domingo, 13 de novembro de 2011

lacan explica

dois anos se passaram na L2, três ou mais, desde aquele dia em que você segurava minha mala em uma mão e na outra tinha minha cintura. um dia de finados, um domingo, um dia qualquer. (...)

ela repetiu pra si mesma 'aja naturalmente, aja naturalmente', como um mantra que conforme ecoava em seus pensamentos, parecia ter menos e menos sentido. 'seja você mesma' - e ela estranhou os próprios dizeres, se perguntando se ela sabia quem era. o coração ia na boca, e ela se sentia estúpida por isso, e entre uma inspiração e outra, pensou que isso era ser humano. não que isso a tenha acalmado, mas era melhor que explicação nenhuma. ela ajeitou as meias 3/4, na maior malandragem, pronta pra sair da sua bolha à prova de desejos.

***

dessa vez ela não se deixou à beira do abismo, não se recuou ao canto da gaiola como bicho ferido. só sorriu e tentou se permitir sair pouco a pouco daquela redoma invisível que a fazia intocável, entre uma palavra e outra, um gesto e outro, um sorriso e outro, uma mão e outra. 'o que você quer que eu faça?', e então ela sabia que já tinha colocado o corpo fora. e não que isso fosse ruim. os pensamentos iam se sucedendo, numa tentativa de tragá-la de volta pra redoma, a fortaleza de sorrisos e ironias que ela construiu por anos, e ela ia lutando unha a unha, sem desistir. 'o que você quer que eu faça?'

***

ela fechou os olhos, deixando os dedos enxergarem por ela. e falarem tudo aquilo que ela sabia que não podia ser dito em palavras. ainda assim dizendo, os desejos todos nas pontas dos dedos. ela sorriu timidamente, o cabelo cobrindo um pedaço do rosto. pequena.

***

ela nunca sabia o que fazer nessas horas. foi andando, olhando pra cima, sabendo que agora pisava em terra firme, mesmo que toda a névoa lhe fizesse sentir como se caminhasse em um outro plano. sentiu o cheiro doce lhe inundar as narinas, queimando seu corpo por dentro, desafiando as fronteiras entre toda a fragilidade de se estar fora da redoma e a segurança de se estar um nível imaginário acima. ela se riu, caindo sentada na cadeira do ônibus. as nuvens iam desenhando coisas que ela ja nao podia identificar no céu, ela respirou fundo, sentindo o aroma doce lhe incendiar por dentro. it feels like myself again.

ela, sujeita à tudo de novo, à flor do abismo e à beira da pele. ding ding ding.

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