domingo, 23 de junho de 2013

minha poesia se cala a tua ausencia presente, na tua presença ausente, como quem não pode calar o que fala mas sabe que sufoca sempre o que quer dizer. eu vejo teus olhos escuros, vazios, vácuo. como dois buracos negros que me fazem virar pó sempre que os olho diretamente. primeiro viro pedra, como se tu fosse medusa, e então eu viro pó, despedaçando em partículas tão pequenas que se perdem pelo ar. e os seus olhos, sempre os olhos. os olhos vazios como a ausência que você faz questao de fazer presente entre nós dois. o silêncio ecoa enquanto por uma fraçao de segundos ou por uma eternidade eu me pego imaginariamente circulando os teus olhos como quem anda ao redor de um poço muito fundo sem saber se tem água lá no fundo ou se é só um buraco mesmo onde a gente se enfia e tem muito problema pra conseguir retornar à superfície. me pergunto se já habitou algum dia neles alguma vida... sei que voce quis olhar fundo nos meus olhos, mas só porque no brilho deles você conseguia se ver, como narciso quando encontra o espelho pela primeira vez sei que voce encontrou essa imagem fantástica de você no brilho dos meus olhos castanhos quase negros que ja viram coisas que minha boca nao pode testemunhar. nao produzo provas contra mim.
***
enquanto voce vinha em minha direção eu fingi que não o vi e desviei o olhar pra baixo como eu costumava fazer sempre que eu me sentia constrangida. sei que voce fez o mesmo. enquanto eu arrumava minhas coisas na pasta vi que voce fazia hora, e isso acalentou meu coração. o pensamento que isso disparou na minha cabeça era de que voce ainda me queria a despeito de tudo e de todos. fiz questao de desfazer esse auto-engano sustentado por provas muito questionaveis. voce disse tchau pra todos que ficaram, e eu nao conseguia dirigir meu olhar a voce, extremamente envergonhada dos meus desejos, e provavelmente mais ainda dos seus por mim. e de desejar que voce me desejasse de tal maneira.
***
naquele dia voce me disse que se lembrava de mim comprando um violão, com um vestido longo e estampado, com os cabelos azuis. eu ri desconcertada porque apesar de a loja ser pequena não lembro de ter te visto lá. eu era péssima pra lembrar de rostos, e eu me sentia mal por não lembrar do seu, que eu julguei tão bonito enquanto você me contava isso. naquele momento não notei que você provavelmente era um par ou dois de anos mais novo que eu e que você ainda tinha espinhas nascendo aqui e ali, e que a barba mal crescia. apenas sorri desconcertada, nervosa. e desatei a falar, coisa que eu faço quando fico ansiosa demais. voce se despediu de longe, eu apenas acenei sorrindo sem mostrar os dentes.
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quando entrei na sala voce estava diferente, como se pela primeira vez seus olhos brilhassem tanto que pegavam fogo. um fogo que eu nunca tinha visto nos seus olhos sem vida, mortos, estáticos. seus olhos continuaram pegando fogo durante toda a aula, e eu tive medo que aquilo me consumisse. no fim da aula voce perguntou se eu queria um sorvete. como se soubesse que eu sou facilmente corrompível por doces. aceitei constrangida e enquanto dava as primeiras colheradas no sorvete corri até voce sorrindo e dizendo obrigada. naquela tarde, enquanto eu lia sentada em um sofá no patio senti que seus olhos estavam colados em mim tentnado decifrar o que eu pensava enquanto lia aquele volume tao bonito de luto e melancolia qeu eu tinha comprado na semana anterior. o que eu poderia estar pensando enquanto lia luto e melancolia do freud com um meio sorriso no rosto?
***
enquanto eu caminhava pelo salão vi voce ali parado, como se esperasse algo acontecer, algo extraordinario. eu me senti ambivalente: queria que voce me visse mas queria me esconder de voce. escapei em todas as vezes. mais tarde, inevitavelmente, enqaunto eu dançava com meus amigos o seu amigo se aproximou de mim, e eu o fiz rir. ele naturalmente tocou meu ombro dizendo que eu era uma pessoa muito engraçada. voce tambem riu, mas discreto, e disse depois mais baixo, se curvando pra se aproximar do meu ouvido que voce tambem me achava muito engraçada. todos interagiam, e eu tentava me engajar naquilo mas sempre me vendo de longe, contando os passos, pensando que queria ficar do teu lado mas que não podia ficar perto demais. na primeira oportunidade me aproximei de voce mas mantive uma distancia de segurança. que voce nao respeitou, me tocando sempre que podia pra esclarecer algo que eu nao havia ouvido bem entre as batidas altas de musica. ali estavamos nos dois, parados no meio da pista de dança conversando como se estivessemos em um café ou em um corredor da universidade. durante mais de duas horas. volta e meia alguem questionava porque nao estavamos dançando, apenas franziamos os ombros como quem responde 'não sei mas nao me importo'. eu estava ali, sem me vigiar, sem contar os passos. eu e eu éramos uma de novo. e pouco antes de eu ir embora, me calei. quando aquele ex caso passou por mim e me cumprimentou como um velho conhecido, me abraçando e me beijando calorosamente na bochecha-quase-na-boca voce se silenciou. ele foi embora e o silencio ficou pairando no ar. olhei as horas no meu celular, liguei pra minha carona que disse que estava indo. mais silencio. voce entao se curvou em minha direção levemente e com um ar de menino travesso que vai aprontar alguma me confessa eu sei que nao deveria fazer isso, mas não consigo mais evitar, eu tô doido de vontade de ficar com voce. e enquanto eu reunia a força que me restava do embate que eu passava por dentro de ambivalencia voce me tomou sem moderação em um beijo que pra mim durou a  vida toda. um beijo que eu sinto até agora nos meus lábios. a sua mão nas minhas costas aproximando meu corpo do teu. me desvencilhei vagarosamente do teu abraço e disse que não podia, que eu era... e então voce me beijou outra vez, me calando. me fazendo engolir minhas palavras com a nossa saliva. seus labios eram macios e suas maos eram firmes. eu senti meus joelhos vacilarem. olhei voce e pedi pra que ao menos saíssemos da pista de dança. quis segurar tua mão mas nao podia. parei na sua frente assim que voce escolheu um ponto na varanda perto do lago. estática. voce logo continuou de onde paramos. eu nao sabia se era a fome, o remedio ou a falta de agua mas eu me senti flutuar por alguns instantes, voce se contendo, tenso, como se fizesse algum esforço pra não cruzar as linhas. meu telefone tocou anunciando minha saída, voce me acompanhou ate a porta e se despediu de mim com um abraço demorado dizendo no meu ouvido que tinha sido divertido. ha sido divertido me equivocaria otra vez, quisiera haver querido lo que no he sabido querer. eu disse o mesmo e fui embora sem olhar pra trás. naquela noite passei todo meu sono sonhando contigo. acordei sem saber o que tinha acabado de acontecer.
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voce logo parou de onde continuamos...

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