domingo, 13 de março de 2016

26

é como se eu voltasse daquela viagem pro paraguay depois de seis anos, aterrisando num avião de volta que nunca tomei. a mochila mais pesada e meu rosto mais magro. mais velho porém menos cansado. meu analista me disse que é preciso sair da ilha pra poder vê-la. que estranho ver a ilha afinal. eu jurava que estava em um continente - mas não são todas as terras nesse planeta grandes ou pequenas ilhas? já não sei...

o fato é que eu entrei naquele avião pra lisboa, eu cruzei aquela linha vermelha no chão do aeroporto que dizia "no turning back after this line" ou algo assim. e sem muita ideia do que fazer, com um roteiro esquisito que levei um mes escolhendo sem me satisfazer nunca, eu coloquei uma mochila e me mandei pra europa com o que me sobrou na poupança depois de um início de crise política e financeira e social e sabe-se-lá mais o que (só o tempo vai dizer, assim como ele também me disse sobre minhas crises e quedas pessoais). me pareceu muito razoável gastar meu dinheiro todo em uma viagem em que eu não sabia nada. na verdade nao pareceu, mas eu senti que sim e fui. não sem resistencia, claro.

em novembro eu acordei com vontade de comer macarrão em roma e perambular pelas suas ruas amarelas. em dezembro eu estava tendo devaneios sobre amsterdam, o museu do van gogh. em janeiro eu pensei que já que eu ia atravessar o atlântico, devia também ir a paris e finalmente visitar o museu d'orsay. e no meu coração e nos meus pensamentos o mundo era um lugar muito pequeno. imenso, impossível de engolir de uma vez só, mas pequeno. uma sensação esquisita que se apoderava do meu corpo todo, de todos os meus sentidos e sentimentos. ao mesmo tempo que eu sabia que estava tudo a alguns voos de distância, também sabia que ele era enorme e impossível de agarrar com as mãos. o mundo. outras coisas também.

o fato é que, já com a passagem comprada e o dinheiro trocado, eu pouco podia fazer pra voltar atrás. com meu coração desejando tão intensamente algo que eu não sabia nomear e que estava a um longo vôo de distância no velho continente já não dava pra voltar atrás. no trabalho, uma paciente tinha me dito que ninguém ali estava ficando mais jovem. e eu fui em busca de sei lá o que. do tempo que eu ainda nem tinha perdido, mas que eu nao queria perder. eu achei que sabia aonde estava, que sabia o que queria, que sabia um monte de coisas. mas eu já não sentia mais nada. apenas um sentimento vago e estranho que eu nem sabia julgar se era bom ou não.

e entao eu embarquei e a mudança de fusos me atordoou. dormi em brasília, acordei em lisboa. almocei sobre a bélgica e fui jantar em amsterdam. um chuvisco leve pela cidade, tão frio, e eu com aquela mochila nas costas sem saber pra que lado ir. eu me senti perdida e pequena, senti que eu falava uma lingua que ninguem entendia, e eu tambem nao entendia a lingua de ninguem. eu me senti confusa. e entao eu me senti no meu lugar. eu nao sabia nada. eu tinha tanto a aprender. e eu queria aprender tanto. e tambem queria tanto aprender...

enquanto eu me lamentava na praça tomando vinho barato e comendo aperitivos de supermercado tambem sentia o vento frio, e o banco molhado sob mim. tambem sentia que aquilo, aquele pouco, era todo meu e so meu. e isso era otimo. voltei andando perdida pelos canais sem encontrar uma viva alma, me sentindo ora fantasma ora tão velha que estava mesmo prestes a me tornar um fantasma. entrei no hostel e fui ao bar tomar uma dose antes de dormir. conheci umas pessoas da minha idade e um pouco mais velhas. bebemos umas cervejas, conversamos sobre os estados unidos e o canadá. todo mundo achava que eu tinha 30 anos, eu mal tinha começado o doutorado e ele já estava me envelhecendo cinco anos? "que horror", eu pensava, enquanto assistia os novos semi conhecidos fumar. o americano chef de cozinha que só trabalhava 4 meses por ano ao redor do mundo flertava comigo, a canadense sumiu com o staff da recepção e um carinha mais novo procurava a erva que tinha acabado de perder. dei boa noite pra todo mundo quando o bar fechou as 4 e fui dormir ignorando as propostas do americano com suas cantadas americanas que eu ja conhecia tao bem.

acordei com uma ressaca estranha misturada com jet lag. senti o peso dos 30 anos que me atribuiram. me arrastei pela cama, rolei, enrolei. nao tinha mais ninguem no dormitorio. tomei meu tempo e me arrumei pra alugar uma bicicleta. eu me perdia até pra ir na esquina. com a bicicleta tudo isso só se amplificou. quanto maior a distancia que eu percorria, mais eu me perdia. mas tambem chegava à conclusao que nao tinha como se perder se você nem sabe pra onde quer ir ou o que quer fazer exatamente. parei num trailer na rua e almocei uma sopa de ervilhas. parei numa padaria e comi uma torta de maçã. tirei umas fotos das coisas que achei bonita. parei nas calçadas pra tomar banho de sol apesar do inverno.

