segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

three rivers

eu sei apontar no relógio o momento exato em que minha vida mudou. a hora em que minha torrada com geleia caiu de minha mão, em câmera lenta rumo ao chão, virando no ar... enfim, seu destino estava traçado e só me restava torcer pra que a geleia ficasse pra cima.

eu lembro como se fosse ontem, vi você se levantar do balcão, alto, lindo, ruivo. usando um boné do seu time favorito, todo em tons de cinza. seus olhos - eu nunca sei se - eram verdes ou azuis. a barba por fazer também ruiva. eu nunca tinha beijado um homem ruivo na vida. voce foi ao banheiro, e enquanto eu via você se afastar eu me sentia livre, vivendo a aventura da minha vida no interior dos estados unidos, quem diria? ali onde eu nao era ninguem e nem precisava ser eu me senti livre e te deixei partir diversas vezes sabendo que voce nunca tinha saido dali. dei um gole comprido na minha cerveja olhando o vazio. o cara do meu lado interrompeu meu delírio de liberdade: "ei, eu nunca vi ele assim com uma garota". eu ri. em um momento de distração aquele cara esbarrou em mim e poft. derrubei a torrada e agora só me restava assistir sua trajetória até o chão. nao adianta chorar pelo leite derramado e nem pelas torradas derrubadas. e nem pelos corações partidos. 

voce voltou, ainda lindo, ainda ruivo, ainda alto, ainda tudo aquilo que eu sonhei um dia pra mim. sentou ao meu lado no bar, se aproximou e me deu um beijo na boca. acariciei sua barba. todo mundo sabia que a gente era um casal. improvável mas casal. ninguém diria que aquele era o nosso segundo encontro e que nós nos conhecemos na semana anterior no rudy's, em nova iorque, enquanto eu afogava as mágoas em doses de whisky e você varava uma noite acordado esperando o jogo de baseball do dia seguinte. quem diria que daquela noite bêbada pelas ruas de manhattan sairia um segundo encontro em pittsburgh? você me beijou no bar e seu amigo e o resto do bar disseram que não ligavam pra public displays of affection. as coisas mudaram ali, seu rosto colado no meu, minhas mãos entre as suas, nossos sorrisos largos e nossos copos sempre cheios. quem diria que aquele era só nosso segundo encontro?

caímos pra outro bar, eu nos seus braços, agarrada em sua cintura, fotografando minúcias que eu não poderia lembrar e que não gostaria de esquecer. teu sorriso bêbado, teus cabelos ruivos, teus olhos que mudavam de cor, tua barba crescente, tuas sardas amarelo ferrugem, tuas sobrancelhas quase inexistentes. voce era o homem mais lindo que eu ja tinha visto de perto, tão de perto, e aquele sentimento me contagiava e se alastrava por todo meu corpo, um torpor misto com excitação, esperança misturada com incredulidade. voce me perguntou se eu poderia voltar a pittsburgh depois que já estivesse no brasil. eu ri outra vez, expliquei o processo de visto. voce nao tinha sequer um passaporte. nos agarramos um ao outro como se fôssemos afundar. nossas vidas só haviam se cruzado havia duas semanas. era tudo uma loucura mas afinal o que sou eu se não louca?

no outro bar comemos um pouco, recobramos um pouco a sobriedade mas já era tarde demais. eu já tinha saltado. na volta pra casa, a sua, subimos o mount washington no seu carro, voce segurando a minha mão enquanto dirigia com uma só mão ao volante. eu com o seu boné, torto e desajeitado, um sorriso de gratidão pelos instantes de plenitude e um amargor no peito por saber que em menos de oito horas eu partiria pra uma costa dos estados unidos e voce pra outra e era isso. voce reduziu, olhamos para a cidade lá embaixo, linda. it's no new york but i think you'll love it. voce estava certo. fitei a paisagem com olhos famintos, devorei-a com minha vontade de viver, minha fome de vida. seguimos até sua casa.

seu amigo já estava na sala vendo um filme no sofá quando nós chegamos. voce sentou numa poltrona e me convidou pra dividi-la com voce, o que fiz com um sorriso imenso. no seu colo eu senti pela primeira vez em tempos que ali era meu lugar. espalhei minhas sementes por todo lado esperando criar raizes. voce me abraçava e, sorrindo, nao conseguia dizer mais nada. sua gata se reuniu a nós formando o quadro de um momento sublime pra mim. home is where your heart is. te dei um beijo tímido e fiz um carinho nas suas sardas.

"you know, right now you've got everything most people look for their entire life" seu amigo disse apontando para nós dois em estado de êxtase. eu sorri e perguntei o que as pessoas buscavam. "you know, now you are in this amazing american house with a cute boyfriend, a cute pet and a new best friend, what else could you ask for?" eu disse que nao poderia pedir por mais nada e ele adicionou que "i am worried about you, i don't want you to be 75 and look back in regret and say oh i should have moved in with those pittsburgh guys". aquelas palavras me acertaram em cheio. eu não queria perder nada na vida. abracei voce mais forte.

no caminho pro quarto seu amigo me abraçou em despedida e ainda me tendo contra o peito sussurrou em meu ouvido "you don't have to prove anything to anyone, think about it, i know you're a wise woman" e me soltando, disse seu adeus como um até logo. aquelas palavras aumentaram o buraco que as anteriores tinham abrido em mim. comecei a me esvair ali mesmo do seu lado, enquanto abraçados a gente ia pro seu quarto. sentei na sua cama te olhando se despir, peça a peça. te abracei, sorri triste. voce acariciou meus cabelos. beijei seu peito. caímos na cama sem nunca cair na real.

o despertador foi cruel e não nos perdoou as horas. antes das seis já estávamos de partida. você me preparou um café americano, aguado e quente demais. e eu tive vergonha de dizer que não tomava café. bebi dois goles antes de nos beijarmos como se fôssemos nos ver no fim do dia. você desceu o mount washington dirigindo com uma mão só, só pra segurar a minha mão com a outra. a cada sinal fechado nossos olhares se entrelaçavam longamente, sem nenhuma palavra a ser dita. no fundo nós sabíamos que a única palavra que nos faltava e que ninguém teria coragem de dizer era goodbye. minhas 36 horas de pittsburgh chegavam ao fim.

você saiu do carro e me abraçou. nos beijamos de leve sem dizer uma palavra, nos entrelaçamos num beijo que dizia até logo e não adeus. deixei meu coração no encontro de três rios. ponto de confluência. ponto de conflito. ponto de renovação. coloquei a mochila nas costas, apertei os olhos pra tentar gravar na retina aquela imagem tua, lindo, alto, ruivo embaixo do viaduto, o som da água caindo nos espelhos d'água do lado. "see you soon" voce me disse.  e eu acreditei. 

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