domingo, 10 de abril de 2016

absorta no samba e no suor naquele boteco, dançando de chinelo e o meu vestido de trabalho, duas doses de cachaça. como sempre eu não queria ter saído, tinha dormido pouco na noite anterior, o vôo pro rio tinha sido cansativo e o dia, longo. dentro de mim, os dilemas se multiplicavam. mas eu entrei na roda, e já que eu tinha entrado eu iria sambar. 

existia algo de familiar na atmosfera. as mesas de madeira espalhadas, as instalações clandestinas, a luz quente, o balcão gasto. os ditos populares na parede, e as estatuas de vacas espalhadas. o cheiro de álcool. o samba. uma memoria distante da minha infância na baixada fluminense e as coisas que ninguém nunca viu de mim, mas que resistiam aos anos. minha herança, meu tesouro enterrado nas lembranças e do qual as pessoas ao meu redor hoje só conheciam um brilho distante, dourado. 

minha amiga anunciou a entrada dele e eu, sambando, o vi de relance às minhas costas. no balcão, com um monte de outros caras parecidos pedindo uma cerveja. aquele visual que eu conhecia e distinguia tão bem: bermuda, camisa social com as mangas dobradas, tenis e meias pretas. ah, o bom e velho gringo meets rio look. e eu não me impressionei, nada que você não veja na lapa 24*7. seus 1,90 e pouco, seu cabelo loiro caindo no rosto, desgrenhado, ou seus olhos azuis muito claros, cor de Fontana di Trevi. 

e então eu dancei, e dancei, e me convidaram pra dançar. mas eu estava satisfeita dançando comigo mesma, ainda que dançar com alguém também fosse bom. primeiro, um cara da minha altura que sabia dançar e me conduziu sem dificuldade. depois, um americano que falava portugues e dançava forró com a distância dos nossos paises de origem. agradeci a dança fazendo uma reverencia e me retirei pra sentar ao canto onde minha amiga falava com um professor alemão de literatura e psicanálise. quais eram as chances? 

do outro lado do salão, um cara que eu tinha achado bonito tirava uma menina pra dançar. e flutuando levemente me encantaram, e eu não conseguia desgrudar os olhos deles sorrindo e me perguntando se eu um dia poderia flutuar dessa maneira. no meu coração eu já flutuava. era bom voltar ao rio sem sentir o peso do meu ex-amor me levando para o fundo do mar. e eu sorri de novo pra mim mesma e, ao levantar meu olhar, me deparei com ele me olhando, com um sorriso sem mostrar os dentes. ele olhou pro cara do lado dele e entao pra mim, e o outro cara seguiu me olhando, cochichando algo. 

enquanto minha amiga me apresentava ao professor alemão, ele cruzou o salão, se postando com os amigos a uma curta distância de mim. e quando me virei pra procurar o caminho do banheiro, ele me estendeu a mão perguntando: quieres bailar? o que, francamente, me fez abrir numa gargalhada enquanto eu dizia si, seguro. e então ele elaborou um de onde eres e eu disse de aqui, y do you speak english?e ele riu, aliviado, com um sonoro yes, surpreso. e dançamos, meu rosto enfiado no seu peito suado, suando. rindo e conversando. olhei nos seus olhos e sorri com as coincidencias. 

fomos ao balcão e ele me perguntou o que eu queria, uma dose de cachaça, duas. brindamos e voltamos pro salão, o samba de volta. ele e eu rodopiamos, e de repente eu perdi o senso de orientação espacial. eu nao sabia mais pra que lado era a saida e continuava rodando nos seus braços. e eu muito absorta na minha felicidade de estar com os pés no chão, rodopiando, me contentava com seus braços ao meu redor. órbita. 

e pingando em mim, pouco a pouco, nao sei como, nos entrelaçamos em um beijo. eu na ponta dos pés, os olhos pro alto, e ele suavemente me derrubou com o mais leve toque no rosto. na ponta dos dedos. fechei os olhos, e continuamos dançando. até o calor nos expulsar do salão, até nossos suores virarem um só. 

na porta do boteco, sentados na calcada, conversamos sobre nossas teorias favoritas, nossas compreensões de sujeito. nos beijamos. pegamos um taxi pra humaitá, chegamos em copacabana. em silencio, nos enfiamos embaixo dos lençois nos beijando. sorrateiros. minha amiga dormindo na cama do lado. escapamos para o banheiro, contra a parede de marmore. voltamos pra cama, e o convidei pra dormir. dormimos, e sonhei com uma outra vida. acordei e o mundo era diferente. 

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