segunda-feira, 15 de julho de 2013

senti medo pela primeira vez em tempos, como naquele dia em buenos aires. eu não era ninguém e naquele instante eu me dava conta disso. sem direção eu seguia desnorteada, perdida em um lugar em que eu não era ninguém ou nada. só um número em um passaporte estrangeiro, uma mulher latina jovem e de cabelos azul royal que ninguém tinha notado naquela estação de trem onde eu tinha desembarcado.
saí pela porta da frente, seguindo reto, sem um mapa em mãos. o queixo sempre erguido, os olhos semi cerrados. primeiro desci à esquerda passando pelos motoristas de taxi mal encarados que faziam ofertas em francês, e as quais eu recusava com um 'non merci' baixinho pra que ninguém notasse meu sotaque. e fui seguindo, as ruas cada vez mais desertas, a cidade cada vez mais cinza e silenciosa. o horário de almoço era cruel, mais frio que o normal, eu não tinha comida e não sabia pedir comida em francês. ao chegar em um beco vazio resolvi dar uma meia volta buscando pela torre da estação de trem com os olhos, era o meu norte naquele momento. e voltei caminhando tranquilamente como se fosse dali, chegando a uma rua que dava em uma pequena praça comercial de onde se podia ver a estação de frente. ufa. parei por um instante com as mãos nos bolsos do sobretudo fingindo olhar a vitrine quando na verdade só estava absorta em meus pensamentos leves, sonolentos. eram fotos de casamento expostas, uma loja de fotografia. e quando tomava um fôlego, respirando fundo, um homem me abordou em francês. olhei em volta, não havia ninguém na rua além de nós dois. me perguntei se era comigo e ele repetiu o que disse anteriormente. balancei a cabeça negativamente e juntei um 'je ne parlais pas français' dando de ombros e me virando de volta pra vitrine.
ele não era feio. mas naquele momento pensei que poderia ser um batedor de carteira, um estuprador, um sequestrador. um traficante de órgãos. ou de pessoas? ele tentou então em espanhol. hablas? e eu arranhei algumas palavras fingindo não falar espanhol, e ele tentou então o inglês. eu sorri amarelo, examinei as mãos dele e ele carregava um copo de café daqueles de máquina. segurei forte as alças da minha mochila e pensei em correr, mas vi a subida até a estação de aproximadamente um quilometro. ele era maior, mais magro, mais forte e não carregava uma mochila com 7 kg de roupas e outras coisas. descartei essa possibilidade rapidamente. seria o meu fim? ele obviamente estava me cantando, e eu fingia não entender. ele disse ser egípcio e perguntou o que eu fazia em limoges em fevereiro sozinha. respirei fundo, não dava pra correr mas dava pra andar em círculos, e isso eu fazia muito bem. eu então disse que eu não podia conversar muito porque tinha de voltar a estação de trem pra esperar meu namorado que estava chegando pra me buscar. ele se propos a me acompanhar já me acompanhando. a subida parecia mais íngrime do que era, e eu escapava das investidas verbais dele. ele insistia. ao ver a porta da estação cada vez mais perto eu sentia alívio, e já não prestava mais atenção no que ele dizia. e pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança?
eu voltava a mim, no sentido mais literal: voltava ao meu estado em mim mesmado de sempre, isolada do mundo exterior, vivendo de devaneio em devaneio. sentei numa mesa, ele sentou do meu lado. ele me perguntou se podia me ver em paris já que ele também estaria lá em alguns dias. eu disse que não, que meu namorado não gostaria. ele concordou e se despediu em inglês. eu acenei com a cabeça, com um sorriso francês. eu o vi se afastar e senti a paz retornando a mim com as doses de alívio. suspiro. eu não tinha pra quem pedir socorro ali, e notei que ainda que estivesse em outro contexto, outro tempo ,outra situação, eu nunca tinha a quem pedir socorro. ninguém estava ouvindo. suspiro. só os meus próprios devaneios, e as minhas mentiras... como o namorado que acabara de inventar. uma mentira que me salvou a vida.
pensava na vida toda que desabrochara em mim nos últimos 6 meses. é isso? a vida acaba aqui - numa estação de trem no interior da frança? a vida começara ali, numa estação de trem no interior da frança...

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