me perdi, já nao sabia aonde estava indo e tambem nao me importava. me vi paralisada em uma esquina sem saber se podia cruzar ou não a rua, de quem era a preferencia. desisti por uns 10 segundos de entender tudo aquilo e respirei fundo parada na bicicleta. desci e fiquei olhando pros lados. um cara de muletas tambem parado na calçada disse alguma coisa e eu tambem ja nao sabia se ele estava falando comigo ou ao telefone ou sozinho. ele disse algo me olhando em holandes e eu respondi com um 'excuse me?' confuso. ele entao repetiu em ingles: finalmente alguem que para nesse caos pra aproveitar o sol no inverno em amsterdam. e eu sorri sem graça dizendo qeu na verdade eu so nao sabia mesmo se podia atravessar a rua. ele entao apertou o fio do seu fone de ouvido e disse em ingles que precisava desligar porque tinha uma turista perdida na esquina. ele me explicou o transito de amsterdam, e eu continuei sem entender muito. o mais importante, ele me disse, era fazer contato visual com os motoristas e pedestres e outros ciclistas. e ir com confiança. alguns minutos de conversa e ele me convidou pra tomar um café ali na esquina mesmo.

eu ria pensando que isso devia ou ser muito comum ou extremamente surreal. é, eu estava tomando café com o cara que eu achei que tava falando comigo mas só estava mesmo ao telefone. o senso de humor holandes me deixava confusa mas me fazia rir com uns segundos de atraso, e eu nunca sabia se ele estava falando serio ou nao, e experimentei um pouco do que as pessoas dizem sentir comigo. ele me convidou pra jantar depois que disse que tinha ido a europa comer e beber. eu topei, e ele me disse que cozinharia pra mim. na sua casa. a noite. tomei um gole do cappuccino, concordei. disse a ele que meus rins eram bons mas meu figado estava um pouco desgastado da noite anterior caso ele tivesse a intenção de na verdade roubar meus órgãos. ele achou graça e me deu o endereço dele e dicas do que fazer enquanto ele ia pra fisioterapia e comprava os ingredientes do jantar.

nos despedimos na calçada com dois beijos no rosto e ele disse, enquanto eu hesitava no terceiro, que na holanda eram sempre dois e que as vezes isso podia causar beijos acidentais. mas que ele nunca se esquivava desses acidentes felizes. segui meu caminho sem entender o que tinha acabado de acontecer, mas muito consciente do tempo que nunca voltaria. o sol batendo nos olhos verde claro dele, o sorriso maluco, as risadas fora de tempo, a maneira como ele disse seu nome e me beijou duas vezes. fui buscar o moinho que ele me recomendou e, obviamente me perdi. de novo. incontavel vez. parei em um bar, tomei uma cerveja antes de seguir pra casa dele na minha bicicleta preta de aluguel.

caspar morava em cima de um coffeeshop muito tradicional em uma rua mais tradicional ainda de amsterdam. quando cheguei lá, muito atrasada e sem poder me comunicar, me dei conta que já nao estava mesmo mais em brasilia. meu celular era so um relogio e um navegador de mapas. olhando em volta vi uma banca de frutas e comprei umas bananas. o cara do coffee shop me chamou e eu, com estranheza, me aproximei. ele perguntou se eu estava ali pra visitar o caspar. balancei a cabeça afirmativamente, e ele me disse que caspar havia dito que uma garota de cabelos crespos castanho acobreado com uns pedaços azuis ia aparecer lá pelas sete. eu ri e confirmei que era eu mesma, apontando o cabelo. ele me mostrou a entrada e subi. caspar estava cozinhando e me recebeu como se fossemos velhos amigos que nao se viam ha tempos. me acomodei enquanto assistia ele terminar os preparativos, animado, falante, alegre. orgulhoso de sua comida tipica holandesa vegetariana. abriu um vinho pra gente enquanto comíamos sentados no chão da sua sala sem mesa. colocou uma musica ambiente e ligou umas luzes indiretas. depois do jantar, me ofereceu um chocolate artesanal de sobremesa e uma massagem.

enquanto caspar desfazia os nós de tensão de dois vôos, varias esperas, muita bicicleta e stresses demais trazidos de brasilia, contei pra ele dos meus dilemas e insights, das meus medos e dos meus sonhos, das minhas paixões e das minhas decepções. contei pra ele das minhas inseguranças e esperanças titubeantes. caspar falou sobre o papel da autoridade nas relaçoes cotidianas, sobre compromisso e confiança. enquanto me abraçava me disse que era dificil de entender, mas eu era muito espontanea. e era isso. de repente eu recuperei minha espontaneidade no apartamento tipicamente amsterdammer de um holandes com cara de maluco. ele falou ao pé do meu ouvido que eu so precisava confiar mais em mim mesma, nao nos outros. muito menos nele.

e assim nos entrelaçamos de uma maneira estranha, indecifrável, lenta e infinita pelo espaço que esse tempo durou. acordamos de manhã com uma amsterdam totalmente diferente. chuvosa, temperamental. fria. mas eu já confiava em mim mesma de novo. com ou sem caspar.

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