quarta-feira, 12 de junho de 2013

eu estava ali, contemplando o olho do furacão, de longe. prestes a me jogar no meio da tempestade.
porque era tão dificil dizer que eu não estava bem? talvez porque nem eu quisesse me dar conta de que eu estava em pedaços, que eu ainda estava desmanchando na chuva como se fosse feita de açúcar. minha única vontade era voltar a deitar na cama e esperar o sono me abater, o amor me bater e a vida ter. eu tinha ido a nocaute outra vez, depois dos seguidos combates que travei comigo mesma. e eu não tinha mais dinheiro ou coragem suficientes pra viajar, pra fugir. eu estava encurralada. encurralada pelos meus não-desejos.
na verdade não sei precisar quando isso começou e nem porque, não sei precisar o que causou esse mal-estar com o qual constantemente me deparo ao viver uma vida ordinária. talvez tenha sido gradual, ou talvez eu tenha acordado um dia me sentindo péssima e tenha ignorado o fato. minha memória tao boa me trai nesse momento. talvez eu tivesse 16 anos ou 18. talvez eu tivesse os dois. com 18 anos eu vagava como o fantasma de alguém que não percebeu que morreu pelos corredores da universidade, trocando o dia pela noite, tendo sonhos vívidos demais - ou vivendo uma realidade surreal demais. eu tomava meus primeiros porres, frequentava aquela sinuca no subsolo de uma rua escura até de dia na 13, sentia um horror à vida quando o relógio marcava as seis da tarde. nas tardes em que eu não conseguia sair do campus eu caminhava até a biblioteca, e entre as estantes cheias de romances de literatura estrangeira eu sentava, folheando os livros mais velhos que eu, me inebriando com aquele pó que resistia à vida na universidade como ninguém nunca resistiu. e então eu escolhia uma sombra qualquer no gramado pra me deitar, e lia, e mudava de lugar de acordo com a sombra, e lia, e cochilava. ninguém percebia minha presença ali, e eu me questionava se por acaso eu realmente já não teria morrido e tinha me tornado invisível. uma as-sombra-ção que só podia ser vista sob a luz do sol. e eu insistia em me refugiar nas sombras.
perdi a conta dos romances que comecei a ler naqueles gramados. entre goethe e marques de sade, simone de beauvoir, leituras obrigatórias pra uma das 5 matérias que eu fazia na época. ninguem pode dizer que eu nao lutei, que eu nao levei as coisas até suas últimas consequencias. que eu não tentei me encaixar no resto do mundo pra ver se minha existencia passava despercebida por mim, engrenagem dessa engenhoca moderna todo que insistimos em chamar de vida. comecei a tomar café pra nao ceder ao cansaço da insônia, a comer chocolate amargo. eram os unicos sabores que nao me lembravam que um dia eu já soube provar o doce.
eu ia cada dia mais preenchendo os vazios da minha grade horária com matérias obrigatórias, horas de laboratório, horas na empresa. menos horas pra mim e pra minha miséria, sem perceber que era ela que preenchia praticamente todos os horários. nesse tempo meus melhores amigos eram um menino deprimido e um brilhante escritor pra sua idade de 16 anos, um cara melancolico da psicologia de 22 anos que ja tinha desistido de outros dois cursos e um cara engraçado da psicologia de 23 anos que estava quase formando. e nenhum deles sabia o que queria (da vida), assim como eu. a vida era um porre de whisky sem gelo, de jack daniels, que tinha um gosto amargo e que descia quente pela garganta, lembrando que tudo que temos por dentro é vivo, é ferida aberta.
e quando eu me embriagava aquele cara de 22 anos me oferecia o ombro pra recostar minha cabeça pesada e tonta, e dizia que as coisas estavam bem. e aquele cara de 23 anos me levava pra casa enquanto me fazia comer meia dúzia de balas de menta pra que ninguém notasse que eu era puro álcool. e eles cuidavam de mim, e me faziam rir pra que tudo aquilo não se tornasse tragédia. e eles viam um brilho meu que eu não conseguia enxergar e alimentavam esse fogo, com medo de que isso se extinguisse, com medo de que eu me apagasse e virasse cinza, como praticamente todo o resto que nos rodeava. eu só tinha 18 anos, eles diziam, e uma vida toda pela frente. e isso me assustava.
esse brilho que eu nunca consegui ver, esse fogo com o qual eu queimava todo o ar ao meu redor, pra mim eram queimaduras, era a intoxicação da fumaça. de dentro da chama a gente só vê o escuro que nos cerca. só vê as sombras daquilo que iluminamos. qual a vantagem de ser brilhante se tudo que vai estar ao seu redor é a sombra ou então a cegueira de olhar direto pra luz? e cada dia eu lia menos, cada dia eu desenhava menos e cada dia eu me tornava mais silencio de mim. cada dia eu fazia menos daquilo que nós só podemos fazer quando estamos vivos e fazia mais e mais aquilo que os mortos fazem: nada.
e então eu tinha 19 anos, e aquela vida toda que eu via pela frente me parecia ameaçadora vindo em minha direção rápido demais, como se fosse me atropelar.

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