sexta-feira, 2 de agosto de 2013

E nós (en)rolamos pelos lençois, agridoces, ela puro mel e eu suor. Ela palavras e - ahhhhhhs - eu suor, chovendo nela, inverno quase primavera. E aquele sorriso que derretia e que evaporava, condensando ao encontrar meu peito gelado, me encharcando por dentro e por fora. E eu suor. Say you'll remember me in the morning - eu disse a ela, pingando, me derramando, inundando a casa com o nosso perfume, eu e ela uma coisa só. E seus olhos grandes na noite como duas luminárias, a boca entreaberta, promessas de uma boa memória na qual eu não queria confiar. Quantos homens teriam visitado aquele templo, aquele lugar que pra mim era sagrado mas que eu tinha certeza que pra muitos era parque de diversões daqueles que se entra com bilhete único - one night stand? E quantos teriam ido não só de passagem, quantos teriam bilhete só de ida, quantos teriam ficado ali - quem sabe? - pra sempre? E eu ali me derramando, e me entornando nela de um prazer duplo, de ida e volta, de vai-e-vem, vem vem vem. E embora ela não se desse bem com muita gente - assim ela me dissera brevemente em sua introdução - ele se deu toda a mim no espaço de  meia noite, na largura de uma cama de solteiro, na altura dos seus modos reais, na profundidade de uma garrafa de whisky.
E ali eu tinha acabado com ela e comigo, acabado com eu e você enquanto matava tempo. E destruindo qualquer possibilidade de que pudéssemos seguir caminhos distintos separados - ainda que diferentes nossos caminhos agora estavam irremediavelmente ligados pelo nosso encontro, no ponto. Eu queria ser marca naqueles lábios, não cicatriz, mas marca sem dor não é marca permanente, e assim a nossa separação anunciada prenunciava a duração do vestígio que sua passagem não-programada e displicente por mim deixaria - permanente. E assim ao fim ela permaneceu estática na cama, como se estivesse realmente morta, e aos poucos enquanto retornava de sei-lá-onde que ela estava, fui para o banho. O que eu faria com aquele corpo que jazia na minha cama, o ventre em canela que eu maculara com leite, as coxas macias, os seios se espalhando por todo lugar, os cabelos desenhando coisas inimagináveis no meu colchão... o que eu faria agora que eu tinha acabado, que ela tinha acabado? E a água que agora escorria por mim, não mais suor, a água quente, e a neblina ao me redor que me confundia cada vez mais e meus pensamentos esfumaçando junto e... toc toc toc na porta do meu box?  E ao abrir a porta, a neblina foge levando meus pensamentos com ela, minhas duvidas, divagações, loucurinhas de estimação e "may I come in, sir?" ela me diz doce, nua, sem duvidas e sem certezas, a ingenuidade me batendo à porta da maneira mais improvável, em forma de mulher nua, minha mulher aquela noite, e eu inevitavelmente rio convidando-a para entrar. E ela se ensaboa calmamente, natural, íntima, virando bolha de sabão em todo lugar. E ela vem, sabão e sabonete, espuma em mim, leve, me levando no balanço dela, beijos destros e canhotos, molhados, pingando. Tudo vai se encadeando naturalmente, ela e eu numa coreografia perfeita, e nós (en)rolamos na toalha, deixando rastros molhados pelo apartamento denunciando a direção da cama onde ela se precipita como chuva de verão, sem anuncio, ainda nua, como veio ao mundo e como parou na minha cama. E se acomoda a um canto, mostrando respeito ao pedaço que me cabia daquilo tudo que eu mesmo criei, e me deitando ao lado dela vi que tinha os olhos de uma garota e a voracidade de uma mulher que sempre quer mais e eu assustado sem saber se eu era ou se era mais . ou se não era nada de mais. E o olhar sereno, embriagado mas não bêbado, os beijos pela minha face, de amor e não de amante, coisa assim sobrenatural, e ela se confessava, olhos fechados e mão na minha face, como se pedisse perdão pelo que ela nunca podia falar - não porque não quisesse, mas porque ainda não sabia. "o que tem aqui no seu cordão?" e olhando os pequenos pingentes do seu cordão de prata, percorrendo seu pequeno pescoço com olhos, indo até a sua boca procurando pela resposta. "i always carry with me this rosario my mom gave me though i'm not a catholic person at all, and these other two were gifts from friends" e ouvindo aquela última palavra eu estremecia e sabia que o que eu queria perguntar não era o que eu tinha perguntado, e vendo aquele anel como seu pingente eu me indagava se toda aquela gratuidade e doçura era perversão ou ingenuidade. E então ela começa a contar toda aquela história sobre os amigos que encontrou na viagem, a gondola e o mapa da Itália que ganhou do amigo italiano com quem aprendeu a falar italiano, e o anel do amigo que trabalhava na metalurgia, um inglês ou coisa assim, os dias que passou na campagne e como tudo era diferente do Brasil. E assim, ainda assim, ficava em mim a dúvida e a certeza de que eu queria que ela lembrasse de mim no Brasil. E ela desinibida e sem malícias, só desejo, coisa direta nas curvas do seu corpo pequeno e frio contra o meu, nada lembrava a outra brasileira com quem eu havia transado algum tempo antes. Estando com essa mulher era como se fosse sua primeira e última vez - primeira pela ingenuidade de seus olhos, doces e pesados, acusativos; última pela certeza com que guiava seu corpo em direção ao prazer, como se tivesse tanta experiência que sua boca já não pudesse falar, e o que a boca cala o corpo fala. Perguntei se ela queria dormir ali ou voltar pro seu studio onde a amiga certamente a esperava, e ela se acomodando em meu peito disse que ficaria, pedindo permissão depois inutilmente, já acampada no berço do meu braço. De repente ela me pergunta coisas, e confessa seus antecedentes 'i saw you there the first time i got in to the piano bar and i thought what a fantastic musician he is, i was so impressed by your talent, but i couldn't see a man, only a very talented musician, something that goes beyond ordinary humanity, then you looked at me and i wondered how odd it would be if you were to be into me but i just laughed at myself and walked away with the image of you in my mind... then i came back some other day and there you were, and you looked straight at me and gave me a wave that shaked me forever. then i wanted you to want me and i wanted you, know what i mean?' e toda aquela conversa surreal que eu já não sei dizer se foi ensaio dos meus sonhos ou as realidades malucas daquela mulher dos cabelos azuis e boca vermelha. "then you walked to me and said hello and i was really shy, actually I AM a shy person... i didn't know what to answer and i probably looked stupid, so when the show was over i left in shame. Then the other night when I walked in you waved again and I knew that if looked stupid the other night at least you didn't care about that. But then you didn't make any move later and I left and wondered if you really wanted me and to be honest I only was sure about that when you kissed me, and either way I, sometimes, won't be sure you wanted me. Because you know, we can never be sure for certainty is a serious risk for our fragile selves." e então ali estava aquela mulher, corpo, alma e outras coisas mais espalhada pela minha cama, desmontada, como um quebra-cabeça que está montado seja lá qual for a disposição das peças, linda e louca - não necessariamente nessa ordem, e eu assim me sinto convidado - porque nao intimado? - a também me confessar "i saw you that friday and i knew i wanted you, you looked so fine, and every night after that i was waiting for you to walk into the piano bar, which you did every night after. I tried to get your attention in every way but you were just SO cool to pay this kind of attention in a show. And knowing I had let you go saturday I waited impatiently for you at the piano and when you came I felt something burning in my face and I guess it was my mouth melting into a smile. As I didn't want any doubts or insecurities to distract me from getting to know you better I had a few sips of whisky, and when I saw you were also having whisky glasses no doubts came to my mind anymore." E ela sorriu gentilmente, recebendo minha confissão sem julgar nem me dar penitências, só liberdades de falar, e ela me abraçou suave e longamente beijando minha testa e meus olhos, sem dizer uma palavra. "I had to finish the show earlier because I thought you were leaving and I knew you would be flying back home the day after. But you stayed." "i stayed" ela disse me abraçando ainda, e quando se desfez do abraço eu podia ver aquele riso gentil repousando no seu rosto macio, delicado como a cabeça de uma boneca de porcelana montada sobre o corpo de pano. "You are so cute... I can't believe how cute you are. You are so cute" eu repetia incrédulo, acariciando o rosto dela e cobrindo-a com o cobertor enquanto ela agradecia, tímida, e retribuia em elogios murmurados em ingles e portugues. E assim ela adormeceu, ainda falando, se encolhendo na cama ora com calor ora com frio.
Na manhã ela ainda era a mesma, doce, pequena, louca. E deixei-a na cama enquanto ia tomar meu banho, e ela levantando devagar, bocejando em câmera lenta e etc. Esperei que dessa vez ela não pedisse permissão mas que entrasse sem cerimônia no chuveiro mas ela não apareceu. Ainda assim eu cantei sob a chuva de água quente "I don't take coffee I take tea my dear"  e sabia que pra ela o que era importante mesmo era "be yourself no matter who you are"  e que no fim isso era mesmo cançao pra ela dançar. Assim saí do banho vestido pra trabalhar, e ela terminando de se vestir pra sair de uma maneira tão inesperada, silenciosa e tranquila. Meu beijo a surpreendeu, e ela sorriu ainda com a minha boca na dela, desgrenhando meus cabelos com carinhos - penteados de amantes. Notei que ela parecia mais jovem à luz do dia, sem o batom vermelho, sob a claridade de um dia de inverno comum e não sob a luz vermelha de um boteco parisiense. You are SO cute, did you know that? e ela ria tímida dizendo que não e mudando de assunto rapidamente, ainda mais cute e era isso, a manhã havia chegado e o sol que não se mostrava, covarde atrás das nuvens, anunciava nossa separação. Saímos do meu apartamento, ela carregando uma bolsa de livros que eu não havia notado na noite anterior, meu aniversário de 31, eu cruzando a praça com aquela mulata nos meus braços, como se a desposasse, e ninguém ousava questionar a legitimidade de nossa união mais que provável - esperada, anunciada - e nossa pátria. As ruas não tinham nada a dizer, como se fossemos também parte do cotidiano parisiense, nós, estrelas escritas nos mapas da cidade de Paris, quartier latin. E caminhando até a estação de metrô onde eu seguiria pra minha rotina de dias e noites na corriqueira Paris e ela pro Charles de Gaulle de volta ao Brasil notei que nós éramos cotidiano mas nem por isso permanentes marcas nas ruas da cidade. Sabendo que o destino final chegava perguntei se ela reconhecia aquela rua, ao que ela afirmou com surpresa que sim, apontando para a estação Cardinal Lemoine. Ela fez as honras, e eu a beijei como se fossemos nos ver ao fim do expediente - que ninguém sabia quanto duraria e se um dia chegaria a acabar. Assim ela seguiu descendo a Rue du Monge, e eu sumi na multidão francesa e apressada demais pra desviar uns dos outros rumo ao cotidiano, sem esquecer que beijos de adeus eram cotidianos em Paris, mas nem por isso permanentes...

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