sexta-feira, 17 de maio de 2013

vinte3

depois dos 21 a minha vida ganhou pronome, ganhou adjetivo. a minha vida que já não me escorre pelas mãos, mas que passa por mim como rio, que me invade com a correnteza e com os ventos que movimentam o sul, passa e não me passa pra trás. é a minha vida. não a vida, aquela que me infligiam como penalidade, como tarefa cotidiana e maçante, dura contra a minha face, mais dura ainda contra o meu peito. sei que vivo em um universo particular em que os dias começam às 10 da noite, onde se janta às 3 da manhã, onde o sol nasce ao meio dia - que é seis da manhã. "Falta-me coragem pra ver o outro que vive fora de mim". sei que vivo em um universo paralelo onde a minha vida só é minha porque não tem de esbarrar com outras nos cruzamentos das nossas existências bestas. é besta, mas é besteira minha, e quantas besteiras não são mais legítimas que tantas coisas serias do mundo? Meu pai sempre me dizia que não se podia levar a vida tão a sério, e hoje eu entendo que não se pode não porque não há seriedade na vida, mas porque a vida não se leva como prêmio ou como castigo, é porque a vida se vive contraditoriamente entre repetições inéditas e inesperados previsíveis. a vida não se leva, a vida não é levada, a gente não leva a vida. a vida acontece. e nos leva sei lá pra onde, só sei que às vezes, quando paro pra respirar, relaxo no banco do carona e sorrio olhando a paisagem, sentindo os carinhos que os ventos me fazem no rosto. enquanto isso eu assisto a vida passar, fazer e acontecer. enquanto isso eu já não me pergunto porque eu não me faço parte, porque eu só me faço arte e ponto, ponto, ponto. reticente. sei que não tenho mãos, nem perfil, nem cara nem coragem pra me fazer gente, self made man. a vida me fez assim, eu diria. a vida aconteceu em mim, aconteceu pra mim. a vida me disse "me leva que eu te levo à loucura". e eu aconteci assim, gozada, sem vergonha de repetir o que predisse pra mim aos 14 anos: que a inércia me carregue. sem a culpa da impotência anunciada que é condição essencial da nossa existência. que a inércia me carregue: às vezes a preguiça é a única garantia da manutenção de nossos movimentos pela vida. condição de nossas matérias. que a inércia me carregue, eu diria, sem medo do crime e da benção da preguiça: é que a inércia às vezes é muito mais movimentada que qualquer rotina cheia de impulsos...

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