concreto no maior vendaval que a cidade já viu. constatei entao perigosamente que minha família tinha criado um monstrinho que não conhecia. e senti pena deles...


olhei pro céu pela terceira vez naquela manhã. e constatei perigosamente que estava sóbria.


drummond me entenderia. só não sei se apoiaria muito minhas idéias tortas.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

'it's gonna be gone soon'

'then what do we do?'

'enjoy it.'

'(...)
outro dia eu te vi com uns caras num bar, rindo como sempre, falando besteira. bebendo. pensei que não bebesse. e voce parecia exausta, mas estava rindo mesmo assim, como sempre inabalável. isso me irritava, nada te atingia... por alguns momentos eu pensei que voce gostava de mim, voce demonstrava sentimentos. mas eu nao entendi de inicio, depois eu percebi que voce era assim com todo mundo o tempo todo, de tanto amar todo mundo voce nao amava ninguem. a verdade é que eu acho que todos preferem uma pessoa fácil, simples de entender. acho que as pessoas gostam mais daqueles filmes da sessão da tarde do que dos complexos em matéria de amor. e voce parece mais um filme conceitual, desses que ninguem entende e que no fim nao quer dizer muita coisa.
(...)
hoje eu sou feliz, tenho uma pessoa que me ama de uma forma simples. uma garota inteligente, bonita, que gosta das mesmas coisas que eu. ela é tão transparente, tão facil de ler. eu a amo de verdade, como nunca amei ninguem.'

'e?' ela lançou um de seus olhares pretensiosos, loucos.

'e voce é incorrigível.' ele completou decepcionadamente nervoso.

'talvez porque eu tenho estado certa esse tempo todo.'

talvez.

curto mesmo

ela constatou que estava se afogando. e desejou o ar como nunca desejou mais nada ou ninguém. ela emergiu e respirou tanto que doeu, concluindo que a vida doía mas valia a pena.

ela respirou com vontade pela segunda vez seguida, talvez porque sua vida estivesse cheirando a girassóis aqueles dias.

sobre alguem que aprendeu o valor de se afogar e se mantem o maximo de tempo embaixo d'água só pra respirar melhor...

bom dia? dia e olhe lá

acordei naquela manhã de domingo, devo ter dormido mais de 12 horas e não havia nem vestígio de sonhos estranhos. me espreguicei ainda na cama:

aaaaaaaah (estalar de ossos, tensao ainda sobre os ombros) bom dia sol, bom dia nuvens, bom dia vento, bom dia... bagunça do meu quarto (ergh!), e ...

'acordou? que bom, pode ir limpar a casa. hoje é dia de ir pra missa' minha mãe gritou de algum lugar da casa, ecoando a palavra missa.

é, bom dia mediocridade